sexta-feira, 31 de julho de 2009

Romance policial

Por estranho que soe, meu amor atingiu tais atmosferas de loucura que se destituiu do que mais prezava, para além de qualquer esperança de recuperação (Heloísa para Aberlardo Séc XII)


Não se sabe bem ao certo o motivo, mas Filiberto não gostava de Abelardo, o namorado de sua filha, Heloísa.

Alguns achavam que era a diferença de idade. Abelardo era bem mais velho que sua amada, quase da idade de Filiberto.

Outros atribuíam a uma discussão quase nominal sobre política.

Seja lá qual fosse o motivo, o pai proibiu a filha de encontrar o desafeto.

O que não significou muito. Heloísa, estudante de direito, contava com a cobertura de sua amiga Cibele, que trabalha no distrito policial do bairro.

Sempre que saia avisava ao pai que iria até a delegacia, onde, supostamente, estava fazendo estágio.

Abelardo sempre entrava pela porta dos fundos. Heloísa pela entrada principal. Juntavam-se no porão que, no passado, tinha sido usado para interrogatórios.

Quando não conseguiam se encontrar enviavam, através de Cibele, cartas um ao outro, em linguagem cifrada.

Tudo corria bem, até o dia em que Heloísa se descobriu grávida. Não tinha como esconder isso do pai, até porque ainda não tinha idade para casar sem a autorização dele.

Abelardo, encheu-se de coragem e foi conversar com Filiberto. Quase apanhou. No fim acabou por convencê-lo de que era melhor o casamento do que a vergonha.

Acreditando que estava se vingando Filiberto declarou que, naquele estado, sua filha só se casava na frente do delegado.

E assim foi, em plena segunda-feira, comemoraram as bodas na delegacia.

quinta-feira, 30 de julho de 2009

Minhas férias

Eu me lembro muito bem. Todo março e todo agosto a primeira lição de português era a fatídica redação : Minhas férias.

Não sei quantas eu tive de escrever na marra. Quantas eu enrolei tanto quanto podia.

Agora chega o meu filho de 10 anos e, sem que ninguém tenha pedido (aliás, nem acabaram as férias), ele pega o seu caderno e escreve a respeito dos dias que passamos num hotel em Itapira.

O texto abaixo é a transcrição letra a letra do seu texto. Não, ele não fazia a menor idéia de como se escrevia Snooker.


Minhas férias - Fazenda Águas Claras

por Samuel Adiron

Eu fui com a família na Fazenda Águas Claras. Lá existiam muitos cavalos

Eu e a família adoramos viajar, e com muitas emoções.

Lá descobrimos muitos pés de café.

Eu, papai e a Letícia fomos andar de cavalo.

Aí eu, a família e mais visitantes andamos de caminhão.

Durante a noite a gente contou estrelas. A gente foi no passeio da floresta.

Eu brinquei de 2 jogos: ping-pong e o esnuquer.

A gente foi pescar. Eu, a mamãe e o papai tivemos com muita sorte de pegar 1 peixe.

Eu e a minha família e + visitantes fomos até na cachoeira


Descrição da imagem : foto do Samuel com uma vara de pescar e a tilápia que ele mesmo pescou.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

Ruminantes urbanos

Eu não gosto de chicletes. Não consigo imaginar nada pior que um pseudo-alimento que não se pode engolir

A mastigação de um chiclete gera a produção de suco gástrico sem alimentos e favorece o processo de gastrites e úlceras, além de sobrecarregar a mandíbula causando bruxismo e problemas na dentição.

A alegação de que mascar chicletes alivia a tensão não me convence. Existem alternativas mais saudáveis. Beba um cházinho.

Pior do que isso, a imagem de qualquer mascador me lembra sempre de ruminantes no pasto.

Alguns desses ruminantes, para agravar a situação, o fazem de boca aberta, o que torna o espetáculo algo horripilante.

Por uma questão de gênero, sempre reparei mais em mulheres do que em homens. E sempre nutri um certo desprezo pelas mascadoras.

O chiclete, além de afetar a estética, ainda tem um agravante. Acaba com qualquer romantismo.

Afinal, mulheres que mascam chicletes não podem ser beijadas de repente. A menos que você goste de sensações bizarras.

Também não podem receber abraços mais fortes, sob risco de engulirem o confeito ou, repentinamente, soltarem uma bola na sua cara.

Como não aprecio substâncias plásticas no meu nariz e a doçura que me atrai num beijo não é a do xarope de glicose continuarei afastado do látex edulcorado.

terça-feira, 28 de julho de 2009

Risada tem hora

Elvira era uma moça recatada e tímida. Mesmo assim tinha um namorado atrás do outro e ninguém conseguia entender porque seus namoros não davam certo. Era bonita, inteligente e, vencida sua timidez, um papo muito agradável.

Antonio, que era ainda mais tímido, sempre amara Elvira à distância. Se amargurava a cada namorado novo que ela arranjava. Regozijava-se cada vez que sabia de mais uma separação.

Um dia bebeu um pouco demais e, sem perceber, declarou-se a Elvira que o acolheu. Ele comemorou com um misto de alegria e temor, afinal, não sabia porque os namoros de Elvira não funcionavam e morria de medo de ser apenas mais um na lista.

O namoro prosperou, ao contrário da expectativa geral. Eles davam-se bem, tinham gostos similares e eram bastante tolerantes com os defeitos do outro.

Até que Antonio abusou de novo do gin e, num arroubo de coragem, convidou Elvira para ir a um motel. Ela hesitou um pouco, mas Antonio insistiu e ela aceitou.

Foi lá que Antonio descobriu o tão bem guardado segredo de Elvira. Quando estavam no auge do auge, a mulher rompeu num ataque de risos como ele nunca tinha visto antes.

Ele parou imediatamente, ofendidíssimo. Disse que não era nenhum atleta sexual mas que também não chegava a ponto de ser uma comédia.

