sábado, 26 de dezembro de 2009

Férias coletivas


Vou tirar um mês de férias e, durante esse período os blogs não vão ter atualização

O que não significa que você não possa visitá-los e ler algum dos 1.021 textos espalhados pelos 4 blogs que eu publico





Como alguns engraçadinhos tentam usar a área de comentários dos blogs para mandar spam e eu não estarei aqui todo dia para lê-los, durante esse período os comentários serão moderados antes da publicação, quando voltar tiro a moderação.

Um abraço a todos e até a volta

sexta-feira, 25 de dezembro de 2009

O sinesíforo e a princesa

Sérgio olhou para a fachada do prédio e se sentiu intimidado. Parecia luxuoso demais para ele. Constrangido falou com o porteiro e em minutos estava na porta de serviço do apartamento 31.

Uma empregada lhe recebeu e pediu que ele se sentasse ali mesmo na cozinha que, em breve, a patroa viria conversar com ele. Não estava acostumado a negociar com mulheres, geralmente eram os maridos que se encarregavam disso.

Não demorou muito e ouviu vozes. A empregada conversava com alguém. Antes que entendesse o que estava acontecendo a porta abriu e Carolina entrou. Se já estava constrangido com o luxo do lugar, ficou ainda mais com a figura dela. Não fazia o gênero árvore de natal da patroa anterior, pelo contrário era uma mulher linda e elegante sem recorrer a artíficios pirotécnicos.

Ela olhou para ele, mediu-o de cima abaixo enquanto o cumprimentava. Fez as perguntas de praxe sobre experiência, empregos anteriores, motivo que o fizera sair do último emprego. Também fez algumas perguntas pessoas sobre família e hábitos. Fez sua proposta de salário e de horários. O horário era puxado, mas o salário era bom, ele aceitou.

Ela saiu um pouco da cozinha e, quando voltou disse que tinha ligado para sua última patroa. Ótimas referências. Ele estava contratado, podia começar imediatamente. Ela mandou que ele fosse até um determinado endereço comprar seu uniforme. Mandou que fizesse pelo menos cinco jogos. Ela ligaria para a loja para avisar que depois passaria lá para pagar e para dizer que ele precisaria sair de lá, pelo menos, com dois uniformes prontos.

Chegou às 7h30 da manhã do dia seguinte. Terno azul ultramar, camisa branca, gravata cor de vinho. Ele estranhou o quepe. Motoristas modernos não usavam mais quepe, mas Carolina fazia questão. Rosa, a empregada lhe mostrou um quarto na área de serviço e lhe explicou que ele deveria ficar ali sempre que estivesse na casa. O quarto era pequeno, mas equipado. Tinha uma televisão, um frigobar, estantes, um armário e uma cama. Além disso, tinha seu próprio banheiro.

Carolina o chamou quando já eram quase dez horas. Entregou-lhe um telefone celular, deixando claro que deveria sempre estar desocupado para atênde-la. Explicou que os números da casa e do celular dela já estavam programados na discagem rápida. Também entregou-lhe as chaves e os documentos de dois carros. O carro maior era o carro do dia-a-dia. O outro só deveria ser usado em dias de rodízio ou se acontecesse algum problema com o primeiro. Ele também poderia usar o carro menor para ir e voltar para casa, inclusive nas suas folgas.

Avisou que ele deveria ir para a garagem, que ela desceria em 20 minutos. Ele foi, ligou o carro, fez algumas manobras para se acostumar com o veículo e a esperou. Já estava colocando o carro de volta na vaga quando ela surgiu. Ele abriu a porta, ela se acomodou no banco traseiro e pediu para levá-la ao shopping.

Ela falou pouco durante o caminho. Algumas instruções adicionais, um ou outro comentário sobre as notícias do jornal. Ele notou que ela falava com um sotaque estrangeiro muito sutil, mas não conseguiu identificar a origem. Não era francês, já trabalhara para franceses e conhecia bem a língua. Tinha uma certa inflexão latina, mas não era nada que lhe soasse familiar. Só mais tarde conversando com Rosa que soube que era romeno.

Com o tempo também descobriu que ela tinha o hábito de usar palavras pouco usuais. Apresentava-o como seu sinesíforo. Quando achava alguma coisa incomum se referia a ela como bizarra. Certa vez ele a levou ao que ela chamou de um convescote e, na volta comentou que o repasto não estava apetecível.

Começaram a conversar mais durante os percursos, até porque, numa cidade como São Paulo, eles passavam muito tempo juntos no trânsito. Ela mantinha sua distância formal de patroa, mas se permitia discutir alguns assuntos que descobriram ter em comum. A rotina semanal era simples. Ela ia ao clube todas as manhãs, onde praticava esportes e aprendia sapateado. Normalmente almoçava fora. Algumas vezes no próprio clube com as amigas, outras a caminho de outra atividade. Diferentemente de outros lugares onde trabalhou, quando Carolina parava em alguum lugar para almoçar, se estivesse sozinha, sempre o chamava para almoçar junto com ela.

Pelo menos duas vezes por semana ela passava a tarde em algum shopping. Basicamente os mesmos três de sempre. Ela descia do carro, dizia que ele poderia também passear no shopping, mas que tivesse certeza de que o telefone estava ligado e acessível. Quando precisava dele para carregar pacotes ela o chamava. Apesar de consumista, parecia que em cada ida ela se dedicava a uma loja. Mesmo quando tinha muitos pacotes eles eram de um lugar só.

Ela gostava particularmente de sabonetes e perfumes. E gostava de fazer experiências com novas marcas e modelos. Uma vez comprou uma caixa de sabonetes de alecrim, quando Sérgio foi tirar a caixa do porta-malas para levar para o apartamento ela avisou que era para ele ficar com a caixa. Ele olhou para ela sem entender. Ela explicou que era para ele usar aqueles sabonetes nos dias de trabalho e, quando a caixa estivesse próxima de acabar ele deveria avisá-la para que ela repusesse o estoque.

Já estava trabalhando para Carolina há mais de um ano quando reparou que ela andava estranha. Falava menos, sorria menos. Tentou se lembrar se tinha acontecido algo e identificou que ela estava assim desde o dia em que tinham parado para almoçar no Le Cousin, dias antes. Não quis perguntar nada, nunca falara de assuntos pessoais com ela, pensou em perguntar para Rosa, mas ele era discreto demais para ir atrás de fofocas.

Nos dias que se seguiram ele a observou com mais atenção do que de costume. Olhava mais pelo retrovisor. Reparou que ela passava mais tempo com o olhar perdido em direção à janela. Poucas vezes a via olhando para frente como era seu costume. Quando ele abria a porta e estendia a mão para ela descer notava que ela não segurava com a mesma firmeza de sempre. Mas o que lhe chamou mais a atenção é que ela não o chamava mais para almoçar quando estava sozinha.

Sérgio estava incomodado com a situação. Pensou em perguntar para Carolina se tinha feito algo errado. Desistiu da idéia afinal, se ele tivesse cometido alguma gafe ela já teria chamado a sua atenção. Ainda mais ela que nunca deixava escapar nenhum detalhe. Concluiu que era algo íntimo da patroa e não cabia a ele se intrometer. Como bom profissional deveria manter sua postura de sempre e esperar que o problema se resolvesse. Enquanto isso ele contava os dias.

