domingo, 31 de maio de 2009

Sob controle

Pode parecer teoria da conspiração ou mesmo paranóia tecnológica, mas não é. Caso você não soubesse disso, a sua operadora de TV a cabo pode saber tudo o que você fala na frente da televisão.

Explico melhor. Toda televisão é composta de tecnologias sensoriais, a saber, áudio (som) e video (imagem). Reflita sobre a questão do áudio.

Quando o telefone foi inventado por volta de 1860 por Antonio Meucci* (que o chamou eletrofonecado), o cara descobriu que o aparelho (microfone e um alto falante),
basicamente os dois (microfone e alto falante) funcionam à base de vibrações sonoras. O microfone usa uma membrana que detecta a voz e a transforma em sinal elétrico (ou mais modernamente em bits digitais), do outro lado, o alto falante recebe os sinais elétrico e os converte em voz.

Por isso, basta inverter a polaridade de um deles que, automaticamente, se converte no outro. Se você tem dúvidas, experimente conectar a caixa de som do seu computador na saída de microfone. Vai funcionar como um microfone. Mas lembre-se de conectar o microfone na saída de som, senão vai ficar com dois microfones funcionando em paralelo, e provocar microfonias.

Uma vez isso explicado, entenda a questão da TV.

Na TV aberta ninguém poderia fazer isso, pois se invertessem a polaridade das caixas de som, o mundo se transformaria num caos sonoro, uma vez que não haveria nenhum controle sobre o número de TV´s a serem ouvidas ao mesmo tempo.

Mas na TV a cabo existe um decodificador. E para cada instalação esse codificador tem um endereço eletrônico, ou seja, pode-se inverter a polaridade das caixas de forma seletiva e ouvir somente os assinantes que interessam à operadora.

Alguns técnicos das operadoras tem uma predileção por ouvir os ruídos de quem compra canais adultos ou filmes eróticos em pay-per-view. Já ouvi rumores de que os escolhidos para o paredão do BBB eram selecionados a partir da escuta de um grupo de teste dos assinantes.
Talvez esse também seja um dos motivos que o governo faz questão de que os canais oficiais (TV Brasil , TV Senado, TV Câmara) sejas transmitidos obrigatoriamente em todas as operadoras de TV a cabo.

Portanto, da próxima vez que sua televisão ficar momentaneamente sem som, preste bem atenção no que está falando, pois isso significa que a polaridade da caixa foi invertida e seu alto falante virou um microfone.

*Se você achava que o telefone tinha sido inventado por Graham Bell, isso só comprova a sua ingenuidade tecnológica.

sábado, 30 de maio de 2009

Ai de mim Amorim!

Jugurta, a númida rafaméia reinava a partir do seu pritaneu sobre vassalos autóctones e metecos. Jamais a suserana enfrentara libelistas, nem sofrera topetadas. Era inconsútil seu amicto.

Todas as tardes convocava seus sânios que, entre voletas e peônias, davam talagadas em sumos de dilênia.

Mesmo assim vivia contrafeita por ser nulípara. Só de perraria chamou seu tropel atricaudato e começou a disparar alcólitos em direção ao reino de Arad.

O metuendo considerou o fato uma tredice. Irocó e intimerato retrucou com óstracos iantinos.

Enviou um mirão dasípode que lhe retornou um anexim sintagmático e aperitório.

Isso fez com que Jugurta despencasse na ravina, cheia de crenaduras cinestésicas.

Pelo gasguete fez uma tinhanha com Arad que resultou em mútua heterogamia.

Rodolfo Augusto de Amorim Garcia (Ceará-Mirim, 25 de maio de 1873 — Rio de Janeiro, 14 de novembro de 1949) foi historiador e intelectual brasileiro, dedicou-se ao ensino de história, geografia, francês e português e também a estudos linguísticos, como o Dicionário de brasileirismos.Foi membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras, eleito em 2 de agosto de 1934 e empossado em 13 de abril de 1935. Diretor do Museu Histórico Nacional e da Biblioteca Nacional. É um dos fundadores da Academia Brasileira de Filologia.

quinta-feira, 28 de maio de 2009

Poema derradeiro

Vida não, resistência
Vontade de escrever um poema
único e último
Que não acabasse jamais

Sem tema
Com paixão
Sem compaixão do tema
Nem esquema

Que caminhasse meus passos
Que fechasse os meus olhos
Que não dissesse um engano
Nem gritasse um adeus

Cheio de metáforas absurdas
Aliterações inesperadas
Mais nada.

