segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Desaforismos inoportunos

Não há fonoaudióloga capaz de ensinar a hora certa de se calar.

Aceitação é uma maneira eufemística de comiseração

Seus sonhos eram de princesa, suas conquistas de mulher.

O centro do homem não é o pensamento mas o umbigo.

Relacionamentos duradouros sempre são os mais maleáveis.

A arte não imita a vida. É a vida.

Não fale com uma porta, prefira as paredes que não são volúveis.

Se a valsa lhe assusta, dance um tango.

sábado, 28 de novembro de 2009

Conto de fadas

Nunca tinha dado muita importância às janelas do prédio vizinho, apesar da pouca distância que estavam da minha. Voyeurismo nunca foi meu ponto fraco, e esse negócio de ficar olhando escondido atrás das cortinas sempre me pareceu coisa de adolescente.

Até o dia em que a sala estava com as cortinas escancaradas e, da minha, janela, vi um vulto feminino no escuro de um quarto. Não dei muita atenção mas, quando passei novamente pela sala a vi no mesmo lugar, olhando, achava eu, na minha direção.

Aquilo me incomodou. O que é que aquela mulher tanto olhava em direção à minha casa? E por quê com tamanha concentração. Fechei as cortinas e fui dormir encafifado.

Na manhã seguinte não resisti e fui olhar. Ela ainda estava lá. Com a luz do dia me dei conta do meu rídiculo, era uma figura de uma silhueta presa na parede. Só um rosto desenhado até a linha do pescoço. Ri de mim mesmo e fui trabalhar.

Contei a história para alguns colegas que também se divertiram às minhas custas. Estranhamente eu não conseguia tirar a imagem da minha cabeça.

Naquela noite voltei a observá-la, novamente sozinha na penumbra. Tinha os traços finos, o cabelo penteado à moda do século XIX. Mesmo sem ter olhos dava a impressão de estar olhando para mim. Coloquei a cadeira na frente da janela e fiquei olhando. Só quando me toquei que alguém de verdade poderia entrar no quarto e me ver naquela situação é que saí de lá.

O que não me impediu de ir olhá-la sempre que passava pela sala.

Depois de algumas semanas eu já a conhecia em detalhes, Sabia a inclinação exata de cada traço. Até tinha dado um nome para a figura. Anita. Chegava mesmo a cumprimentá-la a cada vez que a via e não demorou muito comecei a conversar com ela.

Sim, conversar. Apesar dela não emitir nenhum som, eu ouvia suas respostas e comentários a respeito do que eu falava. Um dia ela apareceu com brinco fixado na altura do que seria a sua orelha. Eu elogiei. Tive a impressão de que ela me sorriu.

Minha amizade com Anita corria às mil maravilhas até o dia em que uma mulher de verdade entrou no quarto. Virei-me rapidamente e saí de perto da janela.

No dia seguinte Anita me explicou que aquela era a sua dona, segundo ela uma mulher excepcional. Sensível, inteligente, bonita. Me perguntou se eu não queria conhecê-la. Sabia que eu morava sozinho e sua proprietária também. Eu ainda guardava um pouco do meu bom senso e achei que seria um absurdo ser apresentado a uma mulher por uma silhueta.

Anita se ofendeu com aquilo e ficou dias sem falar comigo. Mesmo assim eu voltava todas as manhãs e noites e tentava puxar papo. Algumas vezes vi de relance a dona de Anita, realmente uma mulher muito bonita. De qualquer forma, quando via que Anita não estava sozinha eu não ficava olhando.

Uma noite, ao chegar em casa, o porteiro me entregou a correspondência e um envelope com o meu nome escrito à mão. Abri no elevador e empalideci de tal forma que o vizinho do 9º, que subia comigo, perguntou se eu estava passando bem. Disse que sim e desci no meu andar.

O bilhete era de Euterpe, a dona de Anita. Ela dizia que a silhueta tinha falado de mim para ela e, apesar de isso parecer absurdo, ela queria conhecer outra pessoa que conversasse com silhuetas. Me convidou para um café numa livraria próxima.

Quando cheguei ela estava sentada no fundo da livraria olhando gravuras de paisagens. No momento em que nossos olhares se cruzaram deu para perceber que alguma coisa diferente acontecia. Ela me chamou para olhar os quadros reproduzidos no livro.

Conversamos longamente e, depois de muitas xícaras de café, eu levantei e beijei Euterpe. Ela sorriu e me disse que aquilo parecia um conto de fadas. E era mesmo.

Na história escrita por uma fada chamada Anita. o amor jamais teria fim.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Para falar das flores

Naquela noite Cristiano deixou Rosana em casa e vagou de carro pelas ruas. Estava apaixonado e encantado demais para voltar para casa e dormir.

Quando passava pelo largo do Arouche viu as bancas de flores abertas. Parou. Entrou em uma onde o vendedor solitário estava sentado num canto.

" - Preciso da sua ajuda. Que flores eu mando para a mulher mais maravilhosa do mundo?"

O vendedor sorriu. Seu nome era Ciro,um romântico que admirava homens apaixonados.

" - Pois não. Mas acho que preciso de um pouco mais de informação para te ajudar. Tem idéia de que tipo de flores ela gosta."

" - Não faço a menor idéia. As melhores e mais bonitas."

"- A beleza das flores vai depender de como ela encara a vida. Mas se é a primeira vez, vamos ficar nos clássicos."

Cristiano comprou uma dúzia de rosas champagne (o vendedor não recomendou cores fortes) e mandou entregar.

Voltou na semana seguinte. Para agradecer o florista e para comprar mais flores.

" - Ela adorou as rosas, quero mandar outra vez..."

" - Nem pensar." Respondeu o vendedor. " - Se mandar as mesmas flores sempre ela vai achar que você não tem nenhuma criatividade. Você lembra que palavras ela usou para se referir às rosas?"

" - Ela disse que tinha sido uma lembrança muito delicada."

" - Mau sinal. Isso é o tipo de frase que se fala para um amigo, não para um namorado. Sejamos mais ousados".

Naquela noite enviou um vaso de prímulas vermelhas para Rosana. Foi um sucesso, logo de manhã ela ligou para agradecer.

