terça-feira, 31 de março de 2009

Respondendo à amiga

Minha epistolar e cardiomótica amiga

As mudanças ditam o ritmo das nossas vidas, já diria nosso camaleônico e querido Bowie.

Ouvir o teu lado confessional me deixou mais convicto desta intensidade estival da nossa amizade

Lembrei-me de uma das nossas conversas antigas, quando você me dizia : “ você já sentiu uma sintonia total com alguma outra pessoa ? Interesses culturais , etc...”

A minha resposta foi , sem dúvida alguma : Sim - com você !!! e por isso mesmo você complementou a sua frase :

“... e sensualidade ? “

É impressionante como você me conhece... mesmo quando não falo... E, não mais que de repente, você encontrou essa pessoa. A pessoa que consegue juntar todos os lados do cubo mágico, cuja solução nós dois nunca conseguimos encontrar juntos

Quando a emoção e o sentimento são reprimidos a aparência se torna triste.... e agora, mesmo sem ver o teu rosto, tenho certeza que seus olhos brilham de maneira fulgurante.

As vezes nós dois somos muito complexos para quem está de fora, quem vê os dois separados mas não consegue enxergar a floresta, mas gostaria de te dizer de novo que a tua carta bateu no fundo do fundo do meu coração (“ e um homem pode ir ao fundo, do fundo, do fundo, se for por você...” ).

Eu fico aqui sem aquele “ e “ que você citou, encantado com o fato de você tê-lo encontrado. Não deixe de aproveitá-lo por nenhum minuto, não deixe de amá-lo por nenhum segundo.

Que a mudança seja infinita e eterna (não apenas enquanto dure, amor que só quer ser infinito enquanto durar é qualquer coisa, menos amor). Por que o amor, apesar do tempo, é diamante.

Beijos em teu sorriso

segunda-feira, 30 de março de 2009

Nova carta da amiga

Depois de muito tempo, a amiga me escreveu de novo. Cheia de mudanças, me contando o seguinte:

Amigo

Depois de muito tempo volto a te escrever. Constrangida por te deixar tanto tempo sem notícias desde a nossa última troca de correspondência.

Foram tantas as mudanças que eu precisei desse tempo para me recompor. O amor, como você sempre fala, é feito de mudanças.

Tudo mudou

Encontrei alguém muito diferente de tudo que eu pudesse sequer imaginar. Não, não é o príncipe encantado, nem o sapo barrigudo. Aliás, nem eu mesma sei o que ele é, nem tenho muita certeza de que ele exista mesmo.

Você me conhece bem e sabe que eu sempre idealizei a figura do homem ideal. Alguém com quem eu tivesse afinidades de interesses, gosto semelhante e, ao mesmo tempo, que fosse apaixonante. Meu ideal não era um ser perfeito, até porque seria intoleravelmente chato conviver com alguém perfeito, sendo eu mesma imperfeita.

Eu ia te dizer que o conheci...mas minha linha de pensamento ficou meio confusa. É uma pessoa que, formalmente, eu já conhecia há muito tempo. Por outro lado, era um perfeito desconhecido. E quanto mais convivo com ele, mais eu me convenço de que não conhecia nada.

Como vou chamá-lo? De um estranho conhecido ou de um desconhecido próximo? Tanto faz.

O que interessa é que um dia eu estava esperando mesa num restaurante de shopping e ele estava lá também. Os dois sozinhos. Almoçamos juntos. Descobrimos que trabalhávamos um do lado do outro. Trocamos telefones e e-mails. Dias depois ele me perguntou se tinha programa para o almoço. Sem que eu percebesse, pouco tempo depois estávamos almoçando juntos todos os dias.

Mais que isso, passávamos (e ainda passamos) os dias trocando mensagens.

Um dia ele me apareceu com um pacote. Era um livro de poesias de um dos nossos autores preferidos. Disse que não ia escrever dedicatória, essa já estava escrita na página 48.

Li e desmontei. Eu, que já andava me questionando onde é que aquilo iria parar, descobri que ele sentia a mesma coisa.

Agora eu não sei o que faço. Tudo é intenso, forte, perigoso. Como se eu fosse uma onda quebrando num rochedo.

Eu sei que esse amor me deu vida. Uma vida que eu nunca tivera antes. Uma mudança interna que eu nunca experimentara. Sou outra pessoa.

Não vou te aborrecer com detalhes. Sei que a sua imaginação é rica o suficiente para ter uma idéia do que acontece.

O meu amor por você continua, sem prazo e sem distância. Mas é um outro amor que não pode se comparar a esse.