Elvira desdobrou-se em desculpas e explicações. Falou que não tinha como controlar aquela situação. Que sua risada era a constatação de Antonio fora bem sucedido.

E era verdade.

Antonio era tão apaixonado por ela que, aos poucos, foi se acostumando. As primeiras vezes foram difíceis. Depois correram sem problemas.

Até o ponto em que Antonio ansiava pela gargalhada esdrúxula de Elvira. Sim, esdrúxula porque era diferente de qualquer outro tipo de risada que ela desse em outras situações.

Enfim, depois de algum tempo, eles se casaram. Durante a lua de mel se divertiam com a cara dos demais hóspedes do hotel que os olhavam como se fossem bichos estranhos.

Também se acostumaram com os vizinhos de apartamento. Nem o comentário do vizinho de baixo que, um dia no elevador, disse que a sua mulher era muito alegre, tirou Antonio do sério.

Até o dia em que Antonio ouviu a risada de Elvira enquanto o elevador subia. Desceu no seu andar e ficou parado na porta. Estarrecido. Nunca a ouvira rir daquele jeito.

Pensou em entrar e pegá-la no flagra. Desistiu. Afinal de contas, o que é que ele faria diante de tal cena ? Virou as costas e foi embora. Nunca mais voltou.

Mandou apenas um telegrama onde dizia: "Não achei graça nenhuma".

segunda-feira, 27 de julho de 2009

A falácia de Drummond

Eu sou um grande fã do Drummond, aquele cara que um anjo mandou ser canhoto. O que não significa que eu concorde com ele o tempo todo.

Aliás, acho-o tremendamente falacioso quando escreve seu poema Consolo na praia.

Primeiro porque o poema não traz consolo nenhum. Sempre fiquei em dúvida se sua sugestão de se lançar nun nas águas é uma forma de libertação ou uma incitação ao suicídio.

O ponto crítico do poema, no entanto, é quando ele diz:

O primeiro amor passou.
O segundo amor passou.
O terceiro amor passou.
Mas o coração continua.


Como assim ? Primeiro, segundo, terceiro ? Ainda virão outros?

Amor que passa assim tão despreocupado não é amor nenhum. Até acredito que a pessoa amada possa passar, mas se era amor mesmo, o sentimento não passa nunca mais.

Ah... você vai me dizer que aquele sentimento passou? Então devia ser uma paixão momentânea. Podia ser uma atração intelectual ou física, talvez um carinho diferente.

Amor que é amor é único.

Amor que é amor não diminui nunca (outra falácia, a idéia de que o amor atinge um auge e depois se acomoda), mas aumenta a cada dia.

Amor que é amor é sempre o primeiro e o último.

Amor que é amor, é incondicional. Não exige, não culpa e, por isso, não precisa de perdão.

E só acontece uma vez na vida.

domingo, 26 de julho de 2009

Honi soit qui Magne y pense


Mal acabara de digitar tardígrado o epodo quando começou a ter fosfenos.

Como rejeitara a anacirtose de forma pugnaz imaginou que pudesse se apenas uma anostose

Uma mera odontagra que não iria escarnar naquele momento, não estava disposto a uma nova deutergia.

Fossou seu vade-mecum em busca de uma rima assonante para Lepanto, sua ode não tolerava melas.

Ele, outrora uma pessoa precatada, se transformara num cardiomegálico desde que Bartira entrara na sua vida. Vivia trunfado, como se alênteses em tropel o desautorassem.

Olhou para a engra. Ao longe divisou uma amerim de dois arretéis que lhe pareceu edível, espantou a iraxim que lhe sobrevoava e deglutiu-a de uma chispada.

Já pitosga com o entardecer catassol depositou o texto sobre o oleado e, lábrego, vestiu sua simarra como se fora uma adarga

Nenhuma osfiite seria velame para a sua paixão. Às favas a psicroterapia, essa pantalonada cosicada.

Sua vida agora seria só de halalis

O jesuíta Augusto Magne foi autor de um dicionário da língua portuguesa, de um dicionário etimológico da língua latina e do Glossário da demanda do Santo Graal. Foi fundador da Academia Brasileira de Filologia.

sábado, 25 de julho de 2009

O anel que tu me destes

Anita sentiu alguma coisa estranha na mão, e não era a grama do parque. Olhou para Rodolfo que não entendeu a sua expressão de surpresa.

Entendeu menos ainda quando ela se levantou do seu colo e começou a escavar a terra ao seu lado. Ficou olhando.

Nas mãos de Anita surgiu um aro de metal, parecia apenas uma arruela suja e enferrujada. Mas ela percebeu que era mais do que isso.

Apanhou a bolsa, tirou um frasco de sabonete líquido e um lenço de papel. Limpou cuidadosamente a sua descoberta e mostrou para Rodolfo.

Era um anel. Um anel de prata. Mais do que um simples anel. Era uma aliança, tinha alguma coisa escrita por dentro que nenhum dos dois conseguiu ler.

Pelo diâmetro ela concluiu que era a aliança de um homem. Por quê estava enterrada ali, perto do lago? Será que ele pensou em jogá-la na água e desistira?

Talvez uma última esperança? Se jogasse no lago estaria perdida para sempre. Enterrada junto a uma das árvores ele ainda poderia ir buscá-la caso a amada voltasse para ele.

Quem sabe.

Ela guardou o anel na bolsa mas, logo que chegou em casa pegou uma de suas lentes e foi ver o que estava escrito. Rodolfo também estava curioso e foi junto.

A inscrição trazia um nome. Boo. Provavelmente um apelido. Será que a mulher da aliança era parecida com a Boo do desenho animado?

Antes do nome o desenho de um coração. Depois do nome uma data: 27 de abril de 2008. Mal fazia um ano que o dono do anel o tinha recebido.

Anita e Rodolfo imaginaram hipóteses. Todas elas concluiam que o amor tinha sofrido um baque muito sério para o anel ter tal destino. Por que tão rapidamente?

