quinta-feira, 30 de dezembro de 2010

Um ano e tanto

2010 não foi um ano qualquer. Grandes mudanças aconteceram. Anos de perdas e de ganhos, de montanha russa emocional e, certamente de muito aprendizado.

Trabalhei bastante, mais do que gostaria e menos do que poderia. Quem sabe se algum dia eu ganhe na loteria e pare de trabalhar, é verdade que minhas probabilidades são muito reduzidas considerando o fato de que eu não jogo, acho que esse cálculo nem meu amigo Rogério que é estatístico conseguiria fazer.

Trabalhei na igreja até meados do ano. Parei temporariamente. Pretendo voltar assim que me queiram de volta, não me entendo como um cristão se não estiver trabalhando. Agradeço meus alunos que continuam sentindo saudades das minhas aulas.

Minha militância inclusiva se manteve. O ritmo foi um pouco menor mas continuei batendo pernas para falar a respeito de um mundo onde todos os seres humanos sejam considerados seres e humanos e onde a educação seja de fato um direito indisponível.

Conheci pessoas novas nesse meio. Me encontrei com outras que só conhecia pelas telas de computadores. Me surpreendi com o empenho e a luta de muitos. Me decepcionei com a postura de alguns, mas nada que me tirasse do sério.

Os blogs andaram bem até o começo de Junho, depois entraram em férias e voltaram no final de julho num ritmo bem mais leve. As mudanças pelas quais passei bagunçaram um bocado a minha cabeça. Não sei se vou voltar a escrever no ritmo insano que escrevia, mas também não pretendo parar.

Os filhos cresceram, em tamanho e amadurecimento. Dou graças a Deus por ambas as coisas.

Não reclamo dos "amigos" que perdi. Eles apenas revelaram que tipo de pessoas que eram, que vivam em paz.

Por outro lado comemoro os amigos que se mantiveram e aqueles que na hora que eu realmente precisava apareceram sem que eu esperasse.

Não preciso citar nomes, tanto uns como outros sabem em que categoria se encaixam.

2011 marca o começo de uma nova década, a segunda do milênio. Certamente será um ano de muitas novidades e outras conquistas.

Vamos à luta.

Um abraço carinhoso a todos que me acompanharam até aqui, conto com vocês

Fábio

PS: você me pergunta...e o coração? Bem, como diria Drummond: "...o coração continua..."

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Para o levantamento de muitos

“Eis que esse menino está destinado tanto para a ruína como para levantamento de muitos....e para ser alvo de contradição, para que se manifestem os pensamentos de muitos corações” (Lucas 2 :34-35)


Quando o menino Jesus foi apresentado no templo, ele encontrou o velho e piedoso Simeão que falou as palavras acima a seu respeito. Palavras doces para os que crêem, palavras duras para os que não entendem o seu sentido.

A cada Natal eu me impressiono como essa contradição fica mais aparente. Como alguns entendem essas palavras e como tantos se distanciam do sentido da comemoração, a ponto de muitos dos cartões que eu recebo, analógica ou digitalmente, sequer mencionarem o Natal, limitando-se a desejar boas festas.

Para essas pessoas, o final do ano vai ser só mais uma oportunidade de comer e beber, talvez ganhar presentes. Talvez só um momento de desejar que 2011 seja melhor.

Nós também desejamos que 2011 seja melhor para vocês todos, que seja o ano em que aqueles que ainda não tiveram a oportunidade de encontrar Jesus Cristo possam fazê-lo e que a manifestação do seus corações e dos seus pensamentos possa ser aquela que demonstre que foram levantados para a vida.

Fábio Adiron, Samuel e Letícia

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Crítica teatral

Alguns autores buscam em sua vida real ou imaginária os temas para desenvolverem suas produções artísticas. Esse fato é mais ou menos perceptível a cada novo texto e varia muito de autor para autor.

Por outro lado, existem escritores que conseguem extrair de fatos corriqueiros todo um edifício ficcional que beira o delírio lisérgico.

Esse é o caso da nova obra do teatrólogo galês Oso von Bach, o monólogo "Uma mulher exaltada", atualmente em cartaz no teatro da Aldeia Circular.

A protagonista, interpretada magistralmente pela atriz Elisabeth Bell estrutura-se sobre uma série interminável de pequenos fatos e cada uma das reações ensandecidas da personagem.

A forma como von Bach cria situações absurdas alterna momentos hilariantes e deprimentes. Nem na mais profunda alucinação de uma mente corroída por ácidos nefelibáticos tais situações beirariam sombras de uma existência factual.

