sexta-feira, 30 de abril de 2010

Simples assim

Eduardo e Sônia não pararam o dia inteiro. Às vésperas do casamento ainda tinham muita coisa para resolver e uma infinidade de pequenas coisas para comprar para a casa.

Estavam num shopping center comprando toalhas, lençóis. Já tinham resolvido parte das miudezas de cozinha e ainda precisavam sair de lá e correr lojas de móveis.

Não almoçaram. Mal paravam para ir ao banheiro e, mesmo o café que tomaram foi em pé no balcão. As costas de Sônia já reclamavam, os pés de Eduardo também.

Nenhum dos dois reclamava de nada, por maior que fosse o esforço ou o cansaço, estavam realizando o grande sonho dos dois. Tinham a aparência de exaustos felizes.

De repente, no meio de um corredor, Sônia virou para Eduardo e disse apontando para um banco vazio:

" - Senta um pouco ali!"

Eduardo sentou-se. Ela sentou de frente para ele e não falou nada. Ele esperou um pouco antes de perguntar:

" - O que foi, meu amor?"

Ela balançou a cabeça indicando que não era nada. Continuou olhando fixamente para ele, um sorriso contido nos lábios, seus olhos brilhavam.

" - Está tudo bem?" Ele insistiu.

" - Está tudo ótimo amor, eu só queria ficar olhando para você um pouco."

Os olhos de Eduardo se encheram de lágrimas. Nunca na vida tinha ouvido uma declaração de amor como aquela. Ela também se emocionou com a reação dele.

Não precisavam falar mais nada.

Naquele momento tinham selado seus votos matrimoniais para todo o sempre.

quinta-feira, 29 de abril de 2010

Escola fetichista

Quando baniu as cinturas gordas da corte, através do decreto lei de 27 de julho de 1550, Catarina de Médicis não imaginava que estaria fundando uma nova escola filosófica fetichista, o corpetismo espartílhico.

Também não poderia imaginar que algumas mulheres iriam se atirar no Lago Como, depois de tentarem, sem sucesso, vestir vários modelos de espartilhos e corpetes. Existem suspeitas que, na verdade, muitas delas não cometeram suicídio, mas foram jogadas no lago pelos maridos inconformados com a quantidade de ganchos e botões que tinham de prender todas as manhãs.

Foi justamente a quantidade de ganchos que provocou a invenção da vestimenta. Depois de tentar fazer seu filho fugir voando do labirinto que ele mesmo criara, Dédalo foi condenado a se auto-castigar em outra das suas invenções. Até o fim da vida foi obrigado a abotoar e desabotoar o corsete da mulher do rei Minos, três vezes ao dia.

Dédalo enlouqueceu com a atividade e o rei ficou livre para as suas escapulidas com outras cortesãs, uma vez que a rainha passava o dia todo em pé sendo vestida e desvestida pelo inventor.

Séculos depois, a vestimenta ganhou tons de apelo sexual, que só foram limitados pela conservadora e pudica rainha Vitoria da Inglaterra, quando esse proibiu a fabricação de corsetes com menos de 50 ganchos e botões. Foi nessa época que a taxa de natalidade britânica caiu a níveis assustadores e, se não fosse a intervenção do Marechal Culotte, pedindo a revogação da lei real, a Inglaterra não teria soldados suficientes para vencer Napoleão em Waterloo.

Como já foi descrito aqui, a solução para o problema dos botões só foi achada em 1723 e, a partir da invenção de Fermature que o corsete teve o seu apogeu.

Atualmente, mesmo com as mais modernas tecnologias de abertura, existe uma tendência à retomada das presilhas e botões. Os matemáticos concluiram que o número mágico que, ao mesmo tempo, permita que a vestimenta seja sedutora e não provoque a desistência dos amantes, é 13, o que o torna um fetiche cabalístico.

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Retorno à eternidade


Para ser lido ao som da Sinfonia nº1 de Mahler

Felipe saiu da estação de metrô em plena Xavier de Toledo. Olhou para a sua direita e lá estava ele. Altivo, imponente, majestoso. A iluminação realçava sua arquitetura eclética misturando elementos barrocos, renascentistas e até de art nouveau. Ele ficou parado olhando o prédio e todo um filme do passado rodou pela sua cabeça. Fora ali dentro que tudo começara.

