sábado, 27 de fevereiro de 2010

Mala para um

Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
(Chico Buarque)


Maurício chegou em casa, sentou na sua cadeira de balanço, fechou os olhos e viajou em direção a outros planetas. Nunca tinha se sentido daquele jeito e o que ouvira naquela tarde mudava toda a sua vida.

Ele sempre fora uma pessoa independente. Fazia questão de ter as suas coisas, organizadas do seu jeito. Ele mesmo se encarregava da arrumação do seu quarto, da limpeza do seu banheiro. Nem o ralo deixava que a empregada limpasse. Fazia qualquer coisa para que ninguém tirasse do lugar aquilo que ele, metodicamente, tinha colocado aonde lhe parecia melhor. Nem mesmo durante o tempo em que morou com Fátima deixava que ela assumisse o seu lugar na ordem das coisas.

Mais do que qualquer outra coisa, existia um tema onde ele jamais admitira nenhuma contestação: a sua mala era a sua mala. Fosse para uma viagem curta ou longa, ele jamais dividira a sua mala com quem quer que fosse. Dentro dela navegavam apenas as suas coisas, meticulosamente organizadas de forma que ele encontrasse cada um dos seus pertences até de olhos fechados. Durante toda a sua vida ele resistira a qualquer sugestão de compartilhamento.

Seu estarrecimento acontecia justamente porque, naquele fim de tarde, durante um passeio pela shopping com Sueli ele mostrou para ela uma escultura em bronze de um casal dançando e mencionou que aquela poderia ser a primeira obra de arte que eles colocariam em casa, quando tivessem uma juntos. Sueli nem vacilou, no momento em que Maurício foi ao banheiro, entrou na loja, comprou a peça e foi encontrar com ele no café. Quando abriu o pacote ele nem sabia o que falar. Há tempos sonhava com o dia em que eles se casassem, mas sempre tivera a impressão de que ela evitava o assunto. O presente era uma proposta de casamento.

Durante o café falaram do assunto de forma brincalhona, mas nenhum dos dois estava brincando. Maurício sugeria lençóis e Sueli imaginava a organização do quarto. Até que, de repente, ela falou que quando estivessem casados não precisariam mais usar malas diferentes. Maurício arregalou os olhos, engoliu em seco e toda a sua vida passou por sua mente, uma vida em que sempre acabara sozinho, uma vida em que se acostumara a resolver tudo por sua própria conta. De repente, diante dele, alguém lhe dizia que ele não precisava mais ser assim.

Sueli percebeu que tinha tocado no ponto nevrálgico e ficou esperando alguma reação da parte dele. Ela o conhecia o suficiente para saber que o que falara representava não uma mudança de comportamento, mas toda uma forma diferente de encarar a vida. Sem jeito ele comentou que poderia ser, desde que ele arrumasse a mala. Sueli, obviamente, concordou com a condição. Depois do café a deixou em casa.

Nas idas e vindas da cadeira de balanço, Maurício criava imagens mentais da suposta mala conjunta. Começou pensando numa divisão com um lado para cada um. Aos poucos foi enxergando as roupas se mexendo dentro dela durante uma viagem. A perna da sua calça embaraçada no braço da blusa dela. Seus sapatos ensanduichados pelas sandálias de Sueli. A intimidade compartilhada das roupas de baixo. Tudo lhe parecia um delírio surrealista.

Levantou e saiu. Precisava de ar. Mais que isso, precisava dizer para Sueli o que realmente pensava aquele respeito. Não era possível para ele viver daquele jeito.

Já era quase meia noite quando o interfone tocou no apartamento de Sueli. Assustada com o avançado da hora, ela ouviu do porteiro que tinham deixado uma encomenda para ela. Pediu que ele a colocasse no elevador. Quando abriu a porta deparou-se com uma caixa imensa. Empurrou-a com dificuldade para dentro de casa e foi em busca de uma tesoura para abrir o pacote.

Quando a tampa da caixa se abriu ela pode, finalmente, enxergar o que era. Uma mala roxa, enorme, linda. Junto um bilhete: "não é grande o suficiente para guardar todos os meus sonhos e desejos, esses já estão protegidos dentro do seu coração, mas é suficiente para todas as viagens das nossas fantasias".

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

A minha vingança

Hoje eu vou escrever o que penso sem nenhum tipo de prurido.

Aliás, estou com um comichão danado para soltar o verbo de forma que meus desafetos tremam nos seus receptores dérmicos e mucóticos.

Quero me transformar no agente irritante de todas as terminações nervosas desmielinizadas.

Que cada um de meus êmulos sejam atacados por sensações desagradáveis, especialmente durante a noite quando elas acontecem com maior intensidade.

Que a liberação de histamina seja abundante e não se limite à abundância, nem de forma primária, nem secundária. Que o círculo vicioso de prurido-arranhadura altere suas integridades cutâneas.

Eu, de minha parte, não vou sequer me ruborizar.

Meus inimigos fiéis, que sejais escoriados e despigmentados.

Sejam inundados de escabioses sem direito a corticosteróides.

