sábado, 31 de outubro de 2009

Contículo adverbial em transição

Negação

Quando Afonso se apaixonou por Sílvia ele tinha certeza que se tratava de um caso sem solução. Não poderia esperar reciprocidade, nem mesmo um olhar carinhoso. Nunca seria capaz de dizer que a amava e jamais se arriscaria a desafiar a lógica da paixão. Ela era mulher demais para ele e, de modo algum repararia na sua existência, de forma nenhuma lhe daria trela, tão pouco imaginaria que ele sentisse por ela mais do que uma mera amizade. Uma história de amor que não ocorreria de jeito nenhum.

Dúvida

Quis o acaso que Silvia, quiçá a mulher mais deslumbrante da cidade, casualmente olhasse para Afonso. E, se alguém, porventura, duvidasse de amores improváveis, por certo teria feito a aposta errada naquela situação. Possivelmente foi uma ação certeira do cupido, talvez uma daquelas histórias de contos de fadas, quem sabe a atração entre opostos. Provavelmente ninguém saberá explicar.

Afirmação

O que efetivamente aconteceu é que Silvia deveras se apaixonou por Afonso. Decididamente um amor verdadeiro e indubitavelmente o casal mais feliz do mundo. Ele realmente a queria de todas as formas, certamente, em qualquer situação. Os dois realmente oscilavam apenas entre o certo e o decerto. Sim, como só poderia acontecer, viveram felizes para sempre.

sexta-feira, 30 de outubro de 2009

Violino único

Erick nasceu numa família de apaixonados por música. Seus pais eram instrumentistas, alguns de seus tios chegaram mesmo a atuar profissionalmente.

Ainda pequeno escolheu o violino para ser seu companheiro musical. Tinha tudo para ser um gênio precoce mas nunca quis se dedicar profissionalmente a isso.

Mesmo assim continou estudando disciplinadamente e tocando a vida toda. Chegou a tocar junto com algumas orquestras, sempre como um hobby.

Além de tocar era um especialista no instrumento. Conhecia cada detalhe de sua fabricação e de seus cuidados. Muitos músicos o consultavam antes de adquirir um violino mais caro.

Com isso, acabou conhecendo violinos de todos os tipos. Uma vez, durante uma viagem, um amigo seu falou dele para o diretor de um museu que lhe permitiu tocar num Stradivarius.

Mas nunca trocou o seu violino por nenhum outro, mesmo pelos que considerava melhores.

Até o dia que foi chamado pelo dono de uma loja de antiguidades para avaliar uma peça que ele tinha recebido. Era diferente de tudo que tinha conhecido na vida.

O instrumento era de uma madeira bege rosada. A voluta densa e brilhante, suas cravelhas firmes, o espelho tinha contornos suaves e a escala não tinha nenhuma imperfeição, mesmo considerando que não era um violino novo. Até a surdina e o talão não tinham similares.

Quis saber mais a respeito da história do instrumento. Descobriu que tinha sido o único violino fabricado por um luthier estrangeiro que viera morar no Brasil. Pensou consigo mesmo que existiam cerca de 650 Stradivarius no mundo, mas nenhum outro igual aquele.

Foi honesto com o dono da loja. Aquilo era uma preciosidade, uma peça única e valiosíssima. E que queria comprá-la. O lojista que imaginava que um violino de um fabricante anônimo não valeria nada, vendeu-lhe o mesmo por um preço alto, mas não extorsivo.

Erick voltou para casa com sua jóia rara. Abriu a caixa e foi para a varanda e começou a tocar os Caprichos de Paganini. Os vizinho começaram a aparecer nas janelas, como se encantados por um novo músico de Hamelin. Quando acabou o 24º capricho foi aplaudido efusivamente.

Naquela noite, Erick descobriu, enfim, o que era ser um homem feliz.

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Traição latina

Nossa Sudamérica tem poetas excepcionais em todos os países. Nem todos conhecidos ou reconhecidos como deveriam.

É o caso de Eduardo Carranza, objeto de mais uma das minhas traições


Pensar em ti é azul, vagando
Um bosque dourado ao meio dia
Nascem jardins da minha alegria
Nas nuvens dos teus sonhos ando

Nos une e nos separa ar tão brando
Uma distância de melancolia
Eu abro os braços da poesia
Azul de ti, doído e te esperando

Como um horizonte de violinos
O leve sofrimento de jasmins
Penso no teu azul temperamento

O mundo se torna cristalino
Te olho, luzeiro ultramarino
Domingo azul meu pensamento

Para quem gosta de comparar, o original é o seguinte:

AZUL DE TI

Pensar en ti es azul, como ir vagando
por un bosque dorado al mediodía:
nacen jardines en el habla mía
y con mis nubes por tus sueños ando.

Nos une y nos separa un aire blando,
una distancia de melancolía;
yo alzo los brazos de mi poesía,
azul de ti, dolido y esperando.

Es como un horizonte de violin
eso un tibio sufrimiento de jazmines
pensar en ti, de azul temperamento.

El mundo se me vuelve cristalino,
y te miro, entre lámparas de trino,
azul domingo de mi pensamiento.

Eduardo Carranza
Poeta colombiano nascido en Apiay em 1913 y falecido en 1985.

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Conticulóides bizarros

Provador

Helena era tão tímida que até para experimentar sapatos na loja ela ia para o provador. Um dia descobriu que circulava na Internet um filme seu trocando de roupa numa loja de lingerie. Teve uma crise de vergonha que demorou dias. Quando passou, comprou um vestido transparente, vestiu-o sem roupa de baixo e foi passear na avenida Paulista.

Literatura

Todo dia Mário ligava para Ana, sua amiga que morava em Amsterdã para lerem um soneto de Shakespeare. De cada lado da linha eles liam o poema do dia, cada um no seu exemplar do livro. Momentos de silêncio preciosos demais para os dois.

Culinária

No dia que Rosana foi para a cozinha ela resolveu fazer um bolo de morango decorado com chantilly. Detestava o fogão, mas quando percebeu que poderia usar a cobertura para declarar o seu amor sem que ninguém percebesse, exceto ele, virou a melhor confeiteira da família.