O seu relacionamento com Romana começou bem devagar, quase se arrastando. Ele emitia sinais sutis demais para que ela percebesse e, quando achava que tinha percebido não acreditava que fosse exatamente aquilo.De qualquer forma, as insinuações de Felipe foram se multiplicando e se tornando cada dia menos duvidosas. Romana entendeu tudo e gostou da descoberta.

Ele a convidou para um concerto. Conhecedora do gosto musical dele, ela aceitou. Ele passou pelos Campos Elísios para pegá-la, ela estava deslumbrante. Estacionou longe e foram caminhando até a porta do Theatro Municipal que brilhava à distância, iluminado por holofotes azuis. Mais de uma vez, durante a caminhada, ele pensou em se declarar. Mais de uma vez ela esperou que ele falasse algo.

O programa musical foi fantástico. Durante a valsa ele finalmente tomou coragem e segurou a mão de Romana. Ela apertou com força e sussurrou no seu ouvido um elogio ao repertório. Um turbilhão de emoções se apossou dos dois. Estavam apaixonados.

Os meses seguintes foram poderosamente agitados, eles mergulharam num romance sem limites numa velocidade com a qual nenhum dos dois jamais sonhara. O amor se manifestava de todas as formas e a entrega mútua era total.

Com o tempo, o namoro assumiu um caráter solene, moderado, mas sem se arrastar. Eles já tinham entrado numa velocidade que não dava mais para parar. Se envolveram juntos ou um com o apoio do outro em várias atividades, todas movidas a música.

Assim como os presentes e mimos que trocavam, mesmo os que não eram musicais por sua própria natureza o eram por sua essência. Melodia, ritmo e harmonia eram componentes essenciais do amor. Não faziam nada que não tivesse uma trilha sonora, sempre escolhida a dedo por um dos dois.

Um ano depois Felipe estava de novo diante do Theatro. Dessa vez sozinho, Romana tinha um outro compromisso que a impedia de ir comemorar o aniversário naquela noite. Ele entrou no saguão, olhou as colunas. Ela estava em cada tijolo do local. No Foyer sentiu os aromas dos chás que eram servidos e respirou fundo como se fossem os perfumes dela.

Esperou para entrar na sala de concertos só depois do toque do terceiro sinal. Imaginou que entrando depois de apagado o grande lustre estaria protegido do impacto da ausência dela pela penumbra. Não funcionou, à medida que descia o corredor para se sentar no mesmo lugar do ano anterior seu coração foi ficando mais e mais agitado. Para piorar seu incômodo notou, de longe, que alguém tinha se sentado no lugar que deveria ficar vazio.

Ao chegar na sua fileira ele viu os tons vermelhos do vestido que dera a ela no Natal. Olhou para o chão, os sapatos eram os que ele comprara.

Romana sorriu para Felipe e mandou-o sentar logo que o concerto iria começar. Como se fosse a primeira vez. De certa forma era.

Sempre seria uma primeira vez. Para sempre.

terça-feira, 27 de abril de 2010

Diamante azul

Um diamante azul sem falhas e de cor vívida pode bater recordes de preço como aconteceu recentemente num leilão da Sotheby´s .

Os diamantes azuis são raríssimos, não só são difíceis de encontrar como também, os que foram encontrados não costumam chegar ao mercado, são guardados cuidadosamente pelos seus proprietários.

Esse diamante azul foi disputado por dois candidatos. A luta foi intensa e nome do ganhador, por motivos óbvios não foi divulgado. Nem o do perdedor.

O diamante azul estava montado sobre um anel de platina, metal tão ou mais nobre que o próprio ouro.

Um diamante desse quilate não pode, nem deve ser colocado num lugar qualquer, merece toda a honra e elegância do mundo.

O diamante azul veio de um país estrangeiro para o local do leilão, o que não é uma manifestação anti-nacionalista, mas não deixa de ser uma verdade que os diamantes raros vêm de longe.

Só realmente os muito privilegiados tem acesso a um diamante azul. Não é à toa que essas pessoas são convencidas e orgulhosas da sua posse.

