terça-feira, 30 de junho de 2009

Agite antes de usar

Muitas pessoas costumam acreditar que o amor e, especialmente, as paixões são coisas passageiras e que não merecem cuidados ou atenções especiais. Eu não.

Aliás, não só não acredito nisso, como acho que as paixões deveriam vir junto com advertências oficiais. Para isso fui pesquisar o assunto e descobri que algumas usadas em outras situações se aplicariam muito bem.

Do elevadores poderíamos usar o texto : "antes de entrar nesse amor, assegure-se de que o mesmo encontra-se parado nesse andar". Esse simples cuidado pouparia muitas pessoas de se apaixonarem por outras que não estão dando a menor bola para elas. Resolveria todos os problemas de rejeição e amores não correspondidos.

Por outro lado daria prejuízo para os psicólogos.

Da indústria farmacêutica várias situações são aplicáveis. A mais importante delas é que todo amor deveria vir com a lista de possíveis efeitos colaterais, ou seja, se você embarcar nessa nunca vai poder dizer que não sabia o que poderia acontecer.

Alguns amores provocam sonolência. Seja pelo tédio, seja pelos efeitos endorfínicos. Não é recomendado operar nenhuma máquina nessas circunstâncias.

Claro que nunca podemos esquecer de alguns romances precisam de umas chacoalhadas. Agite antes de usar.

Os maços de cigarro são exemplos ricos de advertências que todo amor deveria ter. A mais antiga é a de que a paixão pode provocar dependência física e psiquíca, o que, basicamente, todo mundo sabe, mas não pensa a respeito.

Na minha opinião a mais importante da advertências nicotínico-amorosas é : não existem níveis seguros para consumo destas substâncias. Quem acha que se apaixona de forma light, ou que é apenas uma aventura, está apenas enganando a si próprio. Uma vez dentro os acontecimentos decorrentes do consumo do amor são absolutamente imprevisíveis.

Por fim o mercado de bebidas.

Eu adoro o texto das etiquetas dos vinhos : Válido por tempo indeterminado, desde que armazenado adequadamente. O Drummond já diria que o amor não tem prazo de validade, mas precisa ser bem cuidado para durar, senão azeda.

Não esquecendo a mensagem das propagandas de cerveja. Se amar, não dirija. Quem ama de verdade perde completamente o rumo.

segunda-feira, 29 de junho de 2009

Corroendo analogias

Tema : Mata a cobra e mostra o pau.

Variações

Mostrar a cobra é que seria normal

Coitadinho do animal

Anti-ecológico e cara-de-pau

Não tem dó de picapau

Depois verseja no sarau

Um programa dominical

Uns penduram no varal

Outros preferem o jirau

Gera um medo irracional

Insanidade colossal

domingo, 28 de junho de 2009

Ponto de encontro

Ponto de encontro esquecido
Perdido no tempo-distância
Ânsia de ver
Ânsia de ser
Exato

Ponto de encontro passado
Ser capaz de um dia esquecer
Vontade de achar
Vontade de amar
Sem nexo

Ponto de encontro afastado
Desperdiçado em dias
Solto no escuro
Solto e não mudo
O fato

Ponto de encontro na tela
O dedo aperta o gatilho
Máquina roda
Som na vitrola
E mudo

Encontro do ponto de fuga
Começa nova sessão
Foto na tela
Rosto que é dela
Poema

sábado, 27 de junho de 2009

Conticulóides desastrosos

Solecismos

Andréa era professora de português. Amava de tal forma João que jamais implicou com os seus constantes erros gramaticais. Seus colegas e alunos não se conformavam com esse estranho romance. Um dia descobriu que ele a estava traindo com uma colega etimologista. Matou-o com três tiros. Tolerava barbarismos, mas não essa barbaridade.

Sismos

Encontrá-la foi como se o chão tivesse se aberto debaixo dele. Todas as suas certezas, todos os seus hábitos e todos os seus paradigmas ruíram repentinamento e ele se deixou levar pelo calor da lava no centro da terra. Mas foi expelido numa erupção de fúria e, cristalizando-se, tranformou-se apenas numa rocha inerte.

Terrorismos

Marcela era irritantemente ciumenta. Nem com todo o amor do mundo Sílvio sabia mais como lidar com isso. Apelou para o sarcasmo. Cada vez que ela lhe perguntava algo ele respondia com brincadeiras a respeito de suas outras 18 namoradas. Ela tinha ganas de enforcá-lo mas não se deixava vencer. Um dia ele acordou algemado, amarrado à cama e sufocado por gás lacrimogênio. Mas não entregou nenhum nome.