A reação dela foi tão apaixonada que dois dias depois Cristiano estava de novo na floricultura.
" - Ciro você acertou na mosca. Vamos repetir..."

" - Acho que você não entendeu...você não pode repetir. Me conte algo mais dessa moça. Que tipo de música ela gosta?"

" - Gosta de tudo um pouco..."

" - Nada em especial?"

" - Sim, claro, ela é apaixonada pelo adagio de Albinoni e pela sonata 16 de Beethoven..." Cristiano falou sem esperar que um florista soubesse muito a respeito disso. Quebrou a cara.

" - Sonata 16? A sonata que marca a virada do clássico para o Beethoven romântico...humm..bem humorada, alegre, quase jocosa...

Cristiano olhava embasbacado para Ciro. Não resistiu perguntar:

" - Você conhece a Rosana? Ciro caiu na gargalhada

" - Eu conheço Beethoven, e o gosto dela por essa sonata revela muita coisa. Vamos mandar crocus.

" - Crocus ?

" - Sim, flores de açafrão. São flores bem humoradas."

Mais uma vez a reação de Rosana foi radiante.

Cristiano ficou totalmente dependente de Ciro. Toda semana passava na floricultura, falava a respeito dela e mandava as flores que Ciro recomendava.

Ciro reconhecia que Rosana era uma mulher surpreendente. Refinada sem ser pedante. Carinhosa sem ser piegas. Fogosa sem ser vulgar. E, pelas fotos que Cristiano mostrou, linda demais.

Continuou a solidificar o romance do rapaz que, a essa altura, se tornara seu amigo.

Depois da primeira briga mandou lírios. Junto com um livro de Neruda mandou amores-perfeitos. Depois de uma festa de gala lhe mandou cravos brancos.

Um dia Cristiano chegou na floricultura arrasado. Tinham se separado. Rosana lhe mandara um vaso de narcisos e ele os achara lindos.

" - Não!!!!!! Narcisos não se agradecem, Cristiano. Você deveria ter ido pedir desculpas para ela. Ela estava te dizendo que estava magoada..."

" - O que eu faço agora?"

" - Não há muito o que fazer. A essa altura ela já descobriu que você não entende as flores...

Cristiano foi embora sem saber o que dizer. Nesse momento Ciro pegou um vaso de tulipas e mandou o motoboy levar à casa de Rosana.

No cartão Ciro escreveu: "Mesmo as coisas que morrem podem renascer atravessando a neve mais densa".

Seis meses depois, Ciro e Rosana casavam numa igreja enfeitada de lavandas e gérberas.

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Dante e Beatriz

...che nessun la si può recare a mente, che non sospiri in dolcezza d'amore. (Dante Alighieri)

Muito jovens se conheceram, mas não passou de um encontro fugaz. Apesar disso, Dante gravou na sua mente a imagem de Beatriz, e nunca mais se esqueceu dela.

Tinham a mesma idade, ou algo muito próximo disso. Cresceram separados. Os poucos encontros que tiveram não permitiram que se conhecessem de fato. O que não impediu Dante de ser eternamente apaixonado por ela.

Um dia, Dante começou a ter visões de Beatriz. E as visões se multiplicavam de tal forma que começou a anotar e arquivar cada uma delas.

Ele tinha a impressão até de que estava roubando algo da amada. Ela nem sabia que o fato estava ocorrendo.

Nesse momento ele ensaiou uma aproximação sem muitas perspectivas, apesar disso ela deu sinais que percebia sua existência.

Ele já estava começando a ficar animado quando, um dia, ela desapareceu sem deixar sequer sinais de fumaça.

Ninguém mais tinha notícias dela. Tentaram falar com o pai, o senhor Portinari, nem ele sabia. Dante resolveu que iria encontrá-la, nem que para isso precisasse ir até o inferno.

E partiu, deixando para trás toda a esperança, exceto a de conquistar a amada.

Navegou pelos 9 mares, enfrentou tempestades de vento, chuvas ácidas, sobrevoou precipícios. Sem sucesso. Nada era capaz de expiar seu desejo de encontrar Beatriz.

Não foi fácil, teve de desviar de grandes rochas, mudar atitudes e purgar erros. Mas esse caminho o levou ao céu.

Só mesmo nesse lugar que Dante, finalmente, encontrou Beatriz. Tão perfeita que apenas as esferas celestes poderiam recebê-la.

Se era mesmo o céu, de fato, ninguém nunca soube explicar, mas estar com ela era como se fosse.

O céu que passou a ser o idílio dos amantes. Desde sempre e para sempre

terça-feira, 24 de novembro de 2009

Nem às paredes confesso

Mário era um sujeito com uma vida sólida e tranquila. Desde jovem tinha se estabelecido objetivos e, um a um, tinha alcançado todos.

Alcançara sua estabilidade financeira. Formara um patrimônio que lhe permitia viver confortavelmente. Casara com a mulher que gostava. Teve filhas, que já estavam moças e quase independentes.

Tinha uma vida muito ativa. Além do trabalho praticava esportes, estudava música e frequentava um clube de discussões literárias.

No entanto, apesar de todas essas coisas, ele não era um homem feliz.

E ele sabia o porquê. Por mais de 30 anos tentava envolver sua família naquilo que ele fazia e não tinha resposta ou, quando tinha, era pior ainda pois só desvalorizavam seus méritos.

Passou a falar cada vez menos. Quanto menos falava, mais inconformado ficava, uma vez que ninguém se dava conta disso.

Ele até entendia as filhas, estavam moças e tinham outras preocupações. Mas jamais entendeu como é que a mulher o ignorava daquele jeito.

Exceto no dia em que ela chegou em casa e ouviu a voz de Mário. Achou que estava com alguma visita no escritório. Surpreendeu-se quando chegou lá e o viu de costas para o computador falando sozinho.

Preferiu não falar nada. Vai que ele agora está fazendo algum curso de teatro, pensou.

No dia seguinte comentou com as filhas no café da manhã. Elas riram e comentaram que aquilo era bem coisa do papai.

Mas também começaram a se preocupar quando elas mesmas começaram a encontrá-lo falando sozinho. Na sala, no banheiro, no quarto. Pediram para a mãe ligar para o médico da família.