Foram 56 dias entre o começo e o fim do silêncio. Uma manhã ele chegou no carro com outra expressão. Cumprimentou-o olhando nos olhos, sorriu e lhe deu uma caixa com um CD. Falou que queria ir passear ouvindo aquelas músicas. Ele perguntou onde deveriam ir e ela respondeu que era para andar sem destino. No trajeto ela parecia ter voltado ao seu normal. Conversou, comentou as notícias e disse que estava precisando fazer compras. Percebendo seu bom humor Sérgio até se arriscou a fazer um comentário, e elogiou a seleção musical que ela tinha feito. Pelo retrovisor notou que ela tinha ficado vermelha, mas agradeceu.

Chegaram ao shopping e ela, como de costume, pediu que ele esperasse. Carolina começou a andar pelos corredores, olhava em direção às lojas, mas era como se tudo estivesse embaçado. E estava mesmo. Seus olhos estavam cheios de lágimas que ela segurava com todo empenho. Foi ao banheiro. Se recompôs, lavou o rosto e se maquiou novamente. Entrou numa loja de sapatos e começou a experimentar tudo, sem prestar muita atenção no que a vendedora lhe trazia. Num momento em que olhou para os seus pés e os viu calçados com uma sandália preta, cheia de brilhos prateados, seu rosto se iluminou como se o brilho da sandália refletisse nos seus olhos. Era isso.

Comprou só a sandália. Mesmo assim ligou para Sérgio chamando-o para carregar os pacotes. Quando ele chegou, estranhou que era só um pacote, ficou esperando que surgissem outros, mas ela disse que era só aquilo mesmo. Desceram e ela disse que queria comer um risotto no Prima Donna. Dessa vez ela o chamou para almoçarem juntos e fez uma coisa que nunca tinha feito antes, pegou o pacote e mostrou a sandália para ele e pediu sua opinião. Ele ficou sem saber o que dizer, a sandália era linda e, imaginando-a nos pés de Carolina pensou coisas que não poderia lhe falar. Limitou-se a elogiar. Ela percebeu que ele ficara sem jeito e sorriu marotamente.

Os dias que se seguiram foram deixando Sérgio cada vez mais desconcertado. Ela fazia comentários sobre poetas americanos, contou a respeito de um namorado búlgaro que tivera, perguntava sua opinião sobre tudo. No começo ele ficou assustado, depois se deixou levar. Claro que estava gostando de tudo isso. Ela sabia que estava apaixonado por ela desde o primeiro dia que a vira, mas sabia que isso era um sonho absurdo demais para se tornar real. Não que agora tive mudado de idéia sobre a impossibilidade de um romance entre uma princesa e um sapo como ele, mas pelo menos aproveitava o fato de que ela lhe dava mais atenção.

Numa manhã ele estava no quarto, esperando que ela o chamasse. Sentiu vontade de tomar café e foi até a cozinha. Deu de cara com Carolina que acariciava o seu quepe que tinha ficado sobre a mesa. Ao vê-lo ela pegou o quepe e entregou para ele chamando a atenção de que não devia largar suas coisas pelo meio da casa. Ele pediu desculpas, mas não deixou de notar como ela estava linda com um peignoir translúcido que desenhava as curvas do seu corpo. Voltou rapidamente para o quarto tentando descobrir porque ela o estava provocando desse jeito. Tentou sentir raiva dela, mas não conseguia.

Durante quase um mês ela o alimentou de livros de poesia e pediu que ele os lesse para discutir com ela no carro. Neruda, Chamie, Cristina Rossi (que ela teve de explicar para ele o que significa obnubilar), Shelley e Poe. Ele lia e relia. Queria que as entrelinhas dos poemas fossem mensagens dela. Mas sempre se beliscava para ter certeza de que era verdade o que estava acontecendo. Por outro lado, começou a frequentar a livraria do shopping enquanto ela fazia suas compras. Percebeu que para entendê-la melhor precisava conhecer mais dos autores que ela admirava.

Também passou a segui-la à distância no shopping. Olhava-a subindo as escadas rolantes. Seus cabelos longos e soltos brilhavam e ele se sentia o homem mais feliz do mundo só pelo fato de trabalhar para aquela mulher. Ela fingia que não sabia que ele a olhava e, por dentro, estremecia. E mexia nos cabelos e alongava o corpo para que ele a admirasse. Sabia que o provocava, mas também não acreditava que ele pudesse gostar dela. Talvez a desejasse, não mais que isso.

Menos de um mês depois do almoço da sandália, ele estava na livraria quando o telefone tocou. Ela falou que ele deveria ir imediatamente encontrá-la. Uma loja de roupas masculinas? Ela nunca tinha ido numa loja de roupas masculinas. Pediu que ele experimentasse umas camisas. No provador ele se sentiu o pior homem do mundo. Certamente ela o estava usando apenas como referência para comprar roupas para outro homem. Como é que ele tinha sido tão ingênuo?

Cada camisa que ele colocava e ela examinava como tinha ficado o deixava mais deprimido. Ela escolheu uma camisa polo listada de rosa e azul. Era linda e ele sabia disso. Ela pagou, mandou embrulhar para presente e a entregou para que ele a levasse. Quando foi colocar a caixa no porta malas ela disse que não. A camisa era para ele. Suas pernas tremeram e ele sentiu um calor imenso subir por todo o corpo. Ela continuou e disse que que queria vê-lo usando a camisa.

Sem saber o que dizer ele argumentou que não poderia. Que não poderia aparecer sem uniforme para trabalhar, os empregados do prédio e da casa iriam estranhar. O sorriso maroto dela se misturou com um tremor nos lábios que ele nunca vira antes. Ela então lhe disse que o esperava na sua próxima folga para tomarem um chá no orquidário. Vestindo a camisa, é claro. E ela usária a sandália que ainda não tinha estreado.

No sábado ele chegou, com o carro pequeno e, de longe, avistou-a esperando na porta do prédio. Usava um vestido violeta e as sandálias. Ele saiu do carro para abrir a porta mas ela entrou sozinha, no banco da frente. Ele entrou de volta e olhou para ela esperando sua ordem. Ela sorriu e não disse nada. Ele perguntou se era para ir ao orquidário. Ela respondeu que usando aquela camisa ele poderia levá-la para qualquer lugar. Sérgio olhou-a no fundo dos olhos. Seus lábios começaram a tremer de novo. Sem pensar no que fazia ele a abraçou e a beijou.

O céu laranja avermelhado foi a primeira testemunha desse amor.

quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Estrelas gêmeas

Cláudio saiu na varanda e começou a olhar para o céu. Era uma noite clara e o céu estava repleto de estrelas.

Pouco antes tinha lido no jornal a respeito de uma nova descoberta do Hubble, um grupo de centenas de estrelas azuis cercadas por nuvens brilhantes.

Apesar de sabê-las perto o suficiente da Terra para ser fotografada pelo super telescópio, ele não tinha a ilusão de que avistaria os astros da nebulosa de Tarântula da sua sacada.

O que não impediu os seus devaneios. Olhava para o céu mas o que via não eram as estrelas dessa nebulosa distante. Aliás nem as próprias estrelas da Via Láctea ele avistava.

Só conseguia ver suas duas estrelas azuis que moravam entre nuvens com brilho de champagne.

Não pensava na origem ou desenvolvimento de outros astros que não fossem os que lhe pertenciam.

Muito menos imaginava como seria o desenho da nebulosa aracnídea, até porque sempre preferira as cobras.

Sentou-se na cadeira de palha, continuou olhando o céu. A noite exalava perfumes de flores.

Aquela hora ela já deveria estar dormindo, e seus luzeiros apagados, o que não diminuía em nada a energia estelar que ele recebia.