Abismos

Manoel sabia que a distância que o separava de Amélia era monumental. Os contrastes entre os dois eram insuperáveis e, por mais que ela se esforçasse para não reforçá-los, eles apareciam a todo momento. Um dia Manoel chegou transformado. Tomara um banho de loja, fizera um curso sobre música clássica e comprara um monte de presentes do gosto dela. Quando viu aquilo Amélia levantou e foi embora. Não podia suportar tanta perfeição.

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Desvendando o inconsciente

O mundo realmente é formado por pessoas ingênuas que acreditam em qualquer besteira que alguém diga, desde que a besteira pareça crível ou totalmente incrível. O que as pessoas não suportam são os estados intermediários entre esses dois pontos.

Uma coisa parcialmente crível ou parcialmente incrível costuma gerar dúvidas e as pessoas detestam qualquer teoria que as obrigue a pensar.

Se, para completar, a besteira é dita por alguém que consiga manter uma aparência de credibilidade, melhor ainda pois, além de se qualificar como algo que dispensa raciocínio, ainda pode ser repetido citando-se uma fonte academicamente aceita.

Veja por exemplo a teoria do inconsciente coletivo. A versão oficial sobre esse conceito é a de que é a camada mais profunda da psique humana, constituída pelos materiais que foram herdados por toda a história da humanidade. Seria nessa camada que residiriam os traços funcionais (imagens virtuais) que seriam comuns a todos os seres humanos.

Bonito, não é mesmo? Pois é, tão bonito que as pessoas acreditam nessa besteira, sem saber a verdade a respeito do assunto.

Para começar, poucos sabem que o verdadeiro nome do cientista a quem foi atribuído esse conceito era Charles Gus Young, um caipira da Dakota do Oeste. Mas um caipira nunca seria valorizado na Ivy League, então seus seguidores criaram o mito de que a teoria era de um psicanalista suiço que, de fato, nunca existiu.

Existem rumores que alegam que foi o próprio Charles Young criou acidentalmente esse falso codinome, uma vez que não sabia soletrar o seu próprio nome e acabou comendo e trocando muitas letras.

Deixemos a mitologia a respeito do homem e foquemos na história de sua obra. Young era garçom de uma birosca em Walhalla quando passou a observar o comportamento das moças que frequentavam o local. Apesar de semi-analfabeto, era um sujeito detalhista e notou que havia um padrão nesse comportamento.

Um dia, ao entregar a conta para um cliente, soltou uma frase que o eternizou : "Em lugares públicos as mulheres sempre vão ao banheiro em grupos. Não pode existir nenhuma outra explicação, senão o fato de que elas estão ligadas umas às outras através do seu inconsciente coletivo."

O cliente, que era um decadente professor de antropologia, olhou-o estarrecido e resolveu levá-lo até a a escola onde deveria fazer uma palestra sobre as origens das tribos apenínicas na América e, ciceroneando-o, exclamou:

"Simia quam similis, turpissimus bestia, nobis!". (ou seja, ouçam, suas bestas, o que esse símio tem a falar).

Durante a palestra, Young completou suas conclusões empíricas sobre o tema, demonstrando que não só as mulheres só entram em banheiros em coletivos femininos, como também elas tem uma perfeita sincronia que as leva ao banheiro sempre aos 17 minutos depois do início de cada hora, exceto durante o horário de verão.

Depois disso, nunca mais se ouviu falar em Young, nem se sabe se existem descendentes seus em Walhalla. Talvez por isso mesmo sua teoria tenha sido tão distorcida.

quarta-feira, 24 de junho de 2009

Non imprimatur Basílio

No momento em que o badameco adentrou o pacoval como se fugisse do aresto nunca pensou que sua artralgia acabaria gerando anasarcas.

Naquele momento pesou que fosse uma anga que provocava amelopia, ou uma páfia nefalista.

Não se tratava de uma balda qualquer. Pensou em se inumar em algum canto lôbrego. Estava poento e coberto de pituí. A faina o deixara azarolado.

Escandiu aravias com a impostação dos noitibós. Famanaz, alçou as entrepernas e, sem aforro mirou o píncaro antélio.

De repente, topou com uma regada coberta de arômatas. Veio-lhe à cabeça uma écloga metagógica como um cainho.

Sobressalteado mofou do arenã e retomou seus piténs e cacundês.