Não é possível procurar diamantes azuis, eles surgem ou não à sua frente, é preciso que o universo conspire a seu favor para encontrar o seu.

Algumas pessoas encontram mas não dão o devido valor, acham que uma pedra azul não pode ser tão valiosa assim.

Os que reconhecem o seu valor recebem como prêmio o brilho eterno e incomparável da mais perfeita das jóias.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

15 minutos

No futuro, todas as pessoas vão ser mundialmente famosas por 15 minutos (Andy Warhol, 1968)

No futuro 15 pessoas vão ser mundialmente famosas por minutos

No futuro, todas as pessoas serão mundialmente famosas daqui a 15 minutos

No futuro, 15 minutos serão pessoas mundialmente famosas

No futuro, 15 famosas, serão minutos mundialmente pessoas

No futuro 15 mundiais serão pessoas minutamente famosas

Em 15 futuros pessoas mundiais serão famosamente minutícas

No presente, 15 minutos me bastam

No presente, apenas uma pessoa me basta

No presente, apenas meu microcosmo me basta

No presente, me basta ser famoso em um.

domingo, 25 de abril de 2010

Assédio automobilístico

Jonas não admitia que Ana Maria voltasse sozinha para casa. Mesmo quando iam para seus encontros em carros separados ele fazia questão de escoltá-la de volta até que a visse atravessar a porta da garagem do seu prédio.

Na primeira vez que isso aconteceu Ana Maria ficou encantada, na segunda achou uma atitude bonita, depois começou a se irritar com o carro de Jonas na sua cola durante todo o seu trajeto e não sabia como dizer isso para ele.

Começou a mudar sua maneira de dirigir. Andava mais rápido, mudava de faixas, tentava atravessar os sinais no último momento do amarelo. Tudo para ver se conseguia despistá-lo.

Jonas estava sempre tão concentrado no carro de Ana Maria que não se tocou disso. O que ela fizesse à sua frente, ele repetia atrás. Duas vezes foi multado por ultrapassar o vermelho. Nem o dinheiro da multa, nem os pontos na carteira mudaram sua atitude.

Até o dia em que Ana Maria se irritou tanto que, ao olhar no retrovisor e notar que, apesar de suas manobras, Jonas continuava quase encostado no seu carro, ela resolveu dar um basta na situação. Em plena pista expressa da marginal, com o trânsito fluindo, ela brecou violentamente.

Não deu tempo para Jonas fizesse o mesmo e a colisão traseira foi inevitável. Abalroou o carro de Ana Maria sem nenhuma delicadeza. Não sobrou um pedaço de lanterna inteiro e a tampa do porta malas dela ficou parecendo uma escultura pós moderna.

Ela, que já estava irritada, saiu do carro soltando fogo pelas ventas. Como ia explicar em casa para o pai que tinha sido o namorado que acabara com o seu carro? Mandou Jonas de volta para casa (e, nessa situação, ele não teve como recusar a ordem) e foi para delegacia, onde alegou que o carro que batera nela tinha fugido do local do acidente.

Jonas teve a carteira cassada, pegou dois meses de cadeia (com direito a sursis) por fugir do local e omissão de socorro.

E foi a primeira pessoa processada por assédio automobilístico. Nunca mais poderia ver Ana Maria.

sexta-feira, 23 de abril de 2010

Relembrando os girondinos

A Gironda, como é de conhecimento popular, é um departamento francês na bela região da Aquitânia, cuja capital é Bordeaux (eu até poderia usar o nome português de Bordéus, mas algum desavisado ainda iria dizer que eu não sei escrever plurais).

Historicamente os moradores da Gironda são burgueses ilustrados, nem todos foram ilustrados por Gustave Doré, até porque esse nasceu em Strasbourg, na Alsácia, ponto diametralmente oposto à Gironda.
De qualquer forma as ilustrações dos girondinos costumam ser mais semelhantes a grandes manchas de tinta esculpidas do que os desenhos em bico de pena de Doré.

As margens do Rio Gironda são povoadas de pequenos vilarejos que atendem pelo nome de santos. Saint Antoine, Saint Côme, Saint Estephe, entre outros. Mas o padroeiro da região é São Gabriel.

