segunda-feira, 31 de outubro de 2011

Sonhos desvendados

Tudo começou com José do Egito. Foi ele quem popularizou a interpretação de sonhos, desde os pesadelos do padeiro até os onirismos do Faraó.

Durante séculos a interpretação era vista como uma prática mágica ou sacerdotal, até que Freud afirmou que sonhos desconexos, sem qualquer lógica e, em que o conteúdo manifesto desfigura completamente o conteúdo latente, poderiam ser psicoanalisados.

Se bem que quando as explicações eram confusas demais, seus pacientes nem reconheciam seus próprios sonhos e saiam da sessão com uma certa sensação de charlatanismo.

A verdade é que a onirologia tornou-se uma ciência respeitada tendo até gerado estudos derivados como a oniropatia, a oniromancia e a onirofilia.

Dentre os analistas ocidentais modernos, destacam-se o psicanalista búlgaro Igor Baratov, o alemão Katz Katzenberg - criador da clínica de sonhos Traumarbeit - e o presditigitador paraguaio Mbojáji Ahayhú.

O modelo de Baratov, influenciado pela dialética histórico materialista de Marx, usa o determinismo social como modus analisandi.

Diferentemente, Ahayhú vem de uma escola xamânica e sua interpretação está fundamentada nas manifestações totêmicas dos ancestrais.

Katzenberg é, dos três, o que segue de forma mais ortodoxa, a escola freudiana simplificada. Para ele, sonhos são sempre expressões da libido ou culpa da mãe que não deu boa noite.

Para entendermos melhor, comparemos a interpretação deles para dois sonhos clássicos

Sonho 1: a pessoa se vê em um grande salão repleto de espelhos, dezenas de pessoas, aos pares giram incessantemente a ponto de causarem vertigens noturnas em quem está sonhando. Repentinamente uma torrente de água azul atravessa o salão carregando todos para uma fábrica de flavonoides.

Baratov: As pessoas no grande salão representa a classe dominante que gira narcisisticamente em torno de si mesma (fato reforçado pelos espelhos) enquanto a água, que são as massas do proletariado, purificam o mundo e antioxiadam a ferrugem capitalista. Se o sonhador for rico, deve esperar a ruína em breve, se for pobre, sofrerá um acidente, recebendo um balde de tinta azul na cabeça.

Ahayhú: O mundo dos ancestrais se tornou poluído pela presença de tanta gente e de objetos criados industrialmente pelo homem branco. As águas do aquífero guarani destruiram o mundo carregando a todos e desaguando no porto de Ilhéus.

Katzenberg: quem tem esse sonho está carente de colo ou desejoso de sexo.

Sonho 2 : a pessoa se encontra no meio de um bosque e percebe que está com orelhas de burro. Mesmo assim, sucessivamente, encontra pessoas do sexo oposto e todas elas se apaixonam pelas suas orelhas e propõem casamento. Geralmente a pessoa acorda desse sonho achando que bebeu algo errado antes de dormir.

Baratov: sem dúvida nenhuma esse sonho reflete a falta de moral capitalista, o sonhador acredita-se ser o asno de ouro que, com suas posses, pode comprar o amor, como se esse fosse apenas mais um produto descartável e sem nenhuma mais-valia relativa. Caso o sonhador seja um stalinista ortodoxo significa apenas que bebeu vodka demais antes de dormir.

Ahayhú: Quem tem esses sonhos acredita que está carregado dos poderes mágicos dos patriarcas, obtido através das poções cujas fórmulas secretas perderam-se junto com o desaparecimento de Atlântida.

Katzenberg: quem tem esse sonho está carente de colo ou desejoso de sexo.

Recomendamos aqueles que tenham alguma dificuldade em compreender seus próprios sonhos e que se identificaram com algum desses intérpretes, que visitem o site de interpretação online dos mesmos, o e-dreams, eles aceitam todos os cartões de crédito.

sábado, 29 de outubro de 2011

A ilha pornográfica

Ana Maria não entrou na cabina, porque as nossas praias não tem mais cabinas para as pessoas colocarem seus maiôs.

Chegou à praia num biquini legal, no sentido jurídico da palavra. Afinal, sempre fora uma garota muito comportada.


O que não impedia que ela tivesse passado por uma certa, digamos, modernização. Usar biquini era um exemplo disso.