Resolveram guardar o anel. Se para Boo e seu namorado tudo tinha acabado. Para Anita e Rodolfo aquele círculo representava mais um componente da conspiração que os unia.

Adotaram a aliança de prata como símbolo.

Eles que nunca tinham trocado alianças entenderam que não podiam ter uma cada um, mas um único círculo, sem começo nem fim.

quarta-feira, 22 de julho de 2009

Desafiando Pablo

Muitas vezes eu já cometi traições por aqui.

Recentemente, aprendi com um leitor anônimo do blog que, além de trair eu poderia também desafiar (veja nos comentários aqui)

Por isso hoje eu me arrisco a um desafio. Com a vantagem de que o desafiado não pode reclamar do que fiz com o poema dele.

Pablo queria cinco coisas.
Muitas menos quero eu.
Sobrevivo sem o outono,
inda que seja belo.

A primavera é perfumada,
mesmo assim dispensável.
No inverno me basta o conforto dos seus braços
No verão o teu sorriso me refresca.

Mas, do teu olhar não abro mão
Nas manhãs, noites e madrugadas.
E em primeiro e último: o amor.
Teu amor sem começo nem fim

O original desafiado


Y sólo quiero cinco cosas,
cinco raíces preferidas.
Una es el amor sin fin.

Lo segundo es ver el otoño.
No puedo ser sin que las hojas
vuelen y vuelvan a la tierra.

Lo tercero es el grave invierno,
la lluvia que amé, la caricia
el fuego en el frío silvestre.

En cuarto lugar el verano
redondo como una sandía.

La quinta cosa son tus ojos,
Matilde mía, bienamada,
no quiero dormir sin tus ojos,
no quiero ser sin que me mires:
yo cambio la primavera
por que tú me sigas mirando.

Pablo Neruda em Pido silencio

terça-feira, 21 de julho de 2009

Programa macabro

Minha profissão sempre me fez aprender muito a respeito de produtos e mercados. Especialmente a respeito de pessoas. Como elas lidam com essa ou aquela categoria de produtos, quais são os seus desejos, suas necessidades, seus sonhos.

Desde que me tornei consultor o leque de produtos diferentes com os quais trabalhei e trabalho se ampliou bastante, provocando os mais diversos exercícios de imaginação.

Tenho de admitir que alguns produtos eram, digamos assim, incomuns ou inusitados.

Mas nunca pensei que eu receberia um convite para a Funexpo. Aliás, nunca imaginei sequer que pudesse existir uma Funexpo. E, mesmo que soubesse, nunca imaginaria que eu teria de ir em uma.

Ao contrário do que pensou uma amiga, não é uma Exposição Fun. De divertida não deve ter nada. É uma feira circunspecta e lúgubre.

A Funexpo é a feira das Funerárias. Vai acontecer em Setembro, na cidade de Santos.

Acostumado a participar de feiras, congressos e exposições, fico imaginando como será essa.

Suponho que todos os stands são pintados de preto, em sinal de luto. As recepcionistas, muito provavelmente, devem ser cadavéricas com a maquiagem carregada na palidez e nas olheiras.

Os corredores todos devem ser decorados com coroas de flores. A iluminação deve ser muito discreta e o serviço de som só toca requiems.

Não quero nem pensar quais são os slogans das empresas expositoras, mas certamente alguma deve usar o clássico "das cinzas às cinzas, do pó ao pó" ou, "resquiat in pacem".

O jantar de confraternização dos legistas vai ser animado por um coral de carpideiras. Já no happy hour dos coveiros só será executado o toque de silêncio.

Me avisaram que o tema do Congresso, que acontece junto com a feira será "Aqui estamos e por vós esperamos".

Já separei meu terno preto e minha gravata roxa para o evento. Vai ser de morte.

segunda-feira, 20 de julho de 2009

O reino de Arsinoé

A vida não era fácil para nenhum dos dois. Tinham muito trabalho e, quando chegavam em casa mal tinham tempo um para o outro.

O que não significa que não aproveitam cada segundo disponível que tinham. Apaixonados desde sempre, nem a falta de tempo era capaz de arranhar o seu amor.

Mas sentiam falta de algo mais. Algo que permitisse que eles retomassem a dedicação dos primeiros tempos. Algo que os permitisse ir além do que já tinham ido.

Não sabiam exatamente o que poderia ser. Nem por onde começar a procurar.

Até o dia em que Arsinoé entrou na vida deles.

Foi ela que descobriu a mulher. Comentou com ele a possibilidade. Ele estranhou, afinal ela sempre fora refratária a essas coisas. Desconfiado, aquiesceu.

Ela conversou com Arsinoé e deixou claro que eles não eram exatamente um casal moderninho. Nunca tinham feito aquilo.

Arsinoé pediu que não se preocupassem. Não era a primeira vez dela. Talvez sentissem um certo constrangimento no começo mas, aos poucos, iriam se libertando dos preconceitos e, quando menos percebessem já estariam acostumados com a prática.

Quando conversaram naquela noite eles ponderaram os prós e os contras. Resolveram arriscar.

Ele quase desisitiu quando soube que isso envolveria roupas e equipamentos especiais. Mas ela insistiu que seria bom para os dois e que, afinal das contas, Arsinoé era uma profissional.

Ela perguntou se ele queria conhecer Arsinoé antes que ela começasse a frequentar a casa. Ele disse que não, ela o conhecia bem o suficiente para saber do que ele gostava ou não.

Na segunda-feira seguinte Arsinoé chegou cedo. Perguntou da roupa e das ferramentas. Ela lhe entregou um pacote fechado e mostrou onde poderia se trocar. Disse que a esperaria na cozinha.

Ele estava acabando de tomar café na sala. Ela o chamou para conhecer a mulher. Ele hesitou.

Quando entraram na cozinha Arsinoé já estava de uniforme lavando a louça.