Bebeu seu café, fumou mais um cigarro e foi dormir. Certo de que em algum lugar da galáxia, duas estrelas brilhavam só para ele.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

A volta de Humhummer

A notícia se alastrou rapidamente no vilarejo. Humhummer estava de volta à região.

As mães saíram pelas ruas em busca dos filhos e, com eles, se trancavam nas casas. Os homens voltaram do campo e se reuniram na casa do burgomestre.

Na sua última passagem pela vila, o terrível ogro tinha provocado grandes estragos. Atacava as pessoas, os rebanhos, aterrorizava a todos. Poucos tentaram enfrentá-lo. Os que voltaram tinham feridas na jugular. Sobreviveram, mas nunca perderam as cicatrizes.

Dessa vez não havia mais nenhum valente disposto a confrontar o monstro. Pensaram em já separar parte do rebanho e deixar no caminho, de forma que ele se afastasse saciado. O problema é que nenhum criador estava disposto a ceder parte dos seus animais. Cada um só pensava no seu próprio umbigo.

O debate na casa do burgomestre só silenciava cada vez que o urro de Humhummer ecoava na floresta perto da vila.

Já passava da meia noite e os urros pareciam cada vez mais próximos quando alguém bateu na porta. A mulher do burgomestre, receosa, abriu a porta. Para surpresa de todos quem surgiu atrás da porta foi Juliana, a bailarina cigana do circo, conhecida como a "mulher que flutuava".

Ela entrou dizendo que ia encontrar o monstro. O burgomestre tentou impedí-la, mas os demais homens, plenos de covardia, a incentivaram a ir logo, mesmo sabendo que poderiam perder a mais bela jugular que já tinham conhecido.

Ela perguntou à mulher do burgomestre se tinha um pedaço de carne em casa. A mulher disse que só o bife ancho do marido que ainda estava no forno e que ele ainda não tinha tido tempo de comer. Contrariado, o chefe da vila abriu mão do seu jantar e entregou a carne perfumada de tomilho para a bailarina.

Quando a porta a porta se fechou atrás dela, todos respiraram aliviados, torcendo para que o ogro se satisfizesse com a jugular de Juliana e com o bife do burgomestre. Ninguém demonstrou nenhuma preocupação com a moça.

Não demorou muito para que os urros aumentassem de frequência e de intensidade. Em silêncio todos esperavam ouvir os gritos de Juliana. Já perto do amanhecer, quando Humhummer parou de gritar é que, ao longe, se ouviu um som que misturava gemidos e ais. Imaginaram Juliana despedaçada pelo monstro.

O sol começou a iluminar o dia e todos foram para fora. Nenhum sinal do ogro, nem de Juliana. Alguns homens resolveram ir até a floresta para recuperar os restos mortais daquela que tinha se sacrificado pela vila.

Qual não foi a surpresa deles, ao chegarem perto do grande carvalho, ao ver Juliana dormindo apoiada só pelos pés em um dos grandes troncos. Além de não acreditarem que ela estivesse viva, ainda descobriram que sua flutuação não era um truque de circo.

Ao ouvir a aproximação dos homens, ela abriu o olho, deu um sorriso maroto, e falou alto: "- Humhummer, pode vir que o café da manhã chegou".

terça-feira, 22 de dezembro de 2009

O enigma

Quando abriu a porta do quarto André encontrou o envelope no chão. Antes de pegá-lo olhou para os lados para se certificar que não havia ninguém no corredor e, por via das dúvidas, chutou o envelope para dentro, fechou a porta e, enfim, recolheu-o.

Estranhou a cor lilás do papel. Não era o padrão que costumava receber. Concluiu que a mensagem não tinha vindo do comando e ficou preocupado. Há mais de um mês estava refugiado naquele hotel em Riquewhir se passando por um escritor que precisava de tranquilidade para trabalhar. Só três pessoas do comando sabiam da sua missão. Só uma, a sua localização.

Certificou-se que o envelope não tinha cola demais, nem algum fio escondido. Concluindo que não era uma carta bomba, pegou o estilete e o abriu. Era uma folha de seda muito fina, onde se lia:

ognь огонь (ogon') вогонь (vohon') агонь (ahon') ogień oheň oheň ogenj огањ (oganj) ogenj oganj огън (ogan) оган/огин (ogan/ogin)

ryba рыба (ryba) риба (ryba) рыба (ryba) ryba ryba ryba riba риба (riba) riba riba риба (riba) риба (riba)

gnězdo гнездо (gnezdo) гнiздо (hnizdo) гняздо (hnyazdo) gniazdo hnízdo hniezdo gnezdo гн(иј)ездо (gn(ij)ezdo) gnijezdo gnijezdo гнездо (gnezdo) гнездо (gnezdo)

oko око (oko) око (oko) вока (voka) oko oko oko oko око (oko) oko oko око (oko) око (oko)

Definitivamente a mensagem não vinha do comando, não era o padrão de código do seu chefe mas, como bom espião ele não demorou muito para decifrar a mensagem, ou melhor, para identificar as palavras. O significado lhe parecia um enigma: Fogo peixe olho ninho.

Peixe de fogo? Olho do ninho? Fogo no ninho do peixe? Olho de peixe em fogo? Nada lhe fazia sentido. Resolveu dormir, estava cansado demais para solucionar aquilo naquele momento e, já que não vinha do comando, não deveria ser nada urgente.

Claro que não conseguiu dormir. Curioso para entender a mensagem e, principalmente, para conseguir identificar o remetente dela. Tentou combinar as letras, nada fazia sentido. Concluiu que não deveriam ser letras e se fixou nas imagens das letras. Achou que tinha percebido alguma coisa, mesmo assim não se sentiu convicto a respeito.

Passou o dia seguinte estudando seu livro de símbolos para ver se surgia alguma luz. Nada. E as quatro palavras continuavam olhando para ele como se o desafiassem.

Por uma questão de segurança avisou o comando a respeito da mensagem. O comando informou que não era dele, mas ele sabia do que se tratava. Mas não deu nenhuma dica a respeito. Começou a achar que era uma brincadeira e imaginou soluções jocosas. Nada.

Passou uma semana, duas, um mês e André não conseguiu resolver o problema da mensagem. Mandou um aviso para o comando. Ele desistia. Deveria ser removido de volta à base. Como um espião do nível dele poderia se manter no posto sem conseguir decodificar a mensagem?

No dia seguinte seu contato na região apareceu na hora do café da manhã. Sentou-se à mesa com ele, não falou nada. apenas lhe entregou um envelope com as passagens de volta. Quando levantou-se, olhou para trás e perguntou: onde foi parar o romantismo da sua juventude?

Nesse momento, foi como se um raio caísse na cabeça de André. Ele ficou vermelho de vergonha e roxo de raiva. Como é que não tinha percebido? Não desistiu de partir de volta para casa, pelo contrário, a compreensão da mensagem só aumentou sua vontade de voltar logo.

Dois dias depois já estava num táxi, indo do aeroporto para casa. Quanto mais perto chegava, mais apertava sua saudade de Clarissa. De longe a viu na varanda da casa, linda vestindo um longo negligé cor de rosa. Ainda na soleira, olhou para ela e disse.

" - O peixe se abrasa ao te olhar. Vamos para o ninho."

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Pó lainas

As polainas. como todos sabem, foram inventadas pelos índios Mohawks no século IV a.C. Durante muitos séculos essa invenção foi disputada pelos seus rivais, os Choctaws. O assunto só foi decidido em favor dos primeiros, durante o histórico julgamente mediado pelo general Custer no vale do Pequeno Grande Chifre.

