sábado, 30 de abril de 2011

Obrigado


Grazie perche é uma canção de 1983 que fez sucesso em italiano na voz do grande Gianni Morandi (o mesmo de C'era un ragazzo che come me amava i Beatles e i Rolling Stones), um sujeito que está na parada de sucessos desde 1962.

A traição/tradução (da versão italiana) é totalmente livre e inclui algumas pequenas alterações na letra original. Se quiser ouvir a música, clique aqui


Obrigado porque
Estava ao meu lado
Antes de ser minha

Porque queria um homem

um amigo

Não um escudo

junto a você


Obrigado por trilhar

Sua estrada

Cheia de pedras

Como a minha

Obrigado porque

Mesmo distante

Estendo a mão

E encontro a tua


Eu, como tu,

vivia confuso

de contos de fadas

Não preciso mais


Obrigado porque

Me fez saber

Que não posso voar

Sem ter você


O meu repouso

é nos teus olhos

E com teu olhos

Posso enxergar


Obrigado porque

Mesmo distante

Estendo a mão

E encontro a tua


Contigo sempre

é primeira vez

Não há mais medo

junto de ti


Obrigado porque

Não estamos sós

Não estamos sós


Uma vida nova

Não me assusta
Tendo você

Obrigado porque

Mesmo distante

Estendo a mão

E encontro a tua


Estendo a mão

E você está aqui!

E se você achar que a música tem um certo que de Bob Seeger, talvez queira ouvir a gravação mais famosa aqui

quinta-feira, 21 de abril de 2011

O segredo

Marcondes era um homem sensível. Sensível demais para alguns que não o consideravam tão homem assim.

Gostava de ler poesia, de assistir filmes românticos e se desmanchava em lágrimas ao ouvir os trios de Schubert.

Era adorado pelas mulheres, ainda que nenhuma delas nutrisse nenhuma esperança por ele, o viam apenas como um ótimo amigo.

Ninguém nunca esperou que ele surgisse com alguma namorada, até porque criam que ele guardasse alguma dentro do armário.

Quando ele falava a respeito da busca do amor verdadeiro, da sua idealização da mulher perfeita, todos achavam que era puro exercício de retórica.

Não era.

O choque foi geral no dia em que ele apareceu de mãos dadas com Antonia. A mulher dos sonhos de qualquer homem.

Os mais céticos concluiram que aquilo era apenas jogo de cena, cortina de fumaça.

Os mais realistas percebiam a forma como eles se olhavam, apaixonadamente demais para ser só uma encenação.

Os homens discutiam o que é que Marcondes tinha demais para conquistar uma mulher daquelas.

As mulheres debatiam nos banheiros o que que aquele mulher tinha visto no Marcondes.

Não era beleza, não era dinheiro, não poderia ser apenas uma amante de poesia e boa música, isso não sustentaria o namoro.

Ninguém se arriscava a perguntar e Antonia era discreta demais para deixar transparecer alguma coisa (uma das qualidades da mulher perfeita, diga-se de passagem)

Até o dia que Henrique não resistiu e puxou Marcondes de lado e lhe perguntou o que ele tinha feito para encontrar aquele monumento de mulher.

Marcondes, perplexo, respondeu a verdade. Não fazia a menor idéia.

Disse que um dia a encontrou numa festa e quando olharam um para o outro entenderam tudo.
Henrique insistiu para saber o segredo do amigo.

" - Segredo? Nunca tive segredos. Apenas sou uma pessoa que gosta de ouvir e entender quem está comigo, e tratar a pessoa de acordo com suas necessidades e desejos. Será isso o segredo?"

Henrique concluiu que sim. No dia seguinte contou para todos os outros homens.

A decepção foi geral.

Não com Marcondes, a quem consideravam um premiado na loteria, mas consigo mesmos.

Passariam o resto da vida se mordendo de inveja.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Casamento grego

Antonio já era professor de matemática num colégio particular há alguns anos quando descobriu que qualquer pessoa alfabetizada e com documentação em ordem poderia ser juiz de paz.

