terça-feira, 29 de março de 2011

Reencontro das águas


Fez, pois, Deus o firmamento, e separou as águas que estavam debaixo do firmamento das que estavam por cima do firmamento. E assim foi. (Gênesis 1:7)

Sobre o mar, ondas
Brancas
virando cinzas
virando azuis
virando negras
Virando suas águas sobre o mar

Sob o céu o mar imenso
Verde
virando azul
virando espuma
virando vapor
Virando de volta água nas nuvens

Como nuvens sobre o mar
Todo dia se enche de amor
Meu coração
Derramando-se sobre o meu mar que é você

Como mar sob o céu
Todo dia devolve o amor
Seu coração
Evaporando-se para a nuvem em que o recebo

Como mar
Como nuvens
Eterna comunhão das águas
Como você
Como eu
Eterna comunhão do amor

Imagem: detalhe de quadro de Virginia Susana Fantoni

quinta-feira, 17 de março de 2011

Absinto


Ela comia os meus corações com mesóclises enquanto descia pelo meu esôfago o doce árabe calafetado.

Súbito, seu cúbito veio ao encontro da minha mão esquerda, enquanto suas saboneteiras vinham de encontro a meus lóbulos flamejantes.

A multidão, disposta a corroer garatujas, aglomerava-se para observar a cena.

Nem patrocínio, nem mecenas de Micenas garantiam nada em caso de sinistros.

Levantaram-se-me minhas pálpebras com um ligeiro movimento pseudopático.

Livrei-me das inconvenientes lantejoulas do seu vestido obnubilado de prismas hematófagos.

Estava a ponto de interromper tudo, pois não me agradava a audiência desqualificada, quando um bando de gralhas asininas avançou vorazmente sobre a caterva, consumindo-a à vinagrete. Um consommé.

Ela me olhou com seu olhar tórico, sempre sedutor e, sem mais astigmatismos, sucumbimos em rompantes glaucos.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Rio das pedras

Victor parou diante do quadro que estava na entrada da exposição. Uma paisagem onde uma corredeira atravessava a floresta de tons outonais.

De um ponto de vista a água parecia correr da base para o topo do quadro. De outro ângulo teve impressão que corria no sentido inverso.

Começou a se movimentar em torno do quadro. Dava alguns passos. Parava. Mais alguns passos. Parava de novo.

De repente notou que uma mulher o observava. Ficou sem jeito e já ia entrar para ver o resto da exposição quando ela o interrogou:

" - Pelo jeito você gostou da pintura..."

" - Sim, sim, muito. É um quadro muito bonito. E enigmático.

" - Enigmático? Acho que nunca ouvi essa expressão a respeito dos meus quadros."

" - Ah! Você é a pintora? Posso te fazer uma pergunta?"

" - Claro, se eu souber responder..."

" - A direção do rio... ele está subindo ou descendo?"

" - Que impressão que teve?"

" - Não sei. Em alguns ângulos subindo, em muitos outros descendo."

" - O que você prefere?"

" - Não sei, só fiquei confuso."

" - Deixa eu te mostrar a foto do lugar original."

Victor olhou a fotografia. Nela ficava clara a direção do rio. A pintora lhe dissse:

" - A foto só mostra a realidade. Uma pintura a óleo mostra o sonho por trás da realidade."

" - Posso ser indiscreto?"

" - Talvez..."

" - Qual é o sonho que se esconde dentro da pintura?"

Ela sorriu meio sem jeito, mas respondeu:

" - O sonho de encontrar alguém que me mostre qual é a direção certa para seguir."

Ele olhou o quadro. Olhou para ela. Olhou novamente o quadro e, mirando seus olhos, disse:

" - E quem disse que precisa seguir sempre na mesma direção?"

Uma lágrima escorreu dos olhos dela. Ela tirou o quadro da parede e o colocou nas mãos de Victor, dizendo:

" - Leve o quadro, vai ser o mais bonito da nossa casa."

Imagem: "Rio das pedras", óleo sobre tela 0,80x1,00m de Virginia Susana Fantoni

sábado, 12 de março de 2011

14 linhas


Vida transformada nesse desejo
Intenso, doce, calmo e voraz
Recebe meu poema, minha paz
Grato te entregando um novo beijo

Início, sempre início, sem ter pejo
Nenúfar que uma noite quente traz
Idílio que nenhum temor desfaz
Aonde brilham olhos, onde os vejo.