Originalmente o seu uso servia apenas para evitar que carrapichos e carraptos aderissem às canelas dos aborígenes que usavam apenas mocassins. Foram as mulheres cheyennes que, ao desenvolver pigmentos que pudessem ser usados em couro e tecidos, passaram a usar as polainas como adereço.

Não demorou muito para que os guerreiros sioux, especialistas em simbologia militar, adotassem as polainas coloridas como forma de sinalização. Muito antes da cavalaria rusticana usar a bandeira branca como sinal de paz, os sioux já sinalizavam o fim das hostilidades com suas polainas dessa cor. O vermelho era sinal de guerra e o verde sinaliza que era hora dos guerreiros pararem de brigar e cuidar das suas hortas (de onde surgiu a simbologia do selo verde, utilizado até hoje pelas empresas ecologicamente responsáveis).

O intercâmbio cultural entre colonizadores e colonizados acabou levando as polainas para a Europa, onde fez muito sucesso, especialmente na França e na Itália, países reconhecidamente mais românticos que os demais vizinhos.

Em Portugal ganharam o nome que usamos, pois eram feitas de lã, para proteger a canela do pó das estradas.

Em Veneza, a cor das polainas indicava a disponibilidade dos gondoleiros para encontros amorosos com as passageiras mais atiradas. Usavam polainas listadas de branco com a cor que sinalizava suas intenções. Polainas com vermelho eram sinal de indisponibilidade temporária. Listas azuis indicavam que o gondoleiro só queria ficar.

Quando o gondoleiro, no meio da viagem, trocava as polainas pelos pares listados de preto e branco, era sinal de que tinha se apaixonado e declarava amor eterno. Com o tempo os gondoleiros abandonaram as polainas e passaram a usar camisas listadas. A simbologia continuou a mesma.

Nos séculos 18 e 19 as polainas sairam da moda cotidiana e acabaram sendo usadas por militares. No começo do século 20 as polainas deixaram os uniformes de combate, permanencendo apenas como decoração das bandas militares. O único exército que ainda usa polainas regularmente são os batalhões das Highlands escocesas, ainda que a maioria dos consultores de moda afirme que polaina não combina com saiote xadrez.

Nos dias de hoje, as polainas são utilizadas como acessórios de moda mas, mais comumente como acessórios esportivos. O que não significa que perderam seu caráter simbólico. Polainas brancas ainda sinalizam paz e tranquilidade, as coloridas simbolizam outros estados de espírito.

De todas as cores de polainas, a minha preferida são as magenta, cor que mistura igualmente o vermelho(cor do amor e da paixão, cor de fogo e de sangue) e o azul (a cor do infinito, do intelecto e da tranquilidade).

Mas não espere me encontrar de polainas no meio da rua. Meu biotipo nunca combinou com elas.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Cartão de Natal


E, subitamente, apareceu com o anjo uma multidão da milícia celestial, louvando a Deus e dizendo: Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens, a quem ele quer bem. Lucas 2:13-14

Não sei qual é a sua expectativa para esse Natal. Geralmente recebo várias mensagens me desejando sorte, prosperidade, saúde e outras benesses terrenas e materiais.

Eu não tenho expectativa nenhuma. Não preciso ter expectativa de receber nada melhor do que o que eu já recebi, que foi a vinda de Deus encarnado para remir os meus pecados e me dar, gratuitamente, a salvação.

O meu Natal será a comemoração desse presente que, mesmo não merecendo, eu recebi.

O meu desejo e a minha oração é que você também seja destinatário desse presente e que nunca mais precise trocar o maior presente de Deus pelas migalhas oferecidas pelos homens.

Poema novo


Eu colorido
Ela preto
Eu café
Ela leite
Nós xadrez

Eu samba
Ela valsa
Eu bolero
Ela foxtrot
Nós tango

Eu salgado
Ela doce
Eu frito
Ela assado
Nós temperado

Eu Beethoven
Ela Mozart
Eu Gershwin
Ela Porter
Nós canção

Eu Borges
Ela Sábato
Eu Neruda
Ela cummings
Nós poesia

sábado, 19 de dezembro de 2009

Sinapse labial

Não existe nada mais sináptico que um beijo.

Beijo beijo eu quero dizer, não aquelas trombadas de bochechas que as pessoas se dão jogando beijos no espaço sideral.

Beijo que alguns chamam de novela e que os ingleses chamam de beijo francês (nunca me explicaram como é o beijo inglês, mas vitorianos da forma que são, deve ser algo bem sem graça).

Sinapses, nos explica a neurologia são as regiões de comunicação entre os neurônios. Para que neurônios vizinhos se comuniquem são necessários alguns mediadores físico químicos chamados de neurotransmissores. É verdade que um beijo acaba com qualquer neuras, mas sempre é um transmissor de primeira.

Sendo uma sinapse a transmissão de estímulos, o encontro lábios é algo que consegue elevar essa transmissão a faixas de frequência que Herz jamais imaginaria existirem.

Na sinapses labiais não existem fendas sinápticas, aliás não existe nada entre os lábios, um beijo efetivamente sináptico é aquele que não deixa passar nem um fio de cabelo, ainda que, de vez em quando, alguns deles fiquem presos entre as terminações nervosas, como se fossem dentritos, colaborando para consecução da mesma.

Um beijo bem dado nunca vai provocar sinapses inibitórias. Para beijar é necessário que qualquer inibição seja colocada de lado, caso contrário jamais ocorrerá a hiperpolarização das demais membranas e a probabilidade de ocorrência de ação fica com potencial nulo.

Todas as sinapses osculares são excitatórias. Os participantes do evento se despolarizam do resto do mundo e se entregam de forma dependente a dar e receber tudo que possuem.

Quando a despolarização é completa, aí sim os estímulos se neurotransmitem para novas ligações cujos detalhes serão objetos da próxima aula que tratará do encontro do axônio com a aminobutírica.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2009

Einfühlung

Olavo tinha acabado de lançar seu quarto longa metragem. Desde que lançara o bem sucedido "Um amor improvável", todo ano rodava um novo filme. Um melhor que o outro.

Era convidado para palestras e para festivais por todo país. Os críticos o admiravam e diziam que tinha atingido o ponto sublime de perscrutar a alma humana, particularmente a alma feminina.

E a cada novo filme, Olavo surpreendia a todos, conseguia ser mais profundo e, ao mesmo tempo mais claro e objetivo.

Todos queriam saber o seu segredo, de onde tirava as idéias e, principalmente, como conseguia ser tão sensível ao universo feminino. Todos os seus filmes tinham como protagonistas mulheres.

Para Olavo isso lhe parecia tão simples. Sempre que questionado dizia que sua musa o inspirava. O que gerava ainda mais curiosidade pois ninguém sabia que musa era essa.

Olavo nunca era visto com ninguém. Apesar de conviver com várias atrizes sempre mantinha uma distância profissional delas. Nas poucas vezes que era visto em público era na companhia de produtores ou nos compromissos de divulgação dos filmes.

Alguns papparazzi começaram a seguí-lo. Olavo não deu a menor bola para eles que, depois de meses sem nenhuma descoberta, desistiram.

Depois de muita insistência revelou, num programa de televisão que sua musa chamava-se Tália que era, segundo ele a mulher da sua vida.

Mas ninguém acreditava que pudesse ser só isso. Nenhum dos seus amigos ou produtores sabia quem era Tália.