Atenção

Bertoldo estava prestes a ser o primeiro brasileiro a ganhar o campeonato mundial de bobsled. Tinha feito os melhores tempos em todas as etapas classificatórias, muito à frente dos principais adversários. Meia hora antes de começar a etapa final recebeu um torpedo de incentivo da namorada. Errou feio logo na primeira curva e foi parar na área de escape. Desclassificado. Mas ninguém conseguiu lhe tirar o sorriso dos lábios.

Hábitos

Desde quando começaram a namorar Elias tinha a mania de beijar Catarina na sutura sagital. Passava a mão na sua cabeça, tateava o local certo e lhe aplica o ósculo habitual. Depois de mais de trinta anos juntos um dia ela lhe disse que ele poderia variar e beijar a sutura lambdóide. Ele concluiu que ela devia ter outro que tinha virado a cabeça dela. Abandonou-a de forma bregmática.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Canícula

Aurélio todos os dias reclamava do calor que fazia no caminho do trabalho. Clara dizia que ele era um exagerado, afinal ele tinha o privilégio de ir trabalhar a pé e nem sofria com o trânsito.

Ele retrucava dizendo que, considerando as três viagens diárias que fazia entre o escritório e a casa , ida, ida e volta do almoço (só escapava quando voltava à noite) ele tomava sol cerca de 24 horas por mês. Um dia inteiro de sol.

Clara dava risada e dizia que aquilo não era nada demais, se ele achava que sofria, devia conhecer os trabalhadores das salinas.

Um dia, Aurélio chamou Clara na sala, pegou um caderno e começou a rabiscar equações.

Explicou que assim como um bife maior frita mais rápido que um pequeno pois tem maior área de exposição ao calor, ele , que era um homem de grande porte, também sofria mais com a irradiação solar.

Considerando o seu tamanho, ele tinha uma área de exposição ao sol de 1,71m2, bem mais que o dobro da dela que era baixa e magra.

Sabendo que a média de irradiação solar é de 2,3 x 107 J.m-2.dia-1, o calor incidente mensal sobre ele era de 4.208 kilojoules;

Clara começou a ficar asssustada com aqueles números, perguntou o que era um kilojoule.

Ele explicou que um joule equivale à força necessária para levantar uma maçã um metro acima do chão. Um kilojoule eram mil joules.

Ela pensou nas mais de 4 milhões maçãs que ele levantava todos os meses. Quase duzentas mil por dia. E ficou penalizada.

No dia seguinte Clara ligou para umas amigas tentando descobrir se alguma delas tinha alguma idéia para ajudá-la com Aurélio.

Descobriu que os tais 4.200 kilojoules equivaliam a 1.000 calorias.

No dia seguinte, quando Aurélio chegou em casa para almoçar só encontrou saladas e legumes cozidos. Justo ele que adorava um bom bife de contra filé cheio de gordura.

Olhou para Clara sem entender nada. Onde estava seu bife? Seu arroz e feijão?

Ela foi curta e grossa. Já que ele ganhava mais de 1000 calorias com o sol que tomava, precisava comer mais leve para não engordar.

A partir daquele dia Aurélio nunca mais reclamou do sol.

domingo, 25 de outubro de 2009

Arcobaleno


Na parte inferior, com certeza,
Entre o beijo e o carinho
Haverá zinco para dar leveza

Se observar com cuidado
Desde a alma até o coração
verá um subtom esverdeado

Turquesa com um toque de titânio
de algas marinhas e espuma
para dar as nuances ao gerânio

Um suspiro verde vessie assim
como luar encantador ao léu
Para que o amor não tenha fim

sábado, 24 de outubro de 2009

Para não entrar em parafuso

Na matemática, espiral é uma curva que gira em torno de um ponto central, afastando-se ou aproximando-se deste ponto, dependendo do sentido em que se percorre a curva.

Portanto, temos dois conceitos que são fundamentais para a existência de uma espiral: curva e movimento, conceitos necessários também para várias outras atividades humanas.

De todos os tipos de espirais, a que eu gosto mais é a espiral elíptica, ela é definida como a curva traçada por uma caravela fenícia viajando de um trópico a outro mantendo um ângulo fixo em relação ao meridiano de Graywitch.

Imagine a cena. Mas cuidado, evite os círculos que costumam fazer muito mal para as espirais elípticas. Visualize o deslocamento na nau mantendo sempre a mesma inclinação da sua cabeça durante a viagem, caso contrário poderá ser vítima de enjôos.

O ponto de fuga imaginário aproxima-se do meridiano H de Hyerophantic com número infinito de revoluções orbitais e inóspitas e, a medida que que a distância entre elas vai diminuindo, a elipse se torna eterna.

Os bons geômetras geralmente traçam as espirais elípiticas somente em planos específicos, cujos vórtices lhe sejam únicos. A partir do vórtice de cada um, a hélice pode ter as mais diversas variações hiperbólicas, clotóides ou até mesmo fermatianas.

Os que tentaram fugir das curvas monotônicas nunca conseguiram traçar espirais perfeitas e se tornaram apenas casos degenerativos.

Deixo aqui minha recomendação, caso você queira entrar no mundo encantado das espirais elípticas identifique perfeitamente seu vórtice, aplique a função exponencial que seja mais adequada ao seu ritmo e movimente-se de forma constante, mas segura.

Certamente você chegara ao apex.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Chiaroscuro

Ela sabia que quando estava diante de suas telas era muito mais do que uma artesã das cores, era um filósofa. Através das imagens expressava tudo que pensava.

Por isso mesmo detestava as naturezas mortas, sua preocupação era com a vida e, a respeito dela, desenvolveu todo um edifício lógico sobre a ética. Nada poderia ser mais abstrato.

Sem precisar dar nenhuma explicação, comovia quem olhava para sua produção, a beleza do seu mundo tocava os corações, depois os intelectos, como se coreografasse o teatro da existência.

Um dia, passou a se preocupar menos com o cromatismo e mais com a luz. Sua idéias começaram a saltar aos olhos e, ao mesmo, tempo, guardava seus mistérios entre as sombras.

A luz controlava toda a cena do seu teatro imaginário. As contradições afloravam em cada pincelada. Brancos dando certezas. Cores escuras gerando dúvidas.