Apesar de serem conhecidos pelos melhores vinhos do mundo, os girondinos e seus vizinhos fazem um café muito fraco.

Em tempos ancestrais eram reconhecidos pelos seus dotes de confeitaria, mas devem ter usado tanto açúcar que acabaram formando toda uma geração de dentistas especializados em periodontia.

Até hoje os girondinos não resolveram se são monarquistas ou republicanos, essa dúvida cruel já fez com que muitos perdessem a cabeça.

Caso você pretenda visitar a bela Gironda, eu recomendo que não se prenda apenas aos aspectos visuais enológicos. Respire o ar romântico do pedaço.

Mas evite o café.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Um sapato

Ela parou na frente da vitrine e ficou imóvel. Ele andou dois ou três passos e percebeu rapidamente que ela tinha ficado para trás.

Quando ela percebeu que ele voltava começou a andar como se nada tivesse acontecido, já o conhecia bem e, se dissesse alguma coisa a respeito do sapato azul ele imediatamente a convidaria para entrar na loja e comprar.

Para disfarçar, respondeu a pergunta dele de maneira genérica, disse que a vitrine estava bonita. Ele brincou dizendo que, infelizmente, não dava para comprar a vitrine toda.

Continuaram a passear pelo shopping, não compraram nada, conversaram bastante tomando chá e depois ele a levou para casa.

Dormiu sonhando com o sapato azul. Imaginou que roupas combinariam com ele, em que ocasião ficaria melhor usá-lo, se seria um sapato adequado para ir à peça de teatro que combinara de ir com ele no dia do aniversário de namoro que aconteceria semanas depois.

Mais de uma vez ela se programou de voltar sozinha ao shopping para comprar o sapato, mas as circunstâncias não colaboravam e ela não conseguiu ir. Desistiu de usar o sapato na comemoração, mas não de comprar aquela preciosidade.

No dia do teatro ele passou cedo para buscá-la. Ela usava o vestido que ele tinha comprado para ela. Os acessórios que ele tinha comprado para ela. Faltava muito pouco para estar totalmente vestida dele.

Quando entrou no carro ele reparou no sapato bege que ela usava. Olhou para o vestido e confirmou sua impressão, era o mesmo tom. Pediu que ela esperasse um pouco e pegou o pacote no porta-malas.

Quando ela abriu a caixa e encontrou o sapato azul seus olhos brilharam como nunca. Como é que ele tinha, em poucos segundos, percebido que ela tinha se apaixonado pelo calçado?

Ele não tinha dúvida nenhuma. Ela lhe era totalmente transparente, bastava não deixar de se concentrar nos seus olhos para perceber o que ficara gravado na sua retina.

Ela trocou os sapato que usava pelo presente. E mais uma vez brilhou para iluminar os passos dele.

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Convulsão marinha

On this wondrous sea
Sailing silently,
Ho! Pilot, ho!
Knowest thou the shore
Where no breakers roar --
Where the storm is o'er?

In the peaceful west
Many the sails at rest --
The anchors fast --Thither I pilot thee --Land Ho! Eternity!Ashore at last!

Emily Dickinson


Quando o barco zarpou o tempo já não se mostrava tranquilo.

O horizonte era promissor mas, olhando à direita e a esquerda, o que se via eram nuvens. As da direita mais escuras que as da esquerda.

No entanto a realidade estava dada, a âncora já tinha sido solta, as velas içadas, não era possível voltar atrás.

O vento batia com força e a velocidade de navegação era altíssima. Em pouquíssimo tempo já tinha andado bastante.

Da direita, rajadas de vento e chuva ameaçavam frequentemente o equilíbrio da embarcação mas os marinheiros estavam convictos da sua capacidade de levar o barco ao seu destino.

E assim o faziam com habilidade e dedicação.

As nuvens da esquerda que nunca tinham passado de uma garoa se tornaram, repentinamente, uma borrasca.

O barco jogou de um lado para o outro, velas se rasgaram, tudo parecia que ia se perder entre a tormenta da esquerda e as rajadas da direita.

O capitão segurou firme o leme. O imediato motivou a tripulação a resistir.

