terça-feira, 30 de março de 2010

Conto de fadas perfeito

Era uma vez um cortesão que se apaixonou pela sua rainha. Não se sabe ao certo o por que, mas ela olhou para ele e encontrou aquilo que procurava. Se amaram loucamente. Foram felizes por uma vida e mais infinitas eternidades.

Era uma vez uma vez uma princesa que beijou um sapo que desastradamente se afogava na sua xícara de café. Sob céus eclesiásticos eles descobriram vida um no outro e se tornaram um para sempre.

Era uma vez um ogro que vivia solitário numa floresta tenebrosa. Um dia, raios luz cerúleos o encadilaram e ele conheceu o significado da felicidade. Nunca mais deixou de seguir aquela luz.

Era uma vez um homem cheio de defeitos e vazio de esperanças. Um dia ele encontrou a mulher perfeita, que mudou a sua vida e o tornou um ser amoroso, feliz e apaixonado.

Era uma vez um contador de histórias que tentava escrever o conto de fadas perfeito. Anotava histórias sem parar, uma mais linda que a outra. Se apaixonava cada vez que começava tudo de novo.

Nunca conseguiu acabar nenhuma delas. Descobriu que eram histórias que não tinham fim e "para sempre" não era suficiente para definí-las

segunda-feira, 29 de março de 2010

Como era bom o meu desastre

André acordou cedo e começou a se preparar para o dia que seria longo. Várias reuniões agendadas, almoço com cliente e, de noite o jantar decisivo na casa dos potenciais sogros.

Seria nessa noite que pediria a mão de Eduarda em casamento e nada poderia dar errado. Por isso mesmo que antecipara e encurtara toda a sua agenda para terminar o dia num horário em que pudesse se arrumar com calma e, de forma alguma, chegar atrasado.

Eduarda tinha feito mil recomendações. O pai detestava jantar depois das 8 da noite. A mãe implicava com alguns assuntos. Na sua casa não se recusava nenhum tipo de comida. Quando o pai desse o primeiro bocejo estava sinalizando que era hora de ir embora.

André sabia que a namorada também tinha um monte de manias parecidas, mas estava tão apaixonado que isso era irrelevante.

O dia correu razoavelmente bem, apenas uma reunião atrasou, mas ele conseguiu cancelar a seguinte e se manteve no horário. Chegou em casa com tempo suficiente para tomar banho, fazer de novo a barba e colocar seu melhor terno.

Chegou à casa de Eduarda quando faltavam 15 para as 8. E já foi levando bronca.

"- Não te disse que meu pai janta às 8?"

"- Mas ainda faltam 15 minutos..."

"- Esqueceu do horário de verão? Que os relógios adiantam uma hora?"

"- Mas o horário de verão só começa amanhã..."

"- Eu sei, mas meu pai adianta todos os relógios da casa um dia antes, aqui já são 15 para as 9".

André balançou a cabeça e entrou constrangido, já pedindo desculpas pelo atraso. Ficou tão desorientado que nem percebeu que Eduarda mudara a cor do esmalte, o que lhe custou um bico pelo resto da noite.

Sentou-se à mesa de jantar. A mãe de Eduarda pegou o seu prato e começou a serví-lo. Ele quase recusou a sopa de mandioquinha que odiava, mas pensou na noiva e partiu para o sacrifício, sem saber que, na sequência teria de comer o strogonoff vegetariano, só com palmito e champignons.

Mas ainda não foi nesse momento que ele se questionou se Eduarda valia mesmo a pena. Foi quando Dona Clotilde o olhou feio porque estava falando a respeito de futebol com o Dr Edgar e Eduarda lhe dava pontapés por baixo da mesa. Tinha escolhido um tema tão neutro...

Não era. No meio da conversa, o Dr Edgar foi se exaltando ao falar do futebol moderno, da falta de seriedade dos jogadores, da corrupção dos dirigentes. Para fechar com chave de ouro, perguntou para que time que André torcia... era o maior rival do time do Dr Edgar.

O futuro sogro emudeceu e, nem tinham chegado à sobremesa, começou a bocejar. André não sabia o que fazer, não poderia ir embora sem tocar no assunto que o levara até aquele rascunho de inferno. O futuro passou diante dos seus olhos. Levantou-se, mesmo com Eduarda puxando seu braço, agradeceu pelo jantar e se despediu. Eduarda, enfurecida, o acompanhou até a porta.

"- Você chega atrasado, não repara em nada, janta como se estivesse engolindo cicuta, provoca o meu pai e, ainda vai embora sem me pedir em casamento?? Não quero mais saber de você."

André abriu um largo sorriso e, antes de falar qualquer coisa vomitou todo o jantar no tapete persa de dona Clotilde.

Nunca antes na vida tinha sido tão desastrado. Nunca tinha cometido tantas gafes.