Beijos epistolares, no meio do maremoto


As cartas mais antigas são :

domingo, 29 de março de 2009

Desaforismos inconseqüentes

Os beijos só são bons quando são silenciosos e as bocas não tem outra ocupação.

Era uma situação plena de ausência de bom senso.

Acabar em pizza pode ter outro significado se a pizza for das boas.

Cortar um sinecura é como romper um vício, só com atitudes radicais.

Toda história de amor é uma história de mudanças

Lobo que uiva não foge.

O destino final da neutralidade é o isolamento.

Não me tragam respostas quando eu não fiz perguntas.

Homens que se acham deuses, não tem competência nem para serem bons diabos.


Para visualizar melhor o cartoon, clique sobre o mesmo.

Não me censure pelo uso do trema, eu sou um nostálgico.

sábado, 28 de março de 2009

Fundamentos de beijologia

O beijo é, aparentemente, uma coisa simples. Uma justaposição anatómica de dois músculos orbiculares da boca em estado de contração.

É umas das ações mais fáceis de se aprender. Bebês com poucos meses já beijam. Por outro lado podem até ser classificados em latim.

O que eu nunca imaginei é que existisse uma ciência dedicada a estudar o beijo, a filematologia (que eu vou chamar de beijologia que é mais fácil)

Descobri isso num beijo literário que recebi recentemente, mas nem a Wikipedia explica mais detalhes da ciência, o que me encheu de dúvidas.

A beijologia é uma ciência humana, biológica ou exata ? Existe alguma relação inter ou transdisciplinar entre elas ?

Quem estuda isso ? A anatomia (já que assim é definido) ? A físico-química ? A endocrinologia (impossível não citar hormônios quando se fala de beijo)? É comportamental ou atitudinal?

Sendo uma ciência deve ser objeto de algum curso superior, o que me provoca mais questões: o vestibular para essa faculdade é prestado em duplas ou essas são formadas no decorrer do curso?

Não imagino que exista um curso de formação profissional que não envolva atividades práticas. Nesse caso, os professores podem estar envolvidos na aplicação da teoria ou isso fere a ética acadêmica?

O curso exige estágio? Se sim, aonde? Qual a carga horária mínima ? Uma vez formados, onde trabalham os beijologistas ? Em treinamento de atores de novelas ? Em aconselhamento de casais? Em agência matrimoniais? Dão aulas de educação sexual para adolescentes?

Claro, isso são apenas curiosidades. Se depender de mim, os beijólogos vão morrer de fome, porque eu já encontrei os lábios que melhor se encaixam aos meus. Não sei se nossos beijos têm alguma validade científica, mas ambos estamos bastante satisfeitos.

Para os que beijam sem ciência, deixo como brinde dessa postagem um beijo do poeta português Jorge de Sena

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no de abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.
Mas beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
E dentes se apertando delicados.
É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

O beijo fotografado por Alfred Eisenstaedt na Times Square é, na minha opinião, o ícone máximo do ato de beijar.

quinta-feira, 26 de março de 2009

Sexta Feira 13

Era treze a sexta feira
Dia de tal sortilégio
Dizia a lenda caseira
Negá-la, um sacrilégio

Lhe soava zombeteira
a vida, um decreto régio,
que negasse o privilégio
de fazê-la brincadeira.

No entanto, quantas risadas
Quantas bolhas de sabão,
Uma canção obtusa

Que não soava confusa.
Corpos e almas lavadas
Lembranças de uma emoção.

quarta-feira, 25 de março de 2009

Camarão conquetivé

Sábado passado tirei do freezer um pacote de camarões. Sem saber exatamente o que iria fazer com eles no domingo.

Como o meu dia acabou ocupado por outras atividades que mereciam mais atenção que os crustáceos e, no domingo de manhã fui para a Igreja, encontrei os decapódes me esperando na pia.

A primeira idéia foi fazê-los à dorê. Mas eram de tamanho médio e estavam sem cauda. Desisti. E fui fazer uma pesquisa na minha caixa de temperos e na geladeira.

Temperei os malocostráqueos com flor de sal e pimenta do reino. A Letícia veio me ajudar e pedi que ela misturasse uma colher de chá de curry em meia xícara de café de azeite que derramamos nos bichinhos.

Com um pouco mais de azeite e flocos de alho eu refoguei os artrópodes numa caçarola. Quando já estavam cozidos coloquei uma meia garrafinha de leite de côco que estava perdida na geladeira. Deixei reduzir, chequei o sal do caldo.

Aí cozinhei um pacote de rottele (aquele macarrão que parece uma roda de carroça), adicionei o molho de camarões e completei com um pouco mais de azeite.