No horizonte surgiam os primeiros sinais da terra. Mesmo com algumas avarias o barco chegou ao seu destino.

Nem piratas, nem borrascas, nem trovões, impediriam que aportassem na eterna felicidade.

A única convulsão que os guiava era a dos seus corações.

terça-feira, 13 de abril de 2010

Depende da lua

Io se sentia no fogo do inferno toda vez que entrava naquele lugar, o cheiro de enxofre, a ausência de ventilação, o calor insuportável e, como se isso não bastasse, as constantes erupções de furor do chefe. Até o dia em que começou a ver estrelas brancas, vermelhas, amarelas e pretas piscando à sua frente e, finalmente tomou coragem e pediu demissão. Nunca mais seria recepcionista numa estação de águas medicinais.

Jápeto era vista como uma mulher excêntrica por se vestir sempre em dois tons de cores: meio escuro e meio branco brilhante. Ainda por cima, com o seu diâmetro, parecia uma bola achatada. Os cabelos, em forma de crista davam-lhe a aparência de uma casca de abacaxi. Sua alternância bipolar de brilho nunca a levou a lugar nenhum.

Europa e Encélado viviam um casamento gelado e desolador apesar de terem vidas muito ativas. Em alguns momentos chegavam até mesmo a serem anfitriões acolhedores. Debaixo de sua crosta gelada, Europa escondia uma alma em constante agitação que sempre escondeu para evitar os acessos de violência do pequeno Encélado. O furor interior dos dois, sempre latente, nunca se consumou.

Quando os gêmeos Pan e Atlas nasceram, todos imaginavam que seriam roliços como seus pais. Cresceram de forma esguia e oblonga, mas nunca descobriram que tinham sido inseminados a partir de espermatozóides e óvulos de outras pessoas.

Nereida nunca andou de forma suave e elegante. Quem a olha na rua tem a impressão de que ela está sempre em uma montanha russa. Um dia ela ainda vai aprender a usar os saltos que calça.

Titã é uma mulher imensa. Na altura e na largura, impossível não reparar quando ela chega em qualquer lugar. Mesmo assim sempre se locomoveu com agilidade e adora conhecer novas paisagens. Já visitou lagos, montanhas, cavernas, mares e desertos. Mas se alegra mesmo é quando volta para a sua cidade poluída e densa atmosfera.

Ganímedes era tão atraente que algumas pessoas acreditavam que ele possuía algum tipo de magnetismo diferenciado. Sua aparência não era tão chamativa, devia ser algo que vinha do seu interior, ou alguma espécie de aura. Nem uma nem outra nunca foram vistas a olho nu.

Nenhum dermatologista conseguiu desvendar o mistério de Tritão. Apesar de jovem sempre teve a pele enrugada e cheia de rachaduras. Só quando foi a um analista sentindo-se complexado é que descobriu que debaixo da sua casca fria e controlada vivia em permanente convulsão interna. Era isso que o desfigurava.

segunda-feira, 12 de abril de 2010

Amando na chuva

Não passava das 4 da tarde quando o dia se transformou em noite. A chuva veio e veio forte. Muito forte.

De um lado da rua, Cristina se abrigou debaixo do toldo da padaria. Do outro lado da rua Sérgio tentou se proteger no ponto de ônibus.

Separados pela tempestade. Pelos pedregulhos de granizo. Pela violência da enxurrada.

Por um tempo ainda se contiveram. Até que Cristina não aguentou mais e, surpreendendo as pessoas de um lado e do outro da rua, gritou:

"- Na tormenta eu me apaixono!"

Sérgio abriu o sorriso e a boca, respondendo:

"- Vou remover todas as pedras que tentam obstruir nosso caminho!"

Nem mesmo o barulho do vento e da chuva abafava os gritos dos dois

"- Ensopada, eu te amo!"

"- Me deixo levar por uma enxurrada de felicidade!"

"- Te desejo na convulsão das águas!"

"- Me alago do seu amor que me dá vida!"

"- Afogo o meu passado nas bocas de lobo!"

"- Me lanço pela cachoeira ao encontro do meu destino: você!"

"- Em cada gota de chuva eu te beijo!"

