segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Ah, esse maldito fecho éclair


O fecho éclair, mais popularmente conhecido no Brasil como zíper foi inventado em 1723 pelo Barão de Fermature, um dos assessores políticos do Rei Luís XIX, quando passava as férias de verão junto à corte nas montanhas de Éclair, nos Apeninos belgas.

Fermature se dedicou ao assunto para resolver um problema íntimo e pessoal. Amante da rainha Serafina, sabia do destino dos seus amantes anteriores que haviam sido pegos em flagrante tentando fechar os 128 botões do espartilho da soberana. Nenhum deles conseguiu fazê-lo antes da chegada da guarda real e morreram decapitados.

Começou fazendo tentativa com tecido, mas nenhum era suficientemente rígido para permitir o deslizamente do puxador. Passou a testar arames, mas esse não duravam mais que duas ou três fechadas e começavam a quebrar. Demorou um pouco para chegar numa liga metálica que fosse, ao mesmo tempo, sólida o suficiente para resistir aos constantes movimentos, e leve para não impedir o deslizamento.

Finalmente conseguiu criar um um engenhoso sistema de ganchos e colchetes com uma engenhoca deslizante para fechar e abrir. Foi favorecido pela invenção, quase simultânea, de um conterrâneo seu, o Sr. Javais de Vaseline.

Quando apresentou sua invenção à corte foi aclamado pelas camareiras das damas, ainda que algumas temessem pela redução de empregos na categoria.

Não demorou muito, a sua invenção passou também a ser usada nas calças masculinas, ainda que, nos seus primórdios tenha gerado alguns acidentes pubianos, uma vez que as cuecas ainda não tinham sido inventadas.

Após a queda da Castilha o invento de Fermature caiu em desgraça e só foi ressurgir no século seguinte quando os fabricantes de malas de viagem perceberam seus benefícios.

A invenção do velcro, um tipo de ziper que faz barulho na entrada mas é silencioso na saída. só foi acontecer anos depois no interior da Finlândia, mas isso já é uma outra história

domingo, 30 de agosto de 2009

Entrando pelos canos

Minha casa tem tubulações variadas. Todas escondidas nas paredes, entre tijolos, cimento e concreto.

Tubos de água limpa, fonte de pureza e vida.

Tubos de água suja, carregando os muitos catabólitos domésticos.

Tubos com fios que trazem a energia para movimentar a clarear os ambientes.

Tubos com fios que trazem notícias, lazer e, claro, mais um monte de outros catabólitos.

E, claro, tubos de gás. Que garantem o calor não metafórico.

Mas também existe toda uma rede de tubulações que não ficam escondidas, ainda que nem sempre sejam visíveis.

Canos de várias bitolas que atravessam a casa em todas as direções.

A tubulação dos sentimentos é uma delas.

Algumas vezes esses correm em encanamentos distintos, os limpos por um lado, os sujos pelo outro, mas, ao contrário da água, algumas vezes esses se misturam e provocam entupimentos colossais.

Também andam muitas vezes juntas as idéias que correm em canos flutuantes. São canos de uso intermitente. Algumas horas sobrecarregados, outras, completamente vazios.

De todas as tubulações imaginárias, a minha rede preferida é a dos sonhos.

Por ela correm os que eu tenho dormindo e também os meus devaneios, quando acordado.

O fornecimento é constante e garantido pela agência nacional de onirismos e afins, a ANOA.

Os de boa qualidade são guardados, os de má, rapidamente eliminados pela tubulação de sentimentos sujos.

É um encanamento que não envelhece, não enferruja e não gera despesas.

E o melhor de tudo, quando a rede é compartilhada, os sonhos se transformam em fonte de vida.

sábado, 29 de agosto de 2009

Com lógica. Sem sentido.


Besta casta desta pista.
Gasta vista testa gesto
Busto rosto susta rasto
Justa lista tosta resto.
Gosto pesto custa pasta
Nesta cesta resta gasto
Posta dista veste festa
Testo posto susto peste
Pasto misto justo cisto
Mosto gosta basta poste
Nisto gaste teste costa
Goste cesto
Ou desgoste.

sexta-feira, 28 de agosto de 2009

Romance virtual

Maurício já estava descasado há três anos e nunca mais encontrara outra pessoa. Muito instrospectivo não conseguia fazer programas onde encontrasse outras mulheres. No trabalho achava que não era adequado cortejar ninguém.

Sara era uma mulher estonteante. Linda, inteligente e bem sucedida. Mas nunca teve namoros firmes. Os homens a temiam, achavam que era areia demais para seus caminhõezinhos.

Maurício começou a explorar a Internet. Não conseguiu se adaptar à nenhuma rede social, não tinha amigos suficientes para compor sua comunidade. Ninguém o chamava para conversar no MSN.

Sara estava decepcionada com a Internet. Muitos homens a adicionavam no Orkut ou no Twitter, mas todos estavam em busca apenas de noites divertidas.

Um dia eles descobriram uma sala de chat. Maurício adotou o codinome de Urso Hibernante, Sara era a Mariposa Technicolor. Começaram a conversar.

Naquele ambiente se despiram de suas limitações. Maurício se tornou romântico e ousado. Sara fazia o gênero de mulher frágil e sensível.

Durante semanas conversaram, trocaram confidências, falaram de suas esperanças. Apaixonaram-se.

Da sala de chat acabaram indo para o MSN. O romance tornou-se cada vez mais picante, mas um não tinham idéia da aparência do outro. Maurício nunca teve uma webcam, Sara não achava correto ele vê-la sem ter reciprocidade.

Marcaram um encontro. Café num shopping num sábado à tarde.

Saindo de casa, no elevador, Maurício encontrou a vizinha de baixo. Pensou consigo mesmo que sua Mariposa podia ser tão bonita quanto ela.

Sara chegou no shopping mas, ao invés de ir direto para o café, ficou parada em frente uma vitrine tentando adivinhar quem poderia ser o Urso.

Enquanto observava viu que um homem conhecido dela chegara, vestido exatamente como o Urso disse que estaria.

Maurício olhou para Sara em frente à loja. Seus olhares de assombro se cruzaram.

Ele? Ela pensou.

Ela? Ele pensou.