Não teve dúvidas, se candidatou ao cargo, foi eleito e assumiu os casamentos do seu distrito, no cartório do bairro cujo tabelião tinha sido seu colega de escola.

A diferença de Antonio para outros juizes de paz é que ele fazia questão de conversar com os nubentes alguns dias antes da cerimônia.

Bom analista da alma humana, ele identificava nos noivos se o casamento era por amor ou não e quanto que iria durar.

Tão bom que, no decorrer dos anos, o tabelião começou a tabular as datas de casamentos e divórcios dos noivos de Antonio. A margem de erro era quase nula.

Como matemático, começou a atribuir código que apostava junto à sua assinatura nas certidões de matrimônio, todos em letras gregas.

Casais equilibrados e sensatos recebiam de Antonio o Σ . O casamento tinha qualidades que se somavam e, mesmo sem emoções, seria um casamento duradouro.

Outros, pelo contrário não tinham qualidade nenhuma e o casamento tendia rapidamente ao zero, recebiam um ε

Quando percebia diferenças irreconciliáveis entre os noivos, esses eram carimbados com um δ

A maioria, no entanto, eram os casamentos por puro interesse, do noivo, da noiva, ou de ambos, a letra π era a que mais ilustrava as certidões.

Claro, ele também percebia quando o amor era amor mesmo, que superaria diferenças, dificuldades e problemas.

Poucas foram as vezes que usou a \infty , mas quando colocava, era com gosto.

sábado, 16 de abril de 2011

Viver o grande amor

Mas tudo isso não adianta nada, se nesta selva oscura e desvairada não se souber achar a bem-amada — para viver um grande amor. (Vinicius de Moraes)


Mais que canções, mais que poesia para viver um grande amor

Mais que orquídeas ou bombons de cereja, para viver um grande amor

Mais que palavras, muito mais que palavras.

É preciso paixão que não se acaba

É preciso paciência nos contratempos

É preciso coragem.

Mais que confiança, é preciso entrega

Mais que crenças, é preciso certeza

Mais que sinceridade, é preciso transparência

Ao fim e ao termo, só se vive o grande amor quando se encontra a grande amada.

Mesmo quando ela é bem pequenininha.

E só se vive o grande amor, se ela amar na mesma desproporção arrebatadora com a qual é amada.

Obrigado meu grande amor.

Primeiro e último.

Desde sempre e para sempre.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

O buraco

Alice se aproximou vagarosamente e olhou para dentro dele.

Não conseguiu enxergar o seu fim e, por isso mesmo, temeu aventurar-se tomando um destino não previsível.

Ao mesmo tempo não conseguia sair do lugar.
Como se a profundidade e a escuridão lhe fossem um imã incontrolável.

Meditou sobre as escolhas da vida e creu que, se ainda estava sã, era por se manter à margem de qualquer risco.

Não percebia que a sanidade estava no fundo do buraco e não fora dele.

Questionava-se sobre o preço a pagar pela ousadia de pular no abismo.

Haveria retorno razoável para uma atitude daquelas. O tombo traria lucro ou prejuízos?

Como em qualquer investimento, o risco alto também trazia grandes retornos.

Descontroladamente entregue a ele, ela se lançou.

Para o incômodo dos outros, sua vida tornou-se uma maravilha.

domingo, 10 de abril de 2011

O que os olhos não vêem

Ernesto sempre admirou as mulheres. Adorava observá-las em todos os lugares onde estava, num nível de detalhes que não lhe era sempre possível externar.

Fazia isso quase que como um esporte, sem nenhuma intenção adicional.

Até o dia em que, reparando nas colegas de trabalho, percebeu que Sônia era especialmente bonita e atraente, além de manter uma elegância impecável. Apaixonou-se.