Basílio de Magalhães (1874-1957) nasceu em Barroso (MG), localidade na época parte do município de Barbacena. Atuou como jornalista, professor, administrador, político, vindo a falecer na cidade de Lambari-MG. Escreveu vários livros e deixou diversos escritos, entre discursos, artigos, prefácios, etc. Foi fundador da Academia Brasileira de Filologia

terça-feira, 23 de junho de 2009

Um baile

Tu, ontem,
Na dança
Que cansa,
Voavas
Co'as faces
Em rosas
Formosas
De vivo,
Lascivo
Carmim;
(Casemiro de Abreu)

Houve um tempo em que não passava de um sonho.
Uma imagem clara, ainda que distante, num grande salão.
Tocava a valsa e ela rodava na minha cabeça.
E eu a amava nos meus sonhos.

Veio o tempo em que se tornou real e palpável.
Muito além de mera reflexão, numa sala de largos tacos.
Tocava o bolero e eu a conduzia pela mão.
E eu a amo bailando nos meus braços.

Virá o tempo em que se eternizará em mim.
Uma fusão presente nas pistas da emoção.
Tocarão todos os ritmos e iremos de braços dados
E eu a amarei no salão de bailes da minha vida.

domingo, 21 de junho de 2009

Contículo irônico

Clarisse e Lídia se adoravam. Colegas de classe, nunca perdiam a chance de cutucar uma à com a sutileza de um elefante numa loja de cristais.

A cada encontro entrebeijavam-se porque não podiam se morder.

Como aquela tarde numa das mesas da cantina. Clarisse escorregou no piso molhado e esborrachou-se com as nádegas no chão.

Lídia logo acorreu em sua direção : " - Está tudo bem ?"

" - Estou muuuito bem!" redarguiu Clarisse, "melhor só se depois disso você me desse um pontapé".

"- Você está intolerante hoje", Lídia comentou com um riso entre os dentes.

" -Não diga, meu amor! Isso só acontece quando dou esse tipo de espetáculo"

"- Sei lá, acho que esse tombo foi só para disfarçar o fato de que você foi tão bem na prova que nem tirou a nota mínima"

" Nem poderia mesmo. "A excelente Dona Inácia é mestra na arte de maltratar seus alunos."

" Meu anjinho, briga com todos que estão por perto."

Antes que as duas se atracassem, chegou o professor de literatura portuguesa mandou que cada uma das adoráveis garotas fosse para um lado, dizendo:

" - Moças lindas, bem tratadas, três séculos de família, burras como uma porta: uns amores!*"

ironia: é a figura que apresenta um termo em sentido oposto ao usual, obtendo-se, com isso, efeito crítico ou humorístico.

* adaptação de Mário de Andrade

sábado, 20 de junho de 2009

Traição romântica

Admito que estou chegando no limite da petulância. Trair Byron pode me trazer alguns desafetos. Mas a traição é um vício difícil de curar:


Anda à noite a sua beleza
Límpida, lépida e brilhante
No melhor das trevas acesa
Reflexo do olhar radiante
Aquecer o céu tal pureza
Que a aurora prefere distante.

Seja mais sombra, menos luz
Algo velava aquele encanto
Qual onda nas trevas reluz
Do seu olhar fez recanto
Que doces memórias conduz
Ao lar, querido e sacrossanto

Naquela face, só seus olhos
Eloquentes em meio à calma
Vencem o riso, somem abrolhos
Triste dia na mão se espalma
Em paz removem tais escolhos
Descansa inocente minh´alma

Tudo bem, você prefere o original, aí vai :

She walks in beauty

She walks in beauty, like the night
Of cloudless climes and starry skies;
And all that's best of dark and bright
Meet in her aspect and her eyes:
Thus mellowed to that tender light
Which heaven to gaudy day denies.
One shade the more, one ray the less,
Had half impaired the nameless grace
Which waves in every raven tress,
Or softly lightens o'er her face;
Where thoughts serenely sweet express
How pure, how dear their dwelling place.
And on that cheek, and o'er that brow,
So soft, so calm, yet eloquent,
The smiles that win, the tints that glow,
But tell of days in goodness spent,
A mind at peace with all below,
A heart whose love is innocent!

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Nunc et semper

... o rei a escolhera como parceira intelectual e amante. Amor que começa como adoração é o que fica. (Luís Fernando Veríssimo in Um rei secreto)

No dia que Elisabete chegou à ilha ela logo reparou que as nuvens encobriam o topo do morro. Achou estranho. A topografia não era tão íngreme para que isso acontecesse. Mesmo assim não era possível ver o pico.

Instalou-se na casa. O barqueiro ajudou a descarregar as caixas com mantimentos. Ela pagou o homem e combinou dele vir buscá-la um mês depois. Finalmente estava isolada do mundo.

