quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Manias

Carlos estava longe de ser um sujeito ingênuo ou do tipo que se chocava com o inusitado.

Durante toda a sua vida profissional conhecera pessoas com os mais diversos tipos de taras e fetiches, alguns deles tão insólitos que sequer apareciam nas ferramentas de busca da internet.


Quando foi chamado pelos parentes de Edileuza achou que seria apenas mais um caso corriqueiro. A família estava desesperada com a idéia fixa da mulher.


Carlos logo lembrou quee havia uma ligação direta entre a ansiedade e as idéias fixas por causa do que Jung postulou no passado.


Chegou à casa de Edileuza e tocou a campainha. O som era diferente, parecia um conjunto de barras metálicas se chocando umas às outras.


Ela abriu a porta. Logo no hall de entrada havia um modelo sanfonado de parede. Abertura de mais de 60cm ela falou, mesmo antes de dizer boa tarde.


No teto um modelo bi plastificado pendia perigosamente sobre a sua cabeça, ele desviou, mas não percebeu que no chão havia um giratório eletrostático. Derrubou tudo.


Edileuza soltou um grito de desespero. Aquele era a sua jóia da coroa, por isso mesmo enfeitava o centro da sala.


Pela casa foi encontrando outro, minis, com abas, sem abas e até mesmo um torre perfeitamente anodizado.


As paredes, ao invés de quadros, tinham versões de encaixe, extensíveis, modulares e dobráveis.


Perguntou a Edileuza se poderiam sentar e conversar um pouco sobre o tema.


Ela discorreu longamente sobre a história do objeto, desde os tempos remotos em que era denominado estendal até a idade moderna.


Carlos percebeu que havia um desejo incutido naquele devir. Perguntou se Edileuza sentia prazer em lavar roupas.


Ela enrubesceu, mas disse que odiava lavar roupas, assim como detestava passar roupas.


Ele não perdeu tempo e foi direto ao ponto: " - por que, então, aquela fixação por varais? E por que tantos modelos de varais vazios pela casa toda?"


Edileuza explicou que era uma compulsão inexplicável. Morava ao lado da casa dos varais. Cada vez que que via um modelo novo na vitrine precisava comprá-lo.


" - Algumas mulheres compram sapatos, outras chocolate. Eu compro varais."


Carlos saiu pensativo. Concluiu que não havia nada que pudesse ser feito e iria recomendar que não a privassem dos seus estendais. Isso poderia causar um profunda depressão por abstinência.


Já na rua, viu a loja que provocava toda essa tentação em Edileuza. Na vitrine um varal íntimo de banheiro. Comprou um e voltou até a porta de Edileuza.


" - Acho que você ainda não tem esse, comprei para a sua coleção."


Ela o encarou com um olhar maroto.


" - Não mesmo, você não quer instalá-lo para mim?"


Ao anoitecer as peças de roupas espalhavam-se penduradas desde o hall até o quarto.

sábado, 26 de novembro de 2011

Meia luz

Morocha era uma mulher de luz. Luz natural, é claro, detestava lâmpadas quentes ou frias. Não morria de amor por velas nem lamparinas.

Sempre dormiu de janelas escancaradas, luz da lua, luz do sol e até a luz fugaz do cometa Halley iluminaram sua cama.

Só colocou uma cortina translúcida quando construíram um prédio ao lado do seu e, mesmo assim, exclusivamente para preservar sua privacidade.

Alfonso era o homem das trevas. Engenheiro de túneis, só tolerava iluminação artificial e, mesmo assim, só da casa para dentro.

Odiava qualquer feixe luminoso que lhe atingisse exogenamente.

Morocha usava roupas estampadas e coloridas, sempre muito leves.

Alfonso só se vestia de preto, da sola dos sapatos aos colarinho das camisas.

Encontraram-se numa praça, num dia de chuva forte.

Morocha tinha sido pega de surpresa pela tempestade. Alfonso tinha saído justamente para aproveitar o clima sombrio.

Sabe-se lá por que, sabe-se lá como, apaixonaram-se.

Sabe-se lá como, sabe-se lá por que resolveram enfrentar, cada um, suas manias, para agradar o outro.

De tempos em tempos, Morocha usava um tubinho preto.

De tempos em tempos, Alfonso usava uma gravata colorida.

Ele comprou um óculos escuros para enfrentar a luz do sol.

Ela comprou um óculos escuros para agradar o namorado.

Casaram-se num dia de sol e chuva, ou seria chuva e sol?

Moram até hoje em Corrientes 348

domingo, 20 de novembro de 2011

O discurso do olhar


Não era a primeira vez que ele ouvia falar em linguagem corporal, mas era a primeira em que alguém lhe dava um roteiro mais detalhado.

Ele estudou, observou, reparou. Aprendeu todos os truques e sinais.


