sábado, 25 de fevereiro de 2012

Certezas e dúvidas

Certezas

Quem vive de memórias não coleciona novas lembranças.


Algumas pessoas valem a pena, outras nem a penugem.


Dinheiro não traz felicidade, nem o contrário.


Carta marcada é coisa do Detran


Muita gente confunde sinceridade com falta de tato

Outras confundem falta de serviço com dedicação...


Dúvidas


Por que as pessoas admiram as borboletas mas continuam matando taturanas.


Num corporação de canibais, o RH cuida da ingestão de pessoas?

sábado, 11 de fevereiro de 2012

O varal da vizinha

Joel morava num apartamento simples. Quarto, sala, cozinha e banheiro e uma apertada área de serviço que desembocava num armário que o corretor chamou de despensa.

A área, um corredor entre a cozinha e o tal do armário, não tinha janelas (a roupa seca mais rápido, dizia o corretor, sem pensar nos dias de chuva) o que permitia uma visão panorâmica do varal da vizinha.


Vizinha que Joel nunca vira mais gorda, nem mais magra. Só sabia que era uma mulher pelo que via pendurado no varal.


Aliás, sabia da vida da moradora pelo que olhava pela janela. Ela devia fazer a mesma coisa comigo, ele imaginava.


Começou a analisar os hábitos. Ela nunca usava calça comprida (deve ser crente), gostava de roupas estampadas ou coloridas. Era ousada na lingerie. Certamente não praticava esportes pois nenhuma tipo de vestimenta esportiva aparecera no varal.


Um dia, ao chegar em casa, descobriu que a vizinha tinha um namorado. O homem subira com ele no elevador e entrara no apartamento da dona do varal.


Só poderia ser namorado,uma vez que nunca viu roupa masculina no varal.

Quando o encontrou novamente prestou mais atenção e percebeu que não era namorado, ele usava aliança, só podia ser amante.

Começou imaginar histórias. Supôs que ele a mantivesse, sem permitir que jamais saísse de casa.


Mas, se era amante, por que é que ele nunca ouvia nenhum som vindo do apartamento ao lado? Nem sequer um boa noite.


Passaram-se meses e, durante ele, Joel encontrou diversas vezes o namorado da vizinha. Geralmente chegando no final do dia e, algumas poucas vezes, saindo pela manhã.


Numa noite de calor, Joel trouxe trabalho para acabar em casa e se instalou na cozinha, onde a brisa que entrava pela janela da área deixava o ambiente mais fresco.
Já passava da meia noite, quando viu a luz da vizinha acender e ouviu o barulho do caminhar dos saltos.

Não resistiu. Foi para o olho mágico e ficou esperando ela sair. Não conseguiu ver seu rosto, mas era uma ruiva, grande e estava com roupa de festa.


Voltou a trabalhar.


Já de madrugada, silêncio absoluto na rua, até ouvir um carro parando. Foi até a janela da sala e viu a vizinha saindo de um táxi e entrando no prédio pela porta da garagem.


Joel pegou o saco de lixo da pia e ficou esperando com a porta entreaberta para, na hora que o elevador parasse no seu andar, ele saísse para jogar o lixo e visse a vizinha misteriosa.


Ficou de olho no painel do elevador, quando faltava um andar, ele abriu a porta. O elevador chegou e a porta se abriu.


Joel olhou para vizinha e ficou pasmo. A vizinha olhou para Joel e ficou vermelha. Ambos entraram rapidamente em seus apartamentos.


A vizinha era o suposto amante da vizinha, chegando com a maquiagem toda borrada.


Duas semanas depois uma empresa de mudança esvaziou o apartamento do vizinho(a) de Joel.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Caiu na rede é peixe

Caminhava eu tranquilamente pelas estradas da rede social quando, repentinamente, fui abduzido por um facho de luz que me dizia:

"- Você foi adicionado à minha lista de amigos, seu código é 27-523-X"

Do alto de uma mangabeira, saguis e babuínos urravam: "- Curti! Curti! Curti!",

Tentei me desvencilhar e bloquear o ser extra-virtual que sugava as minhas informações, mas ele me arremessou em direção a outro facho de luz me etiquetando a testa com um "Encaminhado".

Comecei a gritar: "- F1! F1!! F1!!!" No entanto a rede parecia não entender meus comandos , pois só aceitava touchscreen.

Fui compartilhado, comentado, escrutinado, marcado e, até, re-piado.

Quando achei que estava escapando, uma cloud se formou sobre a minha cabeça e me inundou de jogos, aplicativos e eventos que eu não podia recusar.

Fui escoado por um longo tubo em U que me trouxe de volta à minha página, sem perceber que fotos pornográficas tinham sido publicadas no meu mural durante a minha ausência.

Não tardou para que eu recebesse um alerta informando que meu perfil fora excluído por abusos contra os termos e condições.

sábado, 4 de fevereiro de 2012

Caminhos cruzados

“Love seeketh not itself to please, nor for itself hath any care, but for another gives its ease, and builds a Heaven in Hell's despair.” ― William Blake, Songs of Innocence and Songs of Experience

Nascido em Boituva, João mudou para São Paulo na adolescência, quando o pai foi transferido para a sede da empresa. Foi morar na Avenida Higienópolis 500 e estudar no Rio Branco.

Maria, paulistana da clara, nasceu e morou até casar na Higienópolis 481, em frente ao prédio de João. Menina recatada, estudava no Sion

Devem ter se cruzado centenas de vezes no meio dos caminhos do bairro. Nunca souberam que o outro existia.

Entraram na faculdade no mesmo ano. Maria foi cursar Direito no Mackenzie. João, engenharia na FAAP.

Frequentavam a mesma padaria Barcelona, a mesma farmácia da Angélica e até a mesma loja de CD´s da Vilaboim.

Maria conheceu Victor no preparatório do exame da ordem. Casaram dois anos depois na capela do Sion. Tiveram duas filhas, se separaram antes de completarem 10 anos de casados.

João conheceu Marta numa festa de aniversário da família. Paixão fulminante. Casaram gráviso 3 meses depois, na mesma capela do Sion.

Quano Marta e João saiam da igreja, Maria esperava para entrar. João reparou que Maria era a noiva mais linda que tinha visto na vida, mas não era o momento de fazer esse tipo de comentário.

O casamento de João e Marta durou quase 15 anos. Acabou de forma litigiosa. João foi em busca de um advogado. Um amigo lhe indicou Maria.

Quando entrou na sala da advogada, João teve a impressão de que já a conhecia, não falou nada, isso soaria como uma cantada.

Maria cuidou do processo de forma rápida e ponderada. Em menos de seis meses o assunto estava resolvido.

Quando sairam do Fórum, João convidou Maria para almoçar. Até aquele momento só tinham falado do processo, o almoço serviu para falar de amenidades.

À medida que falavam da vida foram descobrindo que passaram a vida toda um ao lado do outro.

Que tinham os mesmos gostos, a mesma visão de mundo e, principalmente, a mesma visão do que deveria ser um relacionamento duradouro.

Ao almoço seguiu um jantar, uma ida ao cinema e o começo do namoro. Amor de verdade. Amor para sempre.

Casaram-se meses depois. A caminho da lua de mel, João lamentou que tinham perdido 15 anos na vida quando poderiam ter se conhecido antes dos seus respectivos casamentos.

Maria sorriu e encerrou a questão: se João não tivesse casado, eles nunca teriam se conhecido.

Nunca mais tocaram no assunto.