O que ninguém sabia é Olavo tinha um mundo particular dele, onde ele revelava todos os segredos da sua alma. Sem abismos, nem cortinas.

Nos fundos do seu apartamento, ficava o seu escritório e refúgio que ele batizou de Einfühlung, o estado supremo de felicidade e empatia. Era ali que ele conversava todas as noites com Tália

Tália reconhecia nos filmes de Olavo cada um dos seus sentimentos. Costumava dizer para ele que parecia que ele estava penetrando na sua alma quando escrevia.

Quando ouvia isso Olavo nem pestanejava, respondia que a alma da amada estava dentro dele, era ela que escrevia pelas suas mãos.

Todas as vezes Tália sorria ao ouvir isso e se aconchegava no seu colo em Einfühlung.

E era aí que Olavo explorava mais cada detalhe do corpo e da alma de Tália, que depois se revelavam em roteiros.

Na pré-estréia de "Pequenas grandes emoções", o novo fime, Olavo olhava para o seu celular a cada risada ou suspiro da platéia. Na proteção de tela, Tália o admirava orgulhosa.

Sabia exatamente o que se passava do lado dela, assim como ela reconhecia o carinho enviado em cada sorriso.

Na volta para casa parou no supermercado. Comprou uma garrafa de champagne rosé e um litro de leite e foi para casa comemorar o sucesso.

Sobre o tapete de Einfühlung, Tália, a gata, o esperava para planejar a próxima viagem ao mundo particular dos dois, onde mais um filme começaria a ser gerado.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

A cor da alfazema

See, how she leans her cheek upon her hand!
O, that I were a glove upon that hand,
That I might touch that cheek!
(Shakespeare)

Estudar poesia estraga os poemas ele costumava dizer.

Para que diabos alguém precisa explicar um poema? É como explicar o por do sol ou uma noite de lua cheia.

Ela já conhecia seu discurso, o que não a impedia de o olhar embevecida cada vez que ele recomeçava.

Ele continuava discorrendo sobre a música de Mozart ou de Cole Porter.

Para que ler as críticas? Sente-se tudo, ou não tem valor nenhum.

É como se alguém olhando uma flor de alfazema tentasse explicar a química dos pigmentos.

Você olha a flor e se encanta. Ou não. Você sente seu perfume e sonha. Ou não.

Não existe explicação que possa definir a beleza. Não há exegese para a emoção.

Ela suspirou profundamente. O sorriso encheu seu rosto.

Ele a olhou. Por alguns minutos ficou imóvel com o olhar fixo na sua direção.

Ela o olhou. Com o queixo apoiado na sua mão esquerda. Ele não resistiu.

É como tentar explicar o sorriso no rosto mais lindo do mundo.

Um sorriso que é poesia. Poesia que é canção. Canção que é luar.

Luar que é alfazema beijando minha alma.

terça-feira, 15 de dezembro de 2009

De que lado você está?

Existem muitas decisões na vida de um casal recém formado que são cruciais para o bom desenvolvimento da união.

Se vão ou não ter filhos. Se sim, quanto vão esperar para ter o primeiro. Se o casal vai ter conta conjunta no banco ou continuarão com contabilidades separadas. Se continuarem com as contabilidades separadas quem fica responsável pelo pagamento das contas.

Essas e outras decisões são tomadas de forma metódica e, geralmente, lógica. Até imagino os muitos argumentos a favor e contra de cada uma.

O que sempre me intrigou, no entanto, é uma decisão prosaica, mas que pode desequilibrar o acordo matrimonial: como é escolhido o lado da cama que cada um vai dormir?

Claro que essa decisão só se aplica a casais que, pela primeira vez na vida, vão abandonar suas camas de solteiro e enfrentar o desafio da cama conjunta.

Quando um dos nubentes é canhoto imagino que a decisão seja relativamente fácil, mas quando os dois tem a mesma lateralidade quais são as bases de escolha?

Imagino que, em alguns casos, a decisão seja semelhante à dos assentos de avião. Você na janela e eu no corredor.

Mas essa opção pode trazer problemas. Uma vez acostumados de um lado ou outro da cama, se mudarem para outra casa em que a posição da porta e da janela estejam invertidas a encrenca está formada.

Casais pragmáticos optam pela escola probabilística. A decisão é no cara ou coroa. Se a moeda cair em pé um dos dois dorme na sala.

Casais fogosos decidem de acordo com a forma que se jogam sobre a cama. Caso sejam fogosos demais pode ser que não passem do hall de entrada.

Casais cautelosos adotam a estratégia de teste. Vão trocando de lado até alguém se afeiçoe por um deles. Caso os dois se afeiçoem pelo mesmo lado podem acabar em camas separadas.

Casais tradicionalistas adotam o estilo hereditário, escolhendo o mesmo lado em que o pai ou a mãe dormiam. Se houver conflito, a culpa sempre é dos sogros.

Os únicos que podem escapar desse dilema são os casais eternamente apaixonados. Até porque sempre estarão tão grudados, que tanto faz o lado da cama.

Ah...e antes que alguém me pergunte eu já respondo. Não lembro porque eu escolhi o lado da cama em que durmo.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

Uma odisséia em zD1

Ano terrestre 3045, 5 de março

Rosalina estava pronta para partir. E não era uma partida qualquer, ela seria a primeira astronauta a tentar atingir A1689-zD1, a mais distante galáxia conhecida da humanidade, depois dela nada mais se sabia.

Estava preparada para uma longa viagem. No tempo terrestre a ida e volta durariam mais de 50 bilhões de anos, mas não era isso que a preocupava, já que no 4º milênio os seres humanos tinham se tornado quase imortais e viviam bem mais do que isso.

Ouviu o fim da contagem regressiva e partiu.

Ano terrestre 3045, 13 de março

Ellypticus One, o foguete de Rosalina acabara de ultrapassar a lua. Ela olhou pela janela e lembrou das músicas e dos poemas que conhecia sobre o satélite.

Ao longe reparou nas cidades que tinham sido construídas no mar da tranquilidade, tanta luz que, olhada da Terra, a lua se tornara cheia permanentemente.

Aumentou o som da cabine, mais uma música de Walton começara.

Ano terrestre 3045, 27 de julho

Prestes a sair da Via Láctea recebeu uma chamada de rádio.

Era o seu marido ligando pelo telefone interestelar para lhe dar os parabéns por mais um aniversário de casamento.

Naquele dia comemorava suas bodas de neodímio, 350 anos de casada, uma raridade. Os casais modernos não costumavam passar dos 100 anos.

Perguntou se ele estava cuidando direito da casa e recomendou que não esquecesse de buscá-la na base espacial quando voltasse.

Quando rompeu o limite da galáxia reparou que o relógio se ajustava para o calendário estelar.

Ano estelar 23.050

O calendário não apontava mais dias e meses, esse tipo de limitação era exclusiva dos terrestres, viajando quase à velocidade da luz não fazia o menor sentido pensar em horas.

Rosalina já passara por Andrômeda e rumava em direção ao aglomerado de Abell, o colorido se tornava cada vez mais intenso lembrando-a dos céus de Kirche.

Mesmo sozinha resolveu comemorar o momento, pegou uma das garrafas de água que tinha na geladeira (produto que tinha se tornado mais raro que champagne).

Ano estelar 37.271

As galáxias espirais ficaram para trás, já adentrada o circuito das elípticas, o destino da última viagem cósmica que batizara a sua nave.