As pessoas passaram a temer seus quadros que as abalavam emocionalmente. Reclamavam a volta da perspectiva, das cores alegres no lugar dos vermelhos tenebrosos.

Ela não se dobrou às demandas, queria que as pessoas pensassem e, isso só acontecia quando se incomodavam, sabia que o que mais assustava seus admiradores era justamente aquilo que eles não conseguiam enxergar.

No entanto, reconhecia que, mesmo quando eles encontravam os sinais, os rejeitavam, pois preferiam ser eticamente estéreis.

Perdeu todos os seus admiradores. Exceto um, o único que a admirava pelo que ela era e não pelos quadros que pintava e que, apesar disso, era o único que penetrava nas suas sombras.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

De cubitus

Logo que ela chegou ao café ele reparou nas suas mangas curtas e sentiu um arrepio lhe percorrer a espinha de cima abaixo.

Ela o conhecia bem para saber que era uma provocação.

Justo ele, um homem do barroco dividido entre duas mentalidades, duas formas diferentes de ver o mundo.

Ela o cumprimentou com um beijo no rosto e, como se fosse sem querer, esbarrou no seu braço com a ponta do cotovelo.

Só serviu para acirrar o conflito dentro dele, o gosto pelas coisas terrenas, as satisfações mundanas e carnais e, ao mesmo tempo seus valores espirituais e seu subjetivismo.

Ela sentou na sua frente, levantou acintosamente o braço para chamar a garçonete, ele a olhou de forma lasciva. Ela percebeu.

Ato contínuo apoiou os dois cotovelos na mesa e apoiou o queixo nas mãos. Ele ficou ruborizado.

Ela era um verdadeiro anjo de duas faces. Sorriso de mulher, choro de menina.

Mais que duas faces, dois cotovelos despudoradamente nus à sua frente.

Horas depois, ele tentava explicar ao delegado porque cometera aquele atentado violento ao pudor tentando possuí-la na mesa do café.

Discorreu sobre os apelos eróticos do período barroco, explicou que, para um homem que vivia esse período como ele, a atitude dela tinha ultrapassado todos os limites.

O que hoje é erótico, como os seios femininos por exemplo, no barroco era apenas um sinal de caridade ou desprendimento. Por outro lado, enquanto os seios eram morais, os cotovelos tinham uma forte conotação sexual.

Ou seja, as mulheres podiam andar com os seios de fora, desde que mantivessem cobertos o encontro do úmero e da ulna. Explicou que foi dessa época a invenção das cotoveleiras, das camisas de manga comprida e os cremes hidratantes para os braços.

Dor de cotovelo, nessa época, tinha um sentido completamente diverso. Cotovelos calejados seriam sinal de atividade sexual intensa.

Ela tinha praticamente se acotovelado sobre ele. Fora impossível se controlar.

O delegado ouviu tudo com atenção. Chamou o carcereiro e mandou que o levasse para a solitária, onde ele poderia exercer sua individualidade subjetiva, que lhe entregasse um chicote para que remisse sua culpa pela auto flagelação e que o deixasse a pão e água para que ele superasse os limites da sua realidade.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Busca orgânica

Marcelo já tinha desanimado de todas as suas tentativas de encontrar o grande amor.

Começara nos tempo de escola, e tivera uma namorada atrás da outra. Algumas vezes foi feliz, outras não.

Mas nenhuma delas tinha feito muita diferença na sua vida. Ele não desistiu.

Conheceu mulheres bonitas. Mulheres brilhantes. Mulheres que o fascinavam e o seduziam.

Mas ainda assim, apenas alegrias passageiras.

Quando não acreditava mais que acharia, alguém brincou que ele deveria fazer uma busca no Google.

Ele riu sem graça. Mas, quando chegou em casa naquela noite, resolveu arriscar.

Colocou na linha de consulta todos os predicados que buscava.

Ao contrário dos milhares de resultados que a ferramenta costumava dar, só veio um.

E não era um link, mas um nome e um telefone. Ele vacilou um pouco, mas ligou.

Era ela. Pela forma de atender o telefone, ele já sentiu um arrepio que nunca sentira antes.

Conheceram-se, já apaixonados. Descobriram que já se amavam, antes mesmo de saber quem era o outro.

Ela abriu todas as sua páginas. Ele navegou nas suas veias. Era o único link da sua vida.

Ele registrou o domínio pela eternidade e, para não ter nenhum risco, por mais 50 milhões de anos.

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Exumando o latim

O Latim, dizem alguns, é uma língua morta. Até mesmo a igreja abandonou o seu uso desde que João XXIII errou uma declinação e concluiu que seria melhor rezar a missa em italiano mesmo.

Apesar disso continua sendo usada com bastante frequência por biólogos, juristas e insanos que, afinal de contas, não deixam de ser uns caras de morte.

Infelizmente, o que adrede ocorre nas citações da língua de Anastasius Bibliothecarius é que as traduções são muito mal feitas, como diriam os usuários originais do vernáculo: in rectus.

Tomemos como exemplo básico a célebre frase de Desidério Erasmo: "Homines non nascuntur, sed finguntur".

O desiderato de Desidério, antes de qualquer coisa, era ser chamado de Desiderius Erasmus pois, apesar de holandês, sempre almejou ser um nativo do Lacio.

Por isso mesmo que sempre repetia que "o homem que não nasce onde quer, finge ser de outro lugar". De tanto repetir essa frase nas docas de Roterdam ela acabou ganhando o mundo através dos marinheiros que a ouviam e a levavam para outras plagas.

No entanto, essa afirmação o levou a ser perseguido pelo governo holandês que se sentiu ofendido pelo antipatriotismo do filósofo e teólogo.

Erasmus foi convocado a se explicar diante dos lictores brabantinos onde declarou a popularização do seu aforisma era um verdadeiro elogio à sua loucura.

Percebendo que esse argumento não livraria de ser deportado para a cidade do Cabo, onde teria de aprender a falar a língua dos boers, preferiu declarar que sua frase havia sido vítima de uma má tradução.

