domingo, 26 de setembro de 2010

Sous plat

Quando acabou de abrir seus presentes de casamento Rogério olhou desapontado para Marisa. Não tinham ganho o jogo de sous plat que ele marcara em todas as listas de presentes. Marisa sorriu amarelo e disse que depois cuidariam disso.

Os anos se passaram e, todas as vezes que Rogério via sous plats nas lojas dizia que ia comprar. Nunca conseguiu.

Marisa sempre dava alguma desculpa para adiar a compra. Ora que não tinham dinheiro, ora alegava que recebiam poucas visitas. Mais de uma vez disse que sous-plat era coisa de restaurante, não de casa.

Quanto mais adiavam a compra, mais frustrado ficava Rogério. Até pensou em comprar sozinho, mas sabia que a mulher ficaria exaltada se ele fizesse isso.

As desculpas se sucediam. Num determinado momento a frustração começou a virar ressentimento. O ressentimento em ódio.

Marisa achou que a distância de Rogério era infidelidade. Só podia ter arranjado outra. Começou a seguí-lo pela rua.

Um dia viu-o entrando em um flat. Esse deveria ser o ninho de amor do canalha. Entrou atrás e perguntou na recepção qual era o apartamento de Rogério. A recepcionista a questionou sobre o seu nome e disse que ela não estava na lista de convidados. Marisa alegou que só tinha recebido o convite há pouco.

Subiu bufando. Convidados? Que tipo de bacanal ele estaria fazendo?

Tocou a campainha. Rogério surgiu à porta de avental. Ao ver Marisa começou a rir enquanto ela invadia o apartamento.

A mesa, posta para quatro pessoas. Todas com direito a sous-plat. Roxa de vergonha, Marisa foi em direção à saída, onde Rogério lhe pediu que ela arrumasse as suas malas e as deixasse na portaria.

sexta-feira, 24 de setembro de 2010

Uma lição de tango

Por una cabeza (Carlos Gardel e Alfredo Le Pera), tocado por Tango Project

Minha parceira no video é minha professora Melissa

When you undertake to dance the tango you become ready to move beyond life's fears. You acquire a way to celebrate life's romance. You dance of dreams: of passion, tension and release, frustration, conflict, separation from home and loved ones, and of resolution. You dance of your destiny in the making

Argentine Tango is to lead and follow, to step to & fro, to turn right & left, to move together as one body. To Tango is to trust, to pause, to dance in a close embrace, articulating the unfolding of desire into passion. (Hugo Heyman)


quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Cortina de fumaça

Arnaldo nunca fora ciumento mas, já há algum tempo, começara a desconfiar do comportamento de Veronica. Ela passava mais tempo fora de casa, alguns dias chegava tarde e, mais de uma vez, achou que ela estava com roupa diferente da qual tinha saído.

Começou a questioná-la. Bo começo, de forma discreta, depois de maneira mais incisiva. Ela sempre tinha uma história, sempre envolvendo Magali, sua melhor amiga.

Tinha almoçado com Magali. Ido ao cinema com Magali. Passeara no shopping com Magali. Arnaldo tinha certeza que a amiga estava acobertando Veronica. Tinham intimidade suficiente para isso e a amiga fazia o papel de cortina de fumaça.

Chegou mesmo a aparecer de surpresa no restaurante preferido delas num dia que Veronica disse que ia almoçar com Magali. Quebrou a cara. As duas estavam mesmo almoçando, e riram muito dele.

Arnaldo não se conformou. Alguma coisa existia e ele precisava descobrir. Todas as quartas-feiras Veronica dizia que ia passear com Magali e sempre chegava tarde. Numa dessas quartas-feiras Arnaldo escondeu-se no porta malas do carro de Veronica. Ela saiu no horário de sempre, parou no meio do caminho e pegou alguém cuja voz ele, de dentro do porta-malas não conseguiu identificar.

O carro parou. Ele ouviu as portas fecharem e esperou um pouco para sair. Estava certo, o carro estava estacionado na garagem de um motel. Arnaldo pegou a câmera do celular e se preparou para dar o flagra na mulher e no amante.