Era verdade. Durante meses Maurício, no sétimo andar, namorava virtualmente Sara, do sexto andar.

Sara foi em direção a Maurício, que se levantou. E recebeu um tapa na cara e a frase : "- Seu tarado".

Ainda estatelado na cadeira do café, ele respondeu, enquanto ela ia embora: " - Sua sem-vergonha".

E foram felizes para sempre.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Um cara grudento

Na primeira vez que ele usou a expressão ela odiou.

Suas lembranças a respeito do bicho eram as piores possíveis. Recordações da fazenda dos avós aonde ela costumava passar as férias, na sua infância e, não poucas vezes, fora vítimas deles.

Os processos caseiros para se livrar de cada um que tinha se apegado à sua pela eram dolorosos. Até arsênico chegaram a usar, quando a infestação era pior.

Tentou convencê-lo de que não era exatamente aquele apelido carinhoso que ela gostaria de usar para se referir a ele.

Alegou que ele não era um parasita. Ele disse que era paradão nela.

Tentou a questão da hematofagia, até porque ele detestava ver sangue. Mas ele alegou que ela corria na suas veias.

Sua última cartada foi dizer que o bicho era um transmissor de doenças. Ele sabia. Respondeu que quando ela estava longe ele ficava com uma tristeza bovina.

Desistiu de tentar fazê-lo mudar de idéia, mas se recusava a chamá-lo daquele jeito. Ele começou a provocá-la. Deu-lhe um exemplar de gesso que ele mesmo fizera.

Ela não gostou muito, mas não podia jogar fora um presente dele. E os bichos foram se acumulando. De cerâmica, de mármore, de metal.

Até o dia que ele arranjou um ourives que lhe fez um broche em platina com a cabeça de diamante. Aí ela se derreteu toda.

Ele realmente tinha se grudado na sua pele, e ela, apaixonada, reconheceu que ele nunca mais sairia da sua vida.

Nunca mais o chamou de meu gato. Todo mundo estranhava quando ouvia mas, para ela, ele seria para sempre o seu carrapato.

quarta-feira, 26 de agosto de 2009

Traição amorosa

Minhas andanças poéticas me levam a descobertas. Nesse caso a de Paul Éluard, poeta francês, autor de poemas que circularam clandestinamente durante a 2a Guerra Mundial, contra o nazismo. Participou no movimento dadaísta, foi um dos pilares do surrealismo, abrindo caminho para uma ação artística mais engajada.

Mas, não só de engajamento político vive um homem. Casado com Nusch, ela representa para ele a encarnação da mulher, companheira, cúmplice, sensual, sensível e fiel.


Amorosa

Ela se levanta em minhas pálpebras
Seus cabelos trança aos meus
Suas mãos, às minhas, se conformam
Seus olhos, aos meus, colorem
Penetrando na minha sombra
Como uma pedra solta no céu.

De olhos sempre abertos
Não me deixa mais dormir
Seus sonhos à luz do dia
Evaporam sóis
Faz-me rir, chorar e rir
Falar sem nada dizer


O original é o seguinte:


L'amoureuse

Elle est debout sur mes paupières
Et ses cheveux sont dans les miens,
Elle a la forme de mes mains,
Elle a la couleur de mes yeux,
Elle s'engloutit dans mon ombre
Comme une pierre sur le ciel.

Elle a toujours les yeux ouverts
Et ne me laisse pas dormir.
Ses rêves en pleine lumière
Font s'évaporer les soleils,
Me font rire, pleurer et rire,
Parler sans avoir rien à dire.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

O caso do Amaro


Amaro, engenheiro químico de uma poderosa empresa farmacêutica, trabalhava num projeto de pesquisa de uma nova droga.

Caso a pesquisa fosse bem sucedida, os lucros seriam fabulosos e, por isso mesmo, o assunto era tratado com confidencialidade extrema.

Amaro, inclusive, foi obrigado a assinar um termo de compromisso que o proibia de falar do assunto com qualquer pessoa que não estivesse envolvida no assunto. Nem com sua família.

O componente ativo da droga era a prolaminodiacida. Os pesquisadores da empresa passaram a se referir a ela em código. Só falavam na Cida.

Tudo corria bem, até que, num domingo à tarde, um colega ligou para a sua casa. Amaro estava no clube com as crianças, ele falou com Zoraide, a mulher de Amaro, e pediu que ela avisasse o marido que a Cida estava precisando dele.

Quando chegou, a mulher deu o recado e ficou esperando alguma explicação. Ele só disse que precisava ir até a fábrica.

Já era tarde da noite quando voltou. Zoraide estava na cozinha esperando. Depois de muito bate-boca Amaro falou que não podia contar nenhum detalhe a respeito, mas que ela confiasse nele.

Ela não confiou. Começou a vasculhar as coisas de Amaro tentando encontrar provas da traição. E começou a achar.

Num bolso do paletó encontrou um bilhete numa folha de bloco da empresa. Cida, àmanhã às 14h. Zoraide abriu uma pasta e começou a arquivar as provas.

De madrugada, levantava, ligava o notebook de Amaro e imprimia todos os e-mails suspeitos. Alguns enviados em nome da própria Cida.

Quando achou que estava preparada para confrontar novamente o marido sofreu um choque. Amaro estava no banho quando seu celular tocou avisando que tinha uma nova mensagem.

Zoraide abriu a mensagem que dizia: "O parto da Cida está previsto para amanhã". Ela pegou o telefone e o atirou em Amaro dentro do chuveiro.

Pegou as crianças, jogou as roupas numa mala e foi embora para a casa da sua mãe. Amaro tentou, inutilmente, falar com ela. Zoraide se recusava a atender.

No dia da audiência do divórcio Amaro, ao invés de levar um advogado, levou um propagandista da empresa. Na sua mala, um lote de amostras grátis de Prolaminodiacida que acabara de ser lançada no mercado.

Pediu que o juiz apenas lesse a indicação da droga: "Este medicamento é indicado nos casos agudos de paranóia ou delírios de perseguição, megalomania ou ciúmes"

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Insananiversário

Hoje o Mens Insana completa o seu segundo ano de vida. O que aconteceu aqui durante esses 731 dias foi o seguinte :

Todos os textos são meus, com raríssimas exceções. Não posso deixar de agradecer os conhecidos e anônimos que sempre me fornecem inspiração e boas idéias.