Eram galáxias excêntricas, com estrelas muito antigas, pouca poeira (o que facilitava sua observação) e quase nenhum gás.

Sabia que, quando as ultrapassasse seria o primeiro ser humano a ir tão longe. O radar já marcava a presença de A1689-zD1 a apenas 2 milhões de anos-luz de distância.

Ano estelar 48.491

zD1, como Rosalina se referia carinhosamente ao seu destino estava visível a olho nu.

Ela cantarolava Carlos Gomes: "tão longe, de mim distante..." e se sentia recompensada pela sua conquista. Ao adentrar a galáxia reparou na quantidade imensa de gelo da qual era formada.

Lançou as sondas que mandariam informações de volta para a Terra, pediu autorização para um passeio fora da nave.

Quando voltou, encontrou um torpedo do marido no rádio-telefone : "You did it". Respondeu com um beijo e começou os preparativos para a volta.

Ano terrestre 54.312.713.001, 30 de maio

O pouso na base de The Golden foi macio e suave. Rosalina demorou um pouco para sair da nave, pois não queria enfrentar os jornalistas sem se maquiar e pintar as unhas.

Quando a porta da Ellypticus One abriu ela apareceu no topo da escada e olhou ao longe, nem reparou na multidão que a esperava no fim da escada.

No topo da torre do observatório ela viu o marido com um maço de flores brancas na mão e uma placa onde se lia: ida e volta!

Naquele momento, mais do que uma heroína, Rosalina sentiu-se uma princesa.

domingo, 13 de dezembro de 2009

13 passos para comemorar

Existem momentos e datas que merecem mais que uma simples comemoração, precisam ser lembrados pela eternidade.

Ao melhor estilo americano, aproveito o dia 13 para dar um roteiro de 13 passos para fazer um jantar memorável. Todas as sugestões que dou aqui foram testadas e posso garantir que os resultados ultrapassam qualquer expectativa.

1. Antes de mais nada as pessoas, convide para esse repasto pessoas que sejam interessantes, agradáveis e, claro que digam algo ao seu coração. Os dois primeiros aspectos são importantes, mas não querem dizer nada se o último não estiver presente. Sem motivação emocional, a festa pode ser significativa, mas não vai deixar lembranças duradouras. Por outro lado, se as pessoas forem realmente as mais importantes da sua vida, você pode até servir pipoca.

2. Comece a refeição com uma salada. É sempre uma forma fresca de se abrir o apetite. Eu recomendo saladas coloridas, uma vez que as cores alegram a vida. Alfaces, raddichios, cenouras pigmentam bem o prato. O molho é fundamental, é ele que faz a diferença, em saladas coloridas nada melhor que um molho branco, como sou adepto de gostos fortes recomendo um molho de gorgonzola.

3. Cada escolha de vinho é delicada e, ao mesmo tempo, crucial. O vinho para acompanhar a salada não pode ser forte demais que encubra os sabores vegetais, nem fraco que desapareça diante do molho. Para a salada acima recomendo um bom Tannat uruguaio. A vinícola Piasano tem excelentes exemplares.

Depois da salada começa a apresentação dos pratos principais. Sim, digo pratos no plural, primeiro porque sempre é bom ter alternativas que atendam o gosto dos seus convidados, você nunca sabe exatamente o que pode desagradar algum paladar. Depois porque, no meu caso, eu prefiro fazer mais de um prato do que dobrar as medidas, isso nunca funciona bem.

4. Uma carne que é, ao mesmo tempo, suave e marcante é o lombo de porco. Melhor que só o lombo é o carré, ou seja, o miolo do lombo ainda ligado às costelas do bichinho. Eu recomendo uma subversão, até porque eu adoro bagunçar os paradigmas culinários. No meu caso, eu peguei essa receita de filet mignon e fiz apenas a parte da carne assada com as ervas, deixando o que não considerei importante de lado. Grandes momentos exigem que você se foque naquilo que é fundamental, o olhar não pode nunca se distrair.

5. Ao invés do acompanhamento sugerido para a carne, eu recomendo que a subversão continue, dessa vez apelando aos grandes chefes que nunca podem ser esquecidos. A guarnição que Emannuel Bassoleil usa para o seu bouef bourguignon fica perfeita com o carré com ervas. Apesar do fato de que eu não como alguns dos seus ingredientes é preciso lembrar que você está fazendo a festa para ser compartilhada por muitos. Não faz sentido se concentrar apenas no seu próprio umbigo.

6. Como alternativa ao porco, uma carne vermelha, ou contrário. O que não impede que os comensais (que também desgustarão os doces da sobremesa) aproveitem ambos os pratos se seus estômagos assim os permitirem.

Essa receita eu reproduzo abaixo pois, na minha opinião é o ponto alto do cardápio. Tão importante que consegue fazer até os corações recalcitrantes ao fruto da oliveira enxergarem coisas que antes dele não tinham visto.

Filletto alla salsa di olive nere
Uma peça de filé mignon (1,5kg aproximadamente)
Sal e pimenta do reino
4 colheres de sopa de óleo de milho
300g de azeitonas pretas sem caroço
8 colheres de sopa de azeite
2 dentes de alho
2 filés de anchovas
100 g de manteiga
2 xícaras de caldo de carne

Tempere o filé com sal e pimenta, asse-o no óleo de milho até atingir o ponto desejado Bata num liquidificador as azeitonas, o azeite, o caldo de carne, as anchovas, o alho até formar um molho denso.Fatie a carne. Jogue o molho por cima da carne com a manteiga e mais uma xícara de caldo de carne e aqueça por 5 minutos

7. Para acompanhar o filé com azeitonas sói escolher algo que lhe seja complementar, mas que de forma alguma lhe diminua o efeito do sabor. Opte por uma massa leve. Eu recomendo um tagliolone cozido al dente simplesmente temperado com manteiga e folhas de sálvia. A manteiga faz par com a que foi usada na carne.

8. De novo aqui temos a questão do vinho. Grandes pratos com sabores marcantes demandam um grande vinho. Não adianta querer economizar. Economia a gente faz no cotidiano para, quando chegam esses momentos especiais, comemorá-los comme il faut. Um bom borgonha se faz necessário. Se possível um Cuvée Margot – Laflaive - 2005

9. Todos devidamente alimentados, chega a hora mais doce do jantar, a sobremesa. Aqui, novamente eu reproduzo a receita que é curta, simples e deliciosa. É o meu doce preferido, só poderia recomendar esse numa situação em que se quer cortejar os paladares mais requintados.

Doce de abacaxi
Picar um abacaxi inteiro e deixar de molho de um dia para o outro em dois copos de água e duas colheres de açúcar. (se o abacaxi estiver muito doce eu ponho um pouco menos de açúcar). Ferver com 2 pacotes pequenos de pudim de baunilha (com a água). Deixar esfriar e colocar na geladeira. Quando o doce estiver firme, cobrir com chantilly e polvilhar côco ralado.

10. Por mais estranho que pareça a alguns, toma-se vinho com sobremesas, de preferência um vinho atacado pela nobre podridão (e não estou falando dos reis franceses pré-revolução mas de um Château d´Arche – Sauternes - 1999).

11. Estamos quase chegando ao fim do fabuloso regabofe. Hora de servir o café. Não pode ser qualquer café. De preferência um café gourmet. De todos que conheci até hoje, o meu preferido é o Astro do meu amigo Raymond Rebetez. Um coffea arabica 100% que tem um balanço perfeito de potência com baixa acidez.