E que não fosse escrito num papel
Para ninguém lembrá-lo na hora final.

terça-feira, 26 de maio de 2009

Nevermore

Once upon a midnight dreary, while I pondered, weak and weary... (Edgar Allan Poe)

Rosana parou arquejante em frente ao mar. Não se tratava de falta de fôlego, afinal viera caminhando calmamente até sentir a água tocar seus pés descalços, mesmo assim sentia como se o coração lhe fora sair pela boca.

Sempre que precisava refletir fazia isso. Pegava seu carro e ia para a praia. Não importava a que hora do dia ou da noite. Era seu refúgio, uma terra mágica onde nunca se sentia perdida ou desconfortável.

Dessa vez estava perdida. Não sofria nenhum desconforto, muito pelo contrário, estava encantada. Mas completamente perdida.

Sempre sonhara em ter um companheiro. Chegou mesmo a imaginar que casaria com algum homem com quem tivesse afinidades. Há muito, porém, deixara de acreditar que existisse o amor cantado em versos românticos. Era muito pragmática para esse tipo de expectativa.

Até conhecer Pedro.

A princípio achou que seria mais um namorado. Depois imaginou que ele pudesse até ser a pessoa com quem passaria burocraticamente a sua vida. Até chegar ao ponto em que estava: descaradamente apaixonada.

Ele a tinha envolvido de uma forma que ela não conseguia entender. Como se tivesse tecido e tramado uma teia sentimental ao redor dela. Estava enredada pelos seus carinhos e pela sua atenção. E não queria sair de lá.

Percebeu que tinha se entregue de vez quando lhe disse que o mundo perfeito seria deitada na maciez da areia, ouvindo o mar, iluminada pelo luar. Quando se deu conta que tinha entregue a ele o seu mais guardado segredo, saiu em fuga.

Agora, sentada na areia, não sabia se voltava ou não. De repente, sentiu que alguém se aproximava dela, fechou os olhos, esperando pelo pior, ele jamais perdoaria aquela atitude tresloucada.

Ele colocou a mão em seu ombro e disse:

" - Eu só me deito na sua maciez. Ouvindo a tua voz e iluminado pelo seu olhar."

Nunca mais se refugiou sozinha.

domingo, 24 de maio de 2009

Me lixando para as analogias

Uma andorinha só não faz verão

Um só pinheiro não dá carvão

Minha verdade, a sua não.

Com quantos olhares se faz a paixão.

As muitas pontas de um só melão

Viola, violino e rabecão

Um só plástico não é extrusão

Ora vá lamber sabão

sábado, 23 de maio de 2009

Contículo gradativo

Tudo começou no meu quarto, onde concebi as idéias que me levariam a dominar o bairro, a cidade, o país, o mundo... E a desejar o próprio Universo...

Era apenas uma questão de dinheiro.O primeiro milhão possuído excita, acirra, assanha a gula do milionário, a partir daí bastava comprar, arrematar, conquistar, assumir, tomar cada um dos seres e das coisas da face da Terra.

É verdade, encontrei resistência, repulsa, asco, nojo, aversão ao meus ideais. Cheguei mesmo a ouvir de um velho amigo:

" - Meu caro, para mim, você é um simples roedor. Que digo? Um verme... Menos que isso! Uma bactéria! Um vírus!... "

O que não impedia que meu coração chegando de desejos. Latejando, batendo, restrugindo inflamado pela sede do poder, domínio, comando, autoridade, desistisse facilmente.

Não poderia aguardar que idade madura converte-se esse desiderato, essa cobiça, essa ambição em em terra, em cinzas, em pó, em sombra, em nada.

Surpreso, admirava o meu porte, sentindo-me vivo, o maior, o invencível.

Mas antes que alcançasse meu sucesso, veio a decadência, o declínio, a queda, a ruína.

E um grito, um gemido, um sussurro, quebrou o silêncio do meu projeto sombrio.