O auge da peça e da interpretação de Bell acontece no momento em que ela descreve como se exaltou quando encontrou um cílio do marido caído dentro do box do banheiro e como o convenceu a passar goma arábica nos olhos antes de cada banho para que tal fato nunca mais se repetisse.

Seres como a mulher exaltada de von Bach certamente não existem e, se existissem, viriam de outros planetas.

quinta-feira, 16 de dezembro de 2010

A tupida antologia de Novembro

A regra do jogo é simples. Leia os comentários que foram publicados no blog no mês passado sem voltar aos textos originais. Para cada um deles imagine a sua própria história:



O que vc fez com as coitadas das rosas?

ele tenha terminado morrendo por causa de uma glicemia alta

muita estranha essa geleia...

será que terei o mesmo fim?

Sem querer estragar a beleza da mitologia celta, mas vou resignificar minhas palavras

continuo seguidor fiel das tuas traições

acho que meus neuronios ainda estão embriagados

mamãe também é gente!

Esse post foi inspirado na minha enxaqueca, pode confessar!

eu já ouvi essa orquestra de pulgas amestradas,lá na Praça da Sé...faziam fundo musical,pra uma pregação sobre o livro de Jó...

E vai saber quem elas tinham mordido antes né?

Fiquei zonza, de olhos esbugalhados e nó na língua...

Será que dizem isso ser careta?

Isso é o que acontece com quem confia demais

quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Novo golpe na praça

Seus amigos não acreditaram quando ele disse que estava deixando sua casa. Não que achassem que ele fosse feliz com Raquel, mas sabiam que ela nadava em dinheiro, como que Ronaldo iria perder esse boquinha, pior, de forma voluntária?

Quando casaram ninguém achou que ele estivesse aplicando o golpe do baú*, Ronaldo não era milionário mas também não era nenhum pé rapado. Raquel era proprietária de uma indústria muito bem sucedida. Quando abriu a financeira para vender seus produtos no crediário ficou mais rica. Quando um banco estrangeiro comprou a financeira e a indústria ela ganhou o suficiente para viver lautamente as próximas 31 encarnações.

Claro que Ronaldo foi beneficiário da fortuna de Raquel. Conheceu o mundo, passou a frequentar os melhores restaurantes, só viajava de primeira classe ou de aviões particulares, tinha até um helicóptero para levá-lo onde quisesse, na hora que quisesse.

Nada disso seduzia Ronaldo. Ele não aguentava mais viver cercado de seguranças armados, não tolerava o puxa saquismo nas festas, nem o assédio de quem sempre tinha um ótimo negócio para lhe propor ou vender. Além disso, depois de enriquecer, Raquel nunca mais lhe dedicara a mesma atenção e o amor de Ronaldo foi arrefecendo até acabar.

Quando os amigos perguntaram quanto ele ia levar na separação ficaram ainda mais perplexos. Ele não ia levar nada, não queria nada que o lembrasse da vida de luxo. Ia pegar a mochila que tinha desde os tempos de mocidade, colocar as roupas que coubessem nela e ia embora. Não sabia para onde, nem como. Mas era um idealista, ia em busca da felicidade.

De fato, dias depois estava em todas as colunas de fofoca dos jornais, a socialaite Raquel tinha sido abandonada pelo marido. Ninguém, nem os melhores amigos sabiam do paradeiro de Ronaldo. E ninguém nunca soube que ele tinha se instalado numa pensão num vilarejo do interior do estado, casara de novo com uma moradora local e nunca teve nada além do que coubesse na sua mochila.

Por isso, até hoje, quando se fala de golpe do baú, sempre alguém lembra que também existe o golpe da mochila, praticado por seres românticos e felizes.

*Um baú é uma caixa retangular, geralmente de madeira, com tampa convexa e coberta de couro cru. Costumam ser grandes e fundos, podendo transportar uma grande quantidade de roupas e objetos. Era muito utilizado pelos nobres nas suas viagens. Pessoas ricas tinham muito o que carregar consigo, daí a origem do termo golpe do baú, ou seja, uma pessoa que se casa com alguém muito rico, apenas interessado nas suas posses.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Caparidáceas

Ele sabia que aquele era o jantar da sua vida. Não poderia cometer nem um erro, nem um deslize.

Depois de muito tempo ele finalmente tomara coragem de convidá-la para jantar na sua casa e, surpreendentemente, ela aceitara o convite.