Talvez o fato mais marcante dessas suas mudanças é que ela aceitou o convite do namorado para passarem um final de semana na praia.


Quartos separados, é claro. Mas, pelo menos, estavam dormindo debaixo do mesmo teto.


Claro que as amigas da faculdade não acreditavam nisso, mas Ana Maria não dava bola para o que os outros pensavam.


Eduardo, o namorado, era um sujeito liberal. Nem sempre concordava com as atitudes da namorada, mas as respeitava, em nome do amor.


Naquela manhã, estavam passeando de mãos dadas na praia quando viram um cartaz nuns barcos de turismo


Eduardo pegou o folheto e começou a examinar. Gostou de um deles e sugeriu a Ana Maria:


" - Que tal a gente passar o dia, amanhã, na Ilha do Pelado?"


Ana Maria ficou escarlate, depois vermelho cádmio, depois magenta, depois violeta cobalto e já estava quase azul da prússia, quando disparou:


" - Seu safado, sem vergonha, canalha... quem te deu a liberdade de me propor esse programa pornográfico?"


Eduardo emudeceu. Olhou para o folheto. Olhou para Ana Maria. Olhou de novo para o folheto e teve um acesso de riso.


Quando se recuperou do ataque de gargalhadas Ana Maria já estava longe, pegou um táxi até a rodoviária e, de lá, o ônibus de volta para Lorena.


Nunca mais quis ver o mar.

*Imagem: foto da Ilha do Pelado, tirada a partir da praia de Sâo Gonçalo em Paraty

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

O vôo da pteroposa

Quando Amanda e Leonardo viram as fotos da Vila de Tuyuyu ficaram encantados, resolveram que seria naquele local que passariam sua lua de mel.

A beleza natural era abundante e descobriram que havia uma hotel à beira do Rio Foruat a poucos metros de onde ele desaguava no mar.

O hotel era pequeno, seis cabanas espalhadas no meio da floresta, suficientemente distantes uma das outras. Lugar perfeito.

A única coisa imperfeita foi que Leonardo, no meio do caminho recebeu um telefonema chamando-o para uma cirurgia de emergência.

Ele deixou Amanda no hotel e pegou a estrada de volta.

Amanda lamentou, mas sabia que teriam duas semanas exclusivamente um para o outro, além do que, ela conhecia os riscos de casar com um neurocirurgião.

Quando estava acabando de jantar a dona do hotel veio conversar com ela. Contou a respeito da lenda da pteroposa, um imenso inseto voador que, segundo os nativos locais, tinha o dom da profecia noturna.

Disse para Amanda que nunca ninguém tinha visto tal ser mas, por via das dúvidas, era melhor dormir com as janelas fechadas.

Amanda, mulher cética e completamente avessa a qualquer superstição, ignorou completamente o conselho.

Antes de dormir falou, por telefone, com Leonardo. A cirurgia fora bem sucedida e na manhã seguinte ele estaria com ela.

Logo depois de dormir ouviu o barulho de venezianas batendo. É o vento, pensou, e nada mais.

De repente sentiu algo nos seus pés, mexeu-se e o som foi de um farfalhar de asas. É um corvo, imaginou, e nada mais.

Acendeu a luz para espantar o bicho. Não era um corvo. Nem um morcego.

Pousado na moldura de um poster de Atenas, um ser alado desconhecido olhava para ela. Parecia uma mariposa do tamanho de uma gaivota, mas não era uma coisa, nem a outra.

Como o bicho não parava de olhar ela perguntou se ele ficaria ali muito tempo.

Disse a ave: " - para sempre."

"- Como assim? Acha que a noite vai durar tanto?"

Disse a ave: " - para sempre."

Amanda ficou assustada, se a noite não acabasse, ela nunca mais veria Leonardo.

"- Mas...mas...e a minha lua de mel?"

Disse a ave: " - para sempre."

Aliviada e feliz, ela não resistiu a mais uma pergunta:

" - O amor do meu Leonardo...?

A ave sorriu maliciosamente e respondeu

" - Para sempre!"

Quando chegou na manhã seguinte, Leonardo encontrou Amanda dormindo e uma imensa mariposa na moldura do poster acima da cama.