Dias depois de receber uma ligação do médico, Mário foi visitá-lo para uma consulta. O médico lhe explicou porque o chamara lá. Ele caiu na gargalhada e disse:

"- Eu comecei a conversar com as paredes porque são as únicas coisas na casa que me escutam... é engraçado pensar que minha mulher e minhas filhas só me ouviram quando eu não estava falando com elas."

Quando a mulher ligou para o médico para saber o que ele tinha descoberto recebeu a informação de que Mário estava ótimo, aliás, nunca estivera melhor na sua vida, tanto de saúde como de cabeça.

"- Mas e as conversas com as paredes?" ela perguntou.

"- Deixe ele conversar à vontade com as paredes, minha senhora. Os tijolos costumam ser mais compreensivos que alguns corações de pedra."

Ela desligou e, envergonhada, nunca mais tocou no assunto.

segunda-feira, 23 de novembro de 2009

Óleos essenciais

Antonio chegou em casa já tarde, mas completamente sem sono. Tirou a camisa com todo cuidado e colocou-a em cima da cama.

Começou a remexer em todos os armários, inspecionou cada um dos maleiros, revirou a despensa e não encontrava o que queria.

Sentou-se à beira da cama e respirou fundo. E aí é que ficou mais ansioso para resolver o seu problema.

Pensou em vidro, metal, papelão, nada lhe parecia adequado. Os saquinhos para congelar alimento não eram suficientemente grandes.

Plástico. Era isso. Mas precisava ser um plástico que não tivesse cheiro. Ligou o computador e foi pesquisar.

Encontrou um lugar que tinha exatamente o que ele queria. Mas teria de esperar até o dia seguinte. Como faria durante a noite?

De qualquer forma, faltava pouco tempo para amanhecer. Ficou acordado.

Às 7 horas estava na porta da loja que só abria às 8. Quando o primeiro funcionário chegou ele disse o que queria.

Pagou em dinheiro, não quis que embrulhasse. Voltou rapidamente para casa com a caixa plástica e o tubo de silicone.

Pegou a camisa que estava exatamente no mesmo lugar. Cheirou-a delicadamente para que ela não perdesse nem um pouco do aroma.

Dobrou-a, colocou na caixa plástica. Lacrou todo seu entorno com silicone. Por via das dúvidas ainda colocou-a em outro saco plástico.

Dormiu feliz. Nunca mais perderia o perfume que ela tinha deixado na sua camisa. O cheiro essencial do amor.

sábado, 21 de novembro de 2009

Uma história de mattoso

Marduque oscitava o dia inteiro coçando a omocótila observando o mareorama. Não passava de um arrieiro descansando o obélio sobre o escabelo.

No entorno proximal avistava urodelos concóides cernindo-se até mirrar, como se fosse um venador de rinofimas.

Uma manhã, entre estapes e amarantáceas, avistou o epacmo de um garotil que papujava numa tessitura sarilha.

Acinésico, refugiou-se no ichó para não demonstrar seu inotropismo. Foi alcançado pelo janízaro que, à socancra, o malbaratou com o fanal.

Arriscou um propinamento espagiríta. Recebeu de volta apenas increpações. O que não lhe devolveu miosina à sua acnemia.

Obcordado, foi lançado onticamente na libata cacósmica, sob a acusação de ser um tafulão que atentava contra o uxório.

Sentiu que o ecúleo lhe seriapintalgado de câncaros. Seu anapesto foi julgado uma laracha repleta de secância.

Admoniu que sua egéria o levava a escorços cheios de fidúcias.

O uale o condenou a prisão nos soles, sem acesso ao mégaro e sem adimentos de tretas.

O tuno pavacaré acabou seus dias atado ao lanternim, acumulando línter falciforme no epitélio.

Joaquim Mattoso Câmara Júnior (Rio de Janeiro, 1904 — Rio de Janeiro, 1970) foi um linguista brasileiro. Membro fundador da Academia Brasileira de Filologia, sob sua orientação, foi fundada, em 1969 a Associação Brasileira de Linguística, da qual participou na sua primeira gestão, integrando o seu Conselho Diretor.Escreveu vários livros que se tornaram referência na área, entre eles Estrutura da Língua Portuguesa, lançado em 1970. Estudou com Roman Jakobson, nos Estados Unidos, sendo fortemente influenciado por esse linguista.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ela pôs o pé na sauna

Luísa passava o final de semana num hotel em Visconde de Mauá. Era a primeira vez que ia para o lugar e, também a primeira que ficava num hotel de chalés.

O lugar era bonito, amplo. O quarto também. A cama larga, a decoração elegante.

Como era seu hábito em qualquer lugar estranho que conhecia ela resolveu explorar os seus detalhes.

Foi até o bloco principal do hotel, viu o restaurante, a sala de jogos. Quando viu a placa indicando a sauna ficou curiosa.

Claro que ela sabia o que era uma sauna, mas nunca tinha entrado em uma, até porque lhe soava como algo suspeito.

Mas estava sozinha e não custava nada ver exatamente como era. A placa na porta dizia "Sudatorium".

Descobriu que funcionava pela manhã para os homens e, à tarde para as mulheres. Entrou.

O local estava vazio. Era um vestiário com bancos e armários de alumínio e uma porta de vidro.

Abriu a porta e não viu nada além de um espaço todo coberto de madeira. Na parede um botão. Apertou.

Assustou-se com o vapor que começou a tomar o ambiente, mas logo descobriu que não precisava temer nada, apenas a umidade que iria estragar a escova que tinha feito no dia anterior.

Como não trouxera roupa para a sauna, apenas tirou a sandália e puxou a calça até a altura dos joelhos. E pôs o pé na sauna.

O vapor quente fê-la sentir-se bem. Saiu de lá encharcada de vapor e de suor.

Mas não sabia como desligar o equipamento. Apertou de novo o botão, só aumentou o vapor.

Pensou em chamar alguém, mas estava morrendo de vergonha. Até que a sauna desligou sozinha, era controlada por um timer.