Naquela mesma noite saíram para jantar. O que não faziam há tempos. Brindaram à chegada da nova rainha do lar.

domingo, 19 de julho de 2009

Escrivaninha

Alberto entrou no quarto e deu de cara com a escrivaninha. Voltou para a cozinha, onde Rebeca preparava o jantar, e perguntou o que era aquilo.

Rebeca nem se virou e disse que tinha comprado o móvel para ela. Que queria guardar algumas coisas pessoais.

Ele a questionou se as gavetas do armário não eram suficientes. Públicas demais, ela respondeu, eu preciso de um pouco de intimidade.

E nada mais disse. Nem ele perguntou (mas se roía de curiosidade para saber o que ela ia colocar lá).

No dia seguinte Rebeca pegou uma cadeira, sentou-se defronte à escrivaninha e começou a organizar gaveta por gaveta.

Na primeira colocou os seus segredos de trabalho. O que a diferenciava de todos os demais profissionais da sua área.

Na segunda guardou os segredos de infância. Tão caros que ela forrou a gaveta com um retalho de veludo.

Pegou um pouco de plástico bolha para guardar seus segredos amorosos. Todos tão frágeis.

Outra gaveta guardava os segredos que só ela conhecia do seu corpo. Com cuidado acomodou a pinta que tinha disfarçada na púbis.

Guardou seu segredos culinários. Os segredos literários. Os segredos sem importância.

Quando chegou à última gaveta, fechou a escrivaninha. Trancou, certificou-se de que estava bem lacrada e começou a pensar onde guardar a chave.

Colocou no colar que nunca tirava. Ninguém, nem Alberto, saberia o que estava lá dentro.

Naquela noite Rebeca dormiu feliz e em paz, como nunca antes na vida.

Com a escrivaninha vazia de matéria, e repleta de sonhos.

sábado, 18 de julho de 2009

Sem pomelo

De vez em quando todos nós temos desejos. Apesar da lenda, esses não se limitam à mulheres grávidas. Eles podem ser isolados ou recorrentes.

Eu tenho um que é recorrente e, apesar de nem sempre ter a oportunidade de satisfazê-lo, quando o faço nunca me arrependo, que é o de beber suco de pomelo.

O pomelo (Citrus maxima) é uma fruta que vegeta e produz em regiões das mais variadas condições ecológicas, ou seja, é possível consumí-lo em latitudes variadas, mas os melhores são os procedentes das Astúrias.

Os frutos podem ser consumidos ao natural, com seu sabor inigualável ou em sucos que conseguem extrair o que há de mais essencial deles.

O pomelo combina a forma de uma laranja grande e a cor amarela de um limão, ainda que também existam variedades de cor verde, semelhante à pele de uma lima. Eu, particularmente, não tenho nenhum interesse nessa variedade de cores. Sou um purista e só gosto dos amarelos, os demais não me seduzem.

A tonalidade de sua polpa é variada e atrativa e vai do amarelo ao roxo, passando pelo alaranjado. Imagino que isso tenha alguma relação com o estado de espírito do pomeleiro.

Mas um fator importante é que esta polpa é rica em carotenóides, pigmentos que lhe conferem a cor alaranjado-arroxeado, especialmente nas extremidades.

Os carotenóides destacam-se no campo da nutrição por sua função antioxidante, e consequentemente, fazem muito bem para o coração.

Além dos carotenóides, o pomelo também é, como os demais citros, rico em vitamina C, que possui funções importantes em nosso organismo, entre as quais o fortalecimento do sistema imunológico e da resistência física, como se fosse uma forma alternativa de ginástica.

O pomelo possui um sabor menos doce que o da laranja, menos ácido que o do limão e algo de amargo, o que não significa que produza alguma amargura, mas que lhe confere particularidades que lhe são únicas.

Deve sempre ser consumido fresco, o que, aliás é certamente a melhor forma de aproveitar o seu sabor. Não recomendo fazer estoque da fruta, pois em cada colheita ela surpreende com efeitos que não tinha percebido antes.

Hoje eu vou dormir sem suco de pomelo, é uma pena, mas na minha primeira oportunidade, vou atrás dele.

quinta-feira, 16 de julho de 2009

Envelhecendo com classe



Sempre que viajo para fora do Brasil vou atrás de discos de músicos locais. Foi assim que descobri Los prisioneiros no Chile, Lask na Alemanha e Lavay Smith em New Orleans.

Em 1987 fui para a Argentina e voltei com dois LP´s de um cara que começava a fazer sucesso por lá. Um se chamava Giros e o outro Corazón Clandestino. O sujeito era um pouco mais novo que eu, alguém da minha geração.

Tentei acompanhá-lo por um tempo mas, já nessa época, nossas lojas de discos ignoravam solenemente a América Latina e foi só quando os Paralamas do Sucesso começaram a fazer um intercâmbio com os nosso amigos del Sur que os seus trabalhos começaram a chegar por aqui, assim como os de Charly Garcia, bem mais velho que ele.

Ele tem uma coleção de sucessos que vão do rock explícito a baladas românticas. Era fã de uma Gibson Les Paul e tinha uma aparência que lembrava uma mistura de rockeiro com jogador de futebol argentino da década de 70.

Eu fui envelhecendo. Ele também. Suas músicas não deixaram de ser alegres e agitadas, mas começaram a ganhar um componente que não tinham, maturidade.

Maturidade nas melodias, nas letras, nos arranjos e nos temas. No seu penúltimo disco "El mundo cabe en una cancion" isso é evidente. Ele não fala mais como membro da juventude transviada, mas como um homem caseiro e como pai.

Outro dia descobri que seu último disco tinha saído no Brasil. É de um show que fez em Madri no ano passado. Comprei.

O disco não traz músicas inéditas, mas é como se fossem. A abordagem dos seus grandes sucessos é tão diferente das gravações originais (talvez com exceção de Un vestido y una flor) que parece outro músico.

Da primeira à última música ele se debruça sobre o que parece ser um Steinway com uma delicadeza incomum para quem já tinha cantado La naturaleza Sangre. É acompanhados por violoncello, por trompete , claro, por excelente guitarras acústicas.