Justo ela que sempre lhe pareceu ser a estrela inatingível. Até o seu melhor amigo tentou dissuadí-lo de qualquer tentativa. Era areia demais para seu caminhão.

Dormiu muito pouco nas noites que antecederam o encontro. Noites em busca de pratos perfeitos, testando e retestando as receitas. Recorreu a um sommelier para escolher os vinhos.

Nada. Nada podia dar errado. Nada.

Quando ela chegou a mesa da sala parecia um restaurante de luxo. Louça inglesa, taças de cristal tcheco, talheres de prata e guardanapos bordados a mão.

Serviu a salada de endívias com queijo de cabra e amêndoas com um vinho suave. A carne assada com um molho de alcaparras, acompanhada de risotto milanese e de um borgonha valente, mas macio.

Não se arriscou na sobremesa, preferiu comprá-la na doceria mais famosa da cidade e serviu-a com Sauternes.

Conversaram muito a noite toda. Inclusive sobre os pratos que ela queria saber como tinham sido feitos. Ela tentava disfarçar, mas estava encantada.

Meses depois, já namorando firme ele sugeriu de repetir aquele primeiro jantar. Ela disse que tudo bem, mas pediu que ele não usasse alcaparras...

Descobriu que ela odiava alcaparras.

Perguntou por que ela não tinha falado nada naquela noite. Ela deu um sorriso maroto. Ele entendeu tudo. O amor superou até as alcaparras.

Olhou apaixonado para ela e prometeu um jantar sem alcaparras. Ela olhou no fundo dos seus olhos e lhe disse:

" - Ah...só mais um detalhe, as facas ficam à direita do prato..."

domingo, 12 de dezembro de 2010

O melhor caminho

" - ZYD456, a sua Rádio Tráfego (não confundir com tráfico que é sempre um mau caminho) indicando os caminhos menos péssimos para se deslocar na cidade. Patrocínio exclusivo da Norte Oceânia - "Não há turba que me perturbe" e apoio inestimável da CET - Companhia do Engarrafamento do Trânsito, sem a qual essa rádio não existiria.

Abrimos nossos microfones agora para os nossos ouvintes. Conte de onde você vem e para onde vai, e nós te ajudamos a chegar. Na linha está o Astrogildo. Fala Astrogildo, onde é que você está encalacrado..."

" - Oi cara...preciso de ajuda. Eu estou indo de Guarulhos para Santo Amaro, peguei a Marginal Tietê e o trânsito está fluindo bem demais, será que não pode me dizer como é que eu faço para pegar um engarrafamento?"

" - Astrogildo, o melhor caminho é exatamente esse marginais Tietê e Pinheiro até a ponte João Dias, está tudo livre, em 15 minutos você chega lá..."

" - Mas eu não quero chegar em 15 minutos, não tem um caminho pior? Não tem nenhum acidente de moto na 23 de Maio ou na Washington Luiz?"

" - Astrogildo, eu não estou entendendo, você quer pegar congestionamento?"

" - O pior que tiver...por favor...

" - Bem... eu não estou entendendo, mas capotou um caminhão de óleo diesel na Avenida do Estado, quem cair lá vai passar a noite toda parado..."

" - Perfeito...vou voltar e pegar a ponte das Bandeiras..."

" - Mas me explica por que quer passar a noite preso no trânsito..."

" - Ah...é simples, o tanque do carro está cheio, mas eu não tenho um tostão para pagar nem um drive-in, e preciso de uma boa desculpa para ela chegar tarde em casa...click"

" - ZYD456, a sua Rádio Tráfego indicando os caminhos mais péssimos para namorar na cidade

sábado, 11 de dezembro de 2010

Cefalalgia

Não era nada diferente do que acontecia entre outros casais. Mariana algumas vezes estava com dor de cabeça e, quando isso acontecia, Jorge ficava desconcertado olhando para o teto.

Acontece que, num dia em que Mariana realmente estava com uma dor de cabeça infernal Jorge não se conteve e disse que ia ser com ou sem dor de cabeça. Mariana ensaiou um protesto, mas acabou cedendo. Era melhor aguentar a dor de cabeça do que se arranjar outra.

O que ela não esperava é que mal tinham acabado, a dor de cabeça desaparecera completamente. Quando comentou isso com Jorge ele deu um riso irônico, até parecia que ele tinha acreditado na tal da dor.