Contrariando os latinistas célebres como Sieger de Brabant e Saxo Grammaticus, Erasmus ressaltou que sua frase queria apenas dizer que os homens não nascem prontos mas precisam se fazer.

Para completar sua declaração patriótica, Erasmus passou a assinar todos os seus textos como Desiderek van Erasmeletje.

Até hoje, essa distorção rinocerôntica da língua se perpetuou sem que ninguém exumasse sua verdadeira causa mortis.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Encandilado

Existem algumas palavras que só funcionam bem em suas línguas de origem. Podem até ser traduzidas, mas perdem muito de sua força e do seu impacto.

Um exemplo disso é o termo, em inglês, disgusting, onde até o som se assemelha ao significado. E não adianta tentar traduzir por desagradável, nojento...nem o nosso asqueroso tem esse sabor disgusting.

Recentemente eu aprendi uma outra, dessa vez em espanhol. É a palavra encandilar, que é um golpe que a vista recebe ao ser impactada por uma luz forte e repentina.

A tradução seria ofuscar (até existe o termo encandear em português, mas quem é que o usa?)

Encandilar tem suas origens na palavra candil (o nosso candeeiro). Ninguém mais usa candeeiros, mas frequentemente somos encandilados.

Dependendo de qual é a fonte de luz, pode ser melhor ser encandilado do que obnubilado (sim, isso é português).

É o meu caso.

Eu tenho uma luz que consegue a façanha de me encandilar todas as vezes que eu a vejo. A essa altura do campeonato eu já deveria ter meus olhos preparados para as suas aparições.

Mas ela me surpreende todas as vezes, como se fosse a primeira e, ao contrário do que seria a reação normal, quando me encandila, eu abro mais os olhos e vejo o mundo ainda mais azul.

Enquanto essa luz me encandilar, tenho certeza que verei tudo de forma mais clara.

domingo, 18 de outubro de 2009

Desaforismos intransigentes

Na dúvida, assuma a culpa. Não é justo, mas dá menos trabalho.

A luz do teus olhos é o farol da minha alma

Amor aos pedaços, só como doceria, o meu eu quero inteiro

Escolha as palavras, antes que um aventureiro o faça contra você.

Amizade é valorizar a realização do outro.

Um palavrão bem colocado, às vezes vale mais que uma ode na hora errada

Saudade só faz mal para quem não a sente.

sábado, 17 de outubro de 2009

Abrindo latas

Conservar alimentos sempre foi um problema que a humanidade tentou resolver. Afinal de contas, quem é nunca gostou de guardar a sobra daquele prato de comida delicioso para uma escapada noturna à geladeira.

Mas nem sempre o mundo teve geladeira. Nossos antepassados tentaram os mais variados métodos, secagem, salinização, defumação e até mesmo o uso de saliva de camelos malgaxes. Porém, todos esses procedimentos conservavam os alimentos por pouco tempo e com escassas garantias.

A industrialização da conserva só teve início no século XIX quando o confeiteiro francês Appert resolveu usar seu patronímico como técnica de conservação dos seus doces. Um dia, quando preparava uma pasta de amêndoas e a colocava dentro de uma garrafa, reclamou com a mulher que a massa não caberia ali, ao que ela lhe respondeu: apperte.

Se ele appertase demais a pasta sairia pelas bordas, resolveu então derreter um pouco de cera e colocar sobre o produto. A cera resfriada endureceu e fechou o pote de vidro.

Algumas semanas depois, quando perseguia uma de suas funcionárias na despensa da confeitaria, esbarrou no pote que caiu no chão e quebrou. Appert notou que a pasta de amêndoas mantinha seu sabor e aroma, o que o deixou cheio de idéias. Tanto que a moça ficou exalando cheiro de amêndoa por mais de uma semana (os franceses, como é sabido, não tem o hábito de se banhar com muita frequência).

Appert continuou apertando alimentos em vidros e garotas na despensa, enquanto isso um certo Durand, também influenciado pelo nome, concluiu que os alimentos estariam durando mais em recipientes metálicos do que em vidro, que era muito frágil. Inventou latas de ferro estanhadas em 1810. Seu invento foi um sucesso, poucos anos depois já se produziam milhares de latas com ervilhas, tomates e sardinhas.

No entanto, o revés com o qual Durand não contava é que ninguém tinha ainda inventado o abridor de latas.O que só foi acontecer em 1858, ou seja, 45 anos depois da produção industrial de latas de conservas e, mesmo assim, os primeiros modelos eram bastante desajeitados.

Mas serviram para abrir as latas de Durand e também para que descobrissem que até conserva tem limite (o conceito de prazo de validade só foi aparecer no final do século XX com o advento dos códigos de defesa do consumidor).

Ingleses e americanos, ansiosos que estavam para consumir o conteúdo das latas que ficaram lacradas por quase 5 décadas, nem se deram ao trabalho de verificar o estado em que os alimentos se encontravam e os consumiram avidamente.

A abertura das latas, coincidiu com uma epidemia de enterite que ficou conhecida em Boston como a "Grande diarréia" que, não só paralisou as atividades da cidade, como provocou o primeiro black-out do sistema de esgotos da região. Mas essa é uma história para uma outra publicação.

sexta-feira, 16 de outubro de 2009

O primeiro oboé

A primeira vez que Vãnia viu o instrumento foi quando tinha 6 ou 7 anos e a avó a levou num concerto, à tarde, no municipal. Ficou apaixonada pelo oboé e, desde então não se cansava de dizer que, quando crescesse iria tocar.

Conforme foi ficando mais velha lhe ofereceram várias outras alternativas. Na escola, a flauta doce. Em casa, a mãe queria que estudasse piano, como ela. O irmão já estudava violão e juntava dinheiro para uma guitarra elétrica. O pai, não muito musical, não dizia nada.

Mas todos riam dela quando ela insistia no oboé. Afinal, quem é que iria tocar esse instrumento num país sem tradição em sopros de orquestra ?

Sem aprender nenhum instrumento, chegou à faculdade e aí mesmo é que não teve tempo de se dedicar a qualquer estudo musical. Formada, casou logo em seguida. Não demorou muito e vieram os filhos, um atrás do outro.