Meteu o pé na porta do quarto e entrou aos berros. Veronica assustada, também gritou e escondeu o amante debaixo dos lençóis. Arnaldo mirou a câmera, arrancou o lençol com toda sua força.

E encontrou Magali nua.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Em busca do Graal

No tempo ancestral dos sonhos, de um reino outrora obscuro e pequeno, tornaste-te princesa.

Os becos sujos da alma converteste em alamedas floridas. Perfumadas.

Teu sorriso abriu as portas dos cômodos e incômodos trancados. Envergonhados.

A melodia da tua voz era como o primeiro raio de luz da manhã. Nas tuas mãos o brilho dos cristais.

Hoje as flores sentem a tua ausência, e do perfume que as fez negar seus próprios aromas.

A água das fontes resseca por não poder tocar tua pele e os pássaros aguardam teu comando para cantar.

Soberana desse reino, todos teus súditos esperam o teu retorno das cruzadas.

Enquanto lutas pelo cálice de fogo e sangue, o reino treme de saudades, paralisado.

Com o olhar fixo na estrada pela qual voltarás envolta em nuvens e espuma.

Chegarás portando o Graal e assumirás o trono que a ninguém mais pertence.

Para sempre.

domingo, 19 de setembro de 2010

Em busca de Kalsahad

No deserto da Mauritânia existe uma caverna escondida em meio às dunas do Saara, em algum ponto entre Atar e Tidjikdja. Ninguém nunca souber precisar exatamente a sua localização.

É a morada de Kalsahad, a serpente que salva ou destrói homens que se perdem no deserto. Ao encontrar um viajante perdido ela imediatamente o ataca e inocula o seu veneno. A salvação depende apenas da obediência a ordem do réptil: jamais revelar nada a respeito dela.

Após a mordida, Kalsahad conduz a pessoa à fonte de água da sua caverna e, em seguida guia o viajante até a saída do deserto. Caso algum deles tente contar a história para outro ser humano, o veneno age imediatamente e, em segundos, a pessoa morre asfixiada.

A história da Kalsahad só foi revelada ao mundo quando Timothy Karsten morreu e, entre os seus escritos, foi encontrado o relato de sua passagem pelo deserto, num envelope lacrado dentro do seu cofre, com a recomendação de que quem achasse aquele texto deveria mantê-lo em segredo, sob o risco de ser vítima da maldição.

Carl Schneider, seu assistente e inventariante, entendeu que a vingança de serpente só poderia acontecer naqueles em que ela tivesse inoculado seu veneno e, no dia seguinte, levou a história para Thomas Yale, o editor da revista da sociedade naturalista britânica que, encantado com a descoberta resolveu publicá-la.

A revista ainda não tinha chegado aos seus leitores quando os jornais anunciaram a súbita morte de Schneider. Aparentemente provocada por problemas respiratórios durante uma das suas sessões de sauna finlandesa. Na volta das cerimônias fúnebres, o carro de Yale se desgovernou sobre uma das pontes do Avon e ele morreu afogado, preso dentro do carro.

A revista começou a circular sem que ninguém mais soubesse da origem do texto. E, um a um, os membros da sociedade naturalista começaram a morrer. Nem os melhores detetives da Scotland Yard conseguiram desvendar o mistério da sequência de mortes.

Com o tempo e com as mortes dos seus leitores, os exemplares da revista que continham a história de Kalsahad foram desaparecendo e apenas três deles sobreviveram empoeirados em fundos das bibliotecas de Trowbridge, Macclesfield e Stromness.

Foi justamente durante a minha última visita a Stromness, quando pesquisava a fecundação das tilápias de Loch of Stenness que, numa tarde de nevasca, me refugiei na biblioteca de Outertown Road e, nada tendo o que fazer, comecei a folhear os exemplares antigos da revista da sociedade naturalista e encontrei o relato de Karsten e, dentro da revista os recortes dos anúncios fúnebres de quase todos os membros da sociedade.