"- Juntos desvendamos os mistérios desse mar!"

E antes que Cristina dissesse a próxima frase ele meteu o pé na água, atravessou a rua e a beijou.

Dos dois lados da rua as pessoas aplaudiam e pediam bis.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Azul em sonhos


Tantos azuis povoam os meus olhos
Borboletas ultramarinhas
colhendo suspiros sincopados.

Tantos azuis florescem nos campos
Hortênsias silenciosas
desabrocham celestes canções

Tantos azuis habitam minh´alma
Lágrimas perfumadas
Percorrem a arrebentação

Tantos azuis se espelham nas telas
Horizontes oníricos
Pigmentam os travesseiros

Borboletas, hortênsias e lágrimas
Horizontes e alicerces
Somente azuis no meu coração

Ilustração: Óleo sobre tela da minha prima Virginia Susana Fantoni Ribeiro

quinta-feira, 8 de abril de 2010

Emprego folgado

Marineide acertou os detalhes de salários, benefícios e horários com Ana Maria, sua nova patroa. Começaria a trabalhar na segunda feira seguinte.

A rotina não seria muito diferente do emprego anterior. Arrumar a casa todos os dias, fazer uma faxina mais pesada uma vez por semana, adiantar as refeições. Só não precisaria lavar e passar roupa, Ana Maria gostava de cuidar pessoalmente das roupas da casa.

Ainda estava conversando com Ana Maria quando Armando, o marido, chegou. Ele foi educado com ela e lhe deu as boas vindas. Em seguida olhou para a mulher com um jeito diferente. Ana Maria levou Marineide rapidamente para a porta e se despediu afobada.

Marineide não era uma empregada doméstica inexperiente, por isso estranhou bastante a dinâmica da casa. Nunca deveria chegar antes das 10 horas. Se chegasse era para esperar na rua. Sempre deveria ir embora antes das 5 da tarde. Nunca tivera um emprego tão light.

No entanto, o que realmente a surpreendeu era a frequência com que a patroa lhe dava folgas. Ana Maria chegou mesmo a comprar um celular para ela, para avisá-la caso não precisasse ir. Não poucas vezes foi dispensada logo depois do almoço.

Quando o telefone de Ana Maria tocava uma determinada música era quase certeza que Marineide iria para a casa mais cedo. Começou a pensar maldades a respeito da patroa. Até porque nunca mais encontrara seu Armando em casa.

Chegou a ponto de, um dia, Ana Maria chegar esbaforida, colocar um dinheiro na mão de Marineide e mandá-la almoçar fora, ela avisaria na hora que pudesse voltar para acabar de lavar os banheiros. Curiosa, ficou observando o movimento do prédio do outro lado da calçada. Tudo que viu foi Armando entrando na garagem.

Se não conhecesse a casa poderia pensar que Armando não era realmente casado com Ana Maria, mas até o álbum das fotos do casamento ela já limpara.

Resolveu desencanar e curtir suas folgas.

Um dia ganhou folga até a hora do almoço, só deveria chegar depois do meio dia. Foi o que fez.

Quando chegou junto à porta da entrada de serviço ouviu sons estranhos na casa. Percebeu que era Ana Maria que parecia estar sendo surrada. Entrou rapidamente para socorrer a patroa.

Encontrou Ana Maria e Armando nus em cima da mesa da cozinha, roupa espalhada por todos os cantos.

Foi fulminada pelo olhar furioso dos dois. Ana Maria tinha deixado vários recados no telefone de Marineide para que ela não viesse trabalhar.

Foi demitida por esquecer de recarregar a bateria do celular

terça-feira, 6 de abril de 2010

Lição de amor

André entrou em casa com cara de poucos amigos. A mãe perguntou o que tinha acontecido, ele nem respondeu e foi para o quarto. Coisa de adolescente, pensou a mãe, e foi atrás dele.

O problema era a escola. A professora de português tinha dado um trabalho que ele achava impossível de fazer. A mulher era uma insana e ele já tinha decidido que era melhor tirar zero no trabalho do que tentar fazer.