Cada dia que passava Vânia se convencia mais que o oboé seria apenas um belo sonho na sua vida. Mas nada mais que um sonho. Assim como os pais e irmão, seu marido e filhos só achavam graça na idéia.

Um dia encontrou Roberto, um velho amigo dos tempos de faculdade. Retomaram a amizade e as confidências. Claro que, num certo dia, surgiu o assunto do oboé.

Ele perguntou porque ela não aproveitava para ir aprender. Os filhos já estavam moços e não dependiam tanto dela. Ela sorriu, mas disse que não tinha mais idade para começar a estudar um instrumento tão complexo.

Roberto não desistiu. Descobriu um professor de oboé e deu o telefone para ela. Duas semanas depois foi fazer uma aula experimental. Foi como se toda a paixão da infância e adolescência voltasse num só momento.

Nas primeiras aulas o professor lhe emprestou um instrumento. Não demorou muito para que ela quisesse o seu, o professor indicou um amigo que importava, recomendou um Selmer, bom o bastante mas não caro demais.

Ela conversou com o importador. Convenceu o marido a pagar. Três semanas depois recebeu uma ligação avisando que seu oboé tinha chegado.

Chamou Roberto para ir com ela, ele precisava participar desse momento. Almoçaram juntos, ela estava tão excitada que passava de um assunto para o outro quase sem perceber. Uma ou outra vez nem percebeu direito o que ele lhe falava.

Na hora combinada Roberto a levou até a loja. Quando o instrumento lhe foi apresentado seus olhos brilharam como nunca.

Roberto só a observava com carinho. Ela estava em outro planeta. Ele sabia que, por mais que ela gostasse dele, aquele dia era o dia do sonho de uma vida. E amigos de verdade sabem que nessas horas, a felicidade reside em ser espectador da realização do outro.

Deixou-a em casa, sabia que ela passaria a noite namorando o instrumento. Foi para o seu apartamento, colocou um CD de Heinz Holliger e dormiu sorrindo.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Lancelot & Ginevra


Lancelot amou Ginevra
Sem nenhuma teoria
Enfrentou a densa treva
Que a muitos angustia

Lancelot amou Ginevra
Contra o rei e a ventania
Lhe era mais cara espera
Que portar real insígnia

Lancelot amou Ginevra
Enfrentou toda pilhéria
Não por mera teimosia
Sem senão, sem todavia

Lancelot amou Ginevra
O herói da cavalaria
Sabia quanto valia
Tornar-se mitologia


* Ginevra, Ginívria ou, mais popularmente Guinevere são variações do termo galês Gwenhwyfar (fada branca), a rainha que amou Lancelot.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Devaneio sinestésico

Um círculo cromático é uma representação das cores onde são dispostas as variações do espectro visível pelo olho humano.

O termo grego chromatikos, χρωματικός é uma corruptela da palavra grega chroma, χρῶμα, que quer dizer cor.

Uma escala cromática deveria ser apenas uma sequência de tons e subtons coloridos, mas o termo também é utilizado em música, para definir a sequência dos 12 semitons da nossa escala temperada.

Imagino que seja daí que vem o nome do conjunto "A cor do som".

Mas, se a escala é temperada, além de cor, as notas também devem ter algum tipo de sabor. Talvez pelo fato de que alguns acordes menores serem amargos.

A cor do som temperado por determinadas harmonias costumam me causar arrepios.

Por outro lado, tenho de admitir que em determinadas escalas cromáticas, de sabor temperado, esses arrepios são perfume para os meus ouvidos.

Outros já não me cheiram tão bem. E, quando, algo não cheira bem, é possível sentir nos poros o sabor do veneno.

Veneno que, como todos sabem, provoca uma série de dissonâncias que podem deixar tudo escuro, como se não houvesse cromatismo nenhum.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

No olho do furacão




A tarde parecia promissora. Céu claro, calor e sol. No entanto, do alto do seu apartamento no topo do prédio tudo que ele escutava era o vento.

Lembrava do sítio do pai, no alto de uma colina, a que ele chamava de morro dos ventos uivantes.

O apartamento solitário lhe parecia tão inóspito quanto o sítio no meio do nada.

Sabia que estava cercado de uma multidão. Dezenas de moradores dos demais apartamentos. Milhares, se estimasse o número de moradores do entorno.

Buzinas, gente falando alto na rua, o vizinho baterista.

Mesmo assim, ele só ouvia o vento, como se seus ouvidos tivessem adquirido a capacidade de filtrar sons.

Com o vento chegava a voz da amada. O tom agudo era como sua voz de soprano, as modulações lhe traziam os suspiros dela.

Algumas vezes, até os seus gemidos.

Olhou pela janela, viu as nuvens escuras se aproximarem. Chumbo azulado se aproximando rapidamente.

Desceu para a rua, as pessoas apertavam o passo à medida que a tempestade se aproximava. Rapidamente ficou sozinho.

E o vento continuamente lhe chamava, em direção a ela.

Chegou violentamente, como um furacão

E ele se deixou levar, para viver eternamente no seu interior, ouvindo a sua voz.

Observação : o texto tem mais sentido se acompanhado pelo video acima. Se não o fez na primeira leitura, experimente começar de novo.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Com ou de camarão

Não sou apenas um cozinheiro de domingos mas, além de outras incursões pela cozinha, os almoços de domingos geralmente ficam por minha conta.

Não foi diferente hoje. O que mudou foi a discussão sintática com a minha filha. Disse que ia fazer risoto de camarão e ela insistia que era risoto com camarão.

Ela não deixava de ter razão, afinal, o camarão seria um dos componentes da minha receita, mas tentei explicar que risoto com camarão poderia soar como se eu fosse fazer um risoto e, separadamente, um prato com camarão.

E claro, como puxou ao pai, ela é uma menina pertinaz, não muda facilmente de opinião e, assim que viu a travessa na mesa exclamou: " - não disse que era risoto com camarão?"

Abaixo deixo a receita para que cada leitor decida se é um risoto de ou com camarão

Tempere 1 kg de camarões médios a grandes, sem casca, com sal, pimenta do reino branca e curry em pó. Numa caçarola derreta uma colher de manteiga, adicione os camarões. Quando estiverem corados coloque meia xícara de vinho branco e refogue rapidamente (os camarões não podem amolecer, pois ainda serão cozidos no risoto). Reserve.