Não consegui identificar se o proprietário original da revista tinha sido um dos últimos a morrer ou se, ao perceber seu risco, manteve a publicação escondida. Sei que mudei todo o foco da minha investigação e parti dias depois para a Mauritânia para estudar as víboras do deserto.

Nesse momento escrevo de Jraif, amanhã começo minha caminhada pelo deserto em busca da mítica serpente. Caso vocês não tenham notícias minhas nos próximos meses lembre-se de não encaminhar essa mensagem para ninguém e notifiquem as bibliotecas para que queimem as revistas remanescentes.

Archibald Yorestavish, PhD.

sábado, 18 de setembro de 2010

Nunca olhou para outra

Haroldo era um marido exemplar. Trabalhador eficiente, pai zeloso e cidadão honesto. Se não era mais que um cara burocrático com a mulher, essa também não tinha muitas queixas, vivia sua vida sem sobressaltos.

A máe de Haroldo o considerava o seu orgulho pessoal. Na sua visão materna criara o homem perfeito e sempre que encontrava Soraia, a mulher de Haroldo, ela fazia questão de ressaltar que ele nunca tinha olhado para outra mulher.

Como acontecia todos os anos, no período de declaração de imposto de renda, Haroldo trabalhava até mais tarde todos os dias no escritório de contabilidade. Não era diferente naquele ano.

O diferente é que Soraia começou a captar sinais preocupantes. Um dia Haroldo chegou em casa com fios de cabelos presos no paletó (deve ter sido no ônibus, ele disse). Em outro dia cheirando a perfume feminino (é aquela secretária que exagera na dose e empesteia o escritório com esse cheiro) e até mesmo uma mancha de batom no seu lenço (emprestado a uma colega resfriada, segundo ele)

Desconfiada, Soraia começou a examinar os pertences de Haroldo depois que ele dormia. Começou a encontrar coisas. A primeira foi uma nota fiscal de uma joalheria. Haroldo jurou de pés juntos que era de um cliente do escritório e ele, sem querer, tinha colocado na sua pasta. Inclusive agradeceu Soraia por tê-la encontrado.

Dias depois, um pacote de camisinhas no bolso do paletó. Segundo Haroldo era para o filho mais velho, afinal ele precisava educar direito os meninos.

Soraia engoliu todas as desculpas. Até o dia em que achou uma caixa de Viagra aberta, faltando dois comprimidos. E certamente não tinham sido usados com ela.

Haroldo não teve escapatória. Confessou tudo. Inclusive sua tara sadomasoquista de transar só de olhos vendados. Ele realmente nunca olhava para outra mulher.

quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Um duplo singular

Esquizofrenia é um transtorno mental que caracteriza-se essencialmente por uma fragmentação da estrutura básica dos processos de pensamento, acompanhada pela dificuldade em estabelecer a distinção entre experiências internas e externas e pela multiplicidade de personalidades de uma pessoa.

Não era o caso de João, ainda que muitas vezes o diagnóstico inicial apontasse para isso, depois de algumas consultas os médicos descartavam e ssa possibilidade.

A mãe de João não sabia mais o que fazer com o menino que ora se dizia ser João e, em outras, era apenas João. Quando questionado quem era naquele momento ele sempre dizia a mesma coisa: "- João... ora bolas!". Por outro lado, quando ele mudava de João ele avisava.

João tinha momentos de bom e mau humor, João também. As pirraças não eram de um João específico, tão pouco as brincadeiras. O menino tinha mesmo dupla personalidade, só que as duas personalidades comportavam-se da mesma forma.

Só havia uma exceção: nem todos os amigos de João eram também os amigos de João. Muitos deles eram comuns, outros exclusivos de uma personalidade ou outra. Quando João encontrava um que fosse só amigo de João ignorava-o completamente o que, não poucas vezes, causou confusões. Só depois de algum tempo é que os amigos se acostumaram com a mania do menino.

João só foi ter problemas mais sérios quando, mais velho, começou a namorar. Era comum uma namorada encontrá-lo com outra, claro, era o outro João, mas elas não aceitavam isso.