Antes de soltar o bicho, tirou uma foto da cena. Era algo para ser guardado para sempre.

domingo, 23 de outubro de 2011

Fusão

Cobalto e magenta espatulados
A tinta tenta apaixonado fato
Surpreende o amado
A amada inventa
Namorados

Cobalto e magenta retratados
Cor que arrebenta os nós,
Tanto tempo depois,
Desatados

Cobalto e magenta misturados
No mar, no céu, no asfalto
No vento, em um,
Amalgamados.

Cobalto e magenta
namorados
espatulados
retratados
misturados
desatados
amalgamados.

Cobalto e magenta apaixonados

sábado, 22 de outubro de 2011

Uma história nada áspera

Adenilde trabalhava num salão no Tucuruvi. Fazia quase de tudo, mas sua especialidade era a esfoliação.

Não só conhecia todas as técnicas e produtos para tal prática como, apesar de sua pouca formação escolar, conhecia profundamente o assunto, ainda que esse fosse muito superficial.

Brincava que ela era a tanatopraxista das células mortas. Sua clientes geralmente achavam o termo engraçado.

As que entendiam o que era isso, não achavam graça nenhuma.

Fora do salão, era uma mulher abrasiva, o que sempre tornou difícil seu relacionamento com os homens.

Um dia estava no supermercado Ourinhos comprando produtos para produzir seus esfoliantes caseiros quando seu carrinho, numa curva de gôndola, trombou com o carrinho de Adalberto.

Vendo que o carrinho dela tinha fubá, açúcar mascavo, amêndoas, gérmen de trigo e azeite, ele perguntou que tipo de bolinho que ela ia fazer.

Ela respondeu na bucha, que estava pouco se lixando para os bolinhos.

Adalberto sorriu e antes que ela tivesse tempo de desviar dele, redarguiu que preferia que ela muito se lixasse era para ele.

Adenilde sentiu um frio todo o seu colágeno, percebendo a tonificação do rapaz.

Casaram meses depois.

A pele de Adalberto nunca mais teve manchas ou acne e Adenilde se tornou uma seda de mulher.

domingo, 9 de outubro de 2011

A estóica antologia do bimestre


Não...não faça isso. A regra desse post é ler os comentários e imaginar sua própria história, jamais volte aos textos para entender os contextos.

Agosto foi mês de cachorro louco, setembro de vacas magras, aí seguem os melhores comentários do bimestre:

Me enganei. É "pé de tango"

É duro ser metaleira.


imaginei em que árvore estará a edicula...


Não sei quem casou-se com quem.


Vou para o Bosque Encantado


Realmente estes parasitas fazem uma farra doida


só não me recordava mais de "quem era quem"


Elogio a tua loucura!


É importante entender a situação de Plutão.


Digno de se ler degustando uma ambrosia


Talvez um dia, pelo fato de falar russo, encontre um ser humano que vá me entender!


Cebolas, Adiron? Cebolas!?!?


Mas,ouvi falar em outros tempos, que o perigo era a saliva


você não me liga e eu não te telefono!


tô melodrámatica acho que vou lavar rúcula...


Me deu vontade de comer rúcula !


Vai ter certificado?


Você poderia fazer o favor de perguntar a ele se tem algum apartamento para vender ou alugar no prédio ?


Aonde eu encomendo a tal da nuvem episilon?


Esse "ego vos ignorare" está à venda?


Moral da História: Nunca devemos pedir beijos ....


ninguém dá um beijo antes de engolir um sapo!!!


aí já ultrapassa o limite de suportável!


o maquinista se empanturrou com sopas de letrinhas


Sei que preciso fazer recuperação paralela.


Qual a diferença entre o nudismo decapitado e a vestimenta capitada?


só que pareciam defuntos e ainda por cima estavam cheios de ataduras


* Foto de Virginia Susana Fantoni na exposição de Olafur Eliassom na Pinacoteca do Estado.

sábado, 8 de outubro de 2011

Nova descoberta científica

Uma das especialidades bizarras desse blog é a etimologia analítica cataclítica, ciência que estuda a origem de clichês de palidez cadavérica.

Depois de décadas de estudo dos xilógrafos da biblioteca de Alexandria, nossos pesquisadores descobriram a origem da famosa expressão "Jingle Bells".

Na segunda metade do século XIX, os dingos, espécie de lobo australiano, assolavam as fazendas de criação de ovelhas do sudeste do país.

Como os animais se reproduziam mais rapidamente que a capacidade ecônomica dos fazendeiros de comprar munição, foram desenvolvidos meios alternativos para manter os bichos afastados das deliciosas costeletas de cordeiro ao molho de menta.