Aliado aos seus conhecimentos de análise de discursos, aprendido durante anos de leitura de Lacan e Barthes, julgou ser capaz de, praticamente, ler pensamentos e intenções
.

Exceto no dia que a viu pela primeira vez. Tentou entender seus movimentos, mas não conseguia manter a concentração fora dos olhos dela. Prestava atenção em cada palavra que ela pronunciava, esperava achar o significado oculto por trás delas. Nada.

Quando foi dormir não conseguiu. Ficou tentando entender o que havia por trás daquele secreto discurso do olhar.


Uma demonstração de poder de sedução? Um jogo provocativo à sua capacidade de entender as pessoas?


Todas as leituras o levavam a crer que ela estava apaixonada por ele. O que era humanamente impossível.


Propôs um novo encontro, passou horas em meditação preparatória para não se deixar enganar pelas aparências.

Não adiantou nada, assim que avistou os olhos dela, perdeu completamente a compostura. E despencou nos seus braços.

Com o tempo descobriu que era tudo verdade. Sua leitura estava correta. Aqueles olhos tinham um discurso nada secreto.


Suas palavras eram transparentes e seus movimentos sem nenhuma falsidade.


Casaram-se no fim do verão. E ele nunca mais precisou observar mais nada em niguém.

Os olhos dela lhe bastavam.

domingo, 13 de novembro de 2011

La nave non va

As brumas envolviam o cais. As montanhas eram apenas vultos sombrios cobertas pela neblina.

O barco estava pronto. Sófocles conversava com o capitão Paracelso, perguntando se seria conveniente sairem com aquele tempo.


Apesar do hermetismo trimegístico do céu, o capitão garantiu que a segurança não estava comprometida. O conforto sim.


Sófocles trocou meia dúzia de frases com Electra e decidiram zarpar em direção a Ítaca.


Nem piratas, nem borrascas, nem dragões vão me impedir...cantarolava Paracelso, enquanto os dois se acomodavam na proa.


A navegação foi tranquila. Sófocles e Electra admiravam a vegetação das ilhas por onde passavam e, eventualmente avistavam basiliscos sobrevoando as praias.


Chegaram a Ítaca para o banquete dos lictores. Degustaram mandrágoras, salsichas de javali de Erimanto regados a néctar e, claro, doses de ambrosia.


Na hora de voltar a chuva começou. Nada ameaçadora. Cobriram-se com suas capas e embarcaram.


Cansada, Electra, recostou no colo de Sófocles e adormeceu.


De repente Sófocles reparou que o barco que deveria passar a boreste da Cólquida seguia reto em direção aos penhascos. Olhou para a popa e viu Paracelso estático segurando o leme.


Apoiou a cabeça de Electra numa almofada e foi perguntar o que acontecia. Ao tocar no ombro do capitão ele despencou no tombadilho. Estava morto.


Sófocles imediatamente agarrou o leme e chamou Electra. Ela levantou-se assustada e, ao ver o marido conduzindo o navio, achou que era uma brincadeira.


Não era. O vento nordeste já tornava as ondas mais ameaçadoras e, ao longe via-se uma tempestade de raios.


Sófocles conseguiu desviar das pedras de Colquida como se fora um velocino.


Electra tentou chamar por socorro, mas o rádio capitão estava mais morto que o próprio.


Ao longe avistavam o porto de Lemnos, de onde partiram, mas as ondas impediam que se aproximassem dele.


Sófocles então virou o barco contornando o Helesponto e, numa manobra arriscada conseguiu encalhar na areia de Mamanguá.


Já anoitecia. Abrigaram-se no velho forte. Quando a tempestade passasse tentariam novamente voltar para casa.


Teriam dormido a noite inteira, tão cansados estavam, se não fosse pela aparição fantasmagórica de Paracelso no meio da madrugada.


O cadáver do capitão entrou cambaleante no forte, cantando aos berros: nem borrascas, nem dragões, vão me impedir...


Electra, num movimento rápido atirou sua bolsa em direção ao zumbi, que caiu morto pela segunda vez.


Dois dias depois a chuva passou. Sófocles enterrou o capitão no calabouço do forte, desencalhou o barco e voltaram para Lemnos.


E nunca mais permitiu que Electra saísse de casa sem a sua bolsa.

sábado, 12 de novembro de 2011

Ora vá para o Catimbau!


Mensagem
Nada de sol, nem bacalhau
Chovia muito no arraial
Não caiu o nosso astral
Pelas gambas do Catimbau

Muita pedra, nenhum areial
Nem pera nem bananal
Olvidamos o cacau
Traçando as gambas do Catimbau

Nenhuma dor existencial
Paisagem fenomenal
Um olhar emocional
Antes as gambas do Catimbau

Declarei amor imortal
Genuflexo no degrau
Recebi amor igual
Com as gambas do Catimbau