E nunca fora tão feliz com a vida maravilhosa que decorria desses desastres.

sábado, 27 de março de 2010

Pas de deux

Ele pegou uma cadeira da sala de jantar colocou-a de costas para a televisão e de frente para o sofá e sentou-se

Ela não entendeu nada. Tinha acabado de sentar para ver o ballet. Será que ele queria conversar justo naquele momento?

"- Aconteceu alguma coisa?"

"- Ainda não, mas daqui a pouco vai acontecer."

"- O que exatamente vai acontecer daqui a pouco?"

"- O ballet vai começar e eu não posso perder nenhum segundo."

"- Mas você está de costas para a TV... além do que, nunca soube que você gostasse tanto assim de ballet."

"- Sou apaixonado por ballet desde sempre."

Ela olhou para ele com uma expressão que misturava supresa e suspeita. Tinha alguma coisa por trás disto. Ele continuou

"- Meu problema é que sempre assisti ballet em camarote lateral e essa visão de soslaio, ainda que linda, não me permite observar todos os detalhes."

"- Acho que não estamos falando do mesmo ballet..."

"- Amor, não me interessa tanto saber quem é que vai dançar, ou qual é a música. O ballet mais lindo do mundo é o que os seus olhos dançam acompanhando os bailarinos..."

Ela se derreteu toda e fez menção de levantar e agarrá-lo. Ele a interrompeu.

"- Espere, o espetáculo começou, não me prive dele..."

Quase três horas depois. Ela vendo a televisão e ele babando com sua imagem, eles levantaram e, sem nenhuma palavra foram deitar.

Nunca um pas de deux foi tão lindo.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A sogra

Fernando sabia que era só uma questão de tempo. E o tempo enfim chegara.

Há mais de três anos namorava Milena e só não moravam juntos porque ela tinha uma filha e o pai da menina, ex-marido de Milena, não admitia que outro homem morasse junto com a garota. Se eles se juntassem o pai a levaria embora.

Fernando sabia do amor da mãe pela filha e jamais faria qualquer coisa que as separasse. Continuaram namorando como se fossem dois adolescentes, mesmo porque era como se sentiam desde que se apaixonaram.

Uma noite, ao chegar em casa, ligou para Milena e, no meio da ligação ela falou que precisava desligar para acabar de fazer o jantar para o genro. Genro? Isso mesmo, a filha estava namorando firme. Tinha acabado a fase de ficar.

Fernando colocou o telefone no gancho. Pensou um pouco e caiu na gargalhada. Ria de felicidade. A menina não era mais uma garotinha e isso era o primeiro sinal de que, finalmente, poderia começar a pensar em ter Milena o tempo todo.

O mais engraçado de tudo foi que ele concluiu que estava apaixonado por uma sogra. Nunca antes tinha achado essa palavra tão sedutora.

Algumas horas depois Milena ligou de volta para ele que a saudou como sua "sogra amada". Ela riu e, conforme ele foi falando o que pensara, ela se emocionou. Era verdade, o futuro a dois começava a se construir sobre aquele fato.

E foi assim que Fernando se referiu a Milena durante os dois anos seguintes.

Uma noite, Milena o chamou para um jantar especial na sua casa. A filha e o namorado tinham marcado a data do casamento. Ele não podia perder essa festa.

A caminho da casa da sua sogra amada, Fernando parou numa joalheria e comprou um anel para Milena.

Casaram os quatro no mesmo dia.

terça-feira, 23 de março de 2010

Gema rara

Seu pai sempre se referia a ela como uma gema rara.

Lúcia, ainda pequena, só conhecia a gema de ovo e se imaginava transformada em um omelete semelhante aos que o pai comia nos cafés da manhã de domingo.

Até o dia em que, tendo se machucado, desatou a chorar e ouviu sua mãe perguntar o que fazer para que "essa menina não gema". Passou a acreditar que seu pai debochava do seus sofrimentos.

Cresceu em dúvidas sobre seu caráter comestível ou lamentável. Não sabia se era fonte de prazer para o paladar do pai ou culpada como geradora de ansiedade na mãe.

Recolheu-se na sua timidez. Não tinha amigos ou namorados.

Conheceu Alberto na lanchonete da faculdade. Ela caloura e ele quase se formando. Amor à primeira vista. Avassalador.

Viviam um romance de conto de fadas, até o dia que Alberto se referiu a ela como uma gema preciosa. Lúcia caiu em prantos. Alberto não entendeu nada.

Conforme ela explicava o motivo da sua crise de lágrimas o namorado, sempre carinhoso, se esforçava para não rir. Convidou-a para um passeio no parque onde ele sabia que existia um museu de geologia.

Quando entraram na sala de mineralogia, ele parou diante da placa explicativa e começou a ler em voz alta, sem se preocupar com os demais visitantes

" - Uma gema é apreciada especialmente pela sua beleza ou grande perfeição, a aparência é quase sempre o atributo mais importante das gemas..."