Gradação ou clímax: é a apresentação de idéias em progressão ascendente (clímax) ou descendente (anticlímax)

sexta-feira, 22 de maio de 2009

Além mar

Vamos ver, voar, velejar
Vamos molhar os pés no mar.

Ondas nos esperam, amantes,
Entre vagas ilhas distantes

Inventar novos amores.
Desinventar todas as dores.

Sermos beijados pelos ventos
Metamorfose dos tormentos

Esquecer que o mundo insiste
em negar que o amor existe

quinta-feira, 21 de maio de 2009

Unidos jamais serão vencidos

Faltando menos de um mês para o dia dos namorados (nem queiram saber minha opinião a esse respeito) foi lançando em São Paulo o Movimento dos Sem Namorados* (MSN, aliás uma sigla muito sugestiva em tempos de namoros virtuais), com direito a uma passeata no Ibirapuera que reuniu cerca de 3 mil militantes (será esse o termo mais correto, ou devo usar namorantes?).

O evento foi acompanhado por toda a mídia, com direito a entrevistas estapafúrdias com várias pessoas que pagaram o mico de aparecer na TV com os pedidos mais apelativos possíveis (não existe mais o namoro na TV ?)

Não faltaram comparações com o MST, infelizmente todas muito superficiais. Afinal, se o MSN pretende ter a mesma projeção que o seu equivalente da reforma agrária, deveriam se ater a alguns pontos importantes.

O primeiro ponto é a ideologia marxista ortodoxa. Se é a existência que define consciência, logo os namorantes deveriam aprender com sua prática solitária a construir sua luta. Além disso alguns conceitos sobre namoros precisariam ser modificados para atender completamente o ideal materialista histórico. O fim da propriedade privada implicaria que os namorados deixariam de ser exclusivos de seus parceiros numa verdadeira socialização dos meios de produção. Outra questão importante é o fim da busca por iguais (nos círculos namorantes chamados de almas gêmeas) e a adoção de um olhar dialético em relação aos pretendentes e pretendidos.

Outra questão é a prática de assentamentos em latifúndios. Para o MST não interessa se o latifúndio é produtivo ou não, assenta-se sobre ele. Já a visão dos membros do MSN ainda é burguesa, preocupando-se só com os latifúndios improdutivos e os objetivos geralmente não envolvem ficar assentados no sofá sob o olhar do papai (um modelo de namoro já bastante ultrapassado). O problema, nesse caso, é que os latifundiários nem sempre são conhecidos. Geralmente quem tem muitos namorados morre de medo que isso se torne público. Se o MSN atuasse nos países árabes ou em Utah onde a poligamia é legal ou, pelo menos, tolerada, seria mais fácil identificar onde montar o seu acampamento.

Uma questão de difícil solução para o MSN, caso conseguisse invadir e tomar algum terreno repleto de possíveis namorados seria a divisão dos lotes. Diferente das propriedades rurais que tem produtividade razoavelmente homogênea em toda a sua extensão, os possíveis namorados apresentam qualificações e desempenhos muito diferenciados. Isso certamente provocaria distúrbios internos sem direito a reuniões de auto-crítica (os sem namorados estão muito mais para uma auto-ajuda do que uma auto-crítica).

O MST reivindica representar uma continuidade na luta histórica dos camponeses brasileiros pela reforma agrária, já o MSN é um movimento sem história exceto pelos seus antecessores capitalistas que lucravam através de serviços de agenciamento matrimonial ou, mais modernamente chamados de match-makers. A menos que o movimento retome as velhas práticas de casamentos arranjados, o que não me parece fazer muito sentido num movimento de cores libertárias.

A Igreja, que normalmente apóia a luta do MST, ainda não se manifestou oficialmente a respeito do MSN. Em tese deveria ser favorável, uma vez que isso poderia incrementar o número de casamentos, sempre um bom negócio. No entanto, diz-se nos bastidores, que o possível patrocínio ao movimento por uma fabricante de preservativos afastaria o Movimento dos círculos clericais.

Já existe uma suspeita que o movimento nada mais é do que uma conspiração da Associação Comercial de São Paulo, com o objetivo de garantir as vendas no próximo dia dos namorados e que, passada a data do varejo, vai cortar os investimentos que está fazendo na promoção do mesmo, o que deixaria o movimento não só sem namorados, mas também sem dinheiro.

