sábado, 30 de outubro de 2010

Para sempre

Para A & B, meus modelos de vida a dois

Ela me olhou com aqueles olhos verdes que sempre me emocionaram e me disse que estava com saudades do seu amor.

Não falava de forma amargurada mas estava claro que aquilo a incomodava.

" - Mas ele viajou ontem à noite... além disso vai ficar fora somente três dias", falei, tentando fazer com que ela não se sentisse triste.

"- Eu sinto saudades quando ele vai até o banco e volta em meia hora. Três dias são uma eternidade, além disso estou só desde ontem à noite..."

" - Você sabe que ele precisa trabalhar, isso faz bem para a cabeça dele", insisti.

" - Eu sei... eu sei... eu sei que é bom para ele, mas, o que eu sinto? Não tem o mesmo valor?"

" - Claro que tem, mas ele ainda trabalha só para poder te mimar..."

" - O melhor mimo que ele pode me dar é ficar comigo o tempo todo."

E encerrou o assunto.

Fomos tomar um chá com torradas e conversamos sobre lembranças da família.

Fui para casa convicto que o amor existe. Que a paixão resiste ao tempo e, quando isso acontece, nem os quase 60 anos de casamento são capazes de mitigar as saudades.

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

As águas rolaram

Minha amada amantíssima adorada,

Eu sei que nos desentendemos a respeito de um assunto muito importante para você. Sei que não deveria ter me exaltado como aconteceu. te peço perdão.

O que sei é que quando olhei aquela grelha prateada, reluzente, redondinha, eu me empolguei a ponto de quase me colocar de joelhos diante dela, tal foi minha vazão.

Imediatamente você sifonou-se e reclamou que a grelha não tinha caixilho. Eu demonstrei todo o meu desdém pelo caixilho. Quem precisa de caixilho quando se tem uma grelha perfeita?

Seu olhar foi fulminante. Sua reação ameaçadora. Para você, grelha sem caixilho é algo intolerável e, mesmo sabendo disso, achei que era apenas uma frescura e comprei meu objeto de desejo.

Você nem falou mais comigo ontem à noite. Hoje encontrei seu armário vazio e seu bilhete cravado com um facão na porta do banheiro: "Adeus seu crápula, você jogou nosso amor pelo ralo".

Volte para mim, meu amor, eu já resolvi tudo. No nosso lar, nunca mais, uma grelha ficará desencaixilhada.

terça-feira, 26 de outubro de 2010

O triste fim de Ananias

Quando André contou para sua irmã que tinha comprado um aquário ela estranhou. Ele nunca fora muito dado a animais de estimação e não era um homem de se preocupar muito com o que acontecia à sua volta.

Mesmo assim ela não disse nada e ficou torcendo para que ele se desse bem com seu peixe. Ele era um sujeito solitário, acostumado a viver para si mesmo, quem sabe a companhia de outro ser o transformasse num homem melhor.

De fato, nos primeiros meses André cuidou bem de Ananias (como batizara seu peixe Beta, espécie que ele escolhera justamente por ser a que exige menos cuidados do dono). Trocava a água do aquário duas ou três vezes por mês, alimentava-o com frequência (ainda que não poucas vezes esquecesse de tirar o excesso de comida) e, surpreendentemente, conversava com o bichinho.

Claro que ele deu algumas mancadas no caminho. Uma vez colocou queijo ralado no aquário no lugar de ração. Em outra esqueceu o aquário do lado da janela e quase matou Ananias de calor. Mas o peixe era realmente resistente e parecia tolerar qualquer falta de cuidados a que era submetido.

Para o azar de Ananias, tudo mudou no dia em que André saiu de férias e ficou mais de um mês fora de casa. Ele foi bem tratado pela irmã enquanto o dono viajava mas, ao voltar, André parecia ter voltado ainda pior do que sempre fora. Passou a negligenciar a alimentação do bichinho, as trocas de água foram rareando e a preocupação com a temperatura passou a ser nenhuma.