Lúcia olhava para ele, cada vez mais apaixonada...e ele não parava de falar:

" As características que tornam uma gema bela ou desejável são a cor, efeitos ópticos incomuns no interior da pedra, uma inclusão interessante , uma raridade e às vezes a própria forma do cristal natural..."

As lágrimas escorriam dos olhos dela mas, dessa vez, eram lágrimas de felicidade.

No dia seguinte ele apareceu na sua casa com uma aliança de sugilite e a pediu em casamento.

A gema rara brilhou para sempre.

segunda-feira, 22 de março de 2010

Prazer na dor

Músculos costumam doer depois de atividades físicas intensas. Bastam alguns dias de falta de uso para eles reclamarem quando voltam a ação.

Mesmo aqueles que são usados com frequência também doem quando exercitados de forma diferente à que estão acostumados.

Nos últimos tempos eu tenho colecionado mialgias. Agudas e crônicas. Aumentei minhas atividades físicas regulares e, com isso, elas começaram a se manifestar.

Os otimistas já me receitaram trinta e dois nomes de pomadas, dezoito tipos de ginástica, nove estilos de massagem e uma quantidade sem fim de soluções milagrosas.

Os céticos são mais consistentes. Concluiram que estou entrando na pré-envelhescência e não existe nada que eu possa fazer.

O que nenhum deles percebeu é que eu dôo e não acho isso ruim.

Eu sei exatamente porque estou doendo e fico feliz porque sei que isso é consequência de uma série de atividades que me dão prazer.

Cada pontada me lembra para que eu usei aquele músculo e me traz boas recordações.

Os mais exaltados podem me acusar de masoquismo e que eu estou exaltando o prazer da dor.

Eu prefiro ter os músculos sobrecarregados e a alma leve. Prefiro que me doa o corpo ao espírito. Prefiro ter caîmbras a insônia.

E a certeza que meus músculos da face vão doer por excesso de alegria.

sexta-feira, 19 de março de 2010

(In) Existência

Ela entrou no carro dele com o olhar cansado. Tinha dormido muito mal nas últimas noites, preocupada com o futuro.

Não que não tivesse boas expectativas a respeito deste, muito pelo contrário, tudo parecia maravilhoso mas, para alcançá-lo, teria de enfrentar alguns terremotos e isso a assustava muito.

Ao seu lado ele a observava. Mesmo sabendo o que a preocupava ele fazia questão que ela falasse e repetisse. Acreditava ser uma forma de colocar para fora o que envenenava a sua alma.

Era a primeira viagem que os dois faziam juntos. Veriam o mar pela primeira vez juntos. Iriam se registrar juntos num hotel pela primeira vez.

Ele trouxera os discos. Uma antologia da vida a dois. Pediu que ela escolhesse o repertório.

Mal entraram na estrada ela recostou o banco, segurou o cotovelo dele e, logo depois, dormiu.

Ele alternava o olhar entre a estrada e ela. Linda repousando ao seu lado. Pensava em todo amor que sentia.

Enternecido com o seu sono, ele a acariciava sempre que podia. Ela dormia profundamente, a ponto de sua mão estar completamente relaxada.

Horas depois chegaram a seu destino. Durante o final de semana fizeram tudo o que tinham planejado e um pouco mais. Ela ainda teve dificuldades para dormir durante aquelas duas noites.

Na volta ela dormiu novamente no carro e, mais uma vez, ele se apaixonou por ela (fato que já acontecia várias vezes por dia). Mais que isso, ele se sentiu elogiado pelo seu sono.

Concluiu que, para dormir no carro tranquilamente daquele jeito, ela confiava completamente no que ele estava fazendo. Como uma criança.

Era uma criança. Ao mesmo tempo uma mulher. E que mulher. Concluiu que, por mais que a tocasse e sentisse, ela não existia.

Quase chegando ela acordou. Para ouvir dele a declaração de amor existente, por um ser inexistente.

quinta-feira, 18 de março de 2010

Conspurcando analogias

Dizia a minha avó: O calor da mão é o que faz a massa dar certo...

Ar no pulmão mantém o coração desperto.

Tamanha beleza, deixou-me boquiaberto

Ar condicionado é recurso a descoberto

Para arejar a sala, só com o vidro aberto

Ele prende eu liberto

Futuro sonhado nunca é incerto

Analogias insanas é o que eu oferto

terça-feira, 16 de março de 2010

Valsa

Ela chegou na sala e foi em direção ao aparelho de som.

Da poltrona, onde lia, ele observava cada um dos seus movimentos.

Abriu a portinhola do equipamento, tirou o disco que acabara de tocar e o guardou no seu estojo.

Ele a via de costas, com seus longos cabelos sobre os ombros nus.