Depois de algum tempo sentada na grama, resolveu explorar aquela que seria a sua moradia pelos próximos 30 dias. Encontrou tudo no lugar, como tinham contado para ela. Inclusive as orientações sobre o funcionamento do gerador, que ela não pretendia usar, e do rádio, caso acontecesse alguma emergência.

Apesar de afastada do mundo, a casa tinha algumas conveniências modernas. O fogão era à gás (que também alimentava o aquecedor de água), a cozinha era bem equipada, os móveis eram confortáveis. Se quisesse usar tinha até uma máquina de escrever no escritório.

Bete não fez questão de quase nada, exceto o fogão. Queria passar um mês de paz e sossego, sem ter de se preocupar com nada que lhe lembrasse o seu cotidiano.

No primeiro dia acordou tarde mas depois, como dormia assim que escurecia, passou a se levantar muito cedo. Passeava na praia, depois preparava seu café da manhã.

Lia, escrevia e voltava a caminhar. Depois de um semana já tinha conhecido quase que a ilha toda, menos o morro, que continuava enevoado.

Quando já estava na ilha há dez dias teve uma surpresa. Caminhava pela praia quando, ao longe viu um barco encontando na areia. Parou e ficou olhando. Pensou em se esconder mas não teve tempo, o homem que atracava a viu e chamou-a.

Ela não sabia se se aproximava ou se corria para a casa. Pensou em ligar o rádio e pedir socorro. Mas não conseguiu se mexer. Estava travada de medo.

O homem chegou mais perto e lhe perguntou se ela sabia qual era o nome daquela ilha. Precisou perguntar de novo até ela sair daquela estado de estupor.

Ela então respondeu que a ilha não tinha nome, mas que estavam a três horas de barco de Alcobaça.

Ele explicou que tinha saído para uma navegação solitária, mas que seu GPS tinha quebrado e ele estava perdido, há dias navegava sem rumo quando avistou o morro da ilha.

Quando percebeu que ele não era perigoso, Bete ficou mais tranquila. Ofereceu-lhe comida e perguntou se queria usar o rádio. Ele aceitou a comida, mas disse que precisava descansar um pouco antes de sair navegando de novo.

Durante a tarde ele descarregou o barco e começou a montar uma barraca na praia. Ela ficou em dúvida se o convidava para a casa, afinal estava cheia de quartos vazios. Ficou com receio de dar impressão de outras coisas, mas falou para ele que podia usar um dos banheiros e a cozinha.

Nos dias que se seguiram eles se conheceram melhor durante as caminhadas. Descobriram que ambos estavam em busca de solidão e tranquilidade por motivos semelhantes. Em determinados momentos um ou o outro se fechava. O outro entendia e respeitava. Havia alguma atração mas, ao mesmo tempo, um certo distanciamento.

Um dia ele perguntou porque ela nunca tinha ido até o morro. Se era perigoso. Ela disse que não sabia, mas algo naquelas nuvens provocavam nela um certo temor. Ele perguntou se ela iria com ele. Ela hesitou, mas concordou.

Na manhã seguinte mudaram a rotina, tomaram café e depois partiram em direção ao morro. As nuvens continuavam lá, como se fossem um desenho imóvel.

Ela falou muito pouco durante o caminho. Por algum motivo que nem ela sabia explicar, as nuvens a assustavam. Ele percebeu e falava bastante para tentar distraí-la da preocupação.

A medida que se aproximavam, o caminho se tornava mais difícil. Tiveram de circular algumas pedras. Nas mais difíceis ele lhe dava a mão. Sentia que ela suava frio. Mas confiava no seu apoio.

Quando chegaram ao topo do morro sentaram, pegaram a garrafa de café e ficaram olhando o mar entre as nuvens. Ela relaxou. Ele olhou para o seu rosto tranquilo e, sem pensar no que estava fazendo, a beijou. Ela retribuiu o beijo como se esperasse por aquilo.

Sem dizer nada, ficaram apenas olhando um para o outro. Até que o sol começou a incomodar os dois.

As nuvens tinham desaparecido.

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Desaforados aforismas

Não me julgue pela aparência. Por dentro eu sou muito pior.

Autocondescendência é a melhor definição de auto enganação.

As histórias de amor não deveriam ter fim*

Quem conta um conto diminuindo um ponto está cheio de más intenções.

Nunca jogue seus problemas para o alto, eles voltam na sua cabeça.

Sucesso por acaso é a ilusão dos incompetentes.

O que aparece nem sempre é o que parece.