Em tempo, como todo movimento organizado na era digital, o MSN já tem o seu próprio site, que cobra pelos serviços e distribui prêmios aos participantes. Nada poderia ser menos marxista que isso.

* para não deixar o texto truncado optei por sempre usar o termo namorados (em português, o plural ainda se faz usando o masculino), mas entenda sempre como sendo namorados ou namoradas.

quarta-feira, 20 de maio de 2009

teu coração na minha mão

teu coração na minha mão (ou melhor,
no meu coração) jamais sem ele(onde quer
que eu vá ele vem, amor, o que quer que faça
eu, é o teu fazer, querida minha)
temo
sem destino (que destino a ti, amada) quero
sem mundo (que do mundo és a beleza, vero ardor)
sejas tu a lua que me dá significado
seja o que cantar o sol, canta a ti

eis o segredo de todos desconhecido
(a raiz das raízes, pétala das pétalas
céu dos céus da árvore da vida; cresce
além do que a alma espera ou a mente esconde)
esse é o mistério que mantém as estrelas além.

teu coração na minha mão (melhor, no meu coração)

Se você é daqueles que prefere os originais às minhas traições, aí vai:

i carry your heart with me(i carry it in
my heart)i am never without it(anywhere
i go you go,my dear; and whatever is done
by only me is your doing,my darling)
i fear
no fate(for you are my fate,my sweet)i want
no world(for beautiful you are my world,my true)
and it's you are whatever a moon has always meant
and whatever a sun will always sing is you

here is the deepest secret nobody knows
(here is the root of the root and the bud of the bud
and the sky of the sky of a tree called life;which grows
higher than the soul can hope or mind can hide)
and this is the wonder that's keeping the stars apart

i carry your heart(i carry it in my heart)

ee cummings

terça-feira, 19 de maio de 2009

A óleo

Jaime era um chato longo, com quase dois metros de altura. Quando criança já era chamado de chato curto, com suas idéias planas e seu moralismo quadrado.

Nunca se arriscara a pensamentos chanfrados e o seu leque de imaginação era muito limitado. O que não significava que alguém pudesse destrinchá-lo. Sua única distração era comer línguas de gato ouvindo pelenesas.

Antonia era redonda. Redonda e curta. Seu cabelo pontas chatas pareciam ter saído de uma batedor. Sempre se vestia de sedas, como um pituá. Mas vivia cometendo gafes.

Porém, quando se encontravam diluiam-se um pelo outro. Roçavam suas espátulas sobre tecidos entretelados numa paleta cromática que não se coadunava com suas vidas cheirando a aguarrás e linhaça.

A técnica de ambos abrangia cerca de 114 matizes disponíveis, além de conjugar harmoniosamente umas com as outras mantinham um amor consistente, cheio de textura e brilho que parecia nunca secar.

Ainda que em alguns momentos fossem mais brilhantes e, em outros, um tanto opacos, sempre se permitiam corrigir falhas involuntárias, com toques de aço.

Quando se despediam Jaime vestia seus cerúleos, cheirava a violeta do vaso e partia em direção à sua terra de Siena que ficava ultramar.

domingo, 17 de maio de 2009

...por fin me necesites

Meus amigos e leitores sabem que eu não costumo copiar textos, muito pelo contrário, aderi à campanha pela originalidade nos blogs (veja o selo ao lado).

Hoje vou abrir uma exceção.

Acabei de saber da morte de um dos poetas do meu coração, o uruguaio Mário Benedetti, a quem me referia como o meu velhinho querido.

Deixo aqui como homenagem um dos seus poemas mais conhecidos e mais amados.


Táctica y estrategia

Mi táctica es
mirarte
aprender como sos
quererte como sos

mi táctica es
hablarte
y escucharte
construir con palabras
un puente indestructible

mi táctica es
quedarme en tu recuerdo
no sé cómo ni sé
con qué pretexto
pero quedarme en vos

mi táctica es
ser franco
y saber que sos franca
y que no nos vendamos
simulacros
para que entre los dos
no haya telón
ni abismos

mi estrategia es
en cambio
más profunda y más
simple
mi estrategia es
que un día cualquiera
mo sé cómo ni sé
con qué pretexto
por fin me necesites.