Uma delas, seguindo a famosa fábula de Esopo, foi a de pendurar guizos no pescoço dos dingos, numa faixa de frequência sonora que assustasse as ovelhas. Sendo a Austrália um país que fala uma corruptela da língua inglesa, os guizos foram patenteados com o nome de "dingo bells".

Assim como na fábula, isso não resolveu o problema, uma vez que nenhuma ovelha quis se arriscar a pendurar o bell no dingo, e os estoques de guizos ficaram todos encalhados nas fábricas da Nova Gales do Sul.

Anos se passaram até que, durante os pós guerra, um grupo de publicitários que foram surfar no paraíso do surf, encontraram o velho galpão de guizos abandonado. Brincando com os produtos, um deles, chamado Pierpont, percebeu que tinham uma sonoridade muito parecida com o sino do papai noel que fazia ponto na Avenida Madison, em Nova York.

Como o publicitário tinha recebido a encomenda de um jingle de Natal para a Macy´s, ele comprou todo o estoque de "dingo bells" por uma ninharia, mandou gravar o nome da loja em cada um deles e colocou um batalhão de papais noéis distribuindo os guizos pelas ruas, enquanto cantavam o jingle dos bells.

A campanha fez tanto sucesso que a canção entrou para o repertório natalino americano e, depois, mundial. Tendo sido gravada desde Elvis Ozborne até pela dupla sertaneja-MBA (um universitário pós moderno), Tico-tico e Sabiá.

Atualmente, cada vez que a música é excutada, a Fundação Surinamense de Defesa dos Dingos recebe 1 centavo de dólar australiano, o que a faz uma das ONGs mais ricas do mundo, mesmo que nunca um dingo tenha sido visto em Paramaribo.

quarta-feira, 5 de outubro de 2011

Ars gratia artis


A polêmica deve ter surgido quando o primeiro australopiteco acabou seus primeiros desenhos nas cavernas de Altamira, seu companheiro de moradia olhou para aquilo e perguntou: "- Será isso arte, ou não?"

Diz a lenda que eles se chamavam Caim e Abel e que a discussão não acabou bem.


Tecnicamente, arte (Latim Ars, significando técnica e/ou habilidade) é entendida como a atividade humana ligada a manifestações de ordem estética, feita por artistas a partir de percepção, emoções e ideias, com o objetivo de estimular essas instâncias de consciência em um ou mais espectadores, dando um significado único e diferente para cada obra de arte.


Uma definição bastante ampla que poderia ser resumida em "qualquer porcaria é arte", uma vez que nesse espectro, até esse texto pode ser considerado como artístico.

No sábado passado, por indicação de uma professora de pintura fomos (eu, Virginia e as crianças) ver "Em Nome dos Artistas", um imenso panorama da arte contemporânea americana.

Fiquei sinceramente animado quando, ao pesquisar sobre a mesma, me deparei com uma matéria que definia o conjunto de artistas da mostra como o dream team da arte contemporânea.


Vou poupar meus leitores dos detalhes sórdidos a respeito do que vi mas, garanto, passei o tempo todo olhando para aquele imenso conjunto de tranqueiras me perguntando o que é que define arte.


Não sou um purista que rejeita o abstracionismo ou a música atonal, mas reconheço que aquilo ultrapassou todos os meus limites de tolerância.

Quem melhor definiu a exposição foi a Letícia. Segundo ela, a melhor parte do passeio foi a água que compramos na saída, essa, pelo menos, teve um efeito refrescante para ela.


E pensar que eu poderia ter ido à Pinacoteca ver a marinas de Fernando Lemos...(tudo bem, o próximo final de semana está chegando)

*essa foto foi tirada a caminho do carro na volta, simboliza o estilo profundamente artístico do que vi

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Constatações desaforísticas

Constatação bioquímica: meu pH está cada dia mais baixo

Constatação pragmática: quando precisam de você, você é importante, quando não precisam, você se torna invisível.


Constatação culpabilística (d´aprés Saint Exupéry) : você se torna eternamente responsável por qualquer desgraça que aconteça


Constatação telemarketelógica: Eu vou estar verificando, para estar respondendo e retornando a sua ligação.


Constatação cocinelídea : em boca fechada não entra joaninha


Constatação globalizada : o mundo gira, a lusitana roda, e a economia só derrapa