Em uma panela grande e funda derreta 2 colheres de sopa de manteiga. Adicione 2 dentes de alho picados e deixe dourar. Acrescente 2 xícaras de arroz para risoto* e misture bem com a manteiga e o alho. Quando estiver quase seco adicione uma xícara de vinho tinto branco (o mesmo que usou no camarão) e deixe evaporar o vinho.

A partir daí vá acrescentando, aos poucos, sem parar de mexer, caldo de camarão (Sugiro que prepare pelo menos 1 litro de caldo. Se tiver paciência faça seu próprio caldo usando as cascas, senão pode usar os caldos prontos de supermercado), esse processo deve durar cerca de meia hora. Mexer, adicionar mais caldo, mexer, adicionar mais caldo. Enquanto isso adicione o sal a gosto.

Quando o arroz estiver quase al dente acrescente os camarões à mistura e continue a colocar caldo e mexer. Não deixe o camarão cozinhar demais. Quando estiver no ponto, pare de acrescentar caldo.

Antes que o risoto seque completamente, adicione mais duas colheres de manteiga, quando derreterem polvilhe com uma ou duas colheres de queijo parmesão ralado. Sirva imediatamente.

Dicas importantes para quem for fazer risoto:

Cozinhe em fogo alto o tempo todo, sem nunca deixar de mexer. Não lave o arroz! O amido que está impregnado na casca é o responsável por engrossar o caldo do risoto durante o preparo

*Tipos de arroz para risoto

Carnaroli: É um híbrido com mais amido, favorito dos italianos. O grão demora mais para cozinhar, mas mantém melhor o cozimento al dente e o resultado é mais cremoso.
Arbório: É o tipo mais comum, por isso, o mais barato. Os grãos são grandes e de um branco mais perolado. Combina com risotos que levam porções maiores de carne.
Vialone Nano: Grão menor, arredondado. Alguns o consideram melhor porque cozinha por igual. Bom para risotos delicados, com ingredientes miúdos ou frutos do mar
.

domingo, 11 de outubro de 2009

A árvore das dietas

Irvíngia, caso você seja um mero desavisado, é uma árvore encontrada na África e no sudeste da Ásia, da qual existem quase 30 espécies diferentes.

Produz um fruto parecido com a manga e, uma das suas espécies, a Irvíngia Gabonensis, tem sido muito utilizada como remédio para emagrecimento.

Claro que, como todo produto desse tipo, surge a recomendação de ter uma alimentação equilibrada e a prática de exercício físico.

Aí, poderiam me perguntar, mas... quem se alimenta direito e prática exercícios já não mantém o peso normalmente?

E eu vos direi, no entanto, que para perdê-lo, muitos se levantam à noite em busca de sua irvíngia, pálidos de espanto.

Durante as minhas pesquisas, descobri que consumidores irvíngíacos tendem a se cansar somente depois atividade física intensa.

Por outro lado, aqueles que tomam essência de irvíngia, são atletas contumazes, chegando a praticar ginástica ou esportes várias vezes por semana.

Não só o fazem com frequência, como também em quantidade. Horas e horas, sem nunca querer parar.

Claro, como todo tipo de medicamento, seja ele natureba ou artificial, tem os seus efeitos colaterais.

Os principais deles são sono e sede, geralmente algumas horas depois do consumo do mesmo.

No entanto, alguns médicos alegam que esses efeitos são decorrentes dos exercícios e não do remédio.

Além do que, seus consumidores admitem que a irvíngia provoca dependência química e psicológica.

Até hoje, nenhum irvíngicomaníaco conseguiu deixar o hábito.

É verdade que nenhum deles tentou, tamanha a satisfação que tem com a planta. Uma verdadeira paixão.

Se você está disposto a viver esse tipo de emoções, já aviso que não é fácil encontrar a tal da irvíngia.

Mas, uma vez encontrada, não se deixa nunca mais.

sábado, 10 de outubro de 2009

Contículo subjuntivo

É bem possível que eu tenha me comportado mal, talvez até tivesse de terminar o que começara mas, mesmo que a oportunidade batesse à minha porta, permaneceria impassível.

Se tivesse ouvido o que diz a experiência, não correria o risco pelo qual passei e, naquele instante, era provável que o mundo ruísse. Se tivesse coragem, estaria lutando por ideais errôneos. Felizmente percebi a tempo que seria indelicado...

Acreditaste que eu tivesse andado por esses desvios?

Duvido que saibas o quanto chorei por isso. Lamento que tenha sido relapso. E sei que é importante que eu perceba o que ela representa na minha vida. Não é justo que continue sendo tratada com menos consideração do que mereça.

No começo neguei que tivesse cometido tal delito. Seria melhor que não dissesse nada mas, implorei para que ela continuasse. Ela ordenou que eu interrompesse meu discurso. Tinha razão.

Ela sempre pede que eu a estude com afinco. Nada impede que minha atenção se apresente e que meus cuidados sejam exercidos.

Ordenou que pagasse minha dívida de carinho. Deseja que eu sempre volte logo. É preciso que eu deixe de lado essa visão que me aprisiona num passado sem conteúdo.

Se eu tiver um mínimo de juízo nunca mais repetirei tal deslize.


Modo subjuntivo é o modo verbal que não expressa certeza e sim uma dúvida, para indicar a possibilidade de algo vir a acontecer.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Geografia cardíaca

Mariano se considerava um homem feliz. Tinha acabado de comprar seu aparelho de GPS o que o tornava um homem que nunca mais perderia a direção.

Passou horas estudando o manual do equipamento, outras tanto instalando a engenhoca no carro. Em seguida foi mostrar para todos os amigos.

Ficou tão apaixonado pela maquininha que passava os finais de semana procurando endereços absurdos só para usar o seu guia digital.

Até o dia que se enamorou de Julieta, que morava do outro lado da cidade.

Num primeiro momento o GPS foi muito útil, sempre encontrava o melhor caminho para chegar na casa dela, estivesse ele onde estivesse.