Não demorou muito para que começassem a namorar. Ernesto, que não era bobo, refreou seus instintos voyeurísticos. Não que tivesse deixado de olhar as mulheres, mas procurava ser o mais discreto possível e, claro, guardava seus comentários para si mesmo.

Sônia, que conhecia sua fama, não queria reprimí-lo totalmente. Aos poucos foi deixando o namorado mais à vontade, inclusive trocando comentários sobre as mulheres que viam.

Ernesto relaxou e, sem perceber, voltou a olhar acintosamente para todas as mulheres, mesmo quando estava com Sônia.

Um dia, num café, Sônia não se conteve e reclamou, o comportamento do namorado estava extrapolando os limites. Ernesto foi rápido na resposta:

" - Quanto mais eu observo outras mulheres, mais eu me convenço de que você é a mais linda de todas..."

Sônia abriu um sorriso, olhou-o com ternura e admiração.

Depois levantou-se, meteu a mão na cara de Ernesto e saiu sem dizer mais nada.

domingo, 3 de abril de 2011

A paregórica antologia do bimestre


Como tenho publicado menos, também é menor a quantidade de comentários. Por isso a antologia é, novamente, bimestral.

Caso você seja novo por aqui a lógica insana é a seguinte: leia os comentários escolhidos sem se preocupar com o texto original e imagine você mesmo o que foi que aconteceu.

Divirta-se

caramba! Me encheu de idéias..

vou comprar um escorredor de talheres...

Deve ser uma alma penada tentando ir pro céu!....

apesar de me parecer em grego

Melhor uma cena com um quadro assim

hum...eu tô sentindo um clima..

eu sempre apostei no poder do alho..

...huuum: ahm ham...Ok!

eu sempre digo que foram os "duendes

Será que meu marido tem mesmo olhos verdes?

precisamos estudar a fundo essas amoras

devemos nos afastar da calota polar e não derrubar cerveja na roupa

Melhor o guaxinim engordar do que a princesa.

Cuidado com quem te convida para comer jabuticaba no pé

tem um não sei o que de etéreas possiblidades

quando venho fico horas...

O que a calça estava fazendo lá?

eu me aqueci...

tienen la eternidad de la naturaleza...

Meu marido ta procurando nossa cama até hoje.

Será que preciso de um negativo?

os esquimós sofrem de hipotermia por comerem gordura de foca

Isso é um surto
?

sexta-feira, 1 de abril de 2011

Cansei!

Chega! Cansei! A vida inteira me preocupando com as aparências depauperou meus neurônios. Esbugalhou minhas células cinzentas.

A partir de hoje serei eu mesmo, doa a quem doer (uma preocupação a menos na minha vida). Essa história de ser romântico é uma farsa. Dá muito trabalho e baixo retorno sobre o investimento.


Vou ser apenas o que sou: um cético, um insensível e frio iceberg. Bolsonaricamente, que se lixem as emoções, o que é que eu ganho com isso?


Só isso já me livra da obrigação de ler poesia (quanto mais essa necessidade de ficar escrevendo com métrica e rima). Nada mais de Becquers e Benedettis na minha vida. Poe e cummings, literalmente, nevermore. Eu quero a liberdade de só ler o caderno de esportes dos jornais.


Além da poesia vou me livrar daquele monte de livros que juntei (e, pior, li um a um) durante a minha vida. Literatura, filosofia, sociologia e arghhhhh até antropologia eu li (como me enganei!...)


Vou parar de ouvir música e só vou ouvir rap e funk, isso sim é som para gente como eu, nada dessas frescuras de Beethoven, Cole Porter e Piazzolla.


Por falar em Piazzollla, dançar tango realmente foi o meu limite, nada poderia ser mais contra a minha essência e natureza que isso. Nego que algum dia tenha dado uma sacada dupla e, muito menos um arroje. Se alguém me contrariar ainda vai levar um sopapo.


A partir de amanhã esse blog só vai trazer textos mal criados, interesseiros e preconceituosos. Se você tiver estômago, volte sempre. Se não... clique aqui.