Minha vingança será urticária e infecciosa. Quiçá neuropsicogênica

E eu quero mais é me coçar de prazer.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Diferenças

Mário e Elena se amavam como nunca nenhum dos dois amara antes. Como nenhum outro ser humano amara antes e, mesmo se existissem seres em outros cantos do universo, eles também não conseguiriam chegar perto do sentimento que os unia.

Não eram almas gêmeas, eram um só. Unidade que não vinha das milhares de características que tinham em comum, mas principalmente da união das suas diferenças. E não eram poucas as diferenças, nem se concentravam em coisas sem importância, algumas delas aconteciam em questões muito sérias.

Mário valorizava muito o impacto do que fazia em todo o seu entorno. Elena não. Para ela poucas pessoas importavam de verdade e só essas eram objeto do seu cuidado e da sua preocupação. Se outros se escandalizassem com o que ela fazia, ela não ligava. Mário sim.

Mário também era mais sensível aos problemas que enfrentava. Cada um, por menor que fosse, o incomodava sinceramente. Além do que, ele acreditava que não existiam questões que fossem insolúveis. Se, na forma, ele, às vezes, parecia ser pessimista, de fato, ele é que era o otimista do casal.

Elena enfrentava as situações problemáticas com um certo desdém. Já batera muito a cabeça na vida e se tornara uma pessoa cética. Se, de um lado ela era militante de grandes ideais utópicos, de outro achava que muitas coisas não mereciam o desgaste que provocavam.

Era difícil para Mário aceitar essa visão. Era tão ou mais difícil para Elena. Por isso mesmo, esse era o ponto onde, de tempos em tempos, os dois trocavam faíscas.

Como na noite anterior. Mário comentara sobre um aborrecimento que tivera numa conversa com um colega de trabalho. Elena, que já tinha restrições pessoais a respeito desse colega respondeu que isso não era nada mais que o comportamento habitual dele.

Foi o que bastou para a diferença voltar à tona, com direito a recordações de todas as situações similares anteriores. Elena tentava explicar seu raciocínio. Mário se exaltava ainda mais com as explicações dela. Até o momento em que Mário falou que era por isso que ele já não contava tudo para ela. Elena sentiu como se um punhal tivesse sido enterrado no seu peito. Como assim? Ele estava deixando de falar sobre os assuntos polêmicos?

Ela teve de lembrá-lo que ela era a pessoa que, no passado, escondia os seus sentimentos. Fora justamente ele que a ensinara que amor de verdade não omite nada, nem para poupar o outro. Ele a convencera que transparência era o fundamento de tudo que eles construiam.

Mário ficou sem saber bem o que responder. Seu coração sabia que não poderiam existir abismos ou cortinas, mas a sua cabeça ainda sentia a dor que a indiferença de Elena tinha provocado e isso o fazia pensar em não falar mais.

Para piorar a situação, Mário confessou que vinha omitindo sistematicamente suas preocupações a Elena. Ela começou a chorar. Sentia-se a pior mulher da face da Terra. Percebeu o quanto era culpada da situação. Justo ela que tinha ensinado Mário a não sentir culpas. Concluiu que ela era um lixo por ter feito seu amor sofrer.

Elena dormiu muito mal aquela noite. No dia seguinte levantou cedo e deixou Mário dormindo. Resolveu o que precisava fazer na rua e, do meio do caminho, lhe mandou uma mensagem de bom dia. Todos os dias ela lhe dava bom dia apaixonadamente e não seria por causa de uma discussão que ela deixaria de fazer isso.

No caminho de volta para casa Elena parou diante do mar. O dia estava encoberto como os seus pensamentos mas, na linha do horizonte, o mar estava azul da forma como Mário gostava de descrevê-lo em seus poemas. Estacionou o carro, tirou as sandálias e caminhou na areia até molhar os pés.

Chrou de novo. Dessa vez o choro era de esperança e de alegria. A água a envolvia como o abraço firme e carinhoso de Mário. Sabia que não existiam pessoas, fatos, circunstâncias que os pudessem separar. Foi com essa certeza que ela ligou para ele. Mário respondeu que ela era o ar que ele respirava, quem o fazia vivo. Ela era sua paz. A queria num abraço que durasse para sempre. Elena, pela terceira vez, se debulhou em lágrimas e o agradeceu demais. Precisava muito ouvir aquilo naquele momento.

Durante o resto do dia Elena refletiu sobre o ocorrido. O da noite anterior e os do passado que sempre voltavam. Era preciso mudar aquilo. Eles não precisavam mais passar por esse tipo de situação e, mesmo que a diferença continuasse presente, ela não podia gerar desentendimentos. Ela sabia que precisava olhar as coisas com os olhos do coração. Mário também precisava entender a cabeça de Elena. Caso uma fala não agradasse o outro isso precisava ser dito na hora, sem mágoas nem ressentimentos.

Precisavam sinceramente esquecer os episódios do passado, não podiam ficar como feridas mal curadas que só serviam para infeccionar o cotidiano. Mário não poderia omitir nada. Ela não poderia desvalorizar nenhum sentimento dele. Nenhum deles poderia deixar de falar o que pensava, nem para poupar o outro. Era uma ilusão achar que isso poderia proteger o amor. Até porque amor que precisa ser protegido de contrariedades ou de momentos difíceis não é amor de verdade. O deles era.