Acontece que seu amor por Julieta era tão grande que todas as vezes que saia de um lugar para outro, inventava de dar uma passada na casa da menina.

Aí o GPS começou a perturbá-lo. Ele saia do escritório e programava o endereço do cliente, mas quando percebia que dava tempo, ia em direção à casa de Julieta.

Como o caminho nada tinha a ver com a rota original, a voz metálica do aparelho repetia o tempo todo: recalculando, recalculando, recalculando.

O problema é que, se desviando em direção à amada, aí é que ele precisava mesmo da orientação do GPS.

Não sabia se rompia com Julieta ou se jogava a máquina no rio.

Procurou um hacker. Mandou quebrar o código do software do GPS e reprogramá-lo para incluir o endereço de Julieta como escala de qualquer destino que ele consultasse.

E não é que deu certo?

Hoje é sócio do hacker e, juntos, lançaram no mercado o primeiro aparelho de HPS, onde H é a evolução do G.

O legítimo Heart Positioning System

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

O lugar comum dos conticulóides

Ameaça

Ele sempre dizia para ela que, por amor, seria capaz de matar ou morrer. Um dia ela não aguentou mais e disse que ele não teria coragem de matar sequer um pernilongo. Os dois foram encontrados na cozinha, cada um com um tiro na cabeça.

Pânico

No meio da conversa a ligação do celular caiu. Justamente quando ele explicava que estava no trânsito e que estava atrás de uma ambulância. Sem conseguir falar de volta, ela entrou em pânico e passou a noite toda, de hospital em hospital, tentando descobrir em que ambulância ele tinha chegado.

Desengano

Ela chegou mais tarde do que o habitual. Sua explicação deixou a desejar e ele passou os dias seguintes com um ninho de pulgas atrás de ambas orelhas. Passou a controlar todos os passos que ela dava. Quase morreu de vergonha quando descobriu que ela contara a verdade. O que não impediu que criticasse a pobreza da sua construção de argumentos.

Distração

Ele tinha só um objetivo encerrar com chave de ouro a festa que preparara para o aniversário da amada. Encheu a casa de flores, preparou o jantar e escondeu o anel de brilhante que daria de presente. Só esqueceu de avisá-la da comemoração. Enquanto ele esperava em vão, ela comemorava num happy hour com as amigas.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Poemeto azul


Vamos pela sombra
Linda marca do sol
Carente de tempo
Progride ao poente

Sentimento quente
Paixão navegante
eterna, infinita
conquista amante

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Catalisadores recíprocos

Os relacionamentos amorosos, assim como qualquer coisa na vida, podem se desenvolver de forma mais ou menos veloz.

Essa velocidade depende fundamentalmente da capacidade de reação entre as partes.

Se vão passar dois anos só de mãos dadas e trocando beijinhos, ou se vão se atracar dentro do carro duas horas depois de começado o primeiro encontro, também pode depender de quais são os catalisadores utilizados.

Diz a química que um catalisador é uma substância que afeta a velocidade de uma reação, mas emerge do processo inalterada. Eles podem atuar diminuindo a energia dos elementos, o que facilita a agilidade da reação.

Os melhores, no entanto, são aqueles que aceleram os hormônios, sem provocar reduções energéticas. Até porque, é justamente nesse tipo de situação em que há maior necessidade de energia.

Os catalisadores promovem mecanismos moleculares e musculares diferentes para cada reação. Alguns que parecem inertes na maior parte do tempo, podem reagir de forma poderosa quando provocados.

Existem catalisadores naturais e sintéticos. Esses últimos, geralmente são encontrados nas melhores lojas do ramo e podem variar de uma mera garrafa de cerveja a uma jóia da Tiffany´s.

Os catalisadores alcoólicos, ainda que muito populares e funcionais, geralmente afetam o rendimento e a seletividade (especialmente essa última).

Dependendo da originalidade de um ou outro dos elementos, a catálise pode ser básica. Se a ironia e a jocosidade estiver envolvida, os catalisadores ácidos são mais indicados. As situações heterodoxas só se resolvem com catalisadores ácido-básicos.

Nem todas as reações terminam bem. Por melhor que seja a catálise, essa pode provocar uma tranferência de fase em um dos elementos. Essas reações costumam ser muito velozes e, ao final delas, cada um retorna para o seu grau de reatividade, ou para a falta dela.

No caso dos elementos estarem em fases de vida muito distintas, o que ocorre é uma catálise heterogênea e não ocorre na primeira tentativa de reação, mas em fases. É o caso típico em que um dos elementos precisará controlar, temporariamente a sua energia, até que a velocidade do outro entre em sincronia.

Quando os similares se atraem para a reação, nesse caso, uma catálise homogênea. O elemento catalisador é co-participante da reação, mas não se consome nela e, o que acontece, é que os próprios elementos são catalisadores recíprocos e permanentes.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Mais insanos que eu

Graças à Elis, uma excelente rabiscadora da blogosfera, eu fiquei sabendo os vencedores dos prestigioso prêmio Ignobel.

Não, não é um tipo de Nobel concedido pelo Ig, mas o equivalente do Nobel para as invenções ou pesquisas mais insanas do ano. Tenho de admitir que nem nos meus dias mais insanos eu poderia chegar sequer perto do brilhantismo desses próceres da ciência.

Como eu poderia saber que uma vaca com nome dá mais leite que uma vaca desnomeada. Terá alguma coisa a ver com a declaração dos direitos bovinos que garante a todas um nome? Será que vacas nomeadas como Mimosa produzem mais leite que aquelas batizadas de Nefertite?

Outra invenção encantadora foi o soutien da gripe suína. Se a moça começa a espirrar ela imediatamente saca seus suportes anatômicos e os usa como máscara. Também serve para mulheres que gostam de manifestações políticas em que abunda (ou será apeita?) gás lacrimogênio.

O que eu não entendi bem foram uns caras que estão transformando tequila em diamantes. Eu sempre achei que os garimpeiros mexicanos procuravam diamantes para comprar tequila...