Dizem que nada dura para sempre. Eu me preocupo é quando o sempre não dura nada.

*Esse não é meu, mas da minha prima Virginia, mas achei tão bom que precisava publicar.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Quadrilha à pururuca

Eu não sou dado a competições. Já houve um tempo em que eu me degladiava por uma mísera medalha de lata (algumas ainda estão aqui enferrujadas em alguma gaveta), não sei as mudanças ideológicas ou a idade me afastaram desse tipo de rinha. Não me acho melhor ou pior por ganhar ou perder alguma coisa.

Outra atividade que não faz parte do meu repertório são as festas juninas. Aquele negócio de se caricaturar de caipira do século passado e passar a noite comendo pipoca e bebendo quentão está longe de ser um programa atrativo.

Mas confesso que eu fiquei tentado a participar do concurso de música junina de São Luiz do Paraitinga. Pensei em levantar nos meus arquivos de memória as duas ou três melodias que eu assassinei na minha adolescência, fazer uma transcrição para viola e me candidatar.

Afinal, não é todo dia que uma premiação me apetece como a desse concurso. Quando digo apetecer eu não estou sendo metafórico, mas literal. Quando vi o cartaz anunciando o evento fiquei com água na boca.

Qual outro concurso oferece ao ganhador, além de um troféu e prêmio em dinheiro, um leitão à pururuca? Mesmo se não conseguir ganhar ainda tenho a chance de receber a galinha caipira pelo segundo lugar ou o cuscuz oferecido ao terceiro colocado.

Até me imaginei no pódio. Ao invés de beijar a taça, eu daria uma abocanhada no leitão ou arrancaria uma coxa da galinha (não, não sei qual seria a minha reação com o cuscuz). Alternativamente poderia imitar a pose dos campeões mundiais de futebol e levantar o suíno sobre a minha cabeça, mostrando-o para a torcida.

O troféu poderia enfeitar minha coleção (que já tem dois ganhos no ano passado), o dinheiro pagaria umas contas. Mas o consumo do leitão deleitaria minhas papilas gustativas.

Seria a glória absoluta. Ainda que sic transit gloria mundi assim seria passageira a pururuca do leitão.

segunda-feira, 15 de junho de 2009

Mistura e manda

Algumas vezes a criatividade nada mais é do que promover a combinação de coisas que eram julgadas como incompatíveis. Certamente muita gente deve ter torcido o nariz quando primeiro cuca resolveu colocar um molho doce num prato salgado, para depois sair elogiando a novidade.

Muitas das receitas de grandes chefs que eu experimento fazer tem essa característica. Já fiz pato com molho de café (da Carla Pernambuco), já misturei suco de limão com creme de leite (para muitos uma heresia) e um dos pratos recorrentes aqui em casa é o lombo de porco com mel e alecrim (grande invenção do Bassoleil)

Diante de uma peça de filet mignon que eu tinha no freezer fiquei pensando no que fazer que não fosse simplesmente a repetição de pratos anteriores. Concluí que deveria assá-la e, depois, pensar num molho que fosse diferente.

Comecei com a minha receita de filet com azeitonas. Temperei a carne com sal e pimenta-do-reino, depois fiz um caldo com azeite, alho, louro, alecrim, salsa e cebolinha e derramei sobre a mesma. Deixei descansar um pouco para pegar o tempero e levei ao forno coberta com papel alumínio. O filet mignon é uma carne muito macia e não precisa de muito tempo para assar, depois de meia hora tirei o papel alumínio para deixá-la mais corada, adicionei batatas que eu havia cozinhado apenas com sal.

E o molho? Minha primeira idéia foi de apenas fazer um molho à base de creme de leite com algum ingrediente diferente (anis ? páprica doce?) mas, ao entrar na despensa, dei de cara com as latas de atum e resolvi fazer um molho tonné (ou tonnato para os italianos). A primeira reação foi: mas um molho frio numa carne assada? A segunda foi: vamos ver no que é que dá.

Num liquidificador coloquei uma lata de atum e uma de aliche (depois de escorrer o óleo de ambas), um pouco de azeite (apenas o suficiente para as pás do liquidificador começarem a girar) e fui acrescentando, aos poucos, maionese. Quando a consistência estava pastosa temperei com flocos secos de alho e um pouco de pimenta-do-reino. O sal do aliche já era suficiente. Só não inclui as alcaparras, porque não tinha nenhuma.

Apesar de, a princípio, enfrentar um ou outro nariz torcido, todos experimentaram aquele molho estranho colocando-o na carne, na batata e ainda num pouco de pão para raspar o prato.