Ela correu os olhos pela estante, em busca do que queria.

Ele reparava nas suas mãos pegando cada disco e nos seus olhos lendo as capas.

Achando o que buscava, ela sorriu.

Achando o que buscava, ele sorriu.

Ela apertou o play e começou a girar sozinha pela sala.

Ele levantou da poltrona e apertou o seu play.

Ela olhou para ele e lhe estendeu os braços.

Ele a tomou nos braços e entrou na dança.

Ela se deixava levar instintivamente pela música

Ele contava os tempos do compasso.

Depois de 19 valsas, doíam as pernas dela, o braço dele latejava.

Suados e felizes se olharam.

E começaram tudo de novo.

domingo, 14 de março de 2010

Olhos abertos

Caligo pousou na pedra pequena e observou o grupo de casas que estava à sua frente.

O perfume de baunilha sempre a atraía àquelas paragens.

Seus olhos arregalados e brilhantes costumavam atrair predadores, era melhor evitá-los.

Refugiou-se na oficina da igreja de onde vinha o aroma, pousando em uma tela.

Ouviu o pio de uma coruja e suas asas tremeram de uma forma incomum.

Ela estava logo acima de Caligo. Temeu um ataque, mas não conseguia se mover.

A coruja olhou as asas da borboleta e nelas viu o seu reflexo.

Não eram da mesma espécie, mas tinham grandes afinidades.

Percebendo que ela estava assustada, protegeu-a sob suas asas.

Tomou-a delicadamente pelo bico e colocou Caligo no seu ninho.

Desde então, quatro olhos atentos habitam a cornija.

Eternas companheiras.

sábado, 13 de março de 2010

Vício exótico

A filha reclamou que Ariane estava viciada em badminton. Desde que ela descobrira os mistérios da peteca ela só pensava naquilo.

O marido chegou mesmo a mandar uma matéria a respeito de clínicas de recuperação de viciados em raquetinhas.

Na verdade, era um exagero. Ela tinha aula uma vez por semana e, aos sábados passava a manhã na quadra jogando.

O que provocava o estranhamento era o fato de ser um esporte exótico e desconhecido.

Além do que, ninguém na casa entendia as regras daquele jogo, um verdadeiro atentado aos egos que sempre acharam que sabiam tudo a respeito de tudo.

Por que a peteca precisava ser feita de pena de ganso? O que é que o Duque de Beaufort tinha a ver com a história? Como que uma mera peteca poderia voar a mais de 200 km/h?

Será que não dava para ela jogar tênis como qualquer ser humano comum? Ariane não era uma mulher comum, não se contentava com coisas que todo mundo fazia.

Quando a televisão começou a passar os jogos do campeonato mundial, e ela a assistir, achou que a família ia massacrá-la. Os jogos aconteciam na Índia e o fuso horário fazia com que ela passasse as madrugadas assistindo o torneio.

Realmente chegou a ouvir reclamações, até o dia em que a filha chegou mais tarde e a encontrou na televisão. Sentou ao seu lado e começou a assistir o jogo junto com a mãe. Perguntou as regras, tirou as dúvidas e até torceu pela dupla da Dinamarca.

Ariane foi explicando tudo e, ao final do jogo, perguntou à filha se ela não queria ir assistí-la jogando. Não era nenhuma Han Aiping, mas até que jogava bem. A filha olhou com misto de surpresa e interesse.

Atualmente, Ariane e a filha são as campeãs de duplas femininas do clube em que jogam.

sexta-feira, 12 de março de 2010

Passado a limpo

Avec mes souvenirs
J'ai allumé le feu,
Mes chagrins, mes plaisirs,
Je n'ai plus besoin d'eux!
Michel Vaucaire / Charles Dumont




Quando Armando chegou em casa naquela sexta feira ele estava decidido. Chegara a hora pela qual ele sempre esperara. Não tinha mais nenhum dúvida a respeito.

Entrou no quarto que ele denominava como "quarto da bagunça" e começou a tirar caixas do armário.

Ninguém jamais entendeu porque ele dera esse nome ao quarto onde guardava suas coisas, até porque estava tudo meticulosamente organizado. Armando era tão metódico que ele sabia onde colocara até o recibo da farmácia onde comprara aspirinas há mais de 10 anos.

Armando guardava tudo. Papéis, fotos, recortes de receitas, mas ia além. Numa caixa de madeira dentro de uma das gavetas estava o toco de lápis com que aprendera a escrever, a sua primeira chupeta e até as rodinhas de apoio de sua primeira bicicleta.

Não existia nenhuma fase da vida de Armando que não estivesse representada naquele armário. As que ele não fazia questão de lembrar ficavam nas prateleiras mais altas, no fundo. Até aquele dia.