João e João só foram felizes no dia em que conheceram Maria. Nela encontraram o amor perfeito para eles. A mãe que passou a vê-lo somente com Maria achou que o filho estava curado.

A felicidade durou pouco. Num dos primeiros papos com a nora entendeu tudo. Maria também tinha um desvio de comportamento: era maníaca por bigamia.

domingo, 12 de setembro de 2010

Hoje é o dia 1 do resto da minha vida

Hoje é o dia de ouvir aquelas frases clássicas sobre espírito jovem, sobre a vida começar aos 50 e de dizerem que eu não mudei nada...

Quantas vezes ouvi as pessoas falarem....X anos de idade, mas com um espírito jovem?

Longe de me parecer algo saudável, isso me soa um pouco esquizofrênico : dupla personalidade ? uma no corpo e outra no espírito, não sei não...

Eu prefiro comemorar meu aniversário de verdade, de corpo e espírito que caminham juntos e fazem de mim uma pessoa cada dia mais imatura e menos consistente.

Não faltarão os comentários sobre ser a minha idade a melhor fase da minha vida, assim como sempre as pessoas se referem à idade das crianças.

Também esse tema é objeto das minhas discordâncias. Eu nunca tive uma fase melhor na minha vida, todas elas foram tão boas que é impossível definir uma que tenha sido melhor ou pior.

Assim como o melhor beijo sempre é o próximo, para mim a melhor fase da vida é essa em que estou.

Hoje comemoro meio século e só tenho bençãos a contar e a agradecer a Deus que me sustém.

E, claro, agradecer o carinho, a atenção e o amor daqueles que sinceramente os têm oferecido para mim.

*A minha foto foi tirada pela amiga Mara Regina, a Pérola.

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Poemeto pigmentar


Monastra minha amada
Talvez não seja nada
Talvez em si seja tudo
Ou mudo

Monastra querida minha
Não escute a vizinha
Ela adora uma fofoca
Na toca

Monastra minha flor
Nunca duvide do amor
O meu nunca acaba
Na taba

Monastra minha vida
Se alguém duvida
Da nossa sina
Ftalocianina

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

Anauê

Antes de mais nada gostaria de esclarecer que não sou filiado a nenhum partido político, nem sou eleitor habitual de nenhum deles, pelo contrário, já há alguns anos só tenho votado em uma candidata para vereadora e que, no momento é candidata a deputada federal. Cada dia aumenta mais a minha convicção que a dita democracia representativa não me representa em nada.

Não acompanho a campanha eleitoral desse ano, exceto pelo noticiário do jornal que leio. Não pretendo votar na Dilma, nem no Serra, muito menos na coleção dos micro candidatos. Nenhum deles, por motivos diferentes, me parece adequado ao cargo que disputam e eu sempre fui contra o voto útil.

Também não acho que o governo atual seja grande coisa, é uma mistura de liberalismo econômico tucano, com demagogia assistencial peronista e aparelhamento partidário do estado. Não deixo de reconhecer algumas de suas realizações, especialmente numa área que me diz muito que é a educação inclusiva, definitivamente provocaram uma revolução positiva.

No entanto, o que tem me incomodado muito nessa campanha é o desespero da classe média diante da perspectiva iminente de uma vitória governista ainda no primeiro turno. Pessoas que arrotam democracia, desde que a maioria seja a deles, não a do oponente. E apelam para a ignorância.

A maior delas é a distribuição por e-mails e redes sociais da ficha político criminal da candidata do PT. Esses democratas de araque usam o indiciamento do DOPS como propaganda como se o centro da repressão da ditadura fosse uma fonte confiável e honesta. E não me venham dizer que são pessoas desinformadas que não sabem o que era o DOPS, que desconhecem que muitos morreram e foram torturados nas suas celas.

Portanto são pessoas que concordam com as práticas da ditadura e, por isso, entendem que quem foi preso e perseguido durante a vigência da "gloriosa" não tem a ficha limpa (omitindo, é claro, que o candidato da oposição também era um agitador da Ação Popular na mesma época). Só falta ressuscitarem a marcha pela família e dizer que esse comunistas comem criancinhas. Nem Plínio Salgado (não confundir com o candidato Plínio Sampaio) faria melhor. Devem todos ser eleitores do defunto Coronel Erasmo Dias e do Jair Bolsonaro.