A maior parte das ilustrações foi obtida no Google Images, algumas distorcidas com um editor de fotos. Outras fotos são minhas mesmo.

Também tive o privilégio de contar com fotos da Rejane Moraes e com os quadros da Vírginia Susana Fantoni Ribeiro.

Insanidades é, obviamente, o tag com mais entradas - 204. Poesia (uma outra forma de insanidade), vem a seguir, com 118.

Janeiro de 2009 foi o mês com menos publicações: 7. Fevereiro de 2008, o que teve mais: 40. O total, incluindo essa, é de 629 posts.

Minhas férias foi a publicação que gerou o maior número de comentários, 25

Os dois textos mais lidos foram Nosso cartão de Natal e de Adiron para Adiron desde 1890

O blog teve 62.853 visitas de 23.688 visitantes únicos. A maior fonte de origem de leitores ainda é o Google.*

Aliás, usando o Google, os termos de busca mais frequentes são "Como conquistar uma mulher" (a situação deve andar mesmo complexa), 557 vezes, batendo de longe "Paideuma", que é o segundo com 295 vezes.

Em média as pessoas passam 2 minutos no blog.*

Recebi a visita de pessoas de 75 países. Depois do Brasil, Portugal e Estados Unidos são os mais freqüentes. Os que mais me surpreenderam foram : Filipinas, Tailândia, Tanzânia, Paquistão e Arábia Saudita.

As cidades que mais aparecem são, na ordem: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Osasco, Londrina e Salvador. Não faço a menor idéia onde fique Gondomar (30 visitas).*

Se você for curioso, depois olhe o balanço do ano passado.

Obrigado a todos, em especial aos que se deram ao trabalho de comentar.

*Dados do Google Analytics

domingo, 23 de agosto de 2009

Será de Beni, o dito ?

Rosalinda chamou a ancila e ordenou que lhe tirasse a anfiderme que se formava junto ao astrágalo.

Quando chegou, trajando seu saial, a serva trazia na cesta a almácega em um maço de aramina.

Ouvia-se o chape que a setia fazia na lagena.

Rosalinda fretenia como se estivesse numa nemoral.

Pediu que o esbirro lhe trouxesse verdéias de enanto o que, libente, ele prontamente o fez.

No meio da práxis, a empregada provocou um cortil com a ascuma.

Uma sépala destacou-se do retábulo de Rosalinda que proferiu uma sinérese de ataraú.

A moça, que não era dada a escurrilidades, percebeu o furor nemésico da patroa e saiu da popina num tropel.

Quando, finalmente, Rosalinda ficou mais lene, acostou no canevas e, recordando a farândola dos seus ancestres concluiu que tudo não passara de um telurismo anomalotrópico.

BENEDITO (BENI) AUGUSTO CARVALHO DOS SANTOS (1886-1959)Nascido em Aracati, bacharelou-se na Faculdade de Direito do Recife em 1911, tendo sido, professor da Faculdade de Direito do Ceará. No Exército, atingiu o posto de general. Foi vice-presidente, Deputado Federal e Interventor Federal no Ceará (1945-1946). Foi fundador da Academia Brasileira de Filologia.

sábado, 22 de agosto de 2009

Como se fosse ontem


Buenos Aires. 21 de Agosto de 1951.

Ada não entendia nada de música, mas entendia de finanças, por isso foi contratada para trabalhar na loja de discos. Ali fazia exatamente o que gostava sem atentar muito para o que acontecia no balcão.

Bruno adorava música. Especialmente música clássica. Sempre que passava em frente à loja olhava os lançamentos. Não poucas vezes saía com um long-playing debaixo do braço e apressava o passo para casa para escutá-lo logo.

Um dia a balconista faltou. O dono da loja pediu para Ada ajudar a atender os clientes. Meio sem jeito ela concordou e desceu para substituir a faltosa.

Naquele dia, Bruno mal notou que a loja recebera o último sucesso de Tony Benett, não coincidentemente chamado "Because of you", nem que um tal de Nat King Cole cantava "Unforgettable" na vitrola. Ele só conseguia olhar para os olhos verdes de Ada.

Começou a pedir indicações de discos (como se não soubesse de nada), só para ter um motivo para ficar olhando para ela. Ela, perdida, não sabia o que dizer e não via a hora dele ir embora.

No dia seguinte ele voltou. Ela não estava lá, tinha voltado para sua mesa e para seus livros de contabilidade.

Ele passou a tarde olhando os discos. Esperando.

No fim do dia ela apareceu descendo as escadas do escritório que davam dentro da loja. Quando o viu seus lábios tremeram de uma forma quase imperceptível. Exceto para ele.

Convidou-a para tomar um sorvete, apesar de pleno inverno. Ela foi.

Ele gostava de música, ela de contas. Ele era Boca Juniors, ela River Plate.

Para impressioná-la disse que jogava rugby, mas jogava futebol. Aumentou sua idade, ela achou que era pouco provável mas, à essa altura, isso não fazia muita diferença.

São Paulo, 21 de agosto de 2009

58 anos depois, dos quais 54 casados, Ada e Bruno saíram para comemorar mais um aniversário de vida em comum.

Ele continua gostando mais de música do que ela. Ela continua gostando mais de um extrato de banco, e há muito sabe a sua idade verdadeira e que nunca jogou rugby.

Ele continua encantado com os olhos verdes. Ela continua encantada com seu romantismo.

Apaixonados, desde sempre. Para sempre

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O elo perdido

Sérgio sempre teve a impressão que era um homem incompleto. Passou a vida em busca do que ele sentia que lhe faltava.

No começo achou que o conhecimento seria a chave de tudo. Estudou e leu tudo que teve chance.

Formado em três faculdades de áreas diferentes era uma pessoa de cultura geral vastíssima.

Com tanta competência, nunca lhe faltou trabalho, e bem remunerado.

Mas nem o conhecimento nem o dinheiro tiraram dele a sensação de incompletude.

A religião atendia todas as suas necessidades espirituais. Mas ainda sentia falta de algo.

Os amigos lhe diziam que precisava encontrar sua alma-gêmea. Ele não acreditava que existisse essa entidade.