Armando pegou a escada e foi direto em direção às lembranças que não lhe traziam prazer. No chão ele já tinha colocado grandes sacos de lixo para rececebê-las. Para dentro deles foram sua coleção de bolachas de cerveja, do tempo que vagava de bar em bar. Os cristais, do tempo em que ele quase acreditou em poderes esotéricos para resolver seus problemas.

Olhou incrédulo para sua coleção de revistas pornográficas. Até entendeu porque recorrera a elas, mas não fazia o menor sentido mantê-las.

Ele não se arrependia de nada que tivesse feito na vida. Para o bem ou para o mal, tudo servira para que ele chegasse, finalmente, no ponto em que estava. O que não significava que ele precisasse mais das lembranças do passado.

Reorganizou tudo que era da sua infância. Não jogou fora nada que o lembrasse dos seus pais. Dos amigos, só manteve fotos e cartas daqueles que continuavam a sê-lo depois de todas as dificuldades pelas quais ele passara. Os que não o acompanharam não valiam a pena.

Aproveitou também para se livrar de um monte de roupas que remetiam a essas memórias. Inclusive os sapatos de bocha.

Quando acabou de separar tudo, pegou os sacos repletos de objetos e colocou-os no lixo. Ao chegar limpou o quarto que estava cheio de poeira e foi tomar um banho.

A água pelando acabou de executar a faxina, nem na sua pele sobravam mais resquícios do que jogara fora. Vestiu a roupa nova que comprara naquele dia e foi para a cozinha.

Cozinhou como nunca tivera feito antes. Arrumou a mesa, separou seu melhor vinho e colocou-o na geladeira para refrescar.

Às 9 em ponto a campainha tocou. Era Anita. Com ela, todo dia era o primeiro, todo o dia era único.

Com ela, sua vida não precisava mais das amarras do passado.

quinta-feira, 11 de março de 2010

Dieta dos 50

Desde a minha tenra infância eu sempre fui conhecido como o homem sanfona. Meu peso sobe e desce continuamente. Mais sobe do que desce, diga-se de passagem. Considerando que nasci quase com 5 kg e minha mãe não sofria de diabetes, você pode imaginar.

Atualmente estou em mais uma das minhas dietas. Um hábito sempre que ultrapasso os três dígitos. Já perdi quase 10k e ainda tenho espaço para perder mais uns 6 ou 7. Nada muito diferente do passado, exceto a reação das pessoas.

Eu fiz dieta com 14 anos, com 20 e poucos, com 20 e muitos, com 30 e tantos e várias tentativas depois dos 40. Atualmente, faltando poucos meses para eu chegar aos 50 resolvi radicalizar. Não tomo remédios mágicos, nem os chás Veronese ou Hooker, apenas me garanto que gasto muito mais calorias que consumo diariamente. Menos comida calórica, mais exercícios. Funciona.

Claro que depois de perder quase dois sacos de arroz a minha aparência mudou, é visível a diferença e é impossível que quem me conhece não perceba.

Felizmente minha esposa ficou satisfeita com o novo visual, afinal de contas é quem me inspira o esforço. Mas ela está longe de ser uma unanimidade.

Diferente de outras dietas quando era mais jovem, as reações das pessoas são muito diferentes. Antigamente me olhavam com expressão de alegria e satisfação e elogiam minha perda de peso. Agora, quase todos calam. Imagino que pensem que, com a minha idade, eu devo estar emagrecendo por motivos que, talvez, seja melhor não perguntar.

Ainda não aconteceu, mas estou esperando a hora que alguém vai me perguntar se eu fiz cirurgia de redução de estômago.

Mesmo os que comentam algo é de forma bastante cautelosa, morrem de medo de cometer uma gafe. Eu observo tudo e me divirto, apesar do sinal inequívoco de envelhecimento, como idade nunca foi um assunto que me incomodasse, não lamento essas constatações.

Já tinha descoberto que estava cheio de anos quando, ao pesquisar os documentos para tirar passaporte, descobri que não precisava mais apresentar minha carta patente (sou oficial da reserva, não tenho reservista). Daqui a 10 anos já terei direito até à fila preferencial. Uma conquista.

Só espero não engordar tudo de novo e, aos 60, ter de fazer regime de novo. É bem capaz das pessoas, ao invés de elogiarem meu emagrecimento, me mandem procurar um médico.

terça-feira, 9 de março de 2010

Reflexões

Desde pequena Bela adorava brincar com espelhos. Fosse o espelho do quarto da sua mãe que, para o seu tamanho, era enorme, como os espelhos engraçados dos parques de diversões.

De todos eles, o seu preferido era o jogo de espelhos frente a frente que a refletiam infinitamente. Ela se admirava diante deles, não sem razão, era uma menina muito bonita.

Quando adolescente aprendeu todos os segredos da reflexão de espelhos planos nas suas aulas de óptica, mas nem a frieza do conhecimento das imagens que não poderiam ser projetadas, por serem virtuais, tiraram dela o encanto e a magia do infinito.