O caminho era só um. A vida só uma. A felicidade uma sensação permanente. Na fusão das diferenças.

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2010

Agosto

Sofia estava emocionada. Nem fazia tanto tempo assim que namorava Alberto, mas lhe pareciam décadas, quando finalmente ele a pediu em casamento. Era o sonho da sua vida.

E nem era só o sonho do casamento em si, mas o fato de que ele era o homem que mais se aproximava da sua visão de príncipe encantado.

A sua excitação era tão grande que, ela que nunca bebia, aceitou brindar com uma taça de champagne. O que não previa era que ia engasgar no segundo gole.

No momento em que levava a taça aos lábios ele afirmou que casariam em Agosto, no mesmo dia que tinham casado seus pais. Voou Veuve Clicquot por toda mesa, até mesmo na gravata de Alberto.

Ele apressou-se em socorrê-la. Ela demorou alguns minutos para se recompor fisicamente. Mentalmente se sentia como se arrastada por uma violenta corredeira.

Agosto? Ela pensava. Justo Agosto, o mês das assombrações, quando as almas de outros mundos gemem e arrastam correntes. Quando os fantasmas balançam as camas dos que dormem e aparecem pedindo sacrifícios que resgatem seus espíritos.

Ao mesmo tempo sabia que não podia contestar a data que Alberto valorizava tanto. Também não podia rejeitar a proposta de casamento. E ainda por cima pensava no que vestiria justo no mês de frio e ventania.

Quando Alberto perguntou o que tinha acontecido ela alegou que tinha sido a bebida, não estava acostumada. Pediu que ele a levasse para casa.

Não pregou o olho durante toda a noite. O turbilhão mental não se acalmava. Todas as possibilidades lhe passaram pela cabeça, até de desistir do casamento. Ligou logo cedo para Alberto e disse que precisava conversar com ele.

Tomaram café da manhã juntos e ela lhe abriu o coração. Disse que o amava, que sempre sonhara em casar, que ele era o homem da sua vida mas, que não poderia se casar em Agosto. Alberto não acreditou que uma mulher tão ponderada como Sofia pudesse ser tão apegada a uma superstição. Com o semblante descaído não respondeu nada e disse que ia pensar.

E sumiu.

Sofia demorou algum tempo para se recuperar do baque mas nunca se arrependeu da sua posição. Casamento em Agosto não acabaria bem, então era melhor mesmo que nem começasse.

Menos de um ano depois, ao chegar em casa encontrou o convite de casamento de Alberto com Isabel. Claro, em Agosto.

Junto com o convite, ao invés dos tradicionais cartõezinhos sobre a festa ou listas de presentes, ela encontrou um bilhete dele, que dizia apenas: Boo !

terça-feira, 23 de fevereiro de 2010

A mulher que não sabia fingir

Quando Sílvia chegou em casa naquela noite ela já estava decidida a acabar com tudo. Todas as tentativas já tinham sido feitas. Ela não tinha mais recursos a recorrer. Tentara se impor, se rebaixar, discutir, ignorar. Nada funcionara.

De certa forma tinha se conformado, a seu modo, é claro. Conformismo não era uma palavra ou atitude do seu repertório. Ao invés de investir no seu casamento ela voltara a investir em si própria.

Isso até teria funcionado se Valente continuasse a ser apenas o que era, um sujeito insensível. Pelo jeito, só isso não o satisfazia. Incomodado com a percepção de que ela era feliz apesar dele começou a beber mais, a culpá-la por fracassos que eram seus e a destratá-la em público. Naquela tarde ele tinha atingido o seu auge.

Sílvia ligou para Andrea e contou tudo que Valente tinha feito com ela, disse que ia falar com ele em seguida. Andrea pediu que ela tivesse paciência, ele estava bêbado e poderia ser perigoso. Além disso, três dias depois seria o casamento da filha deles.

Sílvia concordou e disse para Andrea que iria fingir que tudo estava bem. A amiga não se conteve e soltou uma gargalhada:

"- Você?? Fingir?? Você nunca conseguiu fingir nada..."

"- Mas eu aprendo..."

"- Como se esse seus olhos permitissem! Sou capaz de apostar que você não consegue fingir por 5 minutos, quanto mais por 3 dias."

"- Não sou de apostar, mas vou te surpreender, você sabe que eu sempre consigo fazer o que me proponho."

Andrea deu um longo suspiro, pediu que a amiga tivesse cuidado e se despediu.

Sílvia desligou o telefone, fechou-se no banheiro e, diante do espelho, ficou ensaiando expressões que não indicassem seu estado de espírito.

No dia seguinte Andrea acordou cedo pensando em ligar para Sílvia. Nem precisou. Quando chegou na cozinha seu celular indicava uma nova mensagem, era dela:

"- Conversei com ele. Acabou."

Ligou para Sílvia que estava tranquila apesar da situação. Falar com Valente tinha tirado um peso da sua alma, o que não a poupou de ouvir de Andrea:

"- No dia em que você aprender a fingir eu vou ter a certeza que o mundo acabou."