Surpreendente foi tanto sentimento
Um só coração um só movimento
Sarando cada chaga do meu peito

Agora e sempre entrego meu respeito
Num arremedo pobre de terceto
A eterna surpresa deste soneto

quinta-feira, 10 de março de 2011

Chifre de unicórnio

Quando ela chegou no começo da noite encontrou o marido na cozinha lavando a salada. Estavam ambos cansados do esforço do dia.

Ele a beijou e disse que estava preparando um lanche leve para os dois. Na hora que ela estivesse pronta poderia vir para a mesa.

Comeram salada com carne grelhada. Ela não deixou que ele voltasse para a pia e, assim que acabaram, ela lavou a louça.

Sentaram para ler mais algumas páginas dos "Diários da Ana Sus" e foram deitar.

Ela passou a noite sonhando com unicórnios, florestas, cavalos alados. Ele dormia tão profundamente que nunca lembrava dos seus sonhos. mas percebeu quando ela levantou às 4 da manhã, toda afobada.

Perguntou o que tinha acontecido, ela só disse que já voltava. Ele a ouviu caminhando para a cozinha. Na volta, debruçou-se sobre ele e o beijou longamente. Ele não entendeu, mas gostou.

Durante o café da manhã ela explicou o que acontecera.

No meio do seu sonho o unicórnio, ao invés de um chifre, tinha uma frigideira na testa. Ela lembrou que tinha esquecido a frigideira do jantar em cima do fogão, sem lavar.

Ao chegar na cozinha, de madrugada, encontrou a panela lavada, enxuta e guardada no armário.

Se apaixonou de novo.

terça-feira, 8 de março de 2011

Fábulas fabulosas

Era uma vez uma mulher maravilhosa que vivia numa terra onde ninguém nunca podia entrar.

Por isso mesmo era impossível descobrir o quanto ela era maravilhosa, mas a simples menção do seu nome atraia todo tipo de aventureiro ao local.

A única entrada da terra tinha um porteiro eletrônico que respondia todas as chamadas através de procrastinações.

Todos que tentaram adentrar esse mundo ficaram esperando no portal enquanto a guarda ia ver se era possível conceder o acesso.

Um dia, um príncipe desencantado passou por aquelas bandas tão tão distantes e reparou na multidão que se aglomerava no portão.

Informado de que, além grades, vivia uma princesa, resolveu conhecê-la.

Já sabedor do que aconteceria se pedisse ao porteiro eletrônico para entrar adotou uma estratégia diferente.

Quando a portaria o atendeu, ele disse que seu guaxinim de estimação tinha fugido de casa e entrado naquele local. Ele precisava entrar para tirá-lo de lá antes que o mesmo comesse todas as amoras douradas da propriedade.

Como a guarda da portaria não sabia o que era um guaxinim, nem que a propriedade tinha amoras douradas, abriu o portão e pediu que o visitante fosse breve.

Para a surpresa de todos que aguardavam junto ao portão, pouco depois, o príncipe ressurgiu, dessa vez encantado pelo fulgor da princesa que levava na garupa do seu cavalo.

Escafedeu-se a galope em direção a seu próprio reino, onde foram felizes para sempre.

Até hoje a guarda não sabe o que aconteceu, pois ainda não foram ver, mas o guaxinim já engordou 20 kg e continua comendo as amoras.

sábado, 5 de março de 2011

Impossível

Ela era apenas uma imagem. Ou melhor, uma coleção de imagens que ele colecionava na memória cada vez que a via.

Ainda que ele a soubesse real, sabia que era de uma realidade impossível de ser alcançada.

As migalhas que caiam da sua mesa lhe supriam, ainda que nunca pudessem ser o bastante.

Nunca soube como foi que um certo dia ela lhe dirigiu a palavra. Mas percebeu claramente como sua voz era encantadora.

Tomou coragem e arriscou um diálogo. Sua pretensão foi recompensada com os comentários que ela fazia ao que ele dizia.

Ficaram amigos, mas ele, por mais apaixonado que estivesse, não se iludia de que pudesse ter alguma chance.

Teve. Demorou, mas teve não só uma chance, mas toda as oportunidades que o universo, em conspiração, lhe ofereceu.

Ele não perdeu nenhuma delas. E todas as noites ia dormir achando que estava no meio de um sonho.

Era um sonho. Um sonho real, palpável. Um sonho repleto de forças e fraquezas. Um sonho pleno de amor.

Ficou ainda mais surpreso quando ela lhe disse que o achava inacessível. Ele era o que ela sempre sonhara.

Decidiram não acordar mais.

Mesmo que parecessem estar acordados aos olhos do mundo. Aos deles viviam uma felicidade que não se achava em lugar nenhum.

E, por incontáveis eternidades, se amaram impossivelmente.