"Desqualificar a pessoa" é um truque de argumentação erística que consiste em atacar um indivíduo enquanto tal em vez de apontar os erros do seu discurso, quando não existem mais argumentos que sustentem a sua tese. Na Grécia antiga a erística era a arte de vencer o adversário num debate. Ao contrário do diálogo filosófico, que usava a dialética com a finalidade de estabelecer a verdade, o uso da erística visava superar o adversário. Era um método usado pelos sofistas nos debates públicos tanto na esfera política, onde era preciso convencer a assembléia, quanto na esfera judicial para convencer os juízes da justiça de uma causa. Não importava se a causa era justa ou não. Os sofistas eram capazes de defender com igual bravura um argumento e o seu oposto. No Brasil de hoje a erística é usada amplamente na mídia, na política, na justiça, no trabalho e também na vida cotidiana. Feio é perder e para superar o outro são capazes de tudo. Pouco importa a verdade, o que importa é vencer.

Da minha parte, tenho aproveitado esse momento para filtrar meus contatos pessoais. Não é esse o tipo de gente que pretendo ter como amigo ou contato de rede social.

Faltando pouco mais de 15 dias para as eleições, vou dar uma limpada nas minhas listas, antes que comece a receber mensagens bradando Anauê!

*Por motivos óbvios a imagem desse texto está publicada à direita de quem lê.

Descrição da imagem: um homem de camisa verde prega na parede o símbolo do integralismo, no poster lê-se o termo Anauê (que quer dizer "meu irmão" em tupi-guarani)

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Panis non conficitur sine farina.

Maria minha broa

Há dias que você não aparece na minha padaria e meu pumpernickel está muito sovado com saudades da sua focaccia.

Você sabe que és para mim mais que uma miga, é o croissant dos meus olhos e o vienoise dos meus desejos

Lembro do dia que lhe dei aquele brioche e você não deu batata para mim. Não me queijo. Depois te conquistei de forma e integral.

Minha baguete anseia pela sua ciabatta, não se faça de banha que o tempo pode ficar preto.

Quero de novo beijar seu chapati e mordiscar suas bisnaguinhas.

Me disseram que andas com um francês, mas eu te vi mesmo foi com aquele cacetinho gaúcho.

Que raiva! se você não voltar, passo minha bengala em ti, sua pita.

Manuel

segunda-feira, 6 de setembro de 2010

Aforismos recorrentes

O silêncio é um grito para ouvidos fechados

Mostre-me como diriges e eu te direi quem és

Sonhos de cristal refletem em todas as direções

A eternidade é feita de um monte de segundos

Não espero a primavera, eu a crio no coração

A mão que apaga é a mesma que viceja

Na iminência da derrota os democratas se transformam imediatamente em fascistas

Como é que as pessoas sobreviveram séculos sem redes sociais?

sábado, 4 de setembro de 2010

A inesquecível antologia do trimestre

Ao invés de escolher um adjetivo esdrúxulo qualquer para batizar a antologia que acabou sendo do trimestre, eu preferi definí-la como inolvidável, ou inesquecível, em homenagem a alguns dos meus leitores que, durante esse período em que estive fora do ar, efetivamente sentiram minha falta e se preocuparam comigo.

Seja aqui mesmo nos comentários, sejam por e-mails ou mensagens em redes sociais, essas pessoas foram muito importantes nesse período de travessia pelo qual eu passei. A todos e a cada um deles (sim, vocês sabem que estou falando de vocês), o meu muito obrigado.

E vamos ao melhores comentários postados no Mens Insana de Junho até Agosto:

estamos todos +-enforcados

vou tomar mais cuidado com o que ando escrevendo

não dê conselhos sem acentos!

...eu morro de medo de provocar um incêndio..

pensar numa Traição esqueirófica?