Uma das primeiras coisas que falou para Godofredo, quando começaram a namorar, foi a respeito dos espelhos. Num primeiro momento ele considerou que era apenas uma fascinação pueril, depois foi descobrindo que era muito mais séria que imaginava.

Completamente apaixonado por Bela, ele começou a estudar os espelhos, todo assunto que dissesse respeito a ela o interessava. Suas descobertas o deixaram ainda mais bobo do que já estava. Os espelhos de Bela eram a sua própria vida.

Mais que isso, ele começou a enxergar na amada os reflexos dos seus próprios sentimentos. Ele a amava loucamente e, como por encanto, o amor da namorada refletia nele e voltava para ela. Assim acontecia com o carinho, a amizade, o desejo e o orgulho que nutria por ela, todos eram reflexos dos sentimentos dela.

Quando Godofredo contou isso para Bela ela lhe devolveu um imenso e belo sorriso. Era exatamente isso que ela dizia para ele há tempos, que os sentimentos dela eram apenas reflexos dos dele. Emocionado, não conteve as lágrimas. Nem ela.

Frente a frente poderiam enfrentar qualquer coisa, e sempre estariam presentes um no outro, até o infinito.

segunda-feira, 8 de março de 2010

Pão de fada

Que me acompanha nesse blog sabe que eu sou, historicamente, um desastre quando resolvo fazer pão. O único que salva a minha pele das críticas arrasadoras que eu mesmo me faço é o pão de queijo (deve ser por conta dos 50% de sangue mineiro que eu tenho).

Por outro lado, é verdade que eu não desisto. Experimento todas as receitas novas que me surgem. Foi o que aconteceu.

Uma fada veio até mim e disse que ia fazer "morning buns" e me contou o segredo da magia me levando até a terra encantada da receita. Não só a receita, mas a forma de fazer passo a passo em video. Como incentivo adicional, ela mesmo fez uma fornada e me mostrou como ficaram.

Não resisti. Fui até o supermercado. Nessa terra encantada obtive os ingredientes que me faltavam. Uma voz me guiava pelas gôndolas.

Voltei para casa ainda sobre o impacto do encantamento e, literalmente, coloquei a mão na massa. Em cada etapa do processo eu sentia como se as sementes de gergelim fossem o pó mágico da Sininho.

Com toda essa ajuda externa só havia um resultado possível. Os pãezinhos ficaram ótimos. Podem experimentar a receita. Infelizmente só não posso ajudar com a parte encantada.

Pães matinais
(Morning buns)

Ingredientes

500g de farinha de trigo
Uma pitada de sal
Uma colher de sopa de manteiga
Uma colher de sopa de açúcar
Um tablete de fermento biológico (15g)
1 gema
275 ml de leite

Para a finalização
1 ovo batido em duas colheres de sopa de água
Sal grosso
Gergelim

Modo de fazer

Numa batedeira com as pás próprias para pão misturar todos os ingredientes em baixa velocidade por 5 minutos. Quando a massa estiver consistente bater por mais 3 minutos em velocidade média.

Tirar da batedeira, sovar a massa e colocá-la, coberta por um pano num local seco e morno. Deixar crescer por 30 minutos.

Sovar novamente a massa para tirar as bolhas de ar. Dividir em pedaços e formatar os pães.

Cobrir novamente e deixe crescer por mais 20 minutos.

Colocar os pães numa forma. Pincelar com o ovo batido. Polvilhar um pouco de sal grosso e um pouco de gergelim

Assar em forno médio( 200º C), pré-aquecido, até os pães ficarem dourados.

Como eu sempre associo pães à poesia, fica a minha preferida do tema, para a minha fada

SONETO XLVIII - Pablo Neruda

Dos amantes dichosos hacen un solo pan,
una sola gota de luna en la hierba,
dejan andando dos sombras que se reúnen,
dejan un solo sol vacío en una cama.
De todas las verdades escogieron el día:
no se ataron con hilos sino con un aroma,
y no despedazaron la paz ni las palabras.
La dicha es una torre transparente.
El aire, el vino van con los dos amantes,
la noche les regala sus pétalos dichosos,
tienen derecho a todos los claveles.
Dos amantes dichosos no tienen fin ni muerte,
nacen y mueren muchas veces mientras viven,
tienen la eternidad de la naturaleza.

domingo, 7 de março de 2010

O crime que compensa

Era um ladrão de devaneios. Só roubava aquilo que não existia.

Gostava de roubar sorrisos. A vantagem é que seus proprietários só os possuíam no exato momento do crime.

Alguns dos seus atos chegavam a ser violentos. Não poucas vezes arrancou suspiros, ar que que vai ao ar.

Dos amigos só tirava abraços, roubos mútuos e recíprocos.

Das crianças gargalhadas, com seu jeito de bobo da corte.

