segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Um dia crítico

Gianluca tinha acabado de sofrer um grande revés. Depois de anos trabalhando fielmente para a mesma empresa fora demitido sumariamente por mascar chiclete na porta do banheiro feminino.

Sua nova chefe era uma feminista radical e entendeu que aquela atitude configurava assédio sexual à estagiária que saia do banheiro no exato momento em que ele estourava a bola da goma de mascar.

Além do desemprego ele teria de enfrentar a penúria. Demitido por justa causa não iria receber um centavo de direitos trabalhistas.

À medida que caminhava para casa pensava em como explicar a situação para a mulher. Ana era amorosa e compreensiva, mas será que seu argumentos a convenceriam que não estava abordando outra mulher? Como explicaria a demissão?

Resolveu preparar o espírito de Ana. Enviou um torpedo dizendo que tinha más notícias. Ela respondeu cheia de interrogações. Disse que tinha sido demitido. Em segundos seu celular tocou.

Contou parte da história, omitindo a cena do chiclete. Queixou-se da injustiça da qual tinha sido vítima. Ana ouviu tudo com carinho e atenção. Disse que para tudo dava-se um jeito.

Um pouco mais animado, Gianluca disse que ia andar no parque para refrescar a cabeça e que mandaria mensagens dizendo como estava, assim não interromperia o trabalho da esposa com ligações.

A caminhada não fez bem para ele e, a cada mensagem transmitia mais a sua angústia e desespero. Ana respondia com palavras de estímulo, mas ele só piorava.

Em sua última mensagem ele dizia que tinha vontade de morrer. Segundo depois recebeu um torpedo de Ana que dizia: “Forca amor”.

Foi o primeiro homem no mundo a suicidar-se pela falta de uma cedilha.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Traição fosfórica

Quem está habituado a frequentar esse blog sabe que eu sou um traidor contumaz, já traí aos montes e quando me dá a coceira eu traio sem perdão.

Dessa vez a vítima foi Jacques Prevért e a sua caixa de fósforos. Não tenho direito a perdão.

Três fósforos

Três fósforos acesos um a um noite adentro
O primeiro mostra teu rosto inteiro
O segundo a refletir o brilho dos teus olhos
A iluminar tua boca o terceiro
E toda escuridão a me lembrar cada pedaço
Enquanto te acolho nos meus braços


Para quem prefere a versão original sem legendas, aí vai:

Trois allumettes une à une allumées dans la nuit
La première pour voir ton visage tout entier
La seconde pour voir tes yeux
La dernière pour voir ta bouche
Et l'obscurité tout entière pour me rappeler tout cela
En te serrant dans mes bras
(Jacques Prevért)

quinta-feira, 26 de agosto de 2010

O efeito boursin

Raquel não era nenhuma especialista em queijos, ainda que gostasse de experimentar variedades diferentes de tempos em tempos, mas admitia que não entendia nada do assunto, limitava-se a gostar ou não gostar.

Até conhecer Amaral. O namorado era um fanático pelo assunto. Era capaz de diferenciar cada um dos 246 tipos de queijos franceses de olhos fechados. Não era um chato que só falava disso ou que ficasse fazendo citações de Mucor Miehei mas, sempre que podia apresentava um novo tipo de queijo para Raquel.

Numa das vezes que sairam para jantar ele pediu, depois do café, um queijo de nome diferente. Explicou que era um queijo fresco feito a partir de leite de cabra e creme de leite, originário da Normandia, geralmente acrescido de ervas ou amêndoas e frutas secas.

Raquel adorou o queijo, a ponto de Amaral pedir uma segunda porção. A partir daquele dia, todas as vezes que ia ao supermercado, Amaral trazia uma fatia do tal queijo para ela.

Um dia, ao encontrar Amaral, Raquel comentou que tinha saído para almoçar com o chefe e sugerira o restaurante no qual eles tinham conhecido o queijo preferido. Ao contrário da sua experiência agradável ela disse que tinha comido um queijo de cabra pavoroso, escolhido pelo chefe.

Ela não lembrava direito, mas se não estava enganada ele tinha escolhido um tal de queijo boursin, que parecia o que ela gostava, mas com o sabor completamente diferente.

Amaral deu um sorriso enigmático. Ele sabia que o único queijo de cabra daquele restaurante era justamente o boursin. Exatamente o que eles tinham comido naquela noite. Mas não falou nada.

Alguns dias depois ele a levou novamente ao restaurante e, claro, pediu o queijo. Como era de se esperar, Raquel achou delicioso. Então informou que aquele queijo se chamava boursin.

Raquel olhou para o namorado estupefata. Como é que poderia ser o mesmo queijo? Será que o que comera com o chefe era de outro produtor? Será que estava estragado?

Amaral olhou bem nos olhos de Raquel e perguntou: "Você odeia o seu chefe, não é mesmo?" Nem precisou de resposta, a menina ficou roxa de vergonha, como se tivesse sido pega em flagrante.

Ele então explicou que o boursin era um queijo de sabor totalmente influenciado pelos sentimentos, por isso que ele fizera questão que ela experimentasse naquela noite, ele queria saber se ela realmente gostava dele. O resultado não poderia ter sido melhor, a paixão que ela demonstrou pelo queijo era a mesma que ele sabia que iria receber.