Luísa descobriu como era bom andar nas nuvens de vapor. Transformou-se na nefelibata da sauna

quinta-feira, 19 de novembro de 2009

Lepidopterae


Papilionoidea sempre diz
Hamearis me faz feliz
Pieridae é sedução
Pieris rapae o coração
Delias seu perfume
Lycaenidae seu lume

Glaucopsyche seu ardor
Lycaeides do meu amor
Talicada sensação
Riodinidae delicada
Abisara o mar profundo
Danaus é o meu mundo

Nymphalidae brilho só
Pararge nem te dó
Hesperioidea paixão
Carcharodus a canção
Hedyloidea de verdade
Rhofalocera na eternidade

quarta-feira, 18 de novembro de 2009

Um brinco para a princesa

Magenta passeava todos os dias pelo parque. Era muito cuidadosa na escolha das suas roupas, sempre combinando perfeitamente as cores de sua calça pescador e seu top.

De todas as combinações, a sua preferida era o conjunto azul cobalto com vermelho da china que transmitiam, juntos, a sedução e a serenidade, resultando numa aparência alegre e vistosa.

O resultado primário desse cuidado no vestir era que Magenta era admirada por todos os homens que também faziam suas caminhadas no parque.

Mas ela também provocava efeitos secundários, iluminando a todos com seu sorriso e suas elegância.

De tempos em tempos Magenta usava também um lenço verde para complementar seu uniforme.

Mesmo porque não acreditava que uma cor ocupasse todo o seu espectro de gosto. A vida vem em ondas, repetia sempre. E nem sempre as ondas vem com a mesma força, ou mesma quantidade.

Um dia, num dos seus passeio, Magenta parou diante de uma planta coberta de flores. Eram de um rosa vívido, quase rosa choque, quase carmim.

Ficou bestificada com a beleza da flor. Era uma cor sensual, elétrica, definitivamente uma cor para mulheres.

Esperou que passasse um dos jardineiros do parque e perguntou que flor era aquela. Era uma fuchsia, mas que era popularmente conhecida como brinco-de- princesa. Não podia ser mais a cara de Magenta.

No dia seguinte ela trouxe uma máquina fotográfica e captou imagens da flor de todos os ângulos e levou-as para conversar com Eurico, o velho joalheiro do bairro.

Não demorou muito para que ela surgisse com sua roupa azul e cobalto e com brincos de rubi no formato da flor.

Os homens engasgavam quando a viam. Alguns seriam capaz de verter sangue carmim por ela.

Pura poesia.

Magenta. Cobalto. Da china. Verde. Fuchsia. Carmim.

Nunca houve outra princesa que fosse assim

terça-feira, 17 de novembro de 2009

Sombra e luz

Quando Platão escreveu o seu mito da caverna (que nada tem a ver com a Caverna do Lou, apesar dessa também ser mitológica) ele não imaginava que seria o maior influenciador do tenebrismo, ideologia desenvolvida por Ugo da Carpi no século XV.

Ugo ao se deparar com a problematização da luz como modeladora da imagem, ficou perplexo ao descobrir que as sombras, que ele tomava como verdadeiras, eram, de fato a falta de um conhecimento filosófico irreflexivo.

Quando compreendeu a metáfora da condição dos objetos reais, contrariando a linearidade platônica da eikasia, logrou alcançar o contraste incontornável entre entre a dianóia e a paranóia.

A partir desse momento, cada vez que olhava para a sua mulher entendia que a estruturação espacial do corpo feminino não acontecia por acaso, mas por causalidade. Essa técnica de observação fora do senso comum de outras visões de mundo exigiam conhecimento da perspectiva, do efeito matizador dos vestidos que usava.

Dizem as más línguas que, como a senhora Carpi não era exatamente uma beldade Ugo passou a observar somente a sua sombra, escapando das projeções de volumes tridimensionais.
Seu colega de trabalho, Baglione, que era um aristotélico sem maneirismos, entendeu que a tese de Carpi era apenas um sfumato ou, em bom português, uma nuvem de fumaça, para disfarçar outras intenções dramáticas.

Baglione concordava que a mulher de seu êmulo mais parecia uma natureza morta, mas isso não justificava a falta de sensibilidade do colega.

Durante os debates escolásticos que travaram, Baglione, mais de uma vez, referiu-se a Carpi como um sujeito sem transparência, mentiroso e corruptor da ordem vigente.

Somente a intervenção do professor Merisi, decano da universidade de Masaccio, onde todos trabalhavam, é que conseguiu resolver a briga, trazendo os dois inimigos de volta à realidade e tirando-os do mundo ilusório das coisas sensíveis.

Baglione já estava quase conformado com essa espacialização lógica de corpos distribuídos individualmente quando, uma noite, ao chegar em casa encontrou todas as luzes acesas atravessando todos os objetos da casa.

Sobre a lareira um bilhete de Donatella, sua mulher. Tinha fugido com Ugo da Carpi que tinha uma pístis e uma noésias que a fizeram renascer.

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

O medo

Januário amava Camões. Tudo que fosse referente ao poeta luso lhe interessava. Já decorara toda a lírica e não poucos cantos de Os Lúsiadas.

Durante sua vida vários exemplares passaram por sua mão. Edições de bolso, capa duras, edições brasileiras e portuguesas.

Apesar da sua paixão pelo tema, Januário nunca foi apegado aos livros. Esses estavam sempre disponíveis em algum lugar, pensava ele.

Conforme lia novos exemplares, guardava-os por um tempo, mas não se incomodava em dá-lo para outras pessoas ou para bibliotecas.

Até o dia que um amigo advogado mencionou um autor alemão, Wilhelm Storck, que tinha escrito uma biografia e análise da obra de Camões no século XIX.

No dia seguinte ele partiu em busca dela. Mandou e-mails para livreiros conhecidos, pesquisou em comunidades de redes sociais.

Finalmente encontrou-a. Soube de uma pessoa que tinha um exemplar. Foi visitá-la para tentar negociar a compra do livro.

Descobriu que o dono não dava muito valor para o tesouro que tinha. Era uma primeira edição portuguesa de 1897. Uma peça única.

Januário devorou o livro, uma duas, três vezes. Ficou absolutamente apaixonado pelas suas qualidades, sua beleza e sua perfeição.

O que fez com que ele mudasse completamente seu comportamento.