Se eu fosse traída por um homem que me enviasse o que você postou...

penso que talvez este desencadeasse um pedido de divorcio

Preciso carregar um queijo destes comigo

fico desconfiada se o que vc "fala" é a sério

o nível de acidez da cebola,com o grau de mau humor da minha ilustre família

podemos descartar percorrer a rota para a India

senão iria pensar em comer o notebook

Eu já tava ficando louca de ler tanta coisa "normal".

ela deveria fazer o sinal da cruz três vezes, molhando a ponta dos dedos na água do rio Tietê

Pior é que vou percer meu lugar na antologia... cada dia sou menas importante.

pode servir de eufemismo para assassinato

Ô namorada saborosa ;)!!!

povo doido estes teus seguidores.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Um sonho

Todas as noites, ao deitar, Alexandroff saia de si mesmo e vagava pela vielas escuras das almas alheias.

Não era um ser do mal, apenas um observador atento dos sonhos que invadia.

Percorreu delírios, pesadelos, desejos reprimidos, angústias e fantasias.

Nunca se envolvia em nenhum deles, algumas pessoas invadidas acordavam com a lembrança de um personagem que observava tudo e nada fazia.

Do seu lado, ele não tinha sonho nenhum, apenas os dos outros.

Durante anos a situação se repetiu. Se alguém lhe perguntava se ele sonhava ele dizia que não lembrava de nada.

Numa noite de fim de verão, Alexandroff entrou num sonho que o encantou e, sem perceber foi capturado pelo mesmo.

Pensou que era muito arriscado deixar-se participar da história daquele sonho, mas não conseguiu, ou melhor, nem se esforçou para não ser capturado.

Percebeu que aquele era o sonho que ele nunca tinha sonhado, que era tudo que queria na vida.

Naquele dia deixou de vagar pelas ruas e invadir outros sonhos. Voltava todas as noites para o mesmo espaço onírico.

Notou que cada vez mais precisava do sonho e que, reciprocamente, o sonho não poderia mais existir sem ele.

Quando o enredo se tornava turbulento e convulsivo, mais ele entendia que sua existência era fundamental para que o sonho continuasse.

Fossem quais fossem as circunstâncias da trama ele sempre acordava cheio de energia quando a voz do sonho dizia que, por aquela noite, era tudo.

Tudo que Alexandroff espera é pelo dia em que deixará para trás tudo que foi e finalmente será só um ser em um sonho.

quarta-feira, 1 de setembro de 2010

O espírito de Blaafarveværket

Ninguém sabe exatamente quando foi que Jorge o encontrou, as lendas dizem que em algum dia na década de 30 do século XVIII, enquanto olhava fixamente para um vidro colorido. Uma iluminação, dizem alguns, uma impostura, dizem outros.

O que se sabe é que Jorge, depois de beber alguns copos a mais de bismute (uma variação estoniana do vermute) estava intoxicado pelo demônio das minas.

O germânico espírito maligno infiltrou-se na cozinha de Jorge e decompôs todo o seu faqueiro de prata. Não que ele desse tanto valor assim para os talheres, mas surpreendeu-se com a rapidez com a qual eles se desmancharam no ar.

Concluiu que sua descoberta era uma bomba de efeitos arrasadores e mesmo quando o espírito parecia se decompor, ele se mantinha metaestável.

Depois da morte de Jorge, coube a Jacques conduzir o relacionamento com o elemento perigoso. Sendo Jacques um sujeito multifacetado, assim via as possibilidades de desenvolvimento em todos os demais seres.

Mas só conseguiu converter o espírito em algo promissor em 1803 quando o levou para receber banhos de óleo e o cozinhou com fragmentos de alumínio. No primeiro momento o demônio das minhas não achou graça nenhuma, depois, ao ver que era admirado, rendeu-se à transformação.

Além disso, sua fama começou a se espalhar ultramarinamente e passou a ser convidado de honra em palácios e banquetes. Ele se sentiu no céu.

O que não significa que, de tempos em tempos, ele não apronte alguma, especialmente quando exposto a imagens multicoloridas, mas são apenas travessuras, resolvidas rapidamente lhe dando suco de bergamota.