Para completar, brócolis ninja no vapor e uma taça de um Bordeaux honesto.

domingo, 14 de junho de 2009

Victoria, et pro victoria vita.

Por mais que eu tentasse entendê-la sempre tive as minhas dificuldades. Ela era um mistério para mim.

Mais de uma vez perdi alguma das minhas partes. Ela me ameaçava: decifra-me ou devoro-te. Eu, ingenuamente aceitava o desafio.

Primeiro levou meus pensamentos. E, sem eles, minha capacidade de desvendar suas charadas ficou ainda mais limitada

Depois começou a se apoderar do meu corpo, pedaço por pedaço, de uma forma que eu não podia sequer me mexer sem sentir a sua presença.

Me propôs anagramas. Eu sonhava com letras sobrevoando minha cabeça. Não demorou muito ela carregou meus sonhos.

Como se esses não lhe bastassem, em seguida se apoderou também dos meus devaneios.

O golpe final foi quando ela me propôs um enigma onde estaria em jogo tudo ou nada.

Claro que ela venceu. E levou o meu coração.

Hoje, nada mais tenho para apostar. Mesmo assim me sinto o maior vitorioso do mundo.

sexta-feira, 12 de junho de 2009

Minha nova namorada

Arranjei uma namorada às vésperas do dia dos namorados...

Não é todo dia que eu tenho essa oportunidade, mesmo porque não a ando procurando por aí. Admito que caiu nos meus braços sem que eu minimamente esperasse por tal situação.

Estava eu em paz e sossego, dos meus anos colhendo frutos diversos quando ela apareceu na minha frente. Era impossível não reparar na sua figura. Um mulherão.

E, quando digo mulherão, estou sendo literal. Mais de 1,80m de altura, olhos verdes, morena e vestida num traje multicolorido (adoro roupas coloridas)

Foi paixão à primeira vista, ela não tirava os olhos de mim, nem eu dela. Todo na praça perceberam a cena.

Poderia ter sido um grande romance. Se ela não fosse tão teimosa. Quando a convidei para ir comigo ela não me respondeu, mas deixou claro que não arredaria o pé daquele lugar.

Minha única chance seria carregá-la, mas nunca fui dado a Rômulo para ficar raptando sabinas. Deixei-a, com dor no coração.

Não sem antes capturar uma imagem desse nosso encontro inesquecível.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

Conticulóides sinfônicos

Allegro ma non troppo

Carlos mal conseguia se conter de tanta felicidade, não só estava há poucos dias do seu casamento com a bela Leonora, como acabara de sair da sala do chefe onde fora informado da sua promoção e transferência para um posto internacional na Europa. Só percebeu que caíra numa dissonância quando foi informado que o novo cargo seria baseado em Tirana, para onde Leonora não iria nem morta.

Andante poco sostenutto

Isadora olhava enternecida para Osvaldo deitado ao seu lado. Ele chegou cansado, jantou e foi descansar um pouco. Apagou profundamente. Os olhos de Isadora se encheram de lágrimas, nunca imaginara que pudesse estar tão apaixonada a ponto de se encantar com o ronco do seu amado.

Rondo con brio

Mário nunca supôs que poderia haver algum romantismo numa feira internacional de máquinas eletromecânicas, ainda mais considerando que ele era historiador e nunca gostara de física. Mas o prazer que sentia ao acompanhar Alice, sua namorada engenheira, no evento era indescritível. O brilho dos olhos de Alice diante de uma biela ou de um novo modelo de injeção eletrônica era muito mais forte do que num jantar à luz de velas.

Finale- molto vivace

Roberto andava calmamente no parque quando avistou Djanira de longe. Rapidamente tomou uma atitude, iria se declarar. Apontou em sua direção e caminhou resoluto. Em segundos mudou de rumo e saiu correndo em disparada ao notar que os dois rotweilers que ela passeava tinham escapado da coleira.

terça-feira, 9 de junho de 2009

Nova taxonomia zoometafórica

O mundo está mudando rapidamente e junto com ele algumas expressões zoológicas começam a perder o sentido.

Por que alguém ainda disca para alguém em telefones que não tem mais disco? Esse é apenas um exemplo, por isso esse blog que é super ultra pós moderno propõe uma nova taxonomia para o uso dos seres hype desse planeta:

Cachorros de raça indefinida passam a se chamar Cães Rasga-Sacos (ainda com hífen?), uma vez que ninguém usa mais latas de lixo, mas sacos plásticos. Aliás, outro dia mesmo vi um desses seres usando habilmente suas unhas para perscrutar os restos mortais depositados numa calçada.