A mãe foi cutucando com jeito até descobrir o que era. O menino tinha de escrever uma carta que fosse uma declaração de amor. A mãe quase sorriu, mas se controlou. Falou que o ajudaria pesquisando exemplos para que ele tivesse alguma idéia. André concordou, sem muita vontade.

Durante a semana a mãe foi abastecendo o filho com as cartas de amor mais famosas que ela conhecia. Também lhe repassava poemas e trechos de livros. Ele lia sem muita vontade, achava tudo piegas (sim, André não era um adolescente qualquer, seu vocabulário era muito rico).

Depois de alguns dias mostrou à mãe algumas tentativas que nem ele mesmo tinha gostado. Escrevia, mostrava para a mãe e jogava fora em seguida. Um dia antes da data prevista para a entrega do trabalho não tinha nada.

Quando o levou para a escola no dia seguinte perguntou do trabalho, ele disse que tinha feito algo só para tirar nota. Três dias depois a mãe foi chamada na escola. A professora de português queria conversar com ela. Perguntou de onde André tinha copiado o trabalho que fizera. A mãe disse que, até onde sabia, de lugar nenhum, contou o que tinha acontecido.

A professora disse que o que André lhe entregara era bom demais para um garoto da sua idade, mesmo considerando que ele era um ponto fora da curva em português. Ela ia dar nota dez pelo trabalho mas, caso a mãe descobrisse, ela gostaria de saber a fonte do texto, e entregou uma cópia para que ela lesse.

A mãe saiu da escola, parou num café e pegou a carta de André que dizia:

" Enquanto espero a aula começar, aproveito para dizer que o que você fez na minha vida é algo que eu jamais poderia imaginar. Não imaginava porque me achava alguém muito cheio de manias imutáveis.Não imaginava porque muitas dessas mudanças jamais tinham passado pela minha cabeça, sequer como hipótese.

Aí chega você. Linda, inteligente, carinhosa, amorosa, apaixonante, sexy e perfeita e se torna a minha professora, contrariando tudo que eu poderia crer.

Me ensinou o que é amar, o que é sonhar, o que é tornar sonhos em realidade, o que é ser feliz.
Mais que isso, ao seu lado aprendi o que é me apaixonar todos os dias, todas as horas, todos os minutos.

Uma mulher para eu me orgulhar das suas realizações, para eu ficar convencido pelo fato de ser minha todas as manhãs.

Uma mulher que me motiva a retomar muitas coisas que eu amava fazer, que me motiva a fazer coisas que eu não ligava muito para fazer, até a escrever declarações de amor.

A mulher que me fez ignorar qualquer outra pessoa, não por me obrigar a isso, mas porque não sinto mais nenhum tipo de interesse a esse respeito. Quem precisa de qualquer coisa a mais, quando se te tudo numa pessoa só?

E isso acontece em todos os aspectos. Você é a interlocutora intelectual acima de todas as pessoas, é a amiga de todos os momentos, incondicionalmente.

É a mulher que me provoca e me enlouquece. A mulher que está dentro de mim o tempo todo. Não sei e nunca mais vou saber o que significa solidão. Quando está comigo ou não.

Eu te amo, desde sempre, para sempre. Eu te amo com toda a intensidade do meu corpo e da minha alma.

Por isso tudo eu só consigo fazer uma coisa. Te agradecer todo o tempo por existir, te agradecer o tempo todo por, um dia, ter olhado para mim. Te agradecer por me fazer amar.

Eu te amo. Minha mestra, minha felicidade, meu amor, minha vida inteira."

A mãe começou a chorar de tal forma que a garçonete do café veio ver o que se passava e oferecer ajuda. Ela não precisava de ajuda, só queria ler e reler a carta milhões de vezes.

Foi para casa feliz. Ao chegar, beijou e abraçou André sem dizer nada. Quando ele disse que tinha tirado nota máxima no trabalho, ela olhou com cara de surpresa.

E dormiu realizada por ter criado um jovem romântico.

segunda-feira, 5 de abril de 2010

A insopitável antologia de Março

Todos os meses eu seleciono os melhores comentários do mês anterior e os publico aqui completamente fora de contexto.

O jogo é justamente lê-los sem voltar aos textos que os provocaram, posso garantir que é bem divertido assim.