Mário Benedetti
Paso de los Toros - 14 de setembro de 1920
Montevideo - 17 de maio de 2009



Na transversal

Seria um abuso da minha parte alegar que o poeta John Donne era um sujeito sem imaginação. muito pelo contrário, sua obra é notável por seu estilo sensual e realista, incluindo-se sonetos, poesia amorosa, poemas religiosos, traduções do latim, epigramas, elegias, canções, sátiras e sermões.

Comparado a seus contemporâneos ele só pode ser considerado inferior ao bardo de Stratford.

Porém, e em tudo há sempre um porém, tenho de admitir que o nosso amigo sofresse de uma certa falta de conhecimento a respeito da geometria, especialmente quando se referia à mulher amada.

Numa das suas mais conhecidas elegias (a de número XX) ele pede licença para uma exploração anatômica dizendo:

Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.

Os irmãos Campos, conhecidos tradutores de poesia, assim trairam o texto de Donne

Deixe que minha mão errante
Adentre atrás, na frente,
Em cima, em baixo, entre.

E aí eu me pergunto, porque o João se limitou apenas a essas direções ?

Por que deixou de lado a exploração ortogonal, uma vez que num hiperplano de tantas dimensões como o corpo humano existem tantas projeções e intersecções dignas de maior análise e exploração?

Também deixou de pensar nas grandes e pequenas diagonais da topografia feminina. Certamente um desperdício amoroso e sinestésico.

O mais grave, no entanto, me parece ter sido a sua omissão em relação às tranversais da amada. Se as usasse poderia percorrer vários patamares, planos, níveis, traços e devires de uma só vez.

São as transversais que permitem o deslizamento em vários esquemas e modelos, uns sobre os outros, ou seja, a consecução suprema de todas as possibilidades sensuais.

E ainda tem gente que acha que a poesia é mais romântica que a matemática.

sexta-feira, 15 de maio de 2009

Aforismos imanentes


Nenhuma generalização explica alguma coisa. Nem essa.

O mal não foi criado por Deus, mas ele não existiria sem Deus.

Argumentos errados não servem para defender ideias nobres.

Se diferença de ponto de vista fosse sinônimo de justiça teríamos de admitir que o ponto de vista de Hitler era justo.

No espelho estão a maioria das respostas sobre o que não entendemos nos outros

Nem sempre uma tempestade anuncia más notícias

Quem não tem fé em nada acredita em qualquer coisa.

Quem acredita que precisa fazer uma opção entre o amor e a felicidade, é porque não tem nenhum dos dois.

quarta-feira, 13 de maio de 2009

Incondicional

Poderia ter sido um descuido
Poderia ter sido um acidente

Poderia ter sido obra do acaso
Poderia ter sido apenas descaso

Poderia ter sido coincidência
Poderia ter sido mera ausência

Poderia ter sido prazer estético
Poderia ter sido acordo ético

Poderia ter sido uma saudade
Poderia ter sido ingenuidade

Poderia ter sido tudo que não foi
Porque foi o que não poderia ser

Porque foi o que não seria
Acabou sendo pura magia

terça-feira, 12 de maio de 2009

Homicítrico

Um dia, em algum lugar do mundo, alguém que não tinha mais o que fazer descobriu que existia uma certa afinidade entre o sumo do limão e os frutos do mar.

Alguns alegam que foi Robinson Crusoe, outros que foi Gulliver. Seja qual deles for ou qualquer outro náufrago solitário, sua invenção deveria ter ficado enterrada e perdida.

Mas não ficou e, desde então, as pessoas passaram a usar a rutácea como tempero de peixes, siris, lulas e outros monstros abisssais.

Não teria se transformado em um desastre completo se um desavisado não tivesse tido a idéia de pingar o suco de limão depois do prato pronto e, pior, achar bom.

A partir daí todos os restaurantes de praia, de Almeriana à Barra do Chuí passaram a enfeitar os seus pratos com rodelas de limão.

E nunca mais ninguém soube qual era o sabor original dos seres marinhos, tão pouco dos temperos em que foram feitos.

Repare bem. Um sujeito recebe sua casquinha de siri, que o cozinheiro teve o trabalho de refogar em leite de côco e coentro, acertar o sal, acrescentar pedaços de tomate e cebola e a primeira coisa que acontece é a coitada levar um banho de limão.