Seu crime preferido, no entanto, era roubar beijos de sua amada.

Na rua, em casa, no carro. Quando ela menos percebia, ele perpetrava a ação.

Assaltos que todos os dias ela registrava no seu boletim de ocorrências, mas só dava queixa se os roubos diminuiam.

Por esse crime ele foi condenado perpetuamente ao amor. Nunca recorreu da sentença.

sábado, 6 de março de 2010

Mais uma aventura da Mulher-Mola e do Homem-Espuma

O silêncio e a tranquilidade da madrugada foram subitamente rompidos pelo barulho ensurdecedor das sirenes da fábrica de cosméticos.

Os vizinhos, num primeiro momento, pensaram que pudesse ser um incêndio mas, das janelas, não viam nada que chamasse a atenção.

Minutos depois a fábrica estava cercada pela polícia, pelos bombeiros e pela imprensa. O diretor da fábrica explicava para os jornalistas que alguém tinha aberto o cofre principal, onde se encontrava a fórmula secreta do seu famoso creme hidratante.

Quando a polícia tentou entrar na fábrica foi recebida a tiros. Era Belly Button, um criminoso especialista em roubo de fórmulas, marcas e patentes, que gritou de dentro do prédio que, se não os deixassem fugir, eles explodiriam a fábrica e, junto com ela, metade do bairro.

O comandante da polícia pediu que ele esperasse, precisava de autorização dos seus superiores. Entrou na sua viatura e apertou o botão magenta. Era o último recurso, chamar os super heróis Homem-Espuma e Mulher-Mola.

A dupla não demorou a chegar no local e pediu ao comandante que ganhasse tempo com os facínoras, em seguida entraram em ação.

A Mulher-Mola, com sua flexibilidade e sua capacidade de armazenar energia, deu um triplo mortal e passou facilmente pelo muro dos fundos. O Homem-Espuma, gorducho e maleável, especialista em reter líquidos, entrou na fábrica pela caixa d´água. Em poucos segundos estavam diante de Belly, armado até os dentes e com munição suficiente para enfrentar um exército.

Os tiros não fizerem efeito contra Espuma que os rebatia com sua consistência viscosa e cristalina. De outro lado a Mulher-Mola se esquivava de cada bala com giros e saltos acrobáticos.

Assim que avistou o dispositivo da bomba, Mola, como se fosse uma garça, voou sobre o armamento e o tirou do bandido. Espuma lançou seu corpo contra o inimigo e imobilizou-o. Em seguida a polícia invadiu o local e prendeu Belly.

A imprensa logo cercou os super-heróis em busca de declarações, mas eles não eram dados a aparições públicas. Conseguiram apenas arrancar um frase de Belly Button no seu caminho para o camburão:

"- Dessa vez eu aprendi. O creme não compensa".

quinta-feira, 4 de março de 2010

O tempo da música

Anita e Oto se conheceram num jantar de família à qual ambos eram agregados. Anita era pianista. Oto professor de dança. Não foi só a música que os uniu, mas esta sempre teve parte fundamental nas suas vidas.

Durante o jantar pediram que ela tocasse. Ele não tirou os olhos dos olhos dela. E ouviu cada nota com toda a atenção do mundo. Ela foi muito aplaudida, mas só ele elogiou o repertório que tinha escolhido. Nesse momento, ela se apaixonou.

Foi a música que os levou a concertos fantásticos, a belos musicais e a uma constante troca de CD´s e DVD´s. Foi através da música que Oto começou ensinar Anita a dançar. Ela, que até então se julgava dona de dois pés esquerdos, se revelou no salão.

Não poucas vezes paravam o que estavam fazendo para sentar e ouvir 19, 20 músicas em seguida, um olhando para o outro.

Também foi a música que, muitas vezes, gerou momentos de tensão entre os dois. Anita tinha seus compromissos profissionais, Oto, os dele. O amor provocava uma necessidade brutal de estarem juntos o tempo todo. Nem sempre isso era possível.

Anita, não poucas vezes, abriu mão de convites para tocar, em troca da sua companhia. A agenda mais flexível de Oto sempre acabava pressionando-a. Não sem consequências. Um dia ela pediu um tempo. Ele ficou apavorado. Tudo que entendia por "pedir um tempo" eram sinais de despedida.

O que Oto descobriu é que o tempo de Anita não era uma ameaça de abandono, mas mais uma prova do seu amor por ele. O tempo que ela precisava era justamente para poder amá-lo sem distrações do dia-a-dia. Para amá-lo ainda mais do que o fazia, como se isso fosse possível. E era, ela sempre conseguia ir além de qualquer expectativa.

Por isso mesmo, Oto a incentivou para aceitar um convite para tocar num recital de tango em Vancouver. Tinha certeza que ela brilharia como sempre. Ela relutou um pouco, teria de ficar fora quase uma semana. Para satisfazê-lo ela foi.