A velha expressão eufemística de que o gato subiu no telhado deixará de ser usada por moradores de apartamentos onde, dificilmente, os gatos condominiais costumam passear. Pode se usar "o gato foi passear na varanda" ou, nos apartamentos mais modestos, "o gato subiu no parapeito".

Considerando os esforços do governo para que todo mundo tenha, ao menos, um carro popular, ninguém mais vai tirar o cavalinho da chuva. O problema dessa expressão é que, não existindo locais suficientes para se estacionar nas grandes cidades, vai ser muito difícil alguém dizer que vai tirar seu carrinho da chuva.

Vacas estão deixando de ir para o brejo. Primeiro porque só são vistas em latifúndios de criação extensiva. Depois porque os brejos estão todos sendo invadidos pela especulação imobiliária, mas eu não seria tão indelicado a ponto de me referir a determinadas pessoas que vão morar em antigos brejos, como bovinas.

Por falar em mulheres, o que exatamente queria dizer a expressão "idade da loba", se os lobos vivem, em média, de 15 a 20 anos. Uma mulher na idade da loba não passaria de uma adolescente.

Poderia continuar me estendendo por outras expressões, espírito de porco (virou uma questão futebolística), vida de cão (uma vida de luxo), memória de elefante, macaco velho ou velha raposa, mas fico por aqui antes que a sociedade protetora dos animais resolva me processar.

domingo, 7 de junho de 2009

Traindo o desafio

Outro dia, quando publiquei mais uma de minhas traições, um(a) comentarista anônimo me lançou uma provocação. Enquanto eu traia ele(a) desafiava o autor do texto original, ee cummings.

Como eu não costumo ficar impassível às provocações, se recebi um desafio à minha traição, resolvi trair esse desafio. Aí vai:

Desafiando cummings

Não levo teu coração no meu
Nem tua alma na minha levo
Nem mente, nem corpo, nem nada.

Não levo tuas mãos, sorrisos ou olhos
De ti nada posso portar comigo
Impossível carregar o que não mais existe.

O amor nos trançou para sempre
Todo seu ser é meu
Como o meu é todo seu
Nada a levar
Nada a possuir.

Somos só um
Feitos de todo você
Todo de mim.
Nós.

Texto original (autor desconhecido)

I don't carry your heart in my heart
I don't carry your soul in mine
neither your mind nor your body...

I don't carry your hands, your smile, your eyes...
don't carry anything of you..
'cause you are not you and no part of yourself exists

our love has entwined us forever
all yours are mine
and all mines are yours

so there's no carriness
there's not belonging
what there is
is just one and unique being
made up of all your yours and all my mines
that became ours..

sábado, 6 de junho de 2009

A inesgotável antologia de Maio

Meus leitores continuam afiados. Sorte a minha que me divirto com os comentários que são postados por aqui.

No fim, tudo acaba em pizza...quero dizer, em antologia

...me resigno em seguir "plagiando" e obstinadamente, umas receitas culinarias, com desastrosos resultados!

Até perdi a vontade de dizer uma gracinha.

Meu cérebro está meio-dormindo...

...você quer dar aula de musculação para esses caras?

...você apela para o mais baixo de todos os argumentos...

Porque a unica satisfação disto seria a de roubar.

Se bobear, você acorda nú.

...será que um dia comi sem limão?

...ter uma tradução mais movimentada e viril.

Chatos, curtos e furta cores.

Eu não traio Cummings...eu o desafio...

...centrada na apreciação marxista dos componentes...

Que coisa mais opressiva, mais tensa, mais angustiante...

principalmente no que se refere à "metamorfose dos tormentos...

Não sei o que vai acontecer comigo se continuar lendo este blog...

À bem da verdade, me sinto melhor falando de bermudas e chinelo.

sexta-feira, 5 de junho de 2009

Profecia mortal?

Eu sempre concordei com o físico Niels Bohr que falava que é muito difícil fazer predições, especialmente sobre o futuro.

Mas hoje eu levei um susto. Estava com o computador no Twitter ligado durante a aula de rede sociais do curso de marketing direto que eu coordeno quando vi na barra lateral "RIP David Carradine".

Para quem não sabe, RIP a sigla em latim para descanse em paz (Resquiat in pacem). Sim, o cara tinha morrido em Bangkok durante as filmagens que estava participando e, aparentemente, foi suicídio.

David Carradine era o protagonista da série televisiva Kung Fu. Até aí, nada demais, pessoas nascem e morrem todos os dias. Inclusive os suicidas (infelizmente).