Além de aproveitar um monte de coisas que tinha em casa, ainda serviu paras as crianças experimentarem o curry e, como parte do estudo de história do Samuel que está aprendendo sobre as grandes navegações, tivemos a oportunidade de saborear uma combinação de especiarias (o curry combina várias delas).

E acabei com a garrafa do Lote 43 da Miolo que começara na noite anterior....

segunda-feira, 23 de março de 2009

Andando nas faixas

O melhor ainda estava por vir e Daniel não sabia disso quando conheceu Roberta. Achava que poucas coisas iriam superar aquele primeiro encontro e todo o turbilhão de paixão que acontecera entre eles. Tudo muito intenso, tudo muito rápido. Achava que era a perfeição e que, a partir daquilo suas vidas seriam fundadas nas lembranças do primeiro encontro.

É melhor que seja essa noite ela afirmou. Ele não entendeu bem o por que, mas não estava em posição de questionar nada naquele momento. Não poderia perder a oportunidade filosofando. Que as dúvidas existenciais ficassem para qualquer outra hora, menos aquela.

Eu e a Sra Jones, foi o que ele imaginou - ela deve ser comprometida. Poderia ser a primeira e última vez que a veria. Poderia ser a única chance que Daniel desfrutaria de um amor tão intenso. A frase lhe martelava a cabeça : o amor que acontece uma vez na vida. Mergulhou com tudo.

Sou o seu homem. Naquela hora e naquele momento ele tinha essa certeza. Ela também. Mais que isso, sem dúvidas para caraminholar, Roberta aproveitou muito melhor a situação.

Querido, vamos para casa, ela finalmente disse. Ele ficou ainda mais perplexo. Como assim ? Que casa? ao mesmo tempo dançava nas nuvens ao ouvi-la chama-lo de querido.

Perdido. Daniel estava completamente perdido. Perdido de paixão, perdido de sentidos e completamente falto de compreensão do todo. Justo ele que planejava cada passo, estava completamente desorientado. E gostava disso.

Pode me chamar de irresponsável, ela lhe disse no caminho, deve estar achando que eu sou uma louca, uma perdida. Talvez seja mesmo. Mas posso garantir, ela continuava, que eu não sou mulher de um só encontro. Acho que algum passarinho veio me dizer que você é a pessoa que eu sempre esperei. Não vou ficar brincando de te testar.

Maravilhosa nessa noite. Quando dizia isso Daniel não estava mais se referindo à primeira noite. Cada noite Roberta se superava. Sempre mais bonita, sempre mais amorosa, sempre mais apaixonada.

Tudo. Foi o que um passou a ser para o outro. Aos poucos foram se descobrindo. Cada descoberta os deixava ainda mais atônitos, parecia que o mundo conspirava a favor deles.

O mundo preso num barbante. Conseguiam administrar suas vidas como se todo o mundo fosse uma bola bexiga presa numa cordinha, sobre a qual tinha controle absoluto. E que não pretendiam soltar jamais.

Sempre na minha mente. Roberta parecia ter encontrado uma forma de compartir o disco rígido de seu cérebro. Conseguia pensar no trabalho, nas atividades da casa, nas suas outras relações pessoais e, ao mesmo tempo, pensar permanentemente em Daniel.

Isso é a vida. Daniel sabia que todos os seus anos antes de conhecer Roberta tinham sido em vão. A vida começara exatamente naquele dia, até mudou a forma de contabilizar a sua idade.

Sonho. Subitamente Roberta acordou. Nunca tivera um sonho tão lindo. Do outro lado da cidade Daniel resmungava contra o despertador que o tirara da viagem onírica onde estava e o jogava de volta à realidade. Lembrou que naquela noite tinha uma festa chatíssima para ir. Enquanto tomava seu banho Roberta pensava no que iria vestir aquela noite. Nenhum dos dois sabia que o melhor ainda estava por vir.



À guisa de explicação : essa história foi criada a partir dos títulos das faixas do CD Call Me Irresponsible de Michael Buble. Cada parágrafo começa com uma delas. No site é possível ouvir algumas.

sábado, 21 de março de 2009

Torturando analogias


Tema:

Mais vale um pássaro na mão do que dois voando

Variações:


Mais vale uma sopa no fogo que o arroz queimando

Se as patas estão no chão, não está galopando

Gota a gota a moringa esvaziando

Gostar de brega nem sempre é ouvir Wando

Mais que três juntos, para mim é bando

Não tem brilho nos olhos, não está amando

Cantou a cotovia, depois o curiango

Essa insanidade está acabando

sexta-feira, 20 de março de 2009

Conticulóides a óleo

Azul ultramar

Durante anos trabalharam na mesma empresa quase sem se notar. Até que André teve de ir ao oftalmologista e descobriu ter um astigmatismo violento. No dia que começou a usar óculos, os olhos de Vera pareceram brilhar como nunca. Se apaixonou na hora e nunca mais tirou os óculos.