Além do que, para que precisaria de uma gêmea ? Se fosse gêmea mesmo lhe faltaria a mesma coisa que faltava nele.

Um dia, passeava pelos corredores do museu de arte quando, ao longe, avistou Stella sentada em frente a uma escultura de Henry Moore.

Bela mulher, pensou. Além disso parece ter bom gosto. Se aproximou. Puxou conversa sobre a obra de arte (a escultura, é claro).

Ela sorriu para ele e disse: há horas estou sentada aqui tentando entender o que é isso. Mas acho que me falta algo.

Sérgio sentiu um arrepio que se espalhou tranversalmente no seu corpo. Era isso.

Naquele dia descobriu que se apaixonar é encontrar a unidade perdida no outro.

quinta-feira, 20 de agosto de 2009

Baunilha

Baunilha, em espanhol. vainilla, pequena vagem doce e aromática.

Baunilha, em inglês vanilla, é fruto de uma orquídea de flores cor de ouro.

Baunilha, em francês vanille, é muito comum nas Américas.

Baunilha, em italiano vaniglia, enriquece uma vida de sabores.

Menina doce e perfumada inspira amores.

Menina de ouro e de flores me traz ardores.

Menina tão incomum, repleta de tantas cores.

Menina, da minha vida, paleta de sabores.

Baunilha menina

Essência do meu amor.

quarta-feira, 19 de agosto de 2009

As piores cenas do cinema



O cinema é cheio de cenas emocionantes. De todos os tipos de emoção, diga-se de passagem.

Algumas, em particular, me geram a emoção da raiva, de tão ruim que são.

Mas existem duas cenas que são absolutamente fabulosas e, ao mesmo tempo, terríveis.

A mais antiga e, talvez, mais conhecida, é a cena final de Casablanca, quando Rick coloca Ilsa no avião junto com Victor Laszlo.

Ele sabe que ela é a mulher da sua vida. Mas prefere protegê-la do que roubá-la do rival.

Rick, como bom durão, aparenta não estar ligando para esse desfecho. Mas que deve ter doído, isso deve.

A outra cena, apesar de interpretada por outro ator com fama de durão, mostra um homem se desmanchando em lágrimas por seu amor.

Acontece no Pontes do Madison (Bridges of the Madison County)

É o momento em Robert (Clint Eastwood) fica parado na chuva olhando Francesca (Meryl Streep) entrar no carro com o marido e ir embora para sempre.

Justo ela, a quem ele se referiu como o amor que se encontra só uma vez na vida.

Na cena, as meninas também podem chorar junto com ela.

Mesmo sendo as piores cenas do cinema para um romântico de carteirinha como eu, nunca vou deixar de assistí-las.

Sabendo que eu não me chamo nem Rick, nem Robert.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

De olhos fechados

Mauro sempre tentava surpreender Cecília com seus presentes.

Nem sempre conseguia, ela já o conhecia bem demais para tanto.

Mas ela não achava ruim aquela previsibilidade. Ele também a conhecia e sabia muito a respeito dos seus gostos.

Quando não eram flores, eram roupas. Quando não roupas, perfumes. Eventualmente ele comprava algo diferente.

Todas as vezes fazia a mesma tentativa de pedir que ela fechasse os olhos e tentasse descobrir.

Quando não adivinhava pelo cheiro, o fazia pelo formato do pacote.

Até que um dia Mauro resolveu mudar a embalagem.

Comprou um vestido, pediu para a lojista não colocar na caixa da loja.

Foi até uma papelaria e escolheu uma caixa de formato incomum.

Embrulhou a caixa em plástico bolha e, por fim, colocou numa sacola de estopa.

Quando chegou em casa pediu que Cecília sentasse no sofá e fechasse os olhos.

Colocou o pacote nas suas mão e fez a clássica pergunta.

Ela manuseou a estopa, apertou o pacote e sentiu as bolhas estourarem. Virou de um lado para o outro.

Ele já se sentia um vencedor quando ela lhe falou:

"- Não sei o que é, mas é vermelho."

Mauro ficou estático: " - Como assim, vermelho ?"

" - Oras, é uma coisa vermelha dentro da caixa, envolta pelo plástico bolha, em uma sacola de estopa".

E era. Um vestido vermelho cor de sangue. Do jeito que ela gostava.

Mauro continuou a mimar Cecília, mas nunca mais brincou de adivinhas.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Descascando analogias


Vaso ruim não quebra

Virou massa de manobra

Desastre não se celebra

Barca furada, não soçobra

Dinheiro lavado, em Genebra

Vai o autor, junto com a obra

Má mulata não requebra

Esse insano não se exprobra

domingo, 16 de agosto de 2009

Caminhos do coração

Um dia você passseava pela superfície externa do meu coração quando, no caminho da veia cava superior, vindo da inferior, você entrou à esquerda na artéria pulmonar, sem saber ao certo se a rua tinha saída.

Quase entrou na contramão quando acessou o átrio direito, achando que, por estar do lado esquerdo do peito, o trânsito seguia a mão inglesa.

Você tinha razão, o trânsito era um caos e, na bagunça do meu coração, seu sangue acertou a descendente anterior e se achou.

Aquele guia antigo, que você trazia nas mãos, estava desatualizado. Ainda que nenhuma válvula tivesse sido duplicada, nem a mitral tivesse virado um calçadão, o estado geral das vias era precário.

Há muito o poder público não cuidava da manutenção. Os logradouros pareciam áreas abandonadas.

Os imóveis estavam cada vez mais imóveis. A tricúspide passava a impressão de que poderia ruir a qualquer momento.

Nem um GPS dos mais modernos seria capaz de marcar corretamente os seus passos.

Estudou cuidadosamente a anatomia topográfica e foi se apossando de tudo. O usocapião dos ventrículos e das valvas foi quase que imediato.

Reformou o septo garantindo que o tráfego interventricular fluísse em paz.

Agora até a mitral ganhou vida com a sua presença. A aorta lembra uma autobahn alemã.

E, quando digito seu nome no Google Maps, ele ocupa todos os endereços do meu coração.

sábado, 15 de agosto de 2009

Tragédia pronominal

Dagoberto era filho de um daqueles professores de português da velha guarda. Cresceu ouvindo o pai falar da deterioração da língua, dos absurdos neológicos, das aberrações estrangeiristas, da multiplicação dos solecismos. Nunca chegou a ser um radical como seu pai, mas se tornou um homem viciado em mesóclises.