Por isso que os chefs que trabalham com frutos do mar se recusam a andar pelo salão do restaurante. Acabariam cometendo homicídios em série.

Eu mesmo já fui vítima desse hábito execrável. Já assisti pratos que eu levei horas para fazer sendo detonados com jorros cítricos.

Só encontrei uma solução para isso. Quando faço frutos do mar, me certifico que não tenho nenhum limão dentro de casa e, se tiver, escondo.

Não sei se isso agrada os comensais. Pelo menos eu não me aborreço.

domingo, 10 de maio de 2009

Conticulóides destemperados

Damasco

Olhou para ela e, enrubescido, declarou o seu amor. Só recebeu silêncio. Um dia ainda teria a coragem de trocar a fotografia pela mulher real.

Pimenta rosa

Todos os dias Gérson reclamava da comida que a empregada fazia. Mara ouvia, e prometia que iria resolver o problema. Morreu sem saber que era ela, e não a empregada, que cozinhava.

Alecrim

Antonio tremeu quando viu o vidro de pó branco no quarto da filha. Pôs na boca, não reconheceu o gosto. Jogou tudo fora. No meio da noite foi acordado com gritos : quem sumiu com o meu pó imediato do chá ?

Pimenta verde

Joana chorava copiosamente quando a mãe chegou em casa.
- Mamãe, o Renato me mandou um vaso de flores...
- Isso é tão bonito... por que o choro?
- Espinhos, mamãe, espinhos com folhagem de urtiga

Ameixas

Quando menina ela gostava de se esconder no porão da casa da fazenda. Ali derramava suas lágrimas secretas e os seus sonhos infantis. Mandou derrubar a casa e queimar todas as velharias que estavam no porão no dia em que encontrou o marido com outra no seu baú de emoções.

sexta-feira, 8 de maio de 2009

Em pleno mar

'Stamos em pleno mar... Dois infinitos
Ali se estreitam num abraço insano,
Azuis, dourados, plácidos, sublimes...
Qual dos dous é o céu? qual o oceano?...
(Castro Alves)

´Stamos defronte o mar, no azul do horizonte vemos ilhas a vagar, como se um cortejo fossem em direção a um ponto de fuga de um azimute imaginário.

Seu olhar mirava, ao longe, o farol.

´Stamos defronte o mar nuvens brancas sobre o monte são piruetas a rodar. O vento brinca de desenhar imagens de algodão doce.

Seu olhar mirava, ao longe, o farol.

´Stamos defronte o mar os pé sujos pela areia se confundem no caminhar. Rabiscos incompreensíveis descrevem sentimentos que não se explicam.

Seu olhar mirava, ao longe, o farol.

´Stamos defronte o mar, nem mesmo a lua, que começa a surgir, crê ser possível tanta emoção.

O farol, ao longe, se acende com a luz do seu olhar.

A imagem é detalhe de uma pintura de Vírginia Susana Fantoni Ribeiro

quinta-feira, 7 de maio de 2009

Atividades musculares

Não sei porque as pessoas insistem em tentar explicar o amor. Mais do que explicar, algumas ainda se arrogam o direito de serem especialistas no assunto. Psicólogos, analistas, terapeutas de casais e cartomantes disputam essa fatia de mercado.

O verdadeiro profissional do amor deveria ser um myxólogo, profissão, que eu saiba, ainda não existe.

Explico melhor.

Toda atividade amorosa é simplesmente uma ação muscular. Desde os primeiros olhares lânguidos até a consecução da conjunção carnal.

Sendo uma atividade muscular, deveria ser estudada pelos especialistas em músculos (em grego, algo equivalente a myx no nosso alfabeto, no deles é μυξ ).

Acompanhe o meu raciocínio (ou a falta dele):

O músculo funciona pela contração e extensão das suas fibras e caraterizam-se pela sua contratibilidade, o que provoca a aquilo que chamamos de dor no coração (músculo estriado).Também provoca dores de estômago (músculo liso) que alguns poetas chamam de dores na alma, mas isso é só um licença poética.

O amor não tem lógica. O que faz todo sentido, pois o cérebro não é um músculo.