Algumas descobertas são, na minha opinião, menos relevantes. Como a do sujeito que estalou os dedos da mesma mão durante 60 anos para provar que o hábito não provoca artrite, ou da polícia irlandesa que multou dezenas de pessoas chamadas Prawo Jazdy (que, em polonês, quer dizer, carteira de motorista).

De qualquer forma, se pudesse existir o top do Ignobel, eu o daria para uns caras que descobriram a capacidade que uma bactéria das fezes de pandas gigantes tem de eliminar lixo doméstico. Apesar de que o fato pudesse render fortunas para o WWF, gostaria de saber quem é que ficaria atrás dos bichos para coletar o cocô ecológico.

Dizem que em 2010 tem mais. Vou esperar ansiosamente

domingo, 4 de outubro de 2009

Traição apaixonada



Não é a primeira vez que eu traio o sujeito, já o fiz numa das minhas primeiras puladas de cerca.

Eu até sei que trair duas vezes a mesma pessoa não é de bom tom mas, recentemente, ganhei um disco com a trilha sonora de De-Lovely , que conta a vida dele, e uma das músicas ficou me atiçando os ouvidos desde então.

Pode ler cantando junto. É apaixonante.

Tanto amor

Estranho,
Mas sério
Se perto
Me chego
O céu brilha mais
Tanto amor o meu por ti

Mesmo
Sozinho
Te abraço
Carinho
Tu sabes porque
Tanto amor, o meu, por ti

Por tanto amor mistério
Na noite em que surgiu
Por tanto amor delírio
Cuidado que ninguém viu

Perturbe-me
Machuque-me
Maltrate-me
Abandone-me

Sou teu até morrer
Tanto amor
Tanto amor
Tanto amor
O meu, por ti

So in love
Cole Porter

Strange, dear, but true, dear,
When I'm close to you, dear,
The stars fill the sky,
So in love with you am I.

Even
without you

My arms fold
about you.

You know, darling why,
So in love with you am I.

In love with the night mysterious
The night when you first were there.
In love with my joy delirious
When I knew that you might care.

So taunt me
and hurt me,
Deceive me,
desert me,
I'm yours 'til I die,
So in love,
So in love,
So in love with you, my love, am I.

sábado, 3 de outubro de 2009

A hortatória antologia da Setembro

Comentar em blogs é uma espécie de insanidade que eu cometo com frequência.

Já, no caso dos comentaristas desse blog, a insanidade reside no fato que o autor do mesmo tira os comentários dos seus contextos e os publica aleatóriamente.

E que cada um imagine porque essa frase está aqui.


A ignorância é uma bênção...

...então o Sr.Fabio funga de montão?

...além de massagear ele dava choques elétricos...

É mais fácil arranjar um namorado do que um bom parceiro de dança...

Oi e Tchau, agora preciso ir limpar os ralos...

In questo caso a me manca solo il pianoforte!...

Oba! tô quase de alta!

Além de ser sempre melhor alguma coisa de tridimensional.

A minha suspeita,com relação a Liga das Senhoras Católicas, está confirmada...

Vc, por exemplo, Adiron, vai morrer loguinho...

...e eu ainda venho aqui ler esses desaforos...

Deleito-me lendo as traições

And so she is gone…

...ou se a lógica e eu não somos nada compatíveis

Depois não vem reclamar que a gente prefere ler os escritos do Samuel, tá?

Nem o bobo, nem a rainha, têm nada de bobos...

Que tal mudar para uma "valsinha", e quem sabe um "tricíclo"?

...era para ele assim como a pitanga para o sabiá...

O correto no caso seria "educação sexual sem NEXO".

nem precisava cantada, que, aliás, foi ruizinha demais!

...comprou um pacote de farofa e hoje mesmo irá sair por vários locais, esgasgando.

Ah, se todo o processo acadêmico tivesse essa conclusão!

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Espinafrando analogias

Tema: O amor é o encontro das águas (ouvida numa canção no rádio)

Variações:

Pudor não prescinde de anáguas

Só lavadeira limpa as nódoas

Na dúvida aplique os mínios

Morreu afogado em mágoas

Ao invés de batatas chamíssoas

Buenos Aires com chuva, paraguas

Nos seus olhos nunca névoas

Perdido em seus domínios

Seresta, melhor em páteos

quinta-feira, 1 de outubro de 2009

Desfecho rápido

Narinha não se conformava com o discurso de Bia, tudo bem que ela era reconhecidamente uma cética, mas isso já passava das medidas.

O que não significava que Bia tinha desistido do assunto.

"- Narinha, minha querida, todo mundo sabe que o Arnaldo não presta, não sei porque você fica com essa cara de bola murcha."

"- Não é verdade. Ele não é uma má pessoa. Teve um caso mal resolvido com a Joyce, mas isso é passado."

"- Com a Joyce, com a Renata, com a Izabela, com..."

"- Mentira. É tudo mentira. Isso tudo é fofoca daquela víbora que quis arruinar a vida dele..."

"- Está bem, o que eu podia falar eu já falei. O máximo que posso te recomendar é o teste do soutien.

"- Como assim? Que teste do soutien?"

"- Você quer saber mesmo se o Arnaldo é um cara sério ou se anda para baixo e para cima com todas?"

"- Não preciso testar..."

"- Pois bem, na próxima vez que vocês saírem, experimente usar um soutien com um fecho diferente. Se ele tiver dificuldade para abrir, pode confiar. Caso contrário..."

"- Não vou fazer nada disso, imagina se vou desconfiar dele."

Mal tinha acabado de falar, Arnaldo chegou para buscá-la. Olhou para Bia com uma cara de poucos amigos, e se foram.

No dia seguinte Bia ligou para Narinha várias vezes sem sucesso. Começou a ficar preocupada. Deixava recados no celular e nada.

Quase no final do dia recebeu um torpedo. Era ela. Em duas palavras dizia que tinha acabado com Arnaldo. Imediatamente ligou e, desta vez, Narinha atendeu.

"- Bia, nem te conto a minha decepção..."

"- O que aconteceu?"

"- Sabe aquele soutien da Victoria Secret que eu tenho? Fecho triplo, cruzado e com o nó cego na frente?"

"- Claro que sei, eu acho lindo...

"- 12 segundos Bia....12 segundos..."

E caiu no choro