A questão é que, em Janeiro passado eu tinha escrito um texto nesse mesmo blog ao qual dei o título de Kung Fu morreu.

No texto eu deixava claro que o morto em questão não era o David Carradine. Aí menos de 6 meses depois o sujeito morre ?!?

Será que eu estou sendo influenciado por Tirésias, Nostradamus ou pelas bruxas de Macbeth?

Será que preciso me mudar para Delfos ou Asgard ?

Por via das dúvidas vou evitar o tema por uns tempos.

quinta-feira, 4 de junho de 2009

A teia

Edgar já estava embrenhado há semanas nas cavernas da mata Atlântica. Dedicava-se a pesquisar os diversos tipos de aranhas existentes no Jacupiranga.

Na verdade, depois de recolher exemplares de várias espécies, fotografar e catalogar outras, já pensava em encerrar seu tempo selvagem e voltar para a universidade para começar a escrever seu trabalho sobre seus estudos.

Juntou suas mochilas com todo o seu material e começou a caminhada de volta. Uma chuva mais forte o obrigou a parar um bom tempo e, quando notou já estava anoitecendo. Teria de passar mais uma noite na mata.

Não muito longe de onde estava avistou a boca de uma caverna. Não parecia ser das maiores, mas o suficiente para abrigá-lo naquela noite. Entrou, procurou vestígios de algum animal para se certificar de que não estava invadindo o espaço de alguém. Parecia tudo tranquilo.

Descarregou a mochila onde estava seu saco de dormir, se instalou no lugar, comeu apenas algumas bolachas para não ter de abrir o saco de provisões e deitou-se com o objetivo de acordar bem cedo.

Acordou no meio da noite com um som estranho. Achou que poderia ser algum bicho em busca de abrigo. Acendeu a lanterna, mas não viu nada. Ou melhor, não viu nenhum animal, o que viu o deixou muito mais surpreso e tenso.

A alguns metros de distância notou algo que parecia um tecido preso nos estalactites. Não era um tecido qualquer, ele formava uma palavra : meganha. Uma brincadeira de algum outro explorador? Uma mensagem de algum criminoso em fuga?

Resolveu olhar de perto. Não era um tecido. Era uma imensa teia de aranha.

Para um aracnologista aquilo era uma descoberta histórica. Teria encontrado uma espécie não catalogada ? Mais que isso, teria encontrado uma aranha que tecia letras com algum sentido lógico?

Foi pegar o lampião, precisava iluminar melhor a caverna e procurar a artrópode maravilhosa. Ficaria mais famoso que Carl Alexander Clerk, sua aranha seria mais importante que todas as demais 200 mil espécies conhecidas.

Por mais que procurasse não encontra nenhum sinal, pior, pelo tamanho e espessura dos fios deveria ser uma das grandes.

Concluiu que ela não estava na caverna, uma aranha desse tamnho não teria agilidade para se esquivar tão rapidamente da luz. Resolveu voltar para o saco de dormir, pela manhã, com um pouco mais de luz, continuaria a busca.

Deitou-se. Apagou o lampião. Certificou-se de que a lanterna estava ao seu alcance e virou de lado.

Semanas depois um dos soldados que trabalhava nas buscas avistou a caverna. Entrou para ver se havia algum sinal de Edgar. Nada. A caverna estava completamente vazia.

Mas não lhe escapou aos olhos uma enorme teia de aranha. Especialmente porque parecia ter algo escrito nela.

E tinha mesmo. Estava escrito : aracnólogo.

terça-feira, 2 de junho de 2009

Contículo adverbial à moda

Sempre soube muito bem que não se põe calmamente a mão no fogo às cegas mas, o meu jeito de agir às claras e generosamente me fizeram acreditar completamente no que ela me dizia.

Em geral, conversávamos frente à frente, caminhávamos lado a lado e eu supunha amorosamente que minha confiança era correspondida.

Os dias passavam devagar quando estava à toa ao seu lado, dessa maneira, aos poucos fui me deixando levar.

Mal sabia que ela adrede trairia a minha paciente ingenuidade.

Não saberia dizer se foi pior ou melhor, me esforcei debalde para entender por que ela fez tudo às pressas e encandalosamente.

No mínimo, tal acinte deveria ser feito às escondidas, desse modo eu, bondosamente, não sofreria em vão.

Hoje sigo tristemente à pé pelas alamedas, sabendo de cór como a dor chega assim depressa para que viveu docemente o engano.

Desse jeito, à vontade e calmamente, a ignoro propositadamente