Ananias começou a dar sinais de que o descuido não lhe fazia bem, mas André não reparava em nada, só se preocupava em cuidar dos seus afazeres pessoais e em coisas que lhe trouxessem algum benefício pessoal, o peixe não era uma delas.

Quase sem comer e vivendo num ambiente poluído Ananias piorava dia-a-dia. Até o ponto em que André passou a esquecer completamente de alimentá-lo (ainda que sempre voltasse da rua com seus sacos de salgadinhos que consumia vendo televisão).

Uma manhã, ao entrar na sala, André encontrou Ananias boiando de barriga para cima. Desesperou-se. Como é que seu velho amigo fazia isso com ele? Imediatamente trocou a água do aquário, levou-o para o banheiro que era mais fresco. Descobriu que não tinha nenhuma ração na dispensa e saiu para comprar.

Nos dias seguintes fez de tudo para ressucitar o peixe. Colocava ração de duas em duas horas (as sobras eram totais), trocava a água todo dia, chegou mesmo a colocar um termômetro ao lado do aquário. Todas as noites conversava com o cadáver de Ananias, cutucava suas barbatanas e falava que ele não podia morrer, que ele não sabia mais viver sem ele. Claro, inutilmente.

Só se conformou com a morte do bicho quando esse começou a se decompor e cheirar mal.

André perdeu o humor, mas não perdeu a pose. Quando a irmã lhe perguntou o que tinha acontecido com Ananias, André foi taxativo : "Morreu por culpa dele, quem mandou ser um peixe suicida?"

domingo, 24 de outubro de 2010

Aforismos tergiversantes

Quem pensa, com seus males se espanta

Se você anda no mundo da lua, por favor, não pise nos selenitas

Não ser invasivo é uma boa desculpa para ignorar as pessoas

Alguns seres humanos não tem a capacidade de serem humanos.

Discordar é o caminho mais rápido para te dizerem que você está errado

A fusão do frio e do quente só gera relacionamentos mornos

Quem ama o feio julga-se na vanguarda estética

Senso comum não é fácil de achar mas, raríssimo mesmo são aqueles que tem senso incomum
(obrigado Mario Fantoni, sujeito de senso incomum)

sábado, 23 de outubro de 2010

Sul para sempre



Meu olhos sempre estiveram voltados para o sul como se eu nunca tivesse um norte na vida.

O sul que me deu amigos de rara inteligência e de grandes discussões filosóficas e intelectuais.

O sul da Rejane, da Izabel, da Ana Mello. O sul do sempre brilhante Fabrício Carpinejar, que ontem fez aniversário.

O sul que me deu o som de Victor Ramil com suas estrelas solitárias e suas milongas plangentes.

O sul que mais ao sul me trouxe Borges e Cortázar. Amigos de todas as horas que moram nas minhas estantes e armários.

O sul que me ensinou a gostar dos tangos de Lesica e de Piazzolla

Meus olhos se voltam ao sul, imensa lua, céu ao revés.

Volto ao sul, para dele nunca mais sair.

Vuelvo al Sur,
como se vuelve siempre al amor
vuelvo a vos
con mi deseo, con mi temor
Llego al Sur
como un destino del corazón
soy del Sur
como los aires del bandoneón
Sueño el Sur,
inmensa luna, cielo al revés
busco el Sur
el tiempo abierto, y su después.
Quiero el Sur,
su buena gente, su dignidad,
siento el Sur,
como tu cuerpo en la intimidad.
Vuelvo al Sur,
llego al sur
te quiero

Convite à viagem


Là, tout n'est qu'ordre et beauté,
Luxe, calme et volupté.
(Charles Baudelaire)



Quero viver no país
Que se espalha em quinze
tonalidades de azul
Onde os mares
sejam senhores
de norte a sul

E o amor seja sempre
Luxo, calma e volúpia

Os móveis de cada casa
polidos com o brilho
do teu suor
As flores reproduzam
teu perfume
teu odor