Ao mesmo tempo em que deixou de se interessar por qualquer outro livro, ele também se apegou aquele de uma forma como nunca tinha acontecido antes.

Não só decidira nunca mais abrir mão do seu exemplar raro e único, como também não deixava que as pessoas se aproximassem dele, quanto mais tocá-lo.

Se quisessem poderiam admirar de longe. O livro era o seu orgulho e sua vida.

Fez com que ele, pela primeira vez na vida, conhecesse o que era o medo de perder.

sábado, 14 de novembro de 2009

Insano rural

Eu nunca fui um sujeito muito rural. Não que não goste do campo mas nunca tive mão boa para as lides agrícolas.

Ou melhor, não tinha. Até descobrir minha afinidade com as cucurbitáceas. Aliás, a minha afinidade com uma, em especial, Cucurbita pepo L.

Das demais plantas da família, a única outra que me cai em mãos, de tempos em tempos, é algum pepino, mas só para descascar.

Já a Cucurbita à qual me afeiçoei é um fruto de fácil digestão, rico em niacina e vitamina B e possui poucas calorias (o que é bastante recomendável no meu caso).

Se bem que não é o consumo que me atrai, mas a produção. Tanto de um tipo como do outro.

Um deles é a cucurbita menina, que tem corpo curto e pescoço longo. Sua parente, a italiana, já é esguia e sem pescoço.

A menina aparece de julho a dezembro, a italiana de setembro a janeiro. De fevereiro a junho eu fico de mãos abanando.

Normalmente são verdes, mesmo quando estão maduras. Raramente amarelas.

Elas precisam de trato cuidadoso, são sensíveis e se machucam se apertadas. Também pode se ofender, se tocadas com unhas mais agressivas.

As melhores são as pequenas. Quanto menores, mais tenras e saborosas.

Os frutos ainda com pedaço do seu ramo se conservam por mais tempo e podem incrementar várias receitas.

Mas elas só combinam com temperos marcantes que realcem seu perfume.

Se você ainda está em dúvida, eu esclareço. Descobri a minha vocação: plantar abobrinhas.

sexta-feira, 13 de novembro de 2009

Solilêncios

Um silêncio que fere a alma
Espalha-se pela sala
Preenche todos os espaços
Vazios como ele próprio

Um coração repleto de vazios
Solidão é ter a alma inundada de silêncios

Solilêncios pela sala
Esparramam-se pelo tapete
Manchado de recordações

Solilêncios pelas ruas
Sufocando os sons da multidão
Impregnando o ar

Solilêncios pelo mundo
Solilêncios nas estrelas

Só silêncio em mim

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Maravilhamento

Manuel gostava de falar diferente, não que usasse palavras difíceis ou desconhecidas, mas sempre encontrava um jeito qualquer de deixar sua marca pessoal com alguma palavra que todos conheciam, mas não tinham o hábito de usar, ou pelo menos não usavam nos mesmos contextos que ele.

Era capaz de elogiar um prato dizendo que pipocavam bolhas de sabão no estômago. Ou dizer que o trânsito estava sofrendo de incontinência de semáforos.

Um café nunca era simplesmente bom, era estimulador de devaneios frugais. Quando via um filme romântico dizia que tinha sido afetado por debulhamentos lacrimais.

De todos, o termo que realmente marcou sua pessoa, foi o que usou a vida toda para se referir a Joana, a mulher que sempre foi sua amada e companheira inseparável.

Nunca a chamou de esposa, bem ou querida. Também não a chamava pelo nome ou por qualquer apelido carinhoso que, por sinal, nunca tiveram. Se referia a ela sempre como sendo o maravilhamento dos sentidos.

De fato, ela o maravilhou quando se conheceram. Não só por sua beleza, mas também pela forma amorosa e cuidadora de tratá-lo em todos os momentos. Maravilhou-o nos carinhos íntimos. Maravilhou-o como esposa, mãe e, já idosos, como esteio permanente.

Já idoso e doente, ele nunca deixou de amá-la e de ser objeto dos seus cuidados. Pressentindo a morte que se aproximava pediu a um dos filhos papel e caneta. Escreveu algo, colocou num envelope e pediu que só entregasse à mulher depois da sua partida.

Dias depois ele se foi. O filho esperou passar o momento de tristeza mais profunda para entregar o envelope à mãe. Ela abriu e leu. Um misto de emoções a tomaram, chorava e ria ao mesmo tempo. O filho pediu para olhar, também se emocionou.

No papel se lia: "Meu maravilhamento dos sentidos, a eternidade só terá sentido e maravilha, quando você estiver novamente comigo. Te espero, sem pressa, mas com saudades".

terça-feira, 10 de novembro de 2009

Um caos de matemática

Outro dia, num café da cidade, eu conversava com um amigo engenheiro quando ele resolveu falar a respeito de matemática do caos.

Eu devo ter olhado com uma cara de apalermado. Como assim? Se é matemática, a mais exata das ciências, a ferramenta que serve de base para organizar o mundo, não pode ser um caos.

Ele retrucou que era um caos organizado. Ora, se é organizado não é caos, é um oxímoro, eu disse. E aí foi a vez dele de me olhar com cara de bobo.

Ele insistiu, afinal mesmo em sistemas dinâmicos complexos, determinados resultados podem ser "instáveis" no que diz respeito à evolução temporal como função de seus parâmetros e variáveis.

Ainda veio me dizer que, a matemática do caos demonstra como o bater de asas de uma borboleta pode provocar um furacão.

Eu pedi mais um café, me certificando de que o dele não tinha nenhum alucinógeno. Depois fui para casa pensando no assunto, pesquisei, estudei, avaliei e cheguei às seguintes conclusões (por favor, me acompanhe devagar para não dar nó nos cílios)

A lógica acróstico-trigonométrica que permeia o corpo faz dele um vetor resultante totalmente elíptico, dessa forma, qualquer hipótese hiperbárica permite que os catetos evoluam em abcissas que contenham números primos entre si.

Existe um fator exponencial que se elevado a niveis infinitos entra numa progressão geométrica, cada uma das mantissas cossecantes ao volume binomial das frações, interage de forma constante com as aberrações neperianas, formando incógnitas .