No começo os colegas achavam que ele era um cara engraçado. Quem mais referir-se-ia à lição de casa dizendo: estudá-la-ei. Depois de um tempo aquilo perdeu a graça. Acabou sem amigos.

Apesar de saber que sua mania incomodava os outros não conseguia livrar-se dela. Optou por uma carreira onde não precisasse falar muito mas onde o conhecimento da língua fosse importante. Foi ser revisor de uma editora. Recebia o seu trabalho, corrigia as provas e devolvia com suas anotações. Mal saia de sua sala o dia todo.

Certa manhã, seu chefe veio lhe apresentar a nova produtora gráfica da empresa. Laís era o seu nome. Foi amor recíproco, à primeira vista. Começaram a se encontrar. Assim como em outras situações, Laís também achou que Dagoberto era um cara muito engraçado. De certa forma, até exótico. Adorava quando ele dizia que amá-la-ia até o final dos tempos.

Até o dia em que, na cama, ele soltou uma mesóclise em pleno ato. Aí ela achou que era demais e pediu que ele tentasse se controlar.

Por amor, Dagoberto refreou a língua. Era inimaginável perder Laís em função daquilo.

Quando sentia que as palavras iam saltar mesocliticamente da sua boca, ele interrompia a frase. Laís estranhou um pouco, mas entre o silêncio e o vício, ficava com o primeiro.

Marcaram o casamento. Juntos trataram de todos os preparativos. Um casal de pombinhos felizes.

Tudo corria bem, até o padre se dirigir a Dagoberto e fazer a pergunta clássica: Dagoberto, aceita Laís como sua legítima esposa....

Ele não teve dúvida e disse em alto e bom som: aceitá-la-ei.

Laís ficou rubra. Olhou nos olhos de Dagoberto. Enfiou o ramalhete na sua boca e o amarrou com a grinalda e saiu batendo os pés pela nave da igreja.

Dagoberto livrou-se da mordaça e gritou: Perder-te-ei, mas jamais transformar-me-ás num medíocre proclítico.

sexta-feira, 14 de agosto de 2009

Conticulóides alados

Columbiformes

Eles adoravam demonstrações públicas de afeto. Viviam de mãos dadas. Trocavam beijos e afagos onde quer que estivessem. Chegavam mesmo a constranger amigos e parentes. Eles nem davam bola para isso. Até o dia em que ela se empolgou e lhe lascou uma tapa nas nádegas em plena festa de aniversário de uma tia. Recebeu de volta um direto no queixo. Uma semana no hospital e três dentes perdidos.

Estrigiformes

De uma hora para a outra José começou a exagerar nos adjetivos quando se referia a Lúcia. Não que ela não tivesse qualidades, mas nem ela achava que era tudo aquilo. No dia da oficialização do noivado ela concluiu que era um caso de metamorfose. José, ao invés de lhe dar um anel, ofereceu um rato morto. Ela não pode recusar.

Lepidópteras

Sandra adorava se bronzear. Mas detestava os protetores solares, por isso vivia coberta de escamas e a pele variava de cor de acordo com a maior ou menor incidência dos raios solares. Provocou uma paixão avassaladora em um pintor que se encantou com as suas possibilidades cromáticas.

Anisópteras

Valéria era magrinha e irriquieta. Jorge, seu marido, meteorologista identificou nela uma fonte de informações. Quando estava muito acelerada era certo que o sol brilharia. Se diminuísse muito o ritmo, a chuva estava chegando. Em dias de céus nublado alternava comportamentos. Um dia Valéria, transtornada brigou com o marido e foi embora. Uma semana depois chegou o furacão.

Ciconiformes

Toda vez que se sentia ameaçada Beta pintava as unhas de vermelho intenso. Mário já sabia disso, quanto mais forte o rubro das unhas, mais cuidadoso ele precisava ser. Uma distração acabou com o romance. Vendo-a sem tinta nas unhas ousou além da conta. Não percebeu que sobre a mesa a esperava um vidro de vermelho cádmio.

quinta-feira, 13 de agosto de 2009

A volta da amiga

De tempos em tempos minha amiga me escreve. Seja para me orientar, seja para me contar seus temores e alegrias. Lendo o poema de ontem, me mandou a seguinte mensagem:

Depois, mal o sol acabou de nascer, o homem e a mulher foram pintar na proa do barco, de um lado e do outro, em letras brancas, o nome que ainda faltava dar à caravela. (José Saramago in O conto da ilha desconhecida)


Amigo dos amigos

Eu que andava à procura de algo, incansavelmente, me identifiquei quase discordantemente do seu poema.

Durante tanto tempo, meu coração bateu vazio, minha paixão não era correspondida, porque existia como paixão por alguém que eu supunha não existir.

Essa paixão beijava o vento. Abraçava o mar. E eu procurava.

As montanhas se interpondo no meu caminho. Nuvens carregadas me amedrontando. E eu continuei a procurar.

Me diziam que não era mais possível existirem ilhas desconhecidas.

Achá-lo era tudo que eu sonhava. E, como sonho, existia sim, existia como é.

Como sempre fora, sem que eu o soubesse existente.

Só não tinha me dito onde, como, quando. Na verdade, nem ele sabia essas respostas.

E procurei. E andei e andei e andei.

Olhei para o horizonte, como se eu pudesse lá achar uma resposta.

De repente surgiu. De longe, bem no meio dessa linha imaginária.

E eu senti a certeza . De que a minha procura não fora em vão.

Aquele que procurei...encontrei.

Seu encontro, como o meu, foram inesperados. O seu por não procurar, o meu por procurar o que só existia nos meus sonhos.

Seu encontro, como o meu, foram definitivos. Dá para sentir em cada palavra que você escolheu. Dá para sentir no meu dia-a-dia.

Que as nossas caravelas singrem os mares beijadas pelo vento, abraçadas pelo mar.

Que nossas ilhas, outrora desconhecidas, façam-se ao mar. Na eterna busca de si mesmas.