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

A morte de Hades

As Cócegas eram ninfas que moravam no lado oposto do Olimpo. Por serem irmãs muito risonhas eram consideradas como mulheres pouco sérias, ainda que muitos faunos, deuses e semideuses as desejassem ardentemente.

Knismesis, a mais velha, costumava ser mais sutil nas suas ações, provocando leves risos, mas jamais gargalhadas.

Gargalesis, por outro lado, era completamente isenta de controle e, quando se aproximava de alguém não resistia a exercer sua pressão em diferentes partes do corpo da vítima até que a mesma se debulhasse em lágimas, de tanto rir.

Ainda que alguns bebedores de néctar as reprovassem, eles não negavam que as irmãs faziam parte do jogo social da urbe mitológica. No entanto, reprovavam drasticamente que outros seres se aproximassem delas para descobrir os seus segredos.

Numa das reuniões do conselho diretor do monte grego, Hades, que tinha um mal humor que era de morte, convenceu Zeus que aquilo não poderia continuar daquele jeito e fez aprovar um projeto de lei proibindo que as ninfas ensinassem em escolas públicas, o que o indispôs com sua base eleitoral formada pelos sátiros e pelas górgonas. O único voto contra a lei veio de Hera, deusa dos casamentos, ela sabia que a ignorância sobre as Cócegas poderia diminuir a efetividade das suas ações.

Como qualquer coisa desejável, assim que a educação coceguenta foi proibida começaram a surgir cursos piratas a respeito das atividades de Knismesis e Gargalesis. Alguns incluíam visitas guiadas ao campo onde moravam, com direito a vê-las em ação atacando centauros.

Apesar da fúria de Hades, ele nada pode fazer, pois seus acólitos policiais eram justamente os sátiros que se opunham à lei e só fingiam que executavam as ordens do chefe.

Numa última cartada, pensou em prender as irmãs em uma das suas celas subterrâneas. Ele mesmo se encarregou de prendê-las e de conduzí-las ao seu reino.

O que ele não contava é que as ninfas iriam atáca-lo durante o caminho. Primeiro Knismesis o acariciou de forma suave, o suficiente para desarmar sua carranca. No exato momento em que relaxou, Gargalesis entrou em ação e o velho deus não resistiu.

Morreu de rir.

sábado, 20 de fevereiro de 2010

Uma história de amor

Una bandada de mares tus labios,
sal ida
que no encontraré en estas palabras.
Jacob Lorenzo...


Para "O", de quem apenas transcrevi a história



William nunca imaginou que aquilo pudesse ter acontecido com ele. Não porque não acreditasse no amor, sempre fora um romântico, mas o que sentia agora transcendia tudo que sentira antes.

Gabriela mudara a sua vida. Mudara sua percepção do que era amar. Mudara até mesmo seus conceitos temporais a respeito do mais nobre sentimento.
Descobriu que a amava quando ele nem sabia que um dia ela entraria na sua vida. Mesmo antes que ela existisse, até porque ela só veio à existência depois dele.

Descobriu que a amava nos encontros intermitentes que tiveram, que ela era um sonho branco, salpicado de estrelas.

Descobriu que, sem saber, a amara acidentalmente nas ruas, nas escadas, nas casas.

Seus olhos não a viam no meio da multidão. Ele só via uma coleção de rostos, e ela, mesmo no meio deles, ainda não dizia nada para ele.

Até o dia que sua imagem saltou aos olhos de William, hipnotizando-o. E ele passou a querer sempre mais.

Provocou um encontro e, apesar do fato de que ela também o amava, ainda não tinha se apercebido disso.

A voz de Gabriela, que ele nem lembrava mais como era, completou a sedução. Mesmo assim, sem ela saber, ele a amava à distância.

E a amou durante todos contatos seguintes. Agora que a achara, não podia mais perdê-la.

Ela o amou no dia em que notou que ele prestava atenção nos seus detalhes.

Eles se amaram quando, enfim, tiveram o seu começo, mesmo entre nuvens carregadas.

E se amaram em todas as situações pelas quais passaram. Altos, baixos, tensos, relaxados, preocupados, tranquilos.

E quando chegassem perto do fim dos seus dias, descobririam que não existia o fim dos dias.

E que se amariam por tantas eternidades quantas surgissem diante deles. E depois das eternidades ainda por muitos anos.

Desde sempre. Para sempre

quinta-feira, 18 de fevereiro de 2010

Contículo aliterado

Em horas inda louras, lindas e lentas discutia duramente discursos dissonantes.

Ela, lógicamente, levou os lauréis lógicos com branda brincadeiras nada burocráticas.

Aliterava literalmente a letra litúrgica e, entre as vindas vendo varandas vazias me convenceu.

Só gente genial pode homanegear as janelas do idioma, pátrio, profano ou até picaresco.

Depois me disse docemente declarações de amor com ardor e sem temor.

E beijou-me junto ao junco do janeiro findado e fugaz.

Apaixonei-me perdidamente por perfeita pessoa.

E me fundi numa felicidade infinita finalmente.