E o amor seja sempre
Luxo, calma e volúpia

Quero cada eternidade
como o primeiro
fruto da espiga
Acordar todas manhãs
Com o mesmo
frio na barriga

E o amor seja sempre
Luxo, calma e volúpia

E quando a morte chegar
que seja num café
onde habita a cultura
E Um só sonho
Um só corpo
A nossa sepultura

O amor enfim será
Luxo, calma e volúpia

sábado, 9 de outubro de 2010

A irrefreável antologia de Setembro

Eu voltei a escrever e meus comentaristas voltaram com a corda toda, foi difícil selecionar os comentários mais surreais.

Aí vão meus escolhidos do mês. Se você não foi escolhido vai precisar beber mais cicuta nesse mês.

talvez eu precise de uma dose de álcool...

levei tanto puxão de orelha, por conta das benditas bergamotas...

fiquei com medo do bafômetro.

eu quero mesmo,de verdade,é conseguir dormir..

às vezes tenho a sensação de que vaguei por algum sonho alheio

E lá vou de novo fazer a recuperação paralela.

se não for insana o suficiente eu me enforco num pé de coentro!

Sinto dizer, mas a sua Maria fugiu com os 7 Boys!

eu daria o maior bolo nele e iria cantar em outras padarias

"Anauê" !!!!Eu estou com você!!!!!

Será que a Monastra sabe o que é Ftalocianina?

Ftalocianina,dá o mesmo efeito que fluoxetina?

mas que chulé logo de manhã...

a DDA aqui tá em forma!!!

Que o dia 1 seja o pior dos dias do resto de sua vida!

você só precisa tomar cuidado para não se apaixonar pelo urologista...

João,na verdade era bipolar...

Marquei uma reunião com Mr Google para às 10:00

minha coleção de discos de vinil ficam para você.

será por causa da minhoca que era guardiã das especiarias?

Não há sobreviventes de ontem?

Eu achava que você era gordo! :-)

Quase engasguei com o café quente..

sábado, 2 de outubro de 2010

Modelo de amor

O manequim negro em roupas esportivas era um cara saradão. Barriga tanque Brastemp de 10kg, bíceps musculosos e proporcionais, lábios finos. Rosana, que trabalhava na loja ao lado apaixonou-se pelo boneco.

No começo as colegas de trabalho acharam que era só mais um chiste de Rosana. Ela era uma moça brincalhona e esse tipo de piada era bem peculiar dela.

Não era. Ela realmente nutria sentimentos pelo boneco, a ponto de tratá-lo por apelidos carinhosos e, não poucas vezes, sacrificar seu horário de almoço para ficar falando com ele.

Nos dias em que trocavam a roupa do manequim ela passava o dia suspirando. Sua gerente já andava preocupada, mas reconhecia que seu desempenho como vendedora tinha melhorado muito desde que se apaixonara.

Rosana começou a assediar o dono da loja do manequim, queria comprá-lo a qualquer custo. Temendo que o boneco fosse usado na loja concorrente ele recusava qualquer oferta que ela fazia. Ela chegou mesmo a propor-se trabalhar para o dono do manequim se ele o vendesse para ela. O dono da loja concluiu que ela era louca e nem conversava mais com Rosana.

Uma manhã, ao chegr ao trabalho, Rosana notou que o manequim tinha sumido da vitrine. Em pânico, correu em direção à porta da loja. Estava lacrada com um aviso da justiça decretando a falência da loja e confiscando todos os bens do negócio.

Ela nem quis saber. Comprou um taco de golfe na loja de esportes, arrebentou a vitrine, invadiu a loja em busca do seu amor. O alarme toca e ela precisava ser rápida antes que os seguranças chegassem.

Encontrou sua paixão dentro de um armário. Nú e abraçado a uma manequim de peruca loira.

Louca de ciúmes arrebentou os dois a tacadas e só parou quando foi presa.