Beijos navegadores

quarta-feira, 12 de agosto de 2009

Nada procurava

Deve ser lido ao som de "I still haven´t found what I´m looking for"

Nenhuma montanha à minha frente,
nem por pastos verdejantes andei
no momento em que nada procurava
te encontrei

Muralha nenhuma me impedia
não corri, não sofri, não rastejei
no momento em que nada procurava
te encontrei

Não ardia de paixão minha vida
Não cantava os lábios que beijei
no momento em que nada procurava
te encontrei

Línguas de anjos, mão de demônios
Nem calor, nem frio eu passei
no momento em que nada procurava
te encontrei

Ao sentir a alma em chamas,
Meu coração descansarei
no momento em que nada procurava
te encontrei

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Bom de cama

Genivaldo não estava há mais que três meses no novo emprego quando a sua fama começou a se espalhar.

Quem primeiro fez o comentário foi uma cliente satisfeita. Depois outra disse a mesma coisa. Genivaldo era bom de cama.

A meninas da central de vendas logo repercutiram o fato, cada vez que alguém perguntava elas garantiam que bom de cama, mesmo, era o Genivaldo.

Segundo elas, enquanto outros funcionários não saíam dos armários, Genivaldo mostrava sua competência e habilidade na cama.

E não era em uma cama só. O repertório criativo do rapaz o fazia brilhar nas camas mais variadas, mesmo que fossem complexas.

O assunto começou a ficar mais sério quando alguns dos seus colegas passaram a reconhecer que não havia nada mais verdadeiro que aquela afirmação.

A própria diretora de marketing afirmou numa convenção de vendas que, por experiência própria, ela sabia que não havia ninguém melhor de cama na empresa que o Genivaldo.

E ele se orgulhava disso. Ainda que algumas vezes ficasse sem jeito quando lhe perguntavam sobre o tema.

Mas não se furtava a explicar os seus segredos. Falava a respeito do manuseio adequado. Do carinho com o que lhe caía nas mãos. Do uso dos recursos mais adequados a cada situação.

Mas um dia, Genivaldo resolveu voltar para a sua cidade natal. Recusou apelos para ficar, até do presidente da empresa.

Depois que ele foi, a fábrica de móveis nunca mais foi a mesma.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Maricotando

Durante essa semana me lembrei muito da minha avó Maricota. Era a minha avó que gostava de cozinhar (a outra gostava mesmo era de trabalhos manuais, especialmente crochet, e de tocar hinos na gaita). A casa da Maricota era onde nos reuníamos em família para os almoços de domingo. Nunca faltava um bom macarrão feito em casa. Além disso, sempre uma carne (fazia cabrito como ninguém), muita salada, pão e doces. Muitos doces.

Foi com ela que eu aprendi a fazer massa de macarrão, molho de tomate, temperar carnes. Dela vem meu gosto pela noz moscada. Só não aprendi a fazer pão, ainda que muitas vezes ela tem usado os meus braços para sovar a massa.

Me lembro que sempre que chegava o dia das mães ela nem ia à igreja para preparar um almoço de gala para todos. E eu achava isso uma grande contradição. Se ela era a homenageada era quem deveria ter um dia de folga e não de trabalho.

Mas ai de quem tentasse tirá-la da cozinha.

Hoje estiveram na minha casa, para comemorar o dia dos pais, dezesseis pessoas. Irmã, cunhado, pais, sogros, sobrinhos, filhos. A turma toda. E eu fui ontem para a cozinha, de onde só saí quase à meia-noite depois de acabar de fazer os bolinhos para comer com o café.

Além do que eu cozinhei ainda surgiram outras colaborações relevantes. Mas a questão não é o cardápio.

De repente, eu me lembrei do que eu pensava a respeito da minha avó na cozinha no dia das mães. E descobri porque ela não se deixava ser homenageada com uma folga. O maior presente realmente é ter o prazer de servir os demais.

Cozinhar, para mim, sempre foi um gesto de amor. Não faz o menor sentido ir para a cozinha se não for por alguém. Hoje eram 15 alguéns. Uma delícia.

A verdadeira homenagem é ter a família toda reunida em volta da mesa (na minha casa: na mesa, na mesa da cozinha, nos sofás...). O melhor agradecimento são os rostos satisfeitos com o que estão comendo e bebendo.

A Maricota é que sabia das coisas. O grande presente do dia disso ou daquilo é colocar a mão na massa e ter todo mundo em volta da gente.

domingo, 9 de agosto de 2009

O chocolate não menta

Já houve um tempo em que eu era fã de um chocolate chamado After Eight. Um chocolate bem fininho recheado com creme de menta.

O açúcar do chocolate contrastava com a acidez da menta dando um efeito delicioso.

Com o tempo fui me desacostumando de chocolates com pouco cacau e muito açúcar.

Atualmente só consumo chocolates amargos, nunca com menos de 70% de cacau.

Até um de 99% eu já consumi, um pouco forte demais. O meu preferido leva 85% de cacau. Nem olho o que são os 15% restantes.

No entanto, outro dia um boticário me relembrou das delícias da mistura da herbácea com a malvácea.

Ressaltou os efeitos terapêuticos para a pele, para a musculatura e para o coração.

Segundo ele, os efeitos bioquímicos dos radicais livre dos flavonóides combinados com as propriedades tonificantes das hortelãs são extremamente adequados especialmente em situações de tensão.


Além do que, a bipolaridade térmica dos elementos (o chocolate aquece, a menta refresca) faz com que a pele se contraia e relaxe, o que elimina eventuais rusgas.

Me recomendou enfáticamente o uso da combinação depois de exercícios intensos.

Como nunca é demais a gente se cuidar, chocolate com menta, aqui vou eu.

sábado, 8 de agosto de 2009

O masoquismo das Quintas

Quem acompanha esse blog já deve ter percebido que eu sou um melômano. Também descobriu que eu tenho outras manias, mas essas não vem ao caso, pelo menos agora.

Por isso que as minhas 5as feiras são dias de sofrimento. Me explico melhor.

Aqui em São Paulo temos uma coisa chamada rodízio de veículos. Uma vez por semana o carro não pode rodar na cidade. Para poder trabalhar eu troco de carro com o meu sogro. E o aparelho de CD do carro dele não funciona já há algum tempo.