Aliteração é uma figura de linguagem que consiste em repetir sons de sons consonantais idênticos ou semelhantes em um verso ou em uma frase, especialmente as sílabas tônicas.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Crescente


Na sala do observatório Fernando se dedicava a estudar as fases da lua. Era um apaixonado pelos astros mas, desde os tempos em que cursava astronomia, ele se dedicava exclusivamente ao satélite terrestre. Inclusive estava na lista de candidatos da Nasa quando essa retomasse os projetos de viagens lunares.

Já há alguns anos resolvera fazer um estudo compreensivo das fases da lua e, para isso, todas as noites acompanhava cada minuto de metamorfoses da mesma. Já tinha documentado diversos episódios atípicos, mas nada parecido com o que percebera naquela semana.

Como era habitual, a lua tinha sua fase crescente durante uma semana, às vezes algumas horas a mais, outras a menos, mas nunca fugia desse padrão.

Naquele dia percebeu que a lua crescente completara oito dias inteiros. E continuava crescendo sem chegar a ser lua cheia. Consultou outros colegas, escreveu para observatórios internacionais para verificar se tinham percebido o fenômeno.

Surpreendeu-se quando as respostas começaram a chegar. Para o resto do mundo a lua estava cheia. Naquela noite limpou as lentes do telescópio, verificou se seus equipamentos estavam todos bem conectados. E continou vendo uma lua em fase crescente. Tirou um sem número de fotos e distribuiu para os colegas com quem tinha falado.

Não fez diferença nenhuma. Todos viam uma lua cheia nas fotos, só para Fernando ela continuava crescente. E assim permaneceu por uma semana, duas, três.

Quando todo mundo via uma nova fase de lua crescente, Fernando observou que a sua lua começara novamente a crescer.

E assim ocorreu durante meses. A lua de Fernando iniciava sua fase crescente, continuava crescendo durante as quatro semanas em que deveria estar em outras fases e, então recomeça seu ciclo particular de crescimento.

Mesmo sem nunca chegar a lua cheia, a lua de Fernando era absolutamente deslumbrante. Brilhava com tanta força que ele começou a achar que ela tivesse luz própria. E não é que tinha mesmo? Além de não mudar de fase, a sua lua era um astro com vida autônoma.

Fernando passou o resto da sua vida escrevendo a respeito da sua lua. Os demais astrônomos não levavam a sério mas ele não se importava com isso. Essa lua que só ele via tinha transformado a sua vida e o tinha tornado um homem feliz.

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Conticulóides marítimos


Marina

Quando André a viu andando pelos corredores do shopping num vestido azul esverdeado concluiu imediatamente que aquela era a mulher da sua vida. Sem pensar duas vezes abordou-a. Ela sorriu e lhe indicou o corredor da loja onde ele poderia encontrar uma roupa da mesma cor.

Areia

José sempre trazia na memória os gritos da sua mãe mandando que ele limpasse os pés antes de entrar em casa, nem esquecia da surra que levou no dia que, fugindo da chuva entrou com os pés enlameados. Por isso mesmo fez questão de ser o primeiro a jogar uma pá de terra sobre o seu caixão.

Onda

Angélica entrou na banheira e relaxou o corpo na água quase fervendo. Só não percebeu que esquecera a porta destrancada. Quando o zelador entrou junto com a empregada para ver o problema do sifão da pia ela quase teve um ataque e inundou todo o piso do banheiro

Rochedos

Januário pegou sua moto e saiu desesperado em alta velocidade. Acabara de receber o bilhete de azul de Clara. Pensou em se matar jogando-se de algum penhasco. Mas não passou pela batida da polícia na avenida. Multa por excesso de velocidade e moto apreendida por falta de documentos.

Seres marinhos

Alicia detestava frutos do mar, mas não podia deixar de ir no jantar que seria oferecido em sua homenagem. Quando a paella chegou ela se entupiu de arroz e tentou esconder os mariscos debaixo das lulas. Só não contava que iam colocar um prato de ostras na sua frente. Depois disso ela nunca mais usou a expressão engolir sapos.

Sal

Bento foi buscar Lúcia na saída da academia. Quando a viu toda sexy na sua roupa de ginástica ele se derreteu de uma forma que ela percebeu e o provocou ainda mais. Quando chegaram na sua casa ele nem esperou que ela tomasse banho. O tempero estava perfeito.

A foto é das minhas férias em Peruíbe, litoral sul do estado de São Paulo (e antes que perguntem, não, eu não usei filtros)

sábado, 13 de fevereiro de 2010

A cor do som

No vale do rio Konoronhkwa os dias corriam mansamente. As aves chilreavam e comiam insetos, as raposas regougavam e comiam as aves, os ursos bramiam e comiam raposas.

No meio da miríade de sons e refeições nasceu Kohetstha, uma borboleta de asas coloridas de violeta e magenta.

Kohetstha logo cedo aprendeu que a sobrevivência no vale estava diretamente relacionada com o silêncio. Sobrevoava a campina forrada de flores sempre da forma mais suave para não atrair predadores e coletava o néctar que sustentava sua atividade física intensa.