Verde Hooker

Jordão nunca se conformara com o fato de ter deixado Anita se casar com outro homem, mesmo sabendo que fora culpado do encontro dos dois. Desde então caminhava todos os dias pela rua onde moravam, na esperança de vê-la, sem saber que a entrada da garagem era pelos fundos do prédio.

Branco de titânio.

Karina era obrigada a ouvir todos os dias a patroa reclamando que a geladeira nunca estava limpa. Ela alegava que a próximidade ao fogão deixava a geladeira sempre engordurada, mas a patroa não aceitava a desculpa. Chamaram um técnico de manutenção para resolver o problema. O cara não apareceu o que obrigou Karina a pedir demissão.

Gris de Payne

Todos os dias Januário passava na cafeteria depois do trabalho. Pedia um café puro e curto que tomava, sem açúcar, de um gole só. Durante anos. Até que um dia pediu um café extra-forte duplo, o dono da cafeteria estranhou e ficou de olho nele. Januário bebeu com calma e vagar, cheio de suspiros, pensando: o que é que uma paixão não faz?

Vermelho da China

Raquel era muito tímida. Corava praticamente em qualquer situação mas, especialmente, quando alguém lhe elogiava. Foi parar no hospital, com uma crise de hiperemia no dia que Gilberto a pediu em casamento.

Amarelo limão

Mário nunca perdia a oportunidade de fazer alguma piada. Muitas vezes chegava a ser inconveniente, a ponto de Sílvia ameaçar abandoná-lo se ele não parasse com aquele hábito que ela definia como ridículo. Ele sofreu muito mas se comportou. Até o dia que um cachorro arrancou um pedaço da saia de Sílvia no meio da rua. Perdeu a amante, mas nunca mais deixou de contar a cena a todos que encontrava.

Laranja de cádmio

Débora era fascinada por roupas coloridas, mas nunca gostou das cores cítricas que, segundo ela, lhe caíam mal. Para mal dos seus pecados, se enamorou de um holandês, fanático por futebol, que a obrigava a usar o uniforme de sua seleção todas as vezes que tinha jogo. Um dia, como se fosse sem querer, derrubou cândida no tanque e disse para o namorado que, apesar do acidente, continuaria a usar a mesma camiseta que fora a primeira que ele lhe dera.

Azul da Prússia

Naquela noite o mar estava agitado, ventava forte e as ondas batiam contra os rochedos, iluminadas pela lua cheia. Mesmo assim, Noêmia passeava pela praia, só pelo prazer dos pés descalços na areia. De longe, Carlos admirava a cena e perguntava de onde surgira aquela sereia na sua vida. Ela só respondeu que sereias não existem e o beijou longamente.

quinta-feira, 19 de março de 2009

Lua cheia na Bourbon

Em 1996 eu estive pela minha segunda vez em New Orleans, bem antes do Katrina, e a lua brilhava na Bourbon

Os meus passos nada passam
Meus desejos ultrapassam
Gente caminhando na fumaça
Atravessando o som.

Enquanto isso a lua brilha na Bourbon

Certos sonhos deveriam ser assim
Olhares tristonhos veriam enfim
As cores transparecendo através
de instrumentos no mesmo tom

Enquanto isso a lua brilha na Bourbon

Assim se vão os sonhos
Vão-se também os desejos
Cores, música, fumaça
Gente, instrumentos, olhares
Tudo triste, tudo bom

Enquanto isso a lua brilha na Bourbon

New Orleans 27.10.96

quarta-feira, 18 de março de 2009

Nala

Quando eu a conheci foi paixão à primeira vista. Bonita, esguia, sedutora. Mas ela era muito reticente.

Nos primeiros encontros ela me ignorava. Quando muito me lançava um olhar desconfiado.

Mesmo assim eu sempre tentava seduzí-la. Ela me esnobava solenemente.

Não me lembro exatamente quando foi que o gelo quebrou e ela se dignou a me dar um pouco de atenção. Não muita. Ela era econômica nos seus afetos.

Enfim, deixei que ela me descobrisse. Ela, no seu tempo, foi me explorando e até permitia que eu a tocasse.

O tempo passou, aos poucos nos tornamos mais próximos. Ela não se escondia mais quando eu chegava.