Me resta o rádio. E começa o meu suplício. Sem música eu não sobrevivo. Com o repertório das rádios, corro o risco de suicídio sem assistência.

Antigamente a rádio Cultura me salvava. Mas os atuais programadores resolveram ser moderninhos e só tocam compositores obscuros do séc XVII ou similares do séc XX. Aí você descobre porque eles se tornaram obscuros. São chatos. As demais rádios que costumavam ser viáveis estão cada vez pior. Toca de tudo, menos música. Quer dizer, eles chamam aquilo de música, eu não.

Com raras e muito esporádicas exceções, nem as brasileiras, nem as estrangeiras, lembram remotamento do que seja melodia. Acho que não perceberam que o samba de uma nota só era repleto das demais notas, e misturam alhos com bagulhos.

A harmonia então é de doer. Saudades do tempo que falavam mal do rock´n´roll por esse estar baseado em 3 acordes. Três acordes, atualmente, é um luxo que nenhuma delas tem. Tem um, e olhe lá, deve ser Lá maior que o acorde mais fácil de se tocar na guitarra ou no violão.

Ritmo todas tem. O mesmo. Chama-se baticum. Inevitavelmente com uma bateria programada para não sair da mesma batida (será que podemos chamar de batuque contínuo?) e um contrabaixo executando um feijão com arroz sem sal.

Nesse deserto eu tento prestar mais atenção às letras. Vã esperança. Melhor prestar atenção no palavrão que o motorista da frente arremessa em mais um motoboy abusado. É mais rico semanticamente.

Isso quer dizer que a música chegou ao fim? De forma alguma. Continuo comprando discos de excelente qualidade. De músicos consagrados e de outros desconhecidos. Existe muita coisa boa sendo produzida. Mas parece que as rádios desconhecem completamente o fato.

Estou começando a achar que, apesar de abominar fones de ouvido, eu vou ter de comprar um aparelho de MP3...

sexta-feira, 7 de agosto de 2009

A menina do contrabaixo

Luana sempre gostou de música. Ainda pequena dormia ouvindo os prelúdios de Chopin que seu pai colocava ao lado de sua cama.

Conforme foi crescendo foi se apaixonando por cada um dos autores e dos instrumentos.

Passou pela fase do piano com Rachmaninoff. Depois do violoncelo com Bach. Violino só poderia ser mesmo com Paganini

Até do oboé de Vivaldi e da Clarineta de Brahms ela teve seus dias.

Já adolescente encontrou aquele que seria o instrumento da sua vida: o contrabaixo.

Tentaram dissuadí-la da idéia. Além do instrumento raramente ser propício ao virtuosismo, era grande demais para o tamanho de Luana.

Mas ela não arredou pé da idéia. Mesmo pequena e magrinha ela enfrentou o gigante das cordas.
Juntos fizeram tanto sucesso que Dragonetti teria orgulho de ouví-la tocando seus concertos.

Algumas vezes, mal dava para vê-la tocando o instrumento. Exceto por seu braços que o envolviam.

Ela o segurava com firmeza apoiando-o contra o seu corpo.

Com a mão esquerda acariciava suas cordas, com a direita o provocava com o arco ou dedilhando-o ora sutilmente, ora com vigor.

Ele retribuia com um som macio e profundo. As cordas vibravam de forma radiante.

Juntos formavam um só corpo sonoro.

Um amor sem fim, que tinha tudo para dar errado, mas se transformou no romance perfeito.

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Aforismos renitentes

Nenhuma metáfora, por melhor construída que seja, substitui a sensação de um beijo.

Algumas pessoas fazem versos, outras, são elas mesmas, a poesia.

Também poderia dizer: eu poeta, ela poesia.

Praticava a política de afagar pela frente e esfaquear pelas costas.

As antas, no zoológico, até que são bichos inteligentes.

O que me incomoda não é o pequeno número de interlocutores, mas o excesso curiosos.

Na falta de argumentos, ele partiu para os pontapés.

Amor que é amor é sempre o primeiro e o último.

Existe gente que não consegue enganar nem com as aparências.

Nenhuma declaração de amor, por mais sovada ou repetida, cansa quem ama.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Anisópteras e lepidópteros

Líbélulas e borboletas povoavam sua imaginação.

Líbelinhas carnívoras e borboletas vegetarianas

Umas de asas transparentes, outras coloridas

Umas velozes, outras lentamente suaves.

Umas amigas das águas, outras amigas das flores.

Suas líbelulas só costumavam aparecer no verão, perto das águas.

Curiosamente suas borboletas também, por menos provável que isso fosse.

Ambas tinham o hábito de pousar no seu ombro.

E assim foi durante toda a sua vida. Até o dia em que as borboletas mudaram de comportamento.

E ela passou a encontrar borboletas todos os dias.

Na maior parte das vezes à tarde. De vez em quando surgiam de manhã, quase sem aviso.

Como se fossem mariposas, chegaram mesmo a aparecer algumas noites.

Mudaram também seu rumo, trânsitando pelo peito e o abdomen. Sem parar.

Não se sabe exatamente onde estarão no próximo verão.

Certamente borboletas na barriga e líbelulas no ombro conviverão em paz

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Contículo adverbial de tempo

Hoje, logo que acordei, olhei pela janela. Primeiro na direção das montanhas, como faço de quando em quando.

Amiúde o faço também na direção dos prédios, mas de forma breve, imediatamente minha atenção se dispersa.

De repente, pousou na minha sacada, uma sabiá, que bicou sucessivamente a cheflera.

Às vezes a planta costuma revidar mas jamais de manhã. Costuma fazê-lo constantemente à noite, ainda que rapidamente.

Conclui que, hoje em dia, os seres vivos, dantes tranquilos e pacíficos, não esperam mais o amanhã para executar sua vingança.

Entrementes, observei uma revoada de pardais como jamais tinha visto. Agora vão pousar no parque, pensei.

Provisoriamente pararam sobre o pináculo do templo, outrora habitado por pombas.

Como o sino tocava de tempos em tempos, as columbiformes abandonaram o local e nunca voltaram.

Antigamente, antes que houvesse sino ou igreja, ainda era sempre possível se avistar até macucos.

Depois disso, então, foram-se as maritacas, em breve as andorinhas e, enfim, os colibris.