Do outro lado do vale, Teiakiatonts, um macho de cor azul forte também vivia de forma reclusa e silenciosa e, apesar de gostar muito de cantar, ele só o fazia na solidão escura da toca que descobrira num tronco de árvore onde morava.

Certa manhã uma tempestade se abateu sobre o vale. Os bichos fugiram em busca de abrigo, não foi diferente com Kohetstha. Levantou vôo com a intenção de voltar para casa, mas o vento a carregou para o lado de Konoronhkwa que ela desconhecia.

Temerosa, a borboleta avistou o buraco da árvore de Teiakiatonts. Preocupada que pudesse ser um ninho de vespas ela tentou se afastar do local, mas a chuva e o vento eram tão fortes que ela resolveu se arriscar e entrou no buraco.

Qual não foi a sua surpresa ao se deparar com Teiakiatonts cantando baixinho no fundo da toca. Quando a viu entrar ele se assustou, chegando a engasgar entre o si bemol e o sol mas, vendo melhor a maravilhosa borboleta que estava à sua frente concluiu que os céus a haviam mandado de presente.

Ele, que no primeiro momento, se apaixonara pela beleza de Kohetstha, descobriu que ela era muito mais que uma bela lepidóptera. Ela, que ficara encantada com as canções dele, percebeu rapidamente que ali estava o companheiro que sempre sonhara, mas que nunca crera que existisse.

O vale de Konoronhkwa não deixou de ser um lugar perigoso para qualquer animal mas a vida de Kohetstha e Teiakiatonts transformada a partir daquele encontro nunca mais foi a mesma. Ela continuou a se exercitar todos os dias mas agora sob o olhar amoroso do companheiro. Ele passou a cantar só para ela.

E viveram felizes entre as flores e a confusão sonora de arrulhos, cricrilares e zumbidos.

*A imagem é um quadro de Virginia Susana Fantoni Ribeiro

quinta-feira, 11 de fevereiro de 2010

O tônus do amor

Minha amada

Nessa distância em que nos encontramos não paro de pensar em você. Te amo fibrilarmente, sejam suas formas estriadas ou lisas.

Sinto falta do seus supinadores e dos seus flexores me envolvendo. Do perfume do seu esternocleidomastóideo.

Nesse momento queria mesma era beijar seu trapézio e te acolher entre meu serreado e o meu radial.

Lembro dos momentos em que afaguei seu bíceps femoral no escurinho do cinema, e permaneci invicto.

O toque do seu perônio no meu tibial por baixo da mesa. Seu semitendinoso sobre meu vasto externo.

O encontro do meu reto abdominal com seu pectíneo chegou mesmo a me provocar uma hipertonia momentânea.

Não vejo a hora de tocar seus deltóides cubitalmente. Você não sai do meu temporal e me dá um frio no oblíquo...

Quando voltar a sentir seus glúteos e seus gastrocnémios, meu costureiro flexionará o meu tendão.

A forma grácil dos seus sartórios, a sedução de seus psoas atraem meu ilíaco ao seu piriforme.

Que meus bucinadores encontrem seus orbiculares genioglossamente.

E que meu estapédio seja provocado por seu estiloglosso.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Lírica gourmet

No meio da noite assustado
Da cama quase caí
Com vontade de comer
Pipoca com chantilly

Fui prá cozinha voando
Encontrei chá de pequi
Não tinha ingredientes
da pipoca com chantilly

Vesti uma roupa qualquer
Para a rua eu saí
Em busca do meu desejo
Pipoca com chantilly

Em casa, abastecido
O creme de leite bati
Esquentei a panela
Pipoca com chantilly

Um prazer inominável
Na alma eu senti
Fui dormir confortado
Pipoca com chantilly

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

Sinais de fumaça

Jaciara conheceu Aondê quando caminhava junto ao rio que marcava o limite das duas tribos. A paixão foi imediata. Ele ficou encantado com os olhos de luar da moça e, como era um índio de hábitos noturnos, isso o fascinou. Ela retribuiu essa paixão de forma intensa e calorosa.

Apesar das tribos não serem rivais, não era hábito daqueles índios de se casarem com pessoas de outras tribos. Jaciara e Aondê sabia disso e começaram a se encontrar secretamente. A cada encontro combinavam o próximo. Até o dia em que Aondê teve um contratempo e não apareceu no lugar marcado. Ficaram dias sem se ver por causa desse desencontro.

Quando conseguiram se ver novamente concluíram que precisavam encontrar alguma forma de se comunicar à distância. Optaram por sinais de fumaça mas não poderiam usar o vocabulário das tribos senão todos ficariam sabendo do romance e isso poderia ser o fim de tudo.

Combinaram alguns sinais que seriam só deles. Uma língua particular. E assim o fizeram.

O que eles não poderiam imaginar é que esses sinais poderiam deflagrar uma crise institucional entre as duas tribos que sempre tinham convivido pacificamente, cada uma do seu lado do rio.

Os guerreiros da tribo de Jaciara, vendo aqueles sinais sem significado para eles, acharam que a tribo vizinha tinha escolhido um novo código para enganá-los. O pajé da tribo de Aondê convocou uma reunião do conselho da tribo para tentar desvendar o sentido dos sinais de fumaça misteriosos.