Mas Mariana sabia que a dor era real antes e inexistente depois. Tentou entender o que tinha acontecido, não conseguiu e resolveu que aquela situação precisava de uma comprovação científica.

Dias depois Mariana teve um dia cheio de reuniões externas. Ficou muito tempo na rua, debaixo de sol forte. As pontadas na cabeça começaram no final da tarde. Ao chegar em casa não teve dúvida, preparou um jantar romântico para esperar Jorge. Foi tiro e queda. A dor de cabeça que piorara com o vinho do jantar, sumira horas depois.

No dia seguinte Mariana jogou fora todos os seus analgésicos. Não precisava mais deles. Se a dor surgisse, Jorge era o seu remédio.

Depois de algumas vezes ele mesmo começou a acreditar na história e passou a ligar para a mulher quando voltava para casa para saber como estava a cabeça. Quando ela dizia que estava ótima ele imediatamente puxava algum assunto que a preocupasse. Ela brincava que ele só dava dor de cabeça para ela.

Chegaram as férias e foram para a praia. Naquele ambiente tranquilo e despoluído Mariana não tinha suas habituais dores de cabeça. Dias se passaram sem nada acontecer, até porque Jorge se acostumara a só intervir em caso de dor. Nem as invenções de Jorge para deixá-la tensa funcionavam.

Chamada pelo vizinhos que ouviam os gritos de Mariana, a polícia encontrou Jorge segurando a mulher pelo pescoço e batendo sua cabeça na parede

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A cor do som

Elisa chegou em casa cansada e nervosa. O dia, definitivamente, não tinha sido dos melhores. O calor acentuara a sua dor de cabeça, o chefe a culpara por um erro que não era dela e quando ela pediu ajuda a um dos colegas de trabalho ainda teve de ouvir que ele não era mágico para resolver os problemas do mundo.

Olhou para o relógio e ficou ainda pior, faltava um pouco mais de uma hora para os seus convidados chegarem e ela nem tinha começado a fazer o jantar. Entrou no chuveiro, tomou um banho rapidíssimo e voou com as suas tarefas.

Arrumou a mesa enquanto a carne assava no forno, arrumou os vasos de flores, escolheu os discos para tocar durante o jantar, colocou a água no fogo para cozinhar o macarrão. Estava dando os últimos retoques na salada quando seus amigos começaram a chegar.

Depois de muitos anos iria rever parte da turma da faculdade. Mantinha um contato remoto com alguns deles e mais próximo com duas amigas.

Ela não via André desde o dia da formatura, mas lembrava da admiração que nutria por ele. Sempre fora um aluno acima da média e, mais do que isso, era o único rapaz da turma que gostava de jazz. Através dele ela descobrira Benny Goodman, Artie Shaw e George Shearing. Nunca esquecera do dia em que ele apareceu com um programa do Free Jazz e ficou explicando sobre cada um dos shows.

Nesse momento se tocou que não tinha colocado nenhum disco de jazz na sua seleção e, com os convidados em casa não dava para ficar procurando algum que agradasse André.

Os amigos conversaram bastante, comeram bastante e beberam bastante. Elisa só acompanhava o jantar sem muito ânimo. Questionada por uma das amigas respondeu que estava com um pouco de gripe, desculpa que funcionou bem para quase todos, menos para André. Ele percebeu que existia algo além daquilo.

Aliás, não foi só nisso que reparou. Passou a maior parte do jantar olhando para Elisa. Tinha lembranças da menina tímida da faculdade, na época ele nunca sentira nada por ela. Naquele momento reparou que era uma mulher fabulosa e que precisava saber mais a respeito dela. Lamentou que a circunstância não ajudasse.

Já passava da meia noite quando os amigos começaram a ir embora. Elisa, que tinha percebido a forma como André a olhava sentia um misto de alívio (ia descansar) e de decepção (queria entender melhor os olhares dele).

André, que ainda ia levar outras duas colegas para casa, começou a despedir-se de todos. Ao chegar na porta para despedir-se de Elisa, a abraçou e disse no seu ouvido: "- Adorei a trilha sonora!". Elisa derreteu-se toda por dentro. Estava apaixonada.

No dia seguinte André ligou para Elisa para saber se ela estava melhor. Convidou-a para irem a um show no Bourbon Street no fim de semana seguinte. Começaram a namorar ouvindo Pizzarelli. Casaram dois anos depois.

E durante o casamento colocaram a trilha sonora daquele jantar, acabando de vez com todos os anos de solidão.