Erros macroscópicos na determinação do estado inicial e atual de sistema hexadecimal podem ser amplificados pela não-linearidade ou pelo grande número de interações entre os componentes poligonais, levando a um resultado aleatório.

É o que se chama de "Caos Determinístico", defendido por Honoré de Marterlink na sua obra clássica "Figures can lie, so do politicians".

Euler, aquele atacante do Palmeiras, costumava afirmar que a fatoração quadrática disposta em seções cônicas de um número capicua sempre chegava a um quociente de combinações análogas.

Na verdade, embora a descrição da mecânica clássica e relacional seja determinística, a complexidade da maioria dos sistemas leva a uma abordagem na qual a maioria dos graus de liberdade osciloscópicos é tratada como se fossem variáveis estocásticas e apenas algumas constantes são analisadas com uma lei de comportamento determinada, mais simples, sujeita a ação de um ruído.

Só me tranquilizei quando descobri que o caos tem um número de ouro diferente de .
Seja qual for a proposição equacionística, o resultado é sempre igual a 1.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Receita luminar

Desafiado que fui a criar uma receita inusitada e sabedor das perorações culinárias dos meus leitores, resolvi fazer uma experiência incomum, seja na escolha dos ingredientes, seja na forma de cozimento.

Inspirado pelos contos de fadas infantis, pesquisei detalhadamente as fórmulas usadas pelas bruxas e fui em busca de uma coruja e de uma borboleta.

Admito que não foi fácil. A coruja precisava ser de grande porte e a borboleta leve e delicada, com o maior número de cores possível. Curiosamente fui encontrá-las onde menos esperava, no mercado marítimo da Ilha Negra.

Uma vez de posse das carnes, fui para a cozinha.

Procurei uma panela que fosse larga e funda. Enchi-a de água quente, mas não excessivamente para não queimar as asas da lepidóptera. Misturei à àgua essência de baunilha e de cacau e deixei que dissolvessem, antes de mergulhar as carnes previamente temperadas em flor de sal umedecida e amarradas uma à outra com um fio de seda.

A amarração é fundamental na execução da receita, uma vez que é necessário que, mais do que justapostas, as carnes devem manter uma relação de mútua dependência, como se uma fosse o recheio da outra.

Quando totalmente imersas, deve-se bater a água com uma batedeira de bolo portátil para que as essências fiquem quase efervescentes.

Depois disso deve-se mexer a mistura o tempo todo, alternando movimentos delicados com outros bem enérgicos. Quando qualquer uma das carnes ferver é necessário dar alguns minutos de repouso (sem desligar o fogo, é claro) e, em seguida, começar tudo de novo.

É importante notar que as carnes devem gerar calor de dentro para fora das mesmas, para que a cocção seja perfeita.

Não existe um regra pré-determinada, cada uma das carnes deve ferver algumas vezes antes de se desligar o fogo. Normalmente, depois de um tempo, as asas da borboleta começam a perder tonicidade e a coruja perde sua consistência al dente. Esse é o momento do fim do cozimento.

Retire as carnes da panela e, depois de escorrê-las, seque-as com um pano macio (se for felpudo melhor ainda, pois permite uma secagem mais rápida. O pano não pode soltar fios, senão arruina a receita).

Uma vez secas, unte-as com um creme à base de leite e ervas de Provence e sirva com um espumante meio-seco.

A receita serve apenas uma pessoa.

domingo, 8 de novembro de 2009

O melhor choro

Ele não se surpreendeu quando, na saída do jardim zoológico, ela sentou na calçada e começou a chorar.

Sentou ao seu lado, tirou o lenço amarrotado do bolso e ofereceu para ela que, num primeiro momento recusou, depois acabou aceitando.

Por mais simples que pudesse ter sido o passeio, aquele dia tinha um significado mágico para ela.

Desde sua infância, tinha pedido às mais variadas pessoas para ir aquele lugar que ela só conhecia de ler e de ver fotos.

Talvez por ser um passeio comum demais, ninguém jamais atendera o seu desejo.

Seus pais mais de uma vez a tinham levado para viagens aos exterior, o marido sempre a mimou com programas sofisticados.

Não que ela não tenha aproveitado todas essas oportunidades mas, porque diabos ninguém a levava ao zoológico?

E ninguém entendia que tudo que ela queria era olhar os bichos. Ninguém prestava atenção no que ela dizia.

E quando ouviam, empurravam com a barriga. Um programa tão vulgar, pensavam.

Ela poderia até ter ido sozinha. Nunca, dizia, queria alguém que pudesse compartilhar o sonho com ela.

Naquele dia, ela riu com os macacos, assustou-se com os lobos, cantarolou com alguns pássaros. Embeveceu-se com o urrar das feras.

Ele só olhava cada movimento dela. E se encantava com o seu prazer simples.

Na saída, parou na lojinha e ainda comprou um tigre de pelúcia para ela, que o abraçou como uma menina que ganha a primeira boneca.

Ele se emocionou com o seu choro e, nem soube bem porque, conteve o seu.

Quando ela se recompôs, foram para o carro. Ela só olhava para ele, sorrindo e chorando.

Ele a deixou em casa, ainda com os olhos vermelhos. Nunca fora tão feliz por fazer alguém chorar.

sábado, 7 de novembro de 2009

Pacote completo

Alice e Ruy tinham saído para jantar para comemorar mais um aniversário de casamento. E não era qualquer um. Completavam 10 anos de vida em comum. Dez anos de felicidade.

Claro que tinham passado por bons e maus momentos, mas o saldo era extremamente positivo. Num determinado momento o assunto passou a ser o sucesso do casamento.

Ruy entendia que a felicidade morava na compreensão mútua, nunca ninguém o entendera como ela. Alice acreditava que o amor dispensava compreensão, não havia nenhum esforço intelectual para amá-lo, mesmo sabendo que seus intelectos eram um ponto crucial no relacionamento dos dois.

Não precisava raciocinar para amá-lo, tudo fluia naturalmente, como um rio sem obstáculos. Ruy concordou e fez questão de reforçar que o principal é que ele a aceitava do jeito que era.

Alice sorriu, propôs mais um brinde e o jantar transcorreu em clima de festa e de paixão.