Em seguida, tirou do bolso uma caixa de veludo com um par de alianças e a pediu em casamento.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Bacalhau do Alberto

Na semana passada recebi a ilustríssima visita do meu primo Alberto (que nunca gostou de ser chamado de Alberto Carlos por temer ser atropelado por um trem antes que alguém conseguisse dizer seu nome inteiro...Alberto Carlos olha o trrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr...pluft!!)

Como nos tempos ancestrais quando ele me levava para almoçar em restaurantes do centro financeiro do Rio de Janeiro, o papo foi muito mais do que agradável. Falamos de música, de cinema, de casamento, de mercado imobiliário (onde ele trabalha), de igreja, da família, dos filhos (não, sobre esses eu não falava na época do Rio, pois não os tinha).

Para preparar um jantar adequado perguntei antes se ele tinha alguma restrição alimentar. Ele só dispensou a buchada de bode, por motivos religiosos, é claro. Resolvi fazer bacalhau.

Como não tenho o hábito de fazer um prato duas vezes da mesma maneira matutei como deveria cozinhar o ilustre cod gadus morhua e me saí com a seguinte receita:

Peguei duas postas de lombo de bacalhau dessalguei e deixei secando bem. Uma visita nobre, merece um peixe nobre.

Ralei uma cebola média (com a acidez certa que só o humor dos Ribeiros pode ter), acrescentei muito alho torrado picado (um tempero que sempre faz bem para o coração, assim como a visita dos bons amigos), azeite de oliva fartamente (sempre um símbolo da presença de Deus e da mesma fé que nos une, além de ser um símbolo da alegria), pimenta do reino (uma especiaria historicamente de altíssimo valor), manjerona (cujo sabor de pinho traria os ares de Campos de Jordão para o primo) e completei essa pasta com um cálice de vinho do porto (para tentar chegar perto da classe e fineza do meu convidado)

Deixei o bacalhau nessa mistura por um pouco mais de uma hora levei ao forno médio por uma hora e antes de servir aumentei o fogo por mais 15 minutos (o que permitiu que a pasta formasse uma leve crosta). Para acompanhar fiz um arroz parboilizado e acrescentei manjerona um pouco antes de acabar de cozinhar, para combinar com o tempero do bacalhau. O vinho foi um Carmenére chileno.

Infelizmente não tirei nenhuma foto do prato para colocar aqui e o que sobrou não deu nem para fotografar.

Podem fazer sem susto, é fácil e fica delicioso, assim como a visita que recebi.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Amarradona

Marilda olhou para a placa presa no poste e achou que não custava muito arriscar. Amarração para o amor, dizia, efeitos garantidos. 200 reais.

Há tempos que ficava com Antonio, mas nada dele pensar num namoro mais firme, pelo contrário, o rapaz era um mulherengo que trocava de companhia todas as semanas.

Marilda queria casar antes dos 30 e o prazo estava correndo rapidamente. Ligou para o amarrador.

Dois dias depois estava no consultório do mágico do amor levando o que ele pedira. Uma foto de Antonio, uma folha qualquer onde estivesse sua caligrafia, uma lista de gostos e preferências e seu endereço.

Explicaram que o trabalho demoraria alguns dias para surtir efeito e que ela poderia deixar um cheque pré-datado, se em um mês não acontecesse nada poderia sustar o cheque.

O mágico era dos bons e menos de uma semana depois Antonio apareceu com uma caixa de bombons e pediu Marilda em namoro. Ela ligou para o consultório dizendo que podiam antecipar o depósito do cheque.

Além de arranjar um namorado, Marilda ainda ficou famosa por ter colocado Antonio na linha. Todos perguntavam o que ela teria de tão bom para fazer o Don Juan largar a vida pregressa.

O que Marilda não esperava era conhecer José, um novo colega de trabalho, e se apaixonar perdidamente por ele. Pior, saber que José também se apaixonara por ela.

O problema é que Antonio estava amarrado e ela era a culpada pela situação. Como resolver a questão sem ferir os sentimentos do menino? Ligou para o bruxo, precisava urgente de uma desamarração.

Não acreditou quando ele disse que não existia desamarração. Uma vez feito o serviço, os efeitos eram irreversíveis. Ela chorou, pediu, implorou e nada. Até o momento que disse que estava disposta a pagar qualquer preço para resolver a situação.

O amarrador disse que ia ver o que podia fazer e ligava depois. Ela esperou dias até que ele desse sinal de vida.

Quando finalmente ligou, disse que tinha encontrado um outro mágico que poderia fazer o serviço, mas que ia custar muito caro. Ela nem discutiu preço e pagou os 5 mil que ele pedia.

Passou-se uma semana e nada. Antonio parecia ainda mais apaixonado. Duas. Três. Nada.

Até que um dia ele chegou e disse que precisava conversar com ela. Concluíra que o que ele queria mesmo era viver livre, leve e solto. Ela fingiu tristeza, mas comemorou por dentro.

Ligou na mesma hora para José para dizer que estava livre e desimpedida. Ele não estava em casa, a mãe dele disse que tinha ido comer uma pizza com amigos.

Marilda sabia que pizzaria era e foi imediatamente para lá, não podia esperar para contar as novidades. Chegou na porta, olhou para o salão e viu José sentado no fundo com mais dois homens que estavam de costas. Os três riam muito.

Conforme se aproximou reconheceu Antonio e o amarrador e, sobre a mesa, três maços de dinheiro. Virou as costas e saiu chorando.

O corpo foi encontrado boiando no Tietê, todo amarrado.