O ser humano possui aproximadamente 639 músculos, todos eles tem alguma atividade amorosa, não obrigatoriamente simultânea (estou falando de amor e não de natação) alguns podem contrair-se e encurtar, tornando-se mais tensos e duros, em resposta a um estímulo, podem ser distendidos, aumentando o seu comprimento e, claro, podem retornar à forma e ao tamanho originais.

A propriedade do tecido muscular de se contrair chama-se contratilidade (os amantes pedantes preferem chamar de inotropismo), geralmente ocorrem em amores não correspondidos, e a propriedade de poder ser distendido recebe o nome de elasticidade, termo usado para as pessoas que têm a capacidade de amar diversas outras ao mesmo tempo. Alguns desses movimentos são voluntários e, muitos, totalmente involuntários, o que pode provocar situações desagradáveis se resolverem se mexer em horas ou locais errados.

O principal músculo do amor é o coração, onde existem fibras musculares diferenciadas. A ponto de algumas pessoas serem chamadas de pessoas de fibra. É o mais nobre de todos os músculos, se analisado histológica ou paixoniticamente. Apesar de ser estriado possui movimentos involuntários, se contrai e relaxa sem parar o que torna a prática amorosa uma atividade sempre imprevisível.

No tecido cardíaco, têm bastante importância as fibras de Purkinje (no original era "pour quoi je?" que gerou essa corruptela) células responsáveis pela distribuição do impulso elétrico. Quando a carga elétrica está alta demais os amantes costumam entrar em choque.

Os demais músculos lisos, também chamados de viscerais, são mais longos e lentos, o que ajuda sempre a retardar a ira. Um deles é responsável pela dilatação da pupila, o que costuma deixar os apaixonados com cara de bobos. Já os peristálticos podem gerar acessos inconvenientes em pessoas mais sensíveis.

Um amor descontrolado, com esforço excessivo ou movimentações bruscas podem provocar lesões musculares. As mais comuns são: cãibras, cansaço muscular e distensões. Em geral, tais problemas acontecem durante a prática amorosa. A cãimbra é causada por contrações repentinas e involuntárias do músculo.

Como as outras células, as fibras musculares produzem energia por meio de reações de combustão, por isso que Camões já dizia que amor é fogo que arde sem se ver.

Contrações musculares bruscas podem afetar os tendões, resultando, em certos casos, no rompimento da articulação. Os rompimentos podem ser temporários (briguinhas de namorados) ou definitivos como os divórcios litigiosos.

Já uma distensão é uma lesão no músculo decorrente de um estiramento da musculatura. Distensões ocorrem em todas as pessoas e não apenas em amantes profissionais. As atividades diárias podem provocar distensões. Entretanto, pessoas que praticam a poligamia apresentam maior risco de desenvolver uma distensão amorosa.

Na sua próxima crise amorosa (pode ter certeza que vai ter uma), não deixe de pesquisar se o seu plano de saúde cobre myxoses (crônicas) ou myxites (agudas).

E sempre tenha à mão, o número de celular do seu myxólogo preferido.

terça-feira, 5 de maio de 2009

Renovação filológica

Dizem por aí que as línguas (idiomas, não o órgão muscular localizado na parte ventral da boca) são entidades vivas. Tudo bem, eu sei que algumas são consideradas mortas, aliás tem uma belíssima natureza morta do Léger em cujo centro estão as letras ABC...

De qualquer forma, se são vivas, isso significa que os meus dicionários estão se tornando anacrônicos e, por isso mesmo, fui instigado a um movimento de renovação filológica.

O mais antigo, de uso corriqueiro, que eu tinha era o Oxford Advanced Learner´s. O pobre coitado, já detonado pelo uso constante nos últimos 35 anos, foi substituído por uma belíssimo exemplar do MacMillan que, além da versão em papel, ainda veio cheio de recursos para uso no computador, até mesmo pios de corujas.

Meu Aurélio velho de guerra precisa de uma reposição, ainda mais depois dos recentes ataques, incultos e nada belos, sofridos pelo pátrio idioma. Minha primeira tentativa não foi bem sucedida, descobri que nem o Aurélio, nem o Uais (sim, assim que se escreve depois que ele promoveu essa besteira de unificação da língua portuguesa) foram editados com a nova ortografia. Dizem as más linguas (agora sim, o órgão muscular) que ainda estão tentando resolver todas as exceções do hífen.