No dia seguinte, Alice acordou com dor de cabeça. Não sabia se tinha sido o vinho, o tempero do risotto ou as poucas horas que tinham dormido. Tomou um analgésico e foi trabalhar.

A dor de cabeça não passava. Voltou mais cedo do trabalho, tomou um banho e foi para a cama. Ruy ficou preocupado, ela não costumava fazer isso, mas não quis acordá-la.

De manhã, Alice ainda estava com dor de cabeça, mas não tinha nenhum outro sintoma que justificasse recorrer a um médico. Ligou para o chefe e disse que não tinha melhorado e que ficaria em casa.

Fez um chá, sentou no sofá da sala e começou a fazer um inventário de tudo que tinha acontecido durante o jantar. Lembrou-se de cada pedaço de comida, cada gole de bebida.

Quando relembrava cada uma das frases que trocaram uma delas deu uma pontada na sua cabeça. Era isso!

Quando Ruy chegou, à noite, Alice o esperava sentada na mesa da sala. De cara ela perguntou que história era aquela de que ele a aceitava como era.

Ruy, surpreso, começo a explicar que, apesar dela ser uma mulher maravilhosa, ela também tinha defeitos, como qualquer pessoa, mas que ele aceitava todos eles. Enquanto falava, a cabeça de Alice doía ainda mais.

Até que ela o interrompeu. Disse que o que ela queria era amor e não concessões, que assim como ela o amava, ela queria ser amada apenas pelo que era. O amor não era um exercício de tolerância. Não queria comiseração. Não esperava que ele apenas se conformasse à ela.

Tudo ou nada. Pacote completo.

Encolhido na cadeira, acuado, Ruy não poderia ter escolhido pior as palavras. Disse que aceitava os argumentos dela.

Ela não disse mais nada. Foi até o quarto, arrumou a mala e, a caminho da porta disse que depois mandava alguém pegar o resto das suas coisas.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Conticulóides zôoftalmológicos

Miopia

A leoa, exímia caçadora das savanas, escondida, observava a manada de gnus que se aproximava lentamente dela. Lambia os beiços só de pensar no regabofe que teria naquela noite. Deu o bote e avançou feroz. Quando chegou perto percebeu que não eram gnus, mas rinocerontes. Demorou mais de dois meses para se recuperar das múltiplas fraturas

Hipermetropia

Arnolfo, o jacaré, morava naquela lagoa desde que nascera. Ali dera suas primeiras nadadas, comera as primeiras tilápias, casara e reproduzira. Conhecia cada palmo do lugar e vivia sossegado. Até o dia em que, chegando em casa encontrou a mulher e deu-lhe um abraço de tamanduá. Foi o suficiente para sentir uma forte mordida no rabo. Não era a sua casa, nem aquela a sua mulher.

Astigmatismo

Tato, o sapo, estava emagrecendo a olhos vistos, mas ninguém conseguia descobrir o porquê, ele se recusava a admitir qualquer problema. Um dia sua amiga rã Zinha observando-o à beira do brejo descobriu seu segredo. Ele não conseguia caçar mosquitos. Toda vez que disparava a língua errava o alvo. Não estava doente, era fome mesmo.

Presbiopia

João era um pavão. Vaidoso como só um pavão pode ser, se recusava a admitir que estava chegando à meia idade e perdendo algumas de suas habilidades. Todas as manhãs arrancava as penas brancas que surgiam, por mais que cansasse continuava subindo em telhados e exibindo sua plumagem para toda pavoa que passasse por perto. Até o dia em atacou o leque japonês de uma frequentadora do parque, achando que se tratava de um rival. Foi mandado para uma fazenda num local remoto onde passou o fim dos seus dias se exibindo para galinhas d´angola.

Ambliopia

Cyrano de Averrois era um grande campeão no Jockey Club de Freetown jamais tinha perdido um páreo. Seu proprietário começava a ter prejuízos pois as apostas nele pagavam cada vez menos, resolveu levá-lo para algum hipódromo onde fosse desconhecido. Descobriu um em Canberra, nas mesmas condições do que Cyrano corria, exceto pelo fato de que era disputado no sentido anti-horário. Investiu pesado na primeira corrida, pois sabia que depois da vitória, ninguém mais apostaria contra ele. Perdeu tudo. Cyrano, virado para o lado errado, chegou em último lugar.

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Animalgia

Eles já tinham passado por muitas dificuldades. Problemas de saúde na família, crises amorosas, apertos financeiros, luto.

Mas sempre souberam se cuidar. Quando um fraquejava o outro rapidamente intervinha acudindo.

Não importava de quem era a mão ou quem estava desmoronando, sempre escapavam dos buracos.

Em alguns momentos com humor, outros com atenção redobrada. Sempre com um amor que ninguém mais tinha.

Houve até casos em que um repreendeu o outro, e isso serviu para resolver a situação.

Exceto naquela manhã, em que ela acordou com dor na alma. Uma dor como ela nunca sentira.

Ele tentou animá-la com brincadeiras. Depois, relembrando-a a cada meia hora do seu amor.

Mandou flores no meio da tarde, chegou em casa com uma caixa dos seus bombons de damasco preferidos.

Nada.

Pegou o primeiro livro que deu para ela e leu. Cantou a música que era deles desde sempre.

Ela pediu que ele parasse.

Para piorar, a dor que ela sentia começou a refletir no corpo. Enjôos, dor no peito, câimbras.

Ele tentou remédios, chás, massagens. O máximo que conseguiu foi apaziguar as câimbras.

Percebendo sua frustração ela bem que tentou motivá-lo, dizendo que, certamente, estaria melhor na manhã seguinte.

Ele não era um sujeito de manhãs seguintes. Mas era capaz de chorar.

E chorou naquela noite, se achando o mais incapaz dos homens.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Vermelho


Vulto vermelho
Vaga avalanche
vindo ávida, veloz.
Vejo veredas
Vasculho o vazio
Vislumbro a viagem
Volúpia de vulcão
Vestida de vento
vem sem avisar.
Vida avança
Veia valsa
Voa o verão
Evapora o verbo
Evanesce o veneno
Ouvindo aves
Vislumbro a ventura

Avalanche
Ávida
Vulcão
Vento
Vermelho


terça-feira, 3 de novembro de 2009

Inútil paisagem

Jorge passeava pelo shopping quando passou em frente a uma agência de viagens. Nem estava prestando muita atenção mas, subitamente, seus olhos foram atraídos por um dos quadros que estava na parede.