Um dia me surpreendeu e sentou ao meu lado no sofá. Encostou a cabeça no meu colo e eu a acariciei longamente.

Depois disso nunca mais deixamos de nos alegrar mutuamente. Me divertia com as suas aventuras.

A vida acabou nos afastando, tinha cada vez menos chances de vê-la. Mesmo assim ela não se esquecia do meu amor.

Há poucos dias soube que estava doente. Hoje soube que ela morreu (era sério e lhe poupou mais sofrimentos) e me entristeci.

Vou sentir saudades da Nala.

terça-feira, 17 de março de 2009

Sem rir, sem chorar

Ele queria chorar. Mais do que querer, ele precisava chorar. Sentia as pálpebras cheias e coração apertado, prontos para explodir em prantos.

Mas não podia.

Não era por nenhuma educação machista, sempre achara uma besteira dizer que homem não chora.

Não podia chorar para não revelar o motivo da sua tristeza, até porque fora ele mesmo que provocara a situação que agora o agoniava.

No caminho do trabalho quase desmoronou, mas se conteve. Não podia chegar no escritório com os olhos vermelhos e marejados.

Seus colegas perceberam algo diferente, acostumados que estavam com seu sorriso e o olhar brilhante, estranharam os olhos opacos e o semblante sério.

Ele alegou que tivera uma noite mal dormida por causa do barulho de uma festa no vizinho.

Durante o dia teve de correr várias vezes ao banheiro ao sentir que lágrimas insistiam em escapar. Quando encontrou o chefe disse que acreditava que uma gripe estava a caminho.

Saiu para almoçar, comeu mal, nada lhe apetecia. O trabalho andou aos trancos, nada saiu bem feito. A cabeça não conseguia pensar em outra coisa.

E quanto mais pensava, mais aumentava a vontade de chorar.

Quase no fim do dia o celular tocou. Era uma mensagem. Por alguns instantes ele hesitou em ler. Mas sabia que tinha de enfrentar a situação.

Abriu. Só duas palavras. Letras suficientes para mudar sua aparência.

Os olhos brilharam, o sorriso abriu. Sentiu um alívio no corpo como se tivessem tirado toneladas das suas costas.

Debruçou sobre a mesa e chorou copiosamente. De alegria.

segunda-feira, 16 de março de 2009

Poemeto em L

Levavas lírios legados lentamente

Lutei loucamente lhe louvando louros

Lasso lancei languidez lúcida

Latentes lençóis

Lábios lancinantes

Labaredas loucas

Lindos lamentos

Lembranças langorosas

Lascivas

Não existe

Crianças tem amigos imaginários (algumas continuam a tê-los pelo resto de suas vidas), adultos costumam ter alter-egos. De uma certa forma, todos nós temos algum tipo de criatura oculta em algum lugar da mente.

Mariana tinha um namorado imaginário. Não, não se tratava de um protótipo do príncipe encantado que muitas mulheres sonham encontrar, mesmo sabendo que não existem.

O namorado de Mariana tinha nome, imagem, qualidades e defeitos. O que o diferenciava de todos os demais seres do sexo masculino era o fato de que ele não existia.

Mariana conversava com ele, trocava confidencias, lhe enviava mensagens e recebia presentes (que ela mesma escolhia e pagava).

Chegava mesmo a contar para as amigas a respeito dos encontros que mantinha com ele, com uma riqueza de detalhes que mesmo quem sabia da inexistência do namorado chegava a acreditar.

Quando falava a respeito de Oto (esse era o seu nome), Mariana se emocionava. Ria das suas piadas, se encantava com o seu romantismo, admirava seu gosto e se entristecia quando dizia que não o via há alguns dias.

O mais curioso era que ela tinha namorados reais. Os mais zelosos, num primeiro momento queriam se livrar de Oto. Quando entendiam a situação entravam no jogo imaginário.
Um dos seus namorados reais, ousadamente lhe propôs uma vez um ménage-a-trois. Mariana o chamou de pervertido e desmanchou, naqueles termos preferia ficar só com Oto que não era dado a essas modernidades desavergonhadas.

Mariana casou e teve filhos. Nem por isso o abandonou. Quando questionada sobre a situação ela mesma reconhecia : não tem problema, ele não existe mesmo.

Já idosa, Mariana morreu.

E qual não foi a surpresa de seus filhos, netos, parentes e amigos quando, durante o velório, chegou um entregador de flores trazendo uma gigantesca coroa de rosas e lírios onde se lia : "À mulher que me deu vida e fez dela um tempo de eterna felicidade. Oto".

domingo, 15 de março de 2009

Contículo eufemístico

Expõe-me com quem deambulas e a tua idiossincrasia augurarei".