Apesar das mudanças no dicionários gerais, não pretendo mudar os meus etimológicos. O passado não costuma ter alterações dramáticas, a menos que você seja um redator de biografias de pessoas polêmicas, cujo passado muda a cada novo livro publicado.

Por outro lado preciso de um novo Larousse. O meu, de poche, apesar de guardar lembranças sentimentais, é insuficiente para o uso. Tenho outro de francês, mas é daqueles que fazem parte da minha coleção de raridades. Um "Dictionnaire Complet Illustré" de Pierre Larousse, edição de 1904.

E um que é tão pouco usado que dá até vergonha, tenho um Langenscheidts Taschenwörterbuch. Não me pergunte qual é a tradução disso, por incrível que pareça, essas duas palavras imensas não estão entre os verbetes do mesmo. De qualquer forma, ele já me foi útil para descobrir o significado dos movimentos das sinfonias de Mahler.

Para completar a coleção, eu ainda vou ter um dicionário de espanhol que, por incrível que pareça, eu nunca tive e que anda me fazendo muita falta.

domingo, 3 de maio de 2009

Technicolor

Geraldo gostava de branco. Sílvia de cores.

Durante todas suas vidas trocaram presentes onde um tentava seduzir o outro para as suas preferências.

Ele alegava que o branco sintetizava todo o espectro cromático dela.

Ela se definia como o prisma que o decompunha em detalhes.

Ele lhe dava vestidos brancos. Ela retribuia com gravatas coloridas.

Ele tomava leite puro. Ela fazia vitaminas de frutas.

Ele comprava pérolas. Ela usava esmeraldas, ametistas e rubis.

Ele arrumava a cama com puro linho. Ela completava com cobertores multicor.

Um dia ela chegou em casa e encontrou o vaso repleto de flores.

Em meio a todas as cores que adorava, misturavam-se flores brancas.

Brancas e coloridas bebiam da mesma água. Apoiavam-se umas nas outras.

Tocavam-se como que trocando carícias.

No escuro da sala, ele a olhava estática diante da cena.

Concordaram que a felicidade é daltônica.

sábado, 2 de maio de 2009

A paregórica antologia de Abril


Caso você esteja caindo de paraquedas nesse blog não estranhe. Todos os meses seleciono os melhores comentários do mês anterior e recomendo aos leitores que, ao invés de buscar sua origem, imaginem uma história para cada frase.

Divirta-se

...a mestranda aqui tá se sentindo parte da diarréia do chato

Consigo ver, acredite, os microrganismos unicelulares procariotas

...a insanidade individual não é exatamente uma exceção

Sabe que eu fico frustrada quando não entro na listinha?

Só pra confirmar: Tatu sua?

Acho que fazia parte da tortura a que éramos submetidos

Por indução, e partindo de inferências, cheguei a uma proposição

é que alma dançando não me parece acontecer...

Fiquei com medo de que a história não tivesse um final feliz.

Fala sério. "de forma edaz" é de lascar.

Os magnoliófitos vingativus me deixam toda empipocada.

eu possuía grandes olhos intimidadores...

Você não tem idéia do quanto elas fazêm cocô.

Daria para você emprestar a prima Virginia?

sexta-feira, 1 de maio de 2009

Hai Kais fantásticos

Sonho de paixão

Soam os tambores
Ternura desmesurada
Espalhada em mim

Um baile

Marcava compasso
Tua mão nervosa e doce
Olhares em festa

Cena no campo

Rústica canção
Pastores flores pueris
Chovem primaveras

Marcha do cadafalso

Clima de tensão
Sombras, nuvens e trovões
Desejo feroz

Sonho de uma noite de sábado

Foi bonita a festa
tantas cores, sons, sabores.
Tempestade enfim

*Haikai (Haïku ou Haicai) é um forma poética de origem japonesa, surgida por volta do século XVI, que valoriza a concisão. O haikai é a arte de dizer o máximo com o mínimo. Cada haikai capta um momento de experiência, um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado, a natureza humana, a vida. O grande mestre haikaista foi Matsuô Bashô (1644-1694). É um poema de três versos, escrito em linguagem simples, sem rima, com dezessete sílabas poéticas (sendo cinco no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro), e com uma referência à natureza expressa por uma palavra (o chamado kigô), que deve representar também a estação do ano.