Os caciques das duas tribos chegaram mesmo a realizar uma cúpula para debater o tema. Cada um deles voltou para a sua tribo achando que o outro era um mentiroso hipócrita ao dizer que também não entendia os sinais.

Enquanto isso, Jaciara e Aondê marcavam seus encontros, mandavam declarações de amor e contavam sobre as suas atividades diárias (um não conseguia viver sem ter notícias do outro), alheios à agitação que acontecia na tribo. Tão apaixonados que o resto do mundo lhes parecia nada.

As tribos já estavam quase em pé de guerra quando Aondê foi pego mandando os sinais, mal teve tempo de avisar Jaciara e foi levado ao conselho da tribo.

Interrogado sobre os sinais, a princípio ele se recusou a falar de Jaciara. O cacique chegou a ameaçá-lo, mas o pajé interviu e disse que ele resolveria aquele assunto e levou-o para a sua tenda.

Mal entrou e o pajé lhe perguntou quem era a mulher. Aondê ficou atônito. O pajé disse que o havia visto nascer e os seus olhos não negavam que era um índio apaixonado. Aondê abriu o seu coração e contou tudo ao velho xamã. O curandeiro falou que era para ele voltar para sua oca e ficar lá até que ele o chamasse.

Naquela noite Aondê não dormiu, preocupado com o que poderia acontecer com sua amada. Ao nascer do sol o pajé apareceu com o cacique e com os seus pais. Mandou que ele acendesse a fogueira, pegasse um cobertor e mandasse uma mensagem para Jaciara pedindo-a em casamento.

Aondê obedeceu sem entender nada. O deixariam casar com uma mulher de outra tribo? Mandou a mensagem uma vez e não viu nenhuma resposta vindo da outra direção. Mandou a segunda vez, e nada. Abatido, tentou uma terceira vez. Foi quando viu surgir no horizonte as palavras "lenha molhada".

Esperou que o calor do dia fosse mais forte e enviou de novo seu pedido de casamento. Dessa vez a resposta foi imediata.

"Só se for para sempre".

sábado, 6 de fevereiro de 2010

Dentes atque pedes asinini exordia amoris

Conta-se que a rainha Coleóptera III, esposa do faraó Tutancamon - o belo, certo dia levou um tombo nas escadarias de Mênfis e, na queda, perdeu seis dentes da frente. O soberano preocupado com a aparência de sua consorte e com medo de ser denominado o faraó da banguela chamou todos os médicos do alto Nilo para resolver a questão.

Um dos médicos que participava costumeiramente de congressos internacionais comentou a respeito de uma descoberta do oriente chamada dentadura Yagyu, era uma invenção feita em madeira tsuguê, árvore nativa do Japão.

Empolgado, o monarca mandou que uma missão fosse até aquele país remoto e só voltasse com um exemplar que coubesse na boca da rainha. Os missionários jamais voltaram e, quando se deu conta disso Tutancamon mandou que os médicos fizessem uma dentadura de junco, uma vez que não encontraram nenhum árvore de tsuguê em todo o reino. Não só, não encontraram, como não faziam a menor idéia do que seria uma árvore desse tipo.

A dentadura de junco não resistiu ao primeiro bife de camelo que a rainha tentou comer e desmanchou-se toda. Os esculápios faraônicos resolveram então radicalizar e criaram um modelo feito com dentes de gavial sobre uma base de lápis lazuli. A dentadura foi fixada com goma arábica e funcionou muito bem até o dia em que o faraó apareceu na sala do trono cheio de marcas de dentes, onde foi alvo de risotas mal contidas pelos seus cortesãos. Irritado com a chacota, mandou que Coleóptera III fosse atirada aos crocodilos.

Apesar do insucesso prático, a invenção dos antigos clínicos ptolomaicos ganhou o mundo. Em Roma as dentaduras eram feitas com dentes de javali, na Gália com maxilares de cachalotes e na Britania utilizavam-se de exemplares odontológicos de faisões.

Os bichos só deixaram de ser sacrificados por sua dentição quando, em 1754, um barbeiro de Sevilha esculpiu os primeiros dentes de madrepérola. Eram tão sofisticados que muitos nobres resolveram arrancar os seus dentes originais para usar essas dentaduras que eram chiquérrimas.

O desenvolvimento de materiais proporcionou a criação de dentes postiços de ouro, mirra e incenso. Atualmente são usadas resinas acrílicas, vinílicas e alquídicas. As classes mais abastadas, por exemplo, só se satisfazem com resinas idílicas.

Caso você esteja na fase de encomendar a sua dentadura, eu sugiro que o faça somente com odontólogos que conheçam profundamente a história e as origens da dita dura, caso contrário você corre o risco de também ser lançado aos jacarés (até porque, no Brasil, nós não temos crocodilos)

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Borralheira

Nelly abriu a porta ainda sem fôlego. Jogou a bolsa e suas coisas em cima da mesa da sala, sentou-se um pouco e pensou em tomar um banho. Concluiu que não era de relaxamento que ela precisava, nunca estivera tão disposta e estava cheia de energia.