Um senhor pegou o carro de Antenor sem lhe avisar e sem a intenção de devolver.

Quando se deu conta que havia sido subtraído do seu mais prezado bem por um reles passador de cinco dedos, imediatamente desejou que o tal desembarcasse no porto de Lùcifer.

Imaginou que se tratasse de alguém que vivesse de caridade pública, o que não impediu Antenor de se referir ao usurpador do alheio como um filho do mesgramado.

Para tornar sua vida menos favorável, ainda teria de ouvir de Marieta que ele estava faltando com a verdade.

Justo ele, um operário dos consertos elétricos seria alcunhado como alguém a quem as verdades esqueceram de acontecer.

Por onde andariam os agentes da segurança pública no momento fatídico do ocorrido? Limpando o que fazem os cães?

Não negava que a situação tornara-se menos clara. Sem propriedade, sem quem lhe queresse bem. Sem a certeza de um futuro melhor.

Olhou para o céu e se imaginou como uma estrela divina voando no firmamento. Entregou a alma a Deus e foi ao encontro da indesejada da gente.

eufemismo: consiste em substituir uma expressão por outra menos brusca; em síntese, procura-se suavizar alguma afirmação desagradável.

sábado, 14 de março de 2009

Desomissão de amor

Porque você nunca iria ler estas palavras é que eu as escrevi.

Minha atitude covarde se transformou ao revelar meus sentimentos, exalo o amor e exprimo meu carinho que vai muito além das palavras.

As palavras substituem as ações que meus temores evitam. Como demonstrar tentando não te machucar, a tensão e a intenção de te beijar ?

Quando tua mão a minha aperta salta na garganta a palavra de amor. Dela me lembro quando a saudade aperta.

O sonho recupera sua presença.

Como no dia em que revelei o que não permitia que soubesse.

E as palavras que me atrevi dizer já são parte de nossas vidas

sexta-feira, 13 de março de 2009

Como diria Ibiapina

Janúncio amoquecava umas tiras de xuri apocitadas quando notou traços de macega em sua mirabela.

Sabia que isso poderia deixar seu prato com um sabor adípico e deletério.

Imediatamente lançou mão do cintel e começou a sarjar seu cacico como quem usa o gorgaz no vergel.

Entre asafias e aravias ergueu um libame elastério e tradou nitente a xaí.

Enquanto esboroava a ave tal qual um parasselênio, caiu-lhe das mãos o natro clorificado e a malada, destruindo o lardo acepipe.

O prato virou um olobó que nem Éaco toleraria. Uma vera anástrofe.

Despejou tudo no aludel que atascou junto ao pé de pacová.

Júlio de Matos Ibiapina Nasceu a 22 de setembro de 1890, em Aquiraz, Ceará. Seu pai foi chefe político de Aquiraz. Especializou-se em línguas na Europa. Foi Professor Catedrático de inglês e um dos fundadores da Academia Brasileira de Filologia.

quinta-feira, 12 de março de 2009

Contículo Ex-tremista

Para a Cristiana Soares que, há tempos, denunciava esse crime


O sagüi inconseqüente subia com freqüência no salgueiro antiqüíssimo do aqüífero Anhangüera.

Naquele ponto tinha uma visão grandiloqüente dos animais, especialmente eqüinos que viviam na contigüidade daquele agüeiro.

Sabia que era inexeqüível fazer-lhes uma argüição. Sabia a conseqüência de um coice. Iria se ensangüentar, sem direito a enxágüe. acabaria por se desmilingüir.

Certa manhã olhando com obliqüidade, notou uma delinqüência no pasto. Como era um ser eloqüente deliberou alcagüetar a ambigüidade eqüestre.

Antes que míngüe minha eqüidade usarei minha lingüística junto ao ser consangüíneo que costuma ficar eqüidistante do eqüilátero.

O alcagüete, que não era de amarrar cachorro com lingüiça, aproveitou a exigüidade de tempo e delatou a iniqüidade, dizendo :

" -Enxagüei minhas patas com ungüento, não posso agüentar freqüente comportamento que não seja eqüitativo...

Sobre o haras que deságüem as conseqüências !"


O trema, o mais simpático sinal gráfico da língua portuguesa morreu. Viva o trema.

quarta-feira, 11 de março de 2009

Hai Kais em sentidos

Encontro marcado
Sob intensas paisagens
som de primavera

Rubra face freme
Entrada, vinho e café
Sabor de verão

Tão suavemente
colo, beijo e cafuné
Perfume outonal

Teu olhar distante
Na pintura de uma igreja
Discurso de inverno

Atentos mirando
meu temor com seu tremor
suave estação

terça-feira, 10 de março de 2009

...uma gota...