Quando chegou ao seu destino, Anita logo pegou o telefone e, sabendo que aquela hora ele estaria dando aulas de dança, lhe mandou uma mensagem: "Que a música seja um elo entre nossos corações e que cada passo que você der te traga mais perto de mim".

Emocionado, Oto não conseguiu sequer dizer obrigado. Quando chegou em casa foi verificar o fuso horário e, no exato momento em que ela deveria estar aquecendo os dedos para a sua apresentação, lhe respondeu: "Cada nota, cada acorde e até cada dissonância me fazem te amar ainda mais. E não existe passo que dê, dançando ou não que não seja teu."

E o tempo que se deram, passou a atender pelo nome de eternidade.

terça-feira, 2 de março de 2010

A procrastinável antologia de Fevereiro


Todos os meses eu seleciono os melhores comentários do mês anterior e os publico aqui completamente fora de contexto. O jogo é justamente lê-los sem voltar aos textos que os provocaram.

Alguns comentários são de Janeiro, uma vez que a antologia desse mês era muito curta para ficar isolada. Divirta-se.

A cavalo, cheirando lavanda, fresco...

...deve ser professor de escatologia.

...informo que não vou atender telefone seu, tá?

Para quem faltou, vai ter recuperação paralela?

Os poemas são ótimos, a foto é pavorosa.

Acho que vou comungar, minha mente perversa me pegou.

Se eu fosse católica tb teria que me confessar!!!

Não vejo a hora de estudar o Boro...

o que me preocupa no momento é a " corrupção provocada por outros elementos"

O ráios...se descubro esse truque,fico rica!!!

Esse vai e vem entre a fantasia e a realidade é o mais gostoso da vida.

E eu que pensava ter estudado tudo, qdo fiz odontologia...

Konoronhkwa ietsi:tewe

Deus do céu, que aflição!!! Nojo total!!!

O mistério não é para a ciência, é para os poetas.

Seu... seu... pornógrafo!!!

É como o silêncio sinistro nessa sala silenciosa...nessa sexta feira solitária.

Estou desconfiada que minha pedicure é uma ninfa...

DEUS ME LIVRE: meu spray de cabelo na mesma mala com a espuma de barbear?

segunda-feira, 1 de março de 2010

Oásis

Hiérocles, apesar do nome, não era nada aventureiro. O típico sedentário urbano, cheio de atividades intelectuais e nenhum esporte.

Por isso mesmo todos se surpreenderam quando ele disse que ia fazer uma excursão para o deserto de Atacama com o objetivo de atravessá-lo à pé.

Contrariando todas as expectativas de que iria desistir no último momento, ele foi. Ligou de Santiago avisando que tinha chegado e, dois dias depois um e-mail de Copiapó, a travessia começaria no dia seguinte.

O primeiro dia de caminhada foi tranquilo, todo o grupo estava animado. No segundo dia começaram as defecções. Ao final de uma semana só tinham sobrado Hiérocles e o guia. Mal tinham chegado à metade do percurso.

Durante o café da manhã foram surpreendidos por uma tempestade de areia. A barraca foi arrastada e eles também. Hiérocles ainda ouviu os gritos do guia tentando avisá-lo de algo, mas não conseguiu entender. Estava sozinho no meio do deserto.

O cantil que levava amarrado ao corpo durou um pouco mais de um dia. Debaixo do sol escaldante ele começou a ter alucinações, via pessoas que ele imagina, iriam resgatá-lo. Uma, duas, três. Sumiam assim que ele se aproximava. Deixou de acreditar nelas e sentou-se esperando pelo fim.

Já era o final da tarde quando, ao longe, viu uma mulher sobre a duna que se elevava à sua frente em meio a nuvens multicoloridas. Considerou-a apenas mais uma miragem, mesmo assim caminhou em sua direção, algo incontrolável o arrastava para ela.

Conforme foi se aproximando a imagem da mulher foi ficando mais nítida. E que mulher! Definitivamente era uma miragem, mulheres como aquela não existiam na vida real.

A dificuldade para caminhar aumentava a cada passo, e a mulher continuava lá, impassível, como se fosse uma igreja esperando para acolher um fiel.

Chegou a poucos metros dela. Mesmo assim não perdia o medo de que, a qualquer momento, ela se evaporaria diante dos seus olhos. Quando estava a uma distância que praticamente dava para escutá-la respirar ele ouviu:

"- Já estava aqui há algum tempo. Pensei que você não fosse chegar, quer um café?"

Hiérocles disse que queria tudo. Café, suco, água, o sangue e o suor dela. Ela sorriu e o tomou pela mão. Levou-o para um local de repouso e cuidou dele.

E todos os dias de sua vida, Hiérocles passou a se surpreender com a sua miragem que era real como um oásis.