Além disso, não se envergonha de trazer convidados que tem vozes muito melhores que a dele. Gente do quilate de Joaquin Sabina, Pablo Milanes e Gala Evora.

No sé si es Baires o Madrid é o novo disco de Fito Paez. Compre o disco, o DVD, faça download para o seu iPod, ouça no You Tube. Vale qualquer coisa, mas não perca o passeio pela roda mágica.

Ah...a aparência dele também mudou. Agora já tem cara de ser um senhor.

E eu só trocaria "11 y 6" por "13 y 5", mas cada um gosta mais de alguns números que outros.

quarta-feira, 15 de julho de 2009

Conticulóides sinestésicos

Trauma
No meio da viagem acabou a luz e os dois ficaram presos no elevador. Constrangidos começaram a conversar sobre amenidades, esperando que alguém os viesse resgatar. Os minutos passavam sem que ninguém aparecesse. Ela foi ficando nervosa e ele, sem jeito, não conseguia tranquilizá-la. Tentou abrir a saída de emergência sozinho. Ela gritava e chorava. De repente a luz voltou e o elevador partiu para o seu destino. A partir daquele dia ele passou a usar as escadas, se acontecesse de novo ele era capaz de enforcá-la.

Ilusões
Todos os dias ela caminhava no parque. Todos os dias ela cruzava com ele no meio do caminho. Todos os dias se cumprimentavam com um sorriso. Todos os dias ela achava que ele ia ao parque só para vê-la. Todos os dias se perdia no seu devaneio. Até o dia que ele passou com outra. Parou de caminhar e engordou 15 quilos.

Ferocidade
Saiu na chuva sem olhar para trás. Estava decido a acabar com tudo de uma vez, não podia mais contemporizar aquela situação, a indecisão o fazia sofrer demais. Atravessou a rua fora da faixa, foi xingado por um motorista apressado. Parou na porta da loja, ela estava no caixa. Entrou. Ela olhou para ele mas, antes que pudesse perguntar qualquer coisa, ele a tomou nos braços e a beijou longamente. Todos os demais clientes aplaudiram.

Digestão
Ele sempre saia para caçar borboletas na floresta que ficava perto da sua casa. Além de aumentar sua coleção, a atividade lhe servia como exercício físico. Um dia, caminhando à margem do rio que atravessava a mata ele a viu tomando sol, nua, sobre uma das pedras da corredeira. Boquiaberto não notou a Pyrgus malvae que vinha em sua direção e se engasgou ao engolí-la. Ela percebeu e, imediatamente o socorreu. Desde então ele nunca mais deixou de sentir borboletas na barriga.

terça-feira, 14 de julho de 2009

Invasão de privacidade

Quando eu passei pela porta da loja, as duas me olharam com cara de desconfiadas. Não era a primeira vez, certamente não será a última que eu praticava essa invasão de privacidade.

Ainda jovem e solteiro eu já aprontava dessas. Afinal de contas, que lugar melhor para comprar presentes para uma mulher do que numa loja de artigos femininos?

Já comprei vestidos, saias, blusas, perfumes. No sábado passado foi numa loja de roupa esportiva para mulheres, onde fui comprar uma para a minha sobrinha que fez aniversário.

Sempre tenho a impressão que estou violentando um habitat onde eu não deveria entrar. Sei que isso soa muito machista mas, nesse caso específico, quem está sendo machista são as vendedoras e as clientes dessas lojas, que me fuzilam com seus olhares.

Não faço a menor idéia do que passa pela cabeça delas. Se eu sou um curioso, um assaltante ou um tarado. Certamente nunca me imaginam como um possível cliente.

Se, nas lojas de roupas, eu recebo esses olhares intrigados, pior são duas outras situações. Outro dia entrei numa loja de perfumes em busca de um gloss (não, eu não estou usando gloss) e duas clientes que estavam no balcão, observando-me olhar os tubinhos, disseram: os perfumes masculinos estão do outro lado...

Imbatível mesmo, quase hilariante, é quando invento de entrar sozinho numa loja de lingerie. Mesmo porque, se estou acompanhado de uma mulher eu só passo por marido repressor o que parece não incomodar. Primeiro as vendedoras ficam olhando umas para as outras tentando se livrar da obrigação de me atender.

Quando finalmente uma delas é enviada para o sacrifício, ela nunca sabe muito bem o que me oferecer (mesmo quando sou explícito sobre o que quero comprar). Quando acho o que quero, a vendedora nunca se arrisca a me oferecer algo mais (como faria com qualquer outra cliente).

Ainda não descobri se no universo do habitat feminino existe algum tipo de loja mais restrita do que essa. Mas se tiver, uma hora vou visitar só para saber o que é que acontece...

segunda-feira, 13 de julho de 2009

Contículo adverbial intenso

Eu já tinha ouvido bastante, mas nunca era demais saber que aquele excesso proverbial se estendia muito além da retórica. Tudo que ela dizia me alegrava por completo.

Muitas vezes eu tentei ser tão poético quanto ela. Era impossível, ela me dizia tudo e eu nada podia fazer além de escrever versos.

Quanto mais eu tentava alcançá-la, menos conseguia diminuir o intervalo que se ampliava.

Talvez eu fosse assaz otimista, acreditando que quase chegaria a seus pés. Mas ela sempre foi bem mais rica em metáforas, aliterações e rimas.

Quão rapidamente me dei conta disso. Me deixei levar de todo. Ela me envolvia de muito, intensamente.

Conclui finalmente que, como eu, muitas pessoas fazem versos, outras poucas, são elas mesmas, a poesia.


Os advérbios de intensidade têm uma característica particular, pois além de intensificar o verbo, eles podem intensificar o sentido de adjetivos e de outros advérbios

domingo, 12 de julho de 2009

Alta traição

Nikolas Lenau (1802-1850) foi um poeta austro-húngaro romântico. É muito pouco conhecido no Brasil, exceto por alguns admiradores de Alban Berg que musicou alguns dos seus versos.