12. O café merece algum tipo de complemento. Como estamos na época do Natal, eu sugiro que sejam servidas rabanadas (por favor, não confunda com rabada), que podem ser feitas com pão francês ou com pães próprios para isso que são vendidos nas boas padarias.

13. Por fim, guarde todas as lembranças que você tiver do evento. Fotos, cardápio, receitas. E, principalmente guarde no fundo do coração a lembrança de que uma data como essa deve ser comemorada para sempre.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Primeiro amor

Como qualquer adolescente Júlio sofria com as mudanças que a sua vida enfrentava. Os hormônios não lhe davam sossego e, como se não lhe bastassem as mudanças que o seu corpo passava, ela ainda era afetado por questões emocionais.

Não que essas questões lhe soassem ruins, pelo contrário, ele mesmo reconhecia que quase todas eram muito boas, mas existiam momentos em quem não sabia exatamente como lidar com elas.

Uma delas era administrar sua paixão por Manoela. Era seu primeiro amor. Surgiu de forma imprevista e violenta, arrastando todos os seus pensamentos só para a namorada.

Sua mãe reclamava que ele, um ótimo aluno, não estudava mais, que dormia pouco e estava comendo mal. Apesar disso, o menino continuava a dar conta das suas obrigações.

A paixão também transformou muitos dos seus comportamentos e acentuou outros. Nesse ponto, ninguém reclamava, nem os pais, nem os professores que percebiam que ele tinha se tornado muito mais carinhoso e atencioso com as pessoas, ao contrário dos seus colegas que viravam bichos quase intratáveis nessa idade.

Júlio achava isso tudo muito bom. Só que, como qualquer adolescente, precisava permanentemente de reforço positivo. Por mais que soubesse e sentisse o amor de Manoela ele ficava extremamente ansioso se ficasse sem receber notícias dela por muito tempo.

Pediu que o pai lhe comprasse um iPhone para que ele pudesse ficar conectado 24h por dia. Olhava para a telinha a cada cinco minutos e, quando se passava mais de meia hora sem nenhuma mensagem, ele começava a ficar inquieto querendo ligar para ela.

Só que a menina também tinha suas obrigações e não podia ficar o tempo todo no telefone ou na frente do computador. Júlio sabia disso, entendia isso, mas não se conformava com isso.

Um dia ele estava falando com ela no telefone, quando ela precisou desligar por que ia começar a sua aula. Ele ficou esperando que ela lhe mandasse um torpedo, um e-mail, um sinal de fumaça. E nada.

Não resistiu e telefonou. Caiu na caixa-postal, é claro. Entrou em pânico (como se não soubesse que Manoela desligava o telefone durante a aula). Não iria conseguir esperar até o final do horário escolar, ainda faltavam quase duas horas.

Avisou a mãe que estava saindo, mas que voltava antes de ir para a sua aula. Correu os dez quarteirões que separavam sua casa da escola de Manoela e, chegando, disse para o porteiro que precisava entregar um livro que Manoela tinha esquecido de levar.

Subiu as escadas voando, sabia que ela estava no laboratório de biologia. Quando chegou na porta viu a amada no fundo da classe, num dos microscópios observando protozoários. A professora veio em sua direção para saber o que ele estava fazendo lá.

Júlio ignorou a professora e caminhou em direção a Manoela que, com os olhos nas lentes, não percebeu sua aproximação. Quando ele chegou perto ela levou um susto.

Júlio olhou-a nos olhos. A imagem da amada o persuadia a qualquer loucura. Beijou-a e disse que tinha um recado urgente. Ela ficou ainda mais assustada, até que, como se algo preso na sua garganta subitamente fosse expelido, ele disse:

" - Eu precisava dizer que eu te amo".

sexta-feira, 11 de dezembro de 2009

A mulher perfeita

Ela é alegria em todos os momentos

Ela é emoção nas grandes e pequenas coisas.

E também emocionante.

É criança, adolescente e mulher

Ela é passado, presente e futuro.

É o conhecido e o surpreendente.

É o velho, o novo e o que ainda nem foi descoberto.

Ela é simples e complexa, séria e descontraída.

Beleza e elegância, charme e brejeirice

Atraente e atraída, vida e muitas petites-mortes.

Tudo numa só pessoa.

Ela é a mulher perfeita

A mulher que não existe.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

Desembaraçados

O preservativo que é conhecido popularmente como camisinha foi inventado no século XVI por um sujeito chamado Gabriele Fallopio (sério, nenhum trocadilho, talvez apenas um capricho do destino), o mesmo que identificou uma série de órgãos humanos como o ouvido interno, as trompas e o ligamento que levam seu nome. Também nomeou uma série de tubos do corpo.

É importante notar que Gabriele tinha uma certa fixação pelos instrumentos de sopro de metal. A tuba do ouvido, as trompas. Se tivesse forma de tubo, era com ele. Talvez por isso mesmo tenham sido o inventor de um produto que entuba os falos.

O objetivo da criação da camisinha era meramente higiênico, ou seja, só para prevenir doenças. Fallopio, apesar de entender de tubos, talvez não entendesse muito bem do que circula por eles, e nem pensou na sua invenção como contraceptivo.

O equipamento era feito de linho embebido em ervas, o que temperava qualquer relação. Quando foi substituído pela borracha, as pessoas passaram a usar lençóis de linho como lembrança desses tempos ancestrais.

Anos mais tarde, o Dr Quondam, médico de Carlos II, assustado com o número de filhos ilegítimos do rei aperfeiçoou a invenção de Fallopio, já com objetivos anticoncepcionais. A criação de Quondam era feita de tripa de animais, o que levou alguns dos seus desafetos a declarar que ele não passava de um salsicheiro real.

De qualquer forma, embutida nas tripas de Quondam, aconteceu a primeira revolução sexual e os vendedores de miúdos nunca lucraram tanto como nessa época.

Foi Charles Goodyear, no final do século 19 que, entre produzir um pneu e outro, percebeu que as sobras de borracha poderiam substituir as tripas, iniciando o ciclo da borracha na Amazônia (isso nossos livros de história do Brasil não contam por hipocrisia moralista) e levando os comerciantes de tripas a buscar novos mercados gerando a invenção da linguiça calabresa.

Com o tempo as camisinhas de látex foram evoluindo até chegar na sua tecnologia atual, apesar de terem sofrido alguns furos no caminho (muitos pais e mães que o digam). O método de vulcanização da borracha deu a idéia de chamá-la de camisa de Vênus (se bem que quem usava era o seu amado Vulcano).

Segundo se especula nos meios científicos, o próximo passo de evolução do produto será o desenvolvimento de um modelo permanente, seguindo a proposta de Veríssimo, que já declarou que "macho que é macho não usa camisinha, plastifica-o".

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Uma valsa

Desliza
flutua
fluído
algodão

Nas nuvens
suspira
marcada
emoção

De um lado
ao outro
princesa
e condão

Me perco
me encontro
no seu
coração.

terça-feira, 8 de dezembro de 2009

O meu milésimo


No último dia 19 de novembro o mundo do futebol comemorou os 40 anos do milésimo gol de Pelé (ele ainda chegou perto do 1300 gols na carreira), o primeiro futebolista a atingir oficialmente essa marca.

Depois dele só Romário conseguiu o mesmo feito (apesar de ter apelado para jogos do infanto juvenil e amistosos bastante duvidosos).

Millôr Fernandes foi outro que declarou que também tinha atingido a milésima. No caso dele, relação sexual. Apesar da sua lógica nas contas, ele nunca mostrou a súmula das suas performances.