Um dia, depois do almoço, Jorge resolver tomar um café no bar onde Sara trabalhava como barista. Logo ao entrar reparou num sujeito conhecido, sentado numa das mesinhas. Quando se tocou quem era, foi direto para o balcão.

" - Sara, você sabe quem aquele cara de camisa azul na mesinha da esquerda ?"

" - Um cliente que sempre aparece aqui..."

" - Ele o Java Percolator, o mais temido crítico de cafés da cidade. Foi com ele que eu fiz aquele curso sobre cafés.."

Sara travou. Percolator no seu bar? Tomando o seu café? Mal ouviu quando o garçom pediu mais um colombiano suave.

Ficou tão nervosa que, ao abrir a embalagem do pó de café, cortou o dedo. Pior, não percebeu que, ao pegar a xícara, uma gota de sangue caíra lá dentro.

Minutos depois viu o temível crítico caminhando em direção a ela.

" - Eu devo ter tomado cafés feitos com esse pó algumas dezenas de vezes" disse ele, "e nunca nenhum tinha o sabor do que você me serviu. Estava perfeito."

Sara agradeceu sem jeito. Sabia que, em hipótese alguma, alguém poderia saber o que tinha acontecido.

Dias depois começaram a aparecer dezenas de pessoas querendo provar o colombiano suave. Percolator tinha escrito a respeito dele na revista de maior circulação do país. Todo mundo queria saber quem era aquela nova revelação no mundo dos baristas.

Sara sabia que não podia falhar. Pegou um alfinete que estava na sua bolsa e furou o dedo. Discretamente depositava uma gota em cada xícara antes de levá-las para a máquina. Acabou o dia com o dedo todo machucado.

Sua fama só fez crescer. O bar tinha filas. Recebeu convites para ir para Atlanta, representando o Brasil no concurso mundial de baristas. Educadamente recusou, mas continuava furando o dedo todos os dias. Começou a trabalhar com luvas de borracha antes que alguém perguntasse porque ela sempre tinha um band-aid no polegar.

Uma corporação multinacional de café lhe fez propostas fabulosas para que ela vendesse o seu segredo. Chegou mesmo a receber uma comenda do governo da Colômbia.

Por outro lado, Sara perdera suas aparência saudável e suas bochechas rosadas. Cada dia estava mais pálida. Dizia que era cansaço pelo excesso de trabalho. Para Jorge, sempre tinha alguma desculpa para o dedo que nunca melhorava.

Uma tarde desmaiou atrás do balcão. Chegou sem vida no pronto-socorro. O mundo dos apreciadores de café ficou desolado.

No atestado de óbito constou apenas que a causa da morte tinha sido uma hemorragia intensa de origem não identificada.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Um amor de café

Tudo começou quando Ana ligou para Sara para convidá-la para um churrasco em sua casa num sábado.

" - Você não sabe, mas o Jorge agora está fazendo uns cursos sobre café e vai adorar conversar com você sobre o assunto..."

Num primeiro momento Sara não achou a idéia muito boa, afinal, era barista e tudo que não gostaria nas suas folgas semanais era ficar conversando sobre o que, para ela, era trabalho.

Sabia que isso era inevitável, sempre que alguém descobria a sua profissão o papo acabava indo nesse rumo. Além do que, Ana era amiga desde a infância e merecia o sacrifício.

O que ela não imaginava é que Jorge, o eterno namorado de Ana (ninguém nunca soube porque não se casavam), iria continuar querendo conversar sobre o assunto depois do churrasco.

Primeiro foi um e-mail em que ele pediu indicações sobre fazendas da alta mogiana, pois iria passar na região e queria aproveitar. Depois um telefonema pedindo uma indicação de livros.

Não demorou muito ele começou a aparecer no bar onde Sara trabalhava. Sentava no balcão, pedia um café diferente a cada vez e ficava no papo.

Sara não lembrava quando é que os papos tinham passado de café para outros temas. Nem quando começou a gostar das visitas de Jorge.

Lembrava do primeiro dia que ele a convidou para jantar. Só os dois. Lembrava das caminhadas no parque na hora que ela saia do trabalho. E lembrava do dia que Jorge contou que tinha rompido com Ana.

Isso ela já sabia. Ana tinha ligado chorando e dizendo que Jorge a trocara por outra. Não, ela não fazia a menor de ideia de quem fosse.