Esse é um dos que compõe o conjunto das 7 canções da juventude de Berg. Se quiser, pode ouví-lo aqui

Admito que é um caso de alta traição:

A canção do junco

Por trilhas secretas da floresta
Ao rio me achego ao entardecer
Aos juncos vou, solitária fresta,
Meus pensamentos de ti encher

Escurece o bosque o anoitecer
Sussuram os juncos um mistério
Lamentam juntos meu triste ser
Choram comigo meu choro sério

Como ouvindo namoro da brisa
Suave e doce ecoa sua voz
E, pelas águas, lenta desliza
Encantada em direção à foz

Claro, se você é um purista que prefere o original, aí vai:

Schilflied -Nikolas Lenau

Auf geheimem Waldespfade
Schleich’ ich gern im Abendschein
Na das öde Schilfgestade,
Mädchen, und gedenke dein!

Wenn sich dann der Busch verdüstert,
Rauscht das Rohr geheimnisvoll,
Und es klaget und es flüstert,
Dass ich weinen, weinen soll.

Und ich mein’, ich höre wehen
Leise deiner Stimme Klang,
Und im Weiher untergehen
Deinen lieblichen Gesang.

sábado, 11 de julho de 2009

A ponte de Lhanbryde

No caminho de Lhanbryde, Escócia, havia uma ponte de pedra em Robertson Road que, segundo a lenda, se atravessada sozinha, faria com que a pessoa que o fizesse passasse o resto dos seus dias sem um companheiro.

Os mais velhos garantiam que, caso a pessoa fosse solteira, morreria solteira. Se casada, enviuvaria em breve. Por via das dúvidas ninguém se arriscava a desafiar os poderes da ponte.

Tamanha era a preocupação com o assunto que as autoridades municipais colocaram, de cada lado da ponte, um aviso a respeito, para que os viajantes e turistas não sofressem as consequências da maldição.

Um dia, vindo de Moss of Burmuckitty, Mawkishly se aproximou da ponte disposto a destruir todas as superstições locais. O rapaz era conhecido pela sua coragem, mas nunca tinha chegado a esse ponto.

Esperou o entardecer para que o movimento diminuísse e, quando achou que não havia mais ninguém por perto, foi em direção à ponte.

De longe, alguns amigos o observavam, incrédulos. De perto, Mawkishly sentia um frio na barriga, apesar de valentão ele era um sentimental e sabia que estava colocando em jogo o seu futuro.

Colocou o primeiro pé no piso de pedra, respirou fundo e foi.

Estava tão concentrado na sua empreitada que nem percebeu que, no mesmo momento, uma moça que estava do outro lado do rio, aproveitou que ele entrava na ponte para também fazer a sua travessia.

Quando chegou à metade do percurso Mawkishly levantou a cabeça e deu de cara com os olhos azuis de Maudlin. Quase se aborreceu, mas quando Maudlin, sorrindo, lhe agradeceu por atravessar com ela, ele se derreteu todo.

Quando conseguiu se recompor disse para ela que, na mesma data, dali a um ano, estariam rindo juntos. Foi o que aconteceu. Casaram-se um ano depois e, para comemorar, atravessaram de mãos dadas a ponte.

Desde então, as novas gerações de Lhanbryde cantam os poderes casamenteiros daquela que, outrora, era a ponte da solidão.

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Hai Kais sazonais


Mulher caprichosa
Em que enseada aportou
Para invernar?

Menina manhosa
Alongada no colchão
Feliz primavera

Jovem mimosa
Sonho intraduzível
Frescor outonal

Voluptuosa
Destila através dos lábios
Verão sensual

*Haikai (Haïku ou Haicai) é um forma poética de origem japonesa, surgida por volta do século XVI, que valoriza a concisão. O haikai é a arte de dizer o máximo com o mínimo. Cada haikai capta um momento de experiência, um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado, a natureza humana, a vida

terça-feira, 7 de julho de 2009

Lavender blues

Lavender's blue, dilly dilly, lavender's green,
When I am king, dilly, dilly, you shall be queen.
(Canção folclórica inglesa do séc XVII)



Marcelo estava naquela fase em que os meninos viram poetas. Apaixonava-se uma vez por mês. Tomava um fora com a mesma frequência.

Fosse para conquistar alguma garota, seja para afogar as suas mágoas, ele escrevia. Aos borbotões.

Em alguns poucos intervalos entre uma desilusão e a paixão seguinte, ele dedicava-se a procurar as melhores frases, as palavras justas, o soneto perfeito.

Para isso lia os clássicos da poesia, um atrás do outro, fazia anotações e enchia o seu caderno de rascunhos.

Um dia, em um dos livros, deparou-se com a foto de um campo de lavandas. Ficou encantando com a cena provençal.

Não só a flor era bonita, como também fornecia um dos perfumes mais suaves do mundo.

Depois de várias tentativas, chegou aquela que considerou sua melhor metáfora : "Como flores de lavanda seus olhos se espalham pelos campos da minha alma..."

Além de ter todas as palavras no lugar, ainda poderia ser usada em uma redondilha. Resolveu guardá-la para o dia que encontrasse a mulher perfeita.

Claro, no caso de Marcelo, a mulher perfeita era a próxima paixão, e não demorou muito para aparecer.

Conheceu Sônia numa festinha da escola. Era irmã de um dos seus colegas.

Depois de umas semanas de flerte resolveu declarar-se, com um poema, é claro. Convidou-a para ir ao shopping e depois de tomarem um sorvete, sentaram para conversar.

Foi a sua deixa, Tirou o papel do bolso e disse que tinha feito um poema para ela. Ela sorriu envaidecida.

Nem bem ele tinha começado a ler, Sônia levantou-se chorando e foi embora. Perplexo, Marcelo correu atrás dela, perguntando o que tinha acontecido.