...o nome não ajudou muito.

Poderia ele estar em Praia Grande, com 40 graus a sombra, após umas e outras?

Afinal de contas, finalmente casei...

..você vai me achar uma idiota???

me apaixonei pelo heroi de espuma.

ele só não morreu porque não era obeso...

Gostei do teu crime!

Tenho certeza que você comanda uma quadrilha com esses elementos.

Só se a fada viesse fazer enquanto eu durmo...

Seus filhinhos eram réplicas perfeitas de seus pais..

Os nossos sonhos mais enraizados costumam ser vistos como exóticos aos olhos dos outros.

preferi dançar do que jantar...

Estavam ensaiando para um baile de debutantes ou 15 anos??

Reclamações, fale com Roberto...

a autora deve ter dormido, e esqueceu de contar!

vai tornar essas algias crônicas

Sua insanidade merece uma gema...

O ex-marido foi padrinho?

Mas, quase 3 horas é impossível!!!

Eu ando precisando de uns desastres

Adorei, especialmente a parte do vômito no tapete persa.

maluco começou a achar que existem contos perfeitos..

estes contos nem sempre tinham os finais adocicados

sábado, 3 de abril de 2010

Vida de inseto

Eu entendo, eu entendo, faz parte da natureza masculina querer ser o mais forte, o mais rápido, o mais esperto. Todos querer mostrar que são os mais machos.

Quando estou na academia observo umas figuras que estão a ponto de explodir de tanta massa muscular que acumularam. Imagino que tenha quem goste disso, afinal de contas essa obsessão em acumular musculatura certamente só pode ser com objetivos de acasalamento.

Seu modelo de vida deve ser o touro ontófago, o animal mais forte do mundo. Ele é capaz de puxar quase 1200 vezes o seu próprio peso (seria, mais ou menos, como se eu conseguisse arrastar 100 toneladas).

Apesar do nome de touro, não passa de um besouro. Os pesquisadores dizem que esses bichos são bem conhecidos por serem capazes de fazer as mais incríveis demonstrações de força e tudo se deve a suas curiosas vidas sexuais.

Tenho certeza que os musculosos garotões da academia também gostariam de uma vida assim, cheia de curiosidades.

Ou não. Se soubessem como é a prática desses besouros, pensariam duas vezes.

Os insetos perseguem as fêmeas em túneis de esterco (aliás, ontófago quer dizer, comedor de fezes) e, caso se defrontem com um rival lutam furiosamente no meio da $%#@&. Para isso precisam de toda essa força.

Pior que lutar até a morte é o que acontece quando o rival é um besouro pequeno e fraco. Os "tourinhos" podem não ter a força dos super besouros, mas são dotados de ferramentas bem maiores. Isso permite que eles passem sorrateiramente pelas costas de outro macho e, quando esse olha para o outro lado, eles copulam com sua fêmea.

Os pesquisadores ainda não conseguiram colher as impressões das fêmeas a respeito do assunto, mas me parecem óbvias.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Perde-se muito na tradução

Sempre fiquei em dúvida se 20th Century Fox queria dizer a vigésima raposa do século, o século da vigésima raposa, a raposa secular do vigésimo (vigésimo o que? andar?)

Essas construções sintáticas complexas em outras línguas sempre confundiram meus neurônios. Essa semana li uma frase que me soou completamente surrealista, mesmo assim tentei chegar ao âmago do seu sentido profundo.

A frase que eu li dizia o seguinte: A musketeer who's trying to tango with blades, crazy, isn't it? Comecei a imaginar possíveis versões

Dançar tango usando facas loucamente é coisa de mosqueteiro.

A mosqueteira foi esfaqueada dançando tango com um louco

O tango emosquitado é uma loucura afiada

Faca e tango só o louco do D´Artagnan

Fez picadinho de mosquito para o homem que se achava Gardel

O louco esfaqueou o mosquiteiro ao som de La Cumparsita

Tentativa de tango no mosquiteiro acabou em facadas insanas

Nenhuma e, ao mesmo tempo todas as traduções me fizeram sentido do ponto de vista semiótico, mas não conclui exatamente qual era a intenção do autor.

Aceito sugestões