Qualquer outra pessoa que visse as fotos iria somente ver uma paisagem bonita. Ele nem viu as paisagens, apenas uma chamou sua atenção.

Jorge não sabia exatamente que lugar era aquele e, ao mesmo tempo sabia perfeitamente para o que estava olhando. Ficou extático, parado, olhando pela vitrine. Sonhando acordado.

Era o brilho dos cabelos dela que estava ali. As nuvens que o encobriam eram os reflexos que ela aplicava cuidadosamente em alguns fios.

Lá estava também a água dos seus olhos. A encosta dos seios. A planície do ventre. Até mesmo a vegetação da sua púbis estava lá.

Entrou na loja e perguntou quanto custava o quadro. A atendente lhe explicou que aquela era uma agência de viagens, que eles não vendiam os quadros, mas poderia lhe oferecer uma excursão para aquele destino.

Jorge não queria viajar e tentou subornar a balconista. Ofendida, ela pediu que ele fosse embora, senão ia tocar o alarme e chamar a segurança.

Ele saiu, mas continuou parado na frente da loja. Não demorou muito para que um dos guardas do shopping lhe pedisse que não ficasse ali.

Ele olhou para os lados, perguntou ao guarda se era com ele mesmo. Era. Foi em direção à saída.

Entrou de novo por outra porta e foi diretamente até o banheiro mais próximo. Certificou-se de que ninguém o vira entrar lá.

Na manhã seguinte, quando os primeiros funcionários do shopping entraram para trabalhar encontraram o vidro da agência despedaçado.

Em sua casa Jorge olhava para a foto. Se ela não pudesse ser sua, pelo menos teria essa eterna lembrança.

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

A contumaz antologia de Outubro


A data de hoje homenageia os mortos. Eu prefiro homenagear aqueles que dão vida a esse blog.

Com vocês os melhores comentários de Outubro:

estarei assim insano???

...tua traição ficou realmente boa.

A paixão é mesmo um exercício para machucar a alma.

...tem gente que iria ficar atrás do cocô do panda...

Domingo é dia de batizado das vaquinhas.

Estamos românticos hoje?

Caramba! O pernilongo bem que poderia ter pousado no pé...

...todos os caminhos dão no mesmo lugar...

Que você nunca tenha um mínimo de juízo...

Daqui a pouco você vai dizer que tamarindo de Java é bom para a tosse.

foi corajoso porque amou ou amou porque foi corajoso?

Lição de amor... poderia ser o título.

Vou ali tirar sangue.

O papel higiênico foi inventado antes ou depois da grande diarréia?

Ando lendo coisas por aqui bem piores que o latim.

mexer em defunto que já foi enterrado....

eu fico aqui "viajando" na maionese

...se assemelharia mais a um tarado enquanto ela à uma lolita.

Onde se localiza o ponto de fuga neste tipo de espiral?

Fiquei com vontade de comer rocambole...

Quer dizer que quando chove a gente emagrece?

Esse mês tô fora da antologia, com certeza.

...dá prá fazer tanta coisa com chantilly...

domingo, 1 de novembro de 2009

In vulcano veritas

Vulcão é uma estrutura geológica, o que nos permite concluir, antes de qualquer outra elocubração que a lógica estrutural da metafísica não se aplica diretamente às erupções dermatológicas.

Um vulcão, só se constitui como tal, quando o magma, gases e partículas quentes escapam para a superfície terrestre, ou seja, não é qualquer buraco fundo no alto de uma montanha que pode ser chamado por esse nome.

Quando eles ejetam altas quantidades de poeira, gases e aerossóis na atmosfera, podendo causar resfriamento climático temporário. Sei que isso pode parecer um contrassenso, imaginar que particulas quentes sejam geradoras de climas frios, mas lembre-se a lei de gravidade térmica diz que tudo que esquenta, esfria, nem que para tanto seja necessária uma ducha gelada ou uma garrafa de champagne.

Os vulcões são os únicos elementos naturais que causam poluição. Mesmo os não fumantes. Quanto ao formato, geralmente são cônicos, o que lhes permite direcionar melhor seus fluxo de lava. A lava, é uma matéria viscosa que se solidifica rapidamente se encontrar seu objetivo.

A erupção de um vulcão pode resultar em graves desastres naturais, por vezes de consequências planetárias. Uma erupção exagerada pode se alastrar além dos limites que seriam toleráveis e, se não devidamente contida pode gerar crises familiares entre pais e filhas.

Assim como outros desastres dessa natureza, as erupções são imprevisíveis e causam danos indiscriminados. Entre outras coisas, tendem a desvalorizar os imóveis localizados em suas vizinhanças, o que incomoda muito os corretores e os especuladores.

Os vulcões tendem formar-se junto das margens das placas tectônicas, no entanto, existem exceções quando os vulcões ocorrem em zonas chamadas de pontos quentes. A lógica preveria justamente o contrário, os vulcões deveriam se formar em pontos quentes e, por exceção, serem objetos arqui-tectônicos.

Por outro lado, os arredores de vulcões, formados de lava arrefecida, tendem a ser compostos de solos bastante férteis para a agricultura. Outra problema de lógica aqui. Lava arrefecida não tem a menor chance de ser fértil

Semânticamente a palavra "vulcão" deriva do nome do deus do fogo na mitologia romana Vulcano, que era um sujeito feio e que não cuidava direito da mulher. Vulcão que se preza pode até não ser bonito, mas sabe cuidar do que está dentro da sua zona de abrangência.

A ciência que estuda os vulcões designa-se por vulcanologia. Alguns vulcanologistas fundaram a Vulcabrás no ano 752 d.C, que depois entrou em decadência e hoje está quase extinta.

Vulcões extintos são aqueles que os vulcanólogos acham que têm poucas chances de entrar em erupção. Algumas descobertas recentes, no entanto, provaram que é possível reativar vulcões através de recursos farmacocinéticos.