Hoje quem chega ao milésimo sou eu.

Não é gol, até porque quando jogava eu era goleiro e nunca vi ninguém comemorar o milésimo gol tomado.

Também não é relação sexual, eu nunca fiz esse tipo de contagem e, cá entre nós, isso é assunto meu com a minha mulher.

Chego à milésima publicação de textos nos meus blogs. Comecei em Agosto de 2007 com essas insanidades. Em 2008 abri três novas frentes : em Março o Calvinistas e, em abril o xiita da Inclusão e o Espicaçando o Marketing , que eu divido com o Volney Faustini.

Em 835 dias publiquei 726 insanidades, 82 espicaçadas, 85 xiísmos e 107 calvinismos. Para quem se propunha, quando abri primeiro blog, a publicar um texto por dia, fiquei com um crédito de 165 dias.

Amanhã começo uma nova contagem. Minha meta agora são os 10 mil. Conto com a paciência de vocês.

PS: se quiser dar uma olhada na evolução das postagens, basta clicar na imagem acima para ampliá-la

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

Descântico dos cânticos

Para quem não sabe Cantares (também chamado de Cântico dos Cânticos) é um dos livros poéticos escritos pelo rei Salomão. Uma poesia de amor e sensualidade dedicada à uma mulher sulamita, talvez a única que realmente tenha amado.

O livro, como toda poesia de amor, é cheio de metáforas. Metáforas adequadas para a época em que foi escrito, é claro. Me peguei imaginando como essas figuras de linguagem poderiam ser adaptadas para o dia de hoje.

Numa das suas falas, a sulamita se envergonha de estar morena. Hoje o verso seria: "não olheis para eu estar pálida, mas choveu muito nesse verão e o governo proibiu os equipamentos de bronzear.."

Ele a compara "às éguas do carro do Faraó..." o que não caberia nem em música funk. Atualmente teria de dizer que ela era semelhante ao torque de uma Ferrari.

"Os teus olhos são como os das pombas", não pega bem falar isso para a namorada do séc 21, talvez lentes de contato coloridas...

"Os teus cabelos como o rebanho de cabras que descem ondeantes do monte de Gileade", em tempos de chapinha certamente precisaria ser trocado pelos fios de nylon que saem escorridos dos teares eletrônicos da China.

"O teu pescoço é como a torre de Davi" ficaria mais moderninho comparado à Nakheel Tower em Dubai e, "os teus dois seios como crias gêmeas de uma gazela" não suportariam a abundância de silicone que impera no mercado, precisariam ser substituídos por: os teus dois seios são como crias gêmeas de hipopótamos".

A face de romã perderia o lugar para a face de botox e os lábios de escarlata pelas tintas rubras dos batons. É verdade que, ao invés de destilar mel, esses lábios estariam cheios de outros destilados.

A fragrância do Lìbano, que Salomão sentia no vestido da amada seria substituída pelo aroma de perfumes contrabandeados. Os meneios dos quadris, como colares segundo Salomão, seriam considerados vulgares e perseguidos nas universidades.

Por fim, o ventre, um monte de trigo cercado de lírios, se tornaria apenas uma tatuagem tribal e, o umbigo, taça redonda, não passaria de um depósito de piercings.

Acho que, se vivesse hoje, Salomão sofreria demais com essas mudanças. E eu daria toda razão para ele.

sábado, 5 de dezembro de 2009

Sinestesias

Ele a amava com desejos primários que variavam dos mais prosaicos aos mais complexos.

Um amor frutado de emoções e florido de carinhos.

Mas quando o amor fermentava eles percebiam que desejos secundários apareciam.

Tudo ficava mais condimentado, não poucas vezes empireumático.

Alguns brotavam subitamente como a ervas do campo, outros eram cuidadosamente cultivados, como vegetais.

Ele a considerava uma especiaria. Ela admirava seu instinto animal. A química nunca deixou de existir entre os dois.

O tempo passou para os dois e começaram a surgir desejos terciários, cheios de nuances, como uma madeira que adquire novos cromatismos com a idade.

Como se minerais fossem, se fundiram num único diamante. Eterno.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

É tudo química

Uma ligação não se estabelece assim sem mais nem menos, quem acredita em acaso não sabe do que está falando. O acaso não existe.

Antes de mais nada é necessário que o conjunto de forças atrativas seja mais forte que as forças repulsivas. Seja no centro, seja na periferia, mais dada a reações elétricas.

As ligações têm somente um objetivo, que é o de garantir a estabilidade. Um objetivo nobre, diga-se de passagem.

Quando a ligação é simples, entre pessoas razoavelmente similares, dizemos que são covalentes (a ligação e as pessoas).

Nesse caso, por maior que seja a repulsão por motivos externos, os núcleos se aproximam e se apaixonam irremediavelmente.

Algumas vezes, nem acontece nenhuma repulsão, e os seres envolvidos tendem a compartilhar sua própria energia, até quando essa seja instável.

O resultado é um casal neutro, onde os excessos de um compensam a escassez do outro. Provavelmente um dos casos mais comuns de ligações.

Por outro lado, também existem situações em que a energia de um é maior que a do outro. Seja de forma geral, seja em aspectos específicos.

Essa sobra de energia fica rodeando a ligação, até encontrar alguma covalência. Meus amigos Ione e Nico são o caso mais explícito que eu conheço desse gênero de ligação.

Quando a ligação é profunda, a ponto da energia de um mergulhar no mar de energia do outro, a relação se consolida como se fosse um metal raro e precioso.

São as ligações que explicam a condutividade e maleabilidade de muitas relações.

E, quando chegam a esse ponto, qualquer reação será sempre para manter eternamente a qualidade da liga.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A apetecível antologia de Novembro

Todos os meses seleciono aqueles que, para mim, foram os comentários mais exóticos dos meus leitores. Eles se tornam exóticos por que eu os tiro completamente do contexto para colocar aqui.

Leia-os dessa forma, sem procurar o texto original, a leitura fica muito mais divertida.


Tem cabimento isso?

O seu zoológico está de lascar..

Ui, como eu estou musical hoje!

Vou acordar depois eu volto...

Os cílios deram nós de marinheiro

...estímulos para as erupções são sempre externos (salvo nas tpms)

tem vezes que eu me assusto diante de seus contos...

...só consegui pensar azul...

Pra que simplificar,se complicando dá o mesmo resultado...

...juro que eu preferi mil vezes bater os cilios assistindo ao video do Leonard Cohen.

não consigo conceber o sabor...

É bom receber dessa parte textos sempre vivos e concertantes...

Adoro "porcaria"!

Ah eu te ensino um receita de uma cucurbita recheada que é uma belezura!

Deu até medo de ler...

Eu não acredito que li isso até o final...

Queria tanto ter uma sinapse, umazinha só...

Um dia os filólogos vão vir todos puxar seus pés no meio da noite.

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

A punto de resbalar

Ella es maravillosa es una estrella que calma tu alma
Resbalando con mi cabeza hasta llegar
Hasta lo más alto (La cruda)

Estava a ponto de escorrer.

Parou momentaneamente entre a íris e os cílios.

Júlia parada defronte à carta que recebera não acreditava no que lia.

Claro que isso era apenas força de expressão.

Tanto acreditou que se emocionou.

Tanto se emocionou que teve dificuldades para conter as lágrimas.

Tanto conteve que não chegou a chorar.

Mas uma delas ficou pendente até cair.

Resvalando na maçã do rosto até chegar aos lábios.

Um tempero de sal e de paixão.