Ela olhou nos seus olhos e disse: " - Eu estava gostando de você e, de repente, você me mostra essa poesia dizendo que gosta de outra".

"- Como assim, de outra? Eu fiz o poema para você..."

Sõnia chorou ainda mais alto, a ponto de chamar a atenção das pessoas que passavam por eles.

" Para mim ? Seu hipócrita..., para mim? Campos de lavanda? Meus olhos são castanhos, você já viu lavanda castanha?

E foi embora.

Naquele dia Marcelo descobriu que a melhor metáfora não resiste à realidade.

segunda-feira, 6 de julho de 2009

Bolinho com café


Não é todo dia, aliás é muito raro mas, de tempos em tempos, eu me arrisco na seara dos pratos doces.

Nada me melhor do que a ociosa tarde de um domingão para brincar na cozinha e lá fui eu fazer bolinhos. Aqui em casa são conhecidos como crosty (não me perguntem por que), nome que veio junto com a receita que aprendi com a bisa Lina.

Tudo indica que a origem do bolinho é italiana, pois a mãe da bisa já fazia. Não tem muito truque, talvez apenas o acabamento trançado.

A trança é feita fazendo-se uma fenda no meio do retângulo e passando uma das pontas por dentro da mesma, quase como se estivéssemos enrolando uma meia.
O bolinho não fica muito doce, na hora de comer (tomando-se um café ou um chá), cada um escolhe o seu complemento que pode ser mel, açúcar misturado com canela ou alguma geléia.

Ingredientes :

½ kg de farinha de trigo peneirada
5 colheres de açucar peneirado
1 ( ou 2 ) ovos inteiros + 1 gema
3 pitadas de sal
2 colheres de sopa de óleo
2 e ½ colheres de chá de fermento em pó
1 xícara de leite

Preparo :

Dissolver o fermento no leite
Abrir a farinha em forma de vulcão, colocar o açucar no meio
Colocar os demais ingredientes e misturar
Amassar até a massa ficar lisa e dar ponto
Abrir com o rolo
Cortar em retângulos. Abrir uma fenda no meio e trançar
Fritar numa panela funda com bastante óleo


domingo, 5 de julho de 2009

Contículo apostrófico


Ó Leonor, não caias. Olha, amada minha, a canção que vos ofereço, E vós, querida minha, podes vos machucar.

Lembrai-vos, ditosa mulher, o mar salgado, um pouco desse sal, são lágrimas do meu amor.

Moça, que fazes aí parada? Leonor, ó Leonor dos meus suspiros, o que fazes que não me respondes ?

Perdei vosso medo, vida da minha vida, e deixai que minha mão, esteio desse amor, vos ampare.

Apenas vosso pensar, querida, de se deixar cair em braços outros, fazem dos meus dias, curtos e longos dias, uma tristeza sem fim.

Leonor, felicidade minha, perfume dos meus olhos, cor saborosa, brilhante voz, não me abandones.

A vós, e somente a vós, ninguém mais, vos ofereço um coração.

apóstrofe: consiste na interpelação enfática a alguém (ou alguma coisa personificada).

sábado, 4 de julho de 2009

A mulher do capitão

Todos os dias no fim do dia, Rachel ia até o porto para se despedir de seu namorado, o capitão da balsa que liga a ilha ao continente. Todos os dias pela manhã, ela voltava para receber o seu namorado, o capitão da balsa que chegava. Uma rotina que durou anos a fio.

O que o capitão da balsa não sabia era que ele não era o único na vida de Rachel, havia um outro, que era o capitão da balsa.

Na verdade, duas balsas faziam a ligação entre aquele fim de mundo e a cidadezinha do litoral, alternadamente. Quando uma delas estava indo para a ilha, a outra voltava para continente. Menos aos finais de semana. A balsa que chegava na sexta feira só voltava no domingo à noite. A outra chegava só na 2a feira de manhã.

Como que Rachel conseguiu seduzir Antonio e Henrique ninguém nunca soube. Mas todos na ilha sabiam o que acontecia. Como os dois só se encontravam no meio da travessia, mas nunca pessoalmente, não sabiam que eram amantes da mesma mulher.

Mesmo os moradores do continente, que chegavam a passar alguns dias na ilha, acabaram entrando no jogo daquele segredo público.

Rachel recebia seu capitão da manhã, o levava para casa onde lhe oferecia comida, amor e repouso antes da viagem de volta. Como eram homens de portes similares, ela se encarregou de comprar roupas e pijamas que os dois compartilhavam sem saber. Quando um deles não encontrava alguma roupa que procurava ela dizia que estava lavando.

Antonio e Henrique amavam Rachel, que amava os dois, sem distinção.

Até o dia da grande tempestade.

Numa quinta-feira, um vendaval assolou a ilha no fim do dia e continuou noite adentro. Henrique estava acostumado a navegar na chuva, mas naquele dia concluiu que o risco seria exagerado. Foi até o navio, chamou sua base no continente pelo rádio e avisou que não voltaria naquela noite.

Voltou para casa e avisou Rachel que tinham ganho um fim-de-semana prolongado, já que ele só voltaria no domingo. Rachel até que gostou.

O que ela não contava era com o fato de que a tempestade não chegara ao continente, e a balsa de Antonio zarpou normalmente naquela noite.

No dia seguinte ela acordou com o apito da balsa entrando na enseada. Olhou para o seu lado na cama e Henrique estava lá. Como não esperava o outro barco dormira até mais tarde.

Empalideceu quando se deu conta de que as duas embarcações estavam na ilha. Pelos seus cálculos não teria mais do que uma hora para pensar no que fazer.

Levantou com cuidado para não acordar Henrique. Foi até a cozinha. Não, não daria tempo nem de tomar um café. Pegou a bolsa, encheu com o dinheiro que guardava no fundo da geladeira, pegou algumas roupas que estavam para passar e desapareceu.