Foi para a cozinha. Separou ingredientes e começou a trabalhar.

Mexendo a comida nas panelas ela mexia nos cabelos dele. Cada tempero lembrava o seu sabor. Aromas, gostos, texturas. Era como se suas mãos implorassem por um toque que lembrassem os momentos em que tocara o corpo do amado. Ora trêmulo, ora firme. Ora ardendo, ora tépido. Seco, úmido, molhado, ensopado de suor e das gotas do chuveiro. Em todas as situações sempre delirante e apaixonado.

Cozinhando ela o amava.

O calor da cozinha aumentava à medida que as panelas soltavam vapores. Os ingredientes passando por mudanças químicas, mudavam de cor, de consistência. Tudo fervendo, tudo ardendo. Mesmo assim Nelly ainda aumentava a potência da chama para sentir o calor grudar na sua pele, tocar seu rosto, penetrar nas suas entranhas. Muito calor. Fusão de alimentos como fusão de corpos.

Esquentando a comida ela o amava.

Ela sempre soube que a cozinha era o lugar mais sensual da casa, onde tudo acontecia e todos os sentidos era estimulados. Nem no quarto ela sentia o mesmo. Sonhava com o momento em que dividiria com ele a sua cozinha.

Arrancando o avental ela o amava.

A água quente escorria pelas suas mãos, por entre seus dedos, acariciando e envolvendo-a. A espuma do detergente se formando, leve aroma cítrico, frescor oportuno, corrente de água límpida que remove impurezas, tudo brilha, tudo reluz.

Lavando a louça ela o amava.

Pia limpa, mesa do café da manhã arrumada. Nelly passou pano no chão, fechou os olhos e se sentiu a borralheira que, no dia seguinte, voltaria a viver seu sonho de princesa.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Meu reino por um pastel

Manoel, apesar de sua origem lusitana, sempre preferiu um bom pastel a um bolinho de bacalhau. Sua experiência com o acepipe remontava à sua mais tenra infância quando sua mãe, em umas suas incursões à feira, carregou o fedelho e, para fazer com ficasse quieto, comprou-lhe um legítimo pastel de vento.

O miúdo teve delírios orgiásticos ao saborear a fina massa de farinha com água. Muito tempo depois descobriu que um dos segredos da mistura era adicionar um bocadinho de cachaça o que, provavelmente tenha gerado aquela sensação. Nada, porém,fez com que ele perdesse o encanto pela iguaria.

Já na sua adolescência, Manoel começou a fazer experiências na criação de receitas de pastéis. Testou novas proporções na mistura da massa, introduziu outras bebidas alcóolicas e alternou variedades de óleo. Mas, o que realmente surpreendia nas criações do jovem galego era a sua combinação de recheios. Chegou a fazer pastéis com 203 ingredientes diferentes.

Quando chegou à juventude, contrariando a tradição familiar, ele se recusou a trabalhar na padaria, incitando à fúria seu pai que o queria como seu sucessor. Entrou com um pedido de empréstimo na Caixa Econômica e a abriu uma pastelaria. Pastel do Manoel, um pedacinho do céu em plena Vila Isabel.

O sucesso lhe foi retumbante. As massas acorriam ao bairro periférico só para comer o famoso pastel. Não só comer, diga-se de passagem, todos podiam ver Manoel em ação preparando os pastéis, combinando ingredientes e usando a técnica que lhe era exclusiva de fundir os elementos espalhando-os uns sobre os outros com um guardanapo de papel.

As receitas das massas e dos recheios eram publicadas em todos os jornais e revistas de culinária, mas ninguém conseguia reproduzir a técnica do guardanapo.

Chegando à maturidade, o pasteleiro mór da cidade concluiu que menos era mais e reduziu seu repertório de ingredientes a 44 ítens. Originalmente ele pensara em 45 mas, na escolha final, ele eliminou a oliva, pois sua mulher não gostava de azeitonas. Com esses ingredientes Manoel conseguia reproduzir todos os sabores possíveis e existentes. Até mesmo alguns sabores que não eram passíveis de serem encontrado na natureza.

Ao se aposentar, ja avançado em anos, o pasteleiro foi homenageado pela Associação de Feirantes Pasteleiros (a poderosa AFP) sendo incluído no Hall of Fame do Pastel de Vento, além disso recebeu o título de doutor honoris massas pela conceituada École Gourmand du Cordon Violacé.

Em sua lápide, esculpida em forma de pastel, Manoel pediu que constasse sua citação clássica: pastelam sunt servanda, que em bom português dizia: que venham os pastéis

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eu moldura, ela pintura

Se a noite está escura
Difícil o caminhar
Sua mão vai me guiar
Eu moldura
Ela pintura

Seja tempo de clausura
Esperança se apagar
Sei como chegar
Eu moldura
Ela pintura

Se há risco de ruptura
Sem brilho no olhar
Sua voz a iluminar
Eu moldura
Ela pintura

Se não houver cura
Algum mal me atacar
Não me deixa desabar
Eu moldura
Ela pintura

O amor sempre perdura
Infinito além do mar
Eterno apaixonar
Eu moldura
Ela pintura