segunda-feira, 31 de janeiro de 2011

Santa Julienne

Maristela não teve dúvidas quando resolveu desmanchar o namoro com Arnaldo. Não existia amor, nem os melhores momentos justificariam continuar com aquilo.

Arnaldo ficou arrasado. Estava perdendo não só a namorada mas a companheira de esportes radicais. Com quem, agora, ela poderia praticar alpinismo e caiaque? Quem estaria ao seu lado nas trilhas noturnas?

Ela estava irredutível, nenhum dos seus argumentos parecia sensibilizá-la. Apelou para a chantagem emocional.

Lembrou que os dois estavam inscritos em parceria num curso de windsurf. Relembrou-a dos jantares à luz de lamparina às margens do rio Tubarão. Chegou a lembrá-la que ela ia ficar sem o único massagista que tinha resolvido seu crônico problema de músculos adutores.

Nada. Maristela nem piscou. Disse que nada na vida a faria mudar de idéia.

Arnaldo se conformou e resolveu levá-la de volta para casa. Já na porta do seu prédio perguntou se ela queria de volta o descascador de legumes a "julienne" que ela lhe havia emprestado.

Maristela irrompeu em lágrimas, começou a chorar aos soluços, sem parar. Se atirou nos braços de Arnaldo, que não entendeu mais nada.

Quando ela, finalmente, conseguiu voltar a falar lhe disse: " - eu fico sem paixão, sem aventuras, sem muriçocas, mas eu não vou sobreviver sem a sua "julienne" de legumes. "

Nunca mais falaram em separação

sexta-feira, 14 de janeiro de 2011

Sinestenoite


Sons da noite
Um motor barulhento
Um vizinho espirrando
Rumor de vento

Sabores da noite
Uma chávena de chá
Lembranças de trufas
Castanha do pará

Visões da noite
Cravos na varanda
Nuvens espaçadas
Falas de Miranda

Sensações da noite
Pasta sobre os dentes
Lençóis de muitos fios
Cabelo sem pente

O perfume da noite
De sonhos é feito
Um só aroma
Único e perfeito

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Quente, muito quente


Arnaldo bateu o olho na geladeira da mercearia e seus olhos brilharam: salsichas Frigor Éder, aquelas mesmas que comia na sua infância. Salsicha fresca, não aquelas porcarias de pacotinhos que continham muita soja e quase nenhuma carne.

Mostrou para a namorada e disse que aquela noite ia comer cachorro quente. Marilda, que também gostava do acepipe lamentou que já tinha se comprometido com a irmã de jantar na casa dela. Fez Arnaldo prometer que voltariam outro dia à mercearia e comprariam mais salsichas.

Salsichas frescas, como é de domínio público, não devem ficar guardadas de um dia para o outro e, em hipótese alguma, podem ser congeladas.

Continuaram as compras e, já no caixa, Arnaldo falou para Marilda que o que ele queria mesmo era que ela fosse para a casa dele comer o seu cachorro quente.

Marilda não teve tempo de responder, quando a moça do caixa falou que estava com inveja dela, bem que gostaria de comer aquele cachorro quente, até porque estava morrendo de fome.

Marilda foi ficando rosa, vermelha, púrpura, roxa... Arnaldo que colocava as compras nas sacolas só percebeu o que estava acontecendo quando ouviu a caixa, aos gritos, pedindo socorro.

Marilda tinha agarrado a moça pelo pescoço e a mirava com um olhar de ódio que, sózinho, seria capaz de matar uma baleia azul.

Por sinal, azul era a cor que estava a moça do caixa, de pavor e de cianose provocada pelo sufocamento que sofria.

Foi preciso de Arnaldo, do dono da mercearia e mais outro cliente que estava na fila para tirar as mãos de Marilda do pescoço da moça.

Arnaldo não estava entendendo nada do que acontecia, até quando, arrastando Marilda para fora da mercearia, a ouviu gritando para a caixa:

" - Jamais, jamais, sua vagabunda, se ofereça de novo para comer o cachorro quente do meu homem!"