Antonio chegou na casa aborrecido porque Rachel não o estava esperando no cais. Foi direto para o quarto e deu de cara com Henrique roncando, pior, usando o que ele julgava ser o seu pijama. Os vizinhos só ouviram os gritos e o quebra-quebra. Depois o silêncio.

Naquela noite a primeira balsa voltou para o continente sem capitão. Dentro dela Rachel recordava os seus anos de felicidade, mas sabia que tudo tinha acabado.

Quando chegou ao continente, para onde não ia desde que começara seus romances, pegou o primeiro ônibus para o interior.

Nunca mais viu o mar.

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Estranho amor

Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas...
Manuel Bandeira

Ela começou a estranhar suas atitudes no dia em que ele disse que tinha esquecido algo no carro e demorou quase meia hora para voltar da garagem.

Ele andava com um olhar estranho, ou melhor, o olhar até que não era tão estranho assim, mas há mais de 20 anos que ela não o via daquele jeito. E a última vez tinha sido com ela.

O mais estranho é que não dava nenhum sinal clássico. Pelo contrário, começou a chegar em casa mais cedo que o normal. Passava mais tempo com as crianças no play ground. Estava mais social com os vizinhos.

O cúmulo do absurdo foi o dia em que ele resolveu ir na reunião de condomínio, depois de mais de uma década sem ir. Aí tem coisa, ela pensava.

Começou a fazer uma marcação mais cerrada e não demorou muito para ver que ele sempre estava nos mesmos lugares que a ruiva do oitavo andar.

A ruiva levava as crianças para o salão de jogos do prédio...e logo depois ele convidava as crianças para brincar. Quando ela saia para levar as crianças na escola, ele estava na portaria, saindo para sua caminhada matinal. Entendeu até a história do condomínio, a outra tinha sido eleita sub-síndica.

Mas ele não havia nenhuma prova de que os dois estivessem tendo um caso.

Até o dia em que ela olhou pela janela e o viu acariciando a perna da ruiva. Entrou no elevador pronta para detonar com os dois.

Saiu bufando em direção ao páteo. Quando estava perto dos dois ele levantou a a mão...onde tinha uma bola peluda.

"Olhe que lindo !" ele disse, mostrando o porquinho-da-índia. Ela ficou roxa de vergonha. Não era a perna da ruiva que ele acariciava, era o bicho.

"Eu tive um quando era pequeno, quando morreu fiquei tão triste que meu pai nunca mais me deixou comprar outro..."

Ela não sabia se se escondia ou se morria de dó do marido apaixonado pelo roedor.

Por via das dúvidas, no dia seguinte marcou consulta no oculista.

quinta-feira, 2 de julho de 2009

Cada um com sua tara

Eu sempre gostei da língua portuguesa, aprendi a ler cedo e nunca sofri demais fazendo a tradicional redação sobre as minhas férias. Mas foi só na 8a série que comecei a me interessar mais pelas palavras em si. Suas origens, sua história e seus usos. O mérito foi do professor Mariano no Colégio Rio Branco. Graças a ele que eu, com 14 anos, já sabia o que era uma exegese.

A minha história de amor com os verbetes se aprofundou na faculdade, duas mulheres foram as alcoviteiras desse romance, as duas professoras de Português: Beth Brait e Nina Lourenço (da primeira fui monitor, pela segunda nutri um xodó tardio por professoras).

Com o tempo fui aprendendo outras línguas e, nelas, também fui descobrindo maravilhas etimológicas e morfológicas. Até o latim passou a me interessar por ser a grande fonte de três das quatro línguas que eu consigo ler razoavelmente bem.

Por isso não consegui me segurar muito tempo quando minha prima me indicou a leitura de Tingo - o irresistível almanaque das palavras que a gente não tem. Corri para a livraria para buscar o meu exemplar.

O livro é um estudo muito bem humorado de palavras e expressões que só existem em suas línguas origem.Onde mais se descobre que itsuapork quer dizer, numa palavra só, "ir muitas vezes à porta de casa para ver se a pessoa vem vindo" ?

Mesmo que você não seja um tarado por palavras como eu, deve comprar e ler o livro. É muito divertido, a leitura é leve e é um grande estimulador da imaginação e da criatividade.

Além do que, se você for convidado para uitwaaien aradupopini, que tipo de resposta vai dar? Aceitará de bom grado ou soltará um palavrão em direção a quem lhe convidou?

Se te propuserem um mengggerumut, você topa ou foge? Pode ficar tranquilo, não é nenhum animal selvagem.

Como eu tenho meu ongubsy, posso convidá-la tanto para uma coisa como para outra.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A fabulosa antologia de Junho

Caros leitores e comentaristas

Nesse mês passado vocês se superaram...certamente é uma das melhores antologias do blog.

Aos que chegaram agora, leiam os comentários, e se deixem levar pela imaginação. É muito divertido.


...sempre começo a ler ingenuamente acreditando que é sério.

Amores impossíveis sempre deixam um rastro de dor...

...o fato é que era sábado de Aleluia e ele partiu.

Sacanagem pouca é bobagem... hahahahaha

...parece que o ser humano tem irreprimível inveja dos outros animais.

Acho que você TEM que escolher algum(ns) comentário(s) meu(s) só pra não me decepcionar.

...elas poderiam vir carregadas de ironia, cinismo, histrionismo...

...as emanaçoes do gás que a pitonisa de Delfos inalava foram é parar em suas narinas!

uma aranha antropófaga e uma profecia trágica...

Ui!!! Fiquei com medo!

...insanidade é substantivo, e o pior, substantivo comum...

aquela fase em que a mulher deixa de representar o papel de Chapeuzinho Vermelho e resolve encarar seu lado Lobo Mau

se voce considerar divertido chegar em casa e ver seu intrumento musical vandalizado...

o ser humano tem irreprimível inveja dos outros animais

Hummm, então o nome dela é Victória!

Subi o morro com uma mulher há trinta e um anos e ela está comigo até hoje

vou pegar este texto e distribuir como corrente...