Ontem à tarde, alguns anus se arriscaram, depois a fumaça, ora negra, ora cinza, os espantou.

Cedo ou tarde não restarão nem os mosquitos. A qualquer momento, afinal, se extinguirão todos os seres aéreos.

Já que nada posso fazer, doravante deixarei de lamentar.

segunda-feira, 3 de agosto de 2009

Um vestido

Anita levantou mais tarde naquele sábado. Não tinha compromissos e podia aproveitar a cama.

Ao contrário dos seus hábitos cotidianos resolveu sair da cama pelo lado oposto que costumava fazer. Só para variar, pensou.

Nada poderia ter sido mais diferente do que isso. Ao invés de sentir o pé no chão, sentiu que pisava em algo não tão rígido.

Olhou. Era uma caixa. E das grandes. E ela não fazia a menor idéia do que se tratava.

Colocou-a em cima da cama e abriu. Não era possível.

Tirou lá de dentro o vestido que tinha provado há algum tempo e pelo qual se apaixonara, mas não pudera comprar.

Procurou por algum cartão, algum bilhete, algum sinal que pudesse dar uma pista da origem do mesmo. Nada.

Mas isso nem era o mais importante naquele momento. Vestiu a roupa nova. Ficou um bom tempo se olhando no espelho.

Estava tão feliz com a descoberta que dançou sozinha no quarto. Cinderella. Era a própria Cinderella.

Mas, quem seria a fada madrinha?

Depois de tomar café da manhã começou a investigar como o vestido chegara no seu quarto.

Ligou para a mãe. Essa não sabia nada a respeito. Falou com a melhor amiga. Também não.

Foi até a loja. Conversou com as vendedoras. Uma delas reconheceu o vestido.

Um homem tinha comprado aquele vestido, há mais de um mês. Descreveu-o.

Imediatamente Anita identificou a pessoa. Rodolfo. Lembrou que tinha comentado com ele a respeito do vestido.

Mas não poderia ser Rodolfo. A última vez que tinha vindo à sua casa também fazia mais de um mês.

Aliás, fora exatamente no dia em que os dois romperam o namoro. Como é que um presente chegara só agora?

Será que ele estava querendo fazer as pazes? Pensou em ligar, mas não queria parecer oferecida, nem renovar as esperanças dele.

Passou o resto do sábado e o domingo incomodada com o assunto. Quando chegou a noite do domingo não resistiu, ligou para ele.

Ele confirmou que o presente era dele. Quando ela falou do vestido seus olhos brilharam tanto que ele foi comprá-lo em seguida.

Na noite da separação ele deixou a caixa no hall de entrada e, quando ela foi para cozinha fazer o jantar, ele o escondera debaixo da cama.

Quando brigaram durante o jantar ele ficou tão zonzo que esqueceu do presente e foi embora.

Anita foi dormir revoltada com o assunto.

Na 2a de manhã esperou pela chegada de Zoé, a sua empregada. Perguntou sobre a caixa.

Zoé disse que encontrara a caixa quando fez a limpeza debaixo da cama na 6a feira anterior e que deixara sobre o tapete.

Anita sentiu um arrepio subir pela sua espinha e, ao mesmo tempo, o sangue ferver.

Mal esperou o fim da história de Zoé e a demitiu sumariamente.

Onde já se viu ficar 33 dias sem limpar embaixo da cama?

domingo, 2 de agosto de 2009

A obnóxia antologia de julho

Não vou nem reproduzir os comentários do post do Samuel senão vão ocupar todo o espaço da antologia, depois passe lá e dê uma olhada.

Do que eu publiquei, a seleção do mês é a seguinte:

Eu já tive vontade de comer telha...

...participar das insanidades , também é um pouco de lucidez!

...falou mais do que todos esses seus discípulos insanos juntos...

Nada mal descobrir que a paixonite do marido é por um porquinho-da-india

deveria ser pródiga com ela mesma

te imagino sentado no cadeirão com uma vara de pescar tentando catar as letrinhas no prato de sopa

grôstoli, calça virada ou cueca virada...

todos os olhos castanhos são azuis quando se está apaixonado.

...que droga é uma mulher inteligente e com os pés no chão!

eu também enfrentaria a maldição da ponte...

bem que eu desconfiava que você tinha outro nome...

Ô seo pervertido, descarado, sem-vergonha!!!

...deve ser como uma mulher entrar numa oficina mecânica sozinha

Funerária Boa Morte: "Seu azar é nossa sorte".

...eu, você e Aurélio; aí sim, formamos um lindo trio.

Agora estou rindo de mim...kkkk

E como será que é transar dentro de um porão?

sábado, 1 de agosto de 2009

Caminhadas

A caminhada começou pela floresta no alto da montanha.

As folhas amareladas denunciavam a estação. Atravessou as árvores sem dificuldades até chegar ao platô.

Do alto divisou toda a topografia que iria percorrer naquela tarde.

Passou pela clareira onde havia apenas mais uma suave elevação entre as fontes de águas límpidas.
Circundou uma cratera com cuidado e deslizou pela parte central do maciço.

Chegou ao planalto, a caminhada agora seria mais tranquila.

Usou a passagem que existia no meio dos morros gêmeos. Observou-os notando a ausência de vegetação. Continuou.

O planalto se estendia quase que totalmente plano. Nada mais que uma pequena depressão em todo o terreno.

Nesse ponto a vegetação começava a aparecer novamente. Primeiro rasteira, depois arbustiva.

Desse ponto avistava o vale que se bifurcava à sua frente. Seu objetivo não era ir tão longe naquele dia.

Já conhecia a região e sabia que atravessando os arbustos perfumados de jasmim poderia se refugiar na gruta.

Atravessou as plantas ainda úmidas de sereno. A entrada era estreita, mas permitia a sua passagem.

No interior dela se acomodou e aproveitou para alongar os músculos tonificados pelo exercício.

Ela o acolhia como a um bom companheiro. Ele retribuia respeitando seus direitos naturais.

Estava cansado e suado do passeio. Mas, como sempre, feliz por fazê-lo.

Subiu tudo de novo e voltou para casa tranquilo, já planejando a caminhada do dia seguinte pela outra face da montanha.