Sara contou que a outra era ela e ouviu a batida do telefone. Quando a raiva e a mágoa passaram, voltaram a ser amigas.

Ana só foi encontrar Jorge de novo no seu casamento com Sara.

Quando os dois saiam da igreja, Ana abriu um saco e, ao invés de arroz, começou a jogar grãos de café sobre o casal, gritando:

- " 100% coffea arabica...100% coffea arabica...100% coffea arabica !!"

domingo, 8 de março de 2009

Não é fácil suspirar

Existem poucas receitas que sejam tão simples quanto a de suspiros. São apenas 3 ingredientes (clara de ovos, açúcar e limão).

Ao mesmo tempo, é uma das receitas mais controversas a respeito da proporção dos ingredientes. Alguns defendem 1,5 clara para cada colher de açúcar, mas já vi até sugestões de 4 colheres de açúcar para cada clara. O uso do limão sempre deve ser comedido.

O resultado do excesso ou escassez de cada um dos ingredientes pode provocar resultados muito variados.

No caso do açúcar, se usado em excesso, provoca suspiros melados a pontos de serem pegajosos de tão piegas. Por outro lado, pouco açúcar deixa o suspiro sem graça, como aqueles que damos para os amores passados que tiverem pouco ou nenhum significado.

Muita clara é garantia de um suspiro massudo e também maçudo. Tipicamente daqueles que são emitidos em situação de enfado e canseira. Mas não imagine que a falta de claras traz algum benefício, apenas deixa o suspiro inconsistente e aborrecido.

O limão (se possível siciliano, pois o galego é muito ácido) representa aquele toque picante e sedutor do suspiro. Sua ausência é semelhante aos amores platônicos. Se tiver presença excessivamente marcante ficam tão lascivos que azedam seu sabor.

O suspiro perfeito precisa ser suavemente doce, consistente e picante na medida exata.

E deve desmanchar na boca como as bolhas de sabão desmancham no ar.

sexta-feira, 6 de março de 2009

Um óbvio nada ululante

Ficção é o termo usado para designar uma narrativa imaginária, irreal, ou referir obras de arte criadas a partir da imaginação.

Alguns dos meus leitores enfrentam alguns problemas com esse conceito (ou não confiam mesmo na minha imaginação) e, acabam lendo entrelinhas onde elas não existem.

Por isso hoje, resolvi ser um pouco mais explícito, a história é a seguinte:

João (aqui deixando claro que escolhi um nome próprio ao acaso e que o dito João não é o alter-ego do autor) acordou (o sentido do verbo acordar, nesse contexto, é literal e não metafórico) naquela manhã (que poderia ser qualquer manhã comum de qualquer dia da semana, exceto 2a feira, por motivos que se verão mais adiante) com idéias (de uma forma mais ou menos elaborada, todas as pessoas pensam) estranhas (notem que o fato da idéia ser estranha, não carrega nenhum viés pejorativo, apenas que eram ideias incomuns aos seus pensamentos habituais). Não sabia (usei de forma intencional como advérbio de negação apenas para demonstrar a ignorância de João sobre o fato) se fora algum sonho (conjunto de ideias e imagens que se apresentam durante o sono, nesse caso, está longe de ser um anelo, um anseio ou algum sentimento romântico), pois nunca (não me acusem de ser repressor com o uso da negação absoluta, nem sempre sou democrático, mas não chego a esse limite) se lembrava (referindo-me à situação corriqueira, para alguns, que lembram o conteúdo dos seus sonhos noturnos, não se deve intuir que se refira ao apagar de memórias desagradáveis) do que sonhara (o uso do pretérito mais que perfeito visa apenas seguir a norma culta da conjugação, não tendo como corolário que os sonhos do personagem fossem perfeitos ou não). Depois do café da manhã (a narração não deixa explícita se João morava sozinho ou não, até porque é um fato irrelevante para a trama), pegou sua carteira (isso significa apenas que ele não portava permanentemente o seu recipiente de numerário, nada consta que, na mesma, houvessem fotos de amantes ou bilhetes comprometedores), verificou se tinha dinheiro suficiente (apesar de alguns defenderem não traz felicidade, uma certa quantidade do mesmo seria necessária para a execução a seguir, uma vez que isso não é novela onde as pessoas compram coisas sem pagar) e caminhou (deu um passo depois do outro. Se caminhava, cantava e seguia a canção não sei, até porque isso carregaria um significado ideológico à historia) um quarteirão (em média, uma distância de 100 metros) até chegar (de certa forma traz uma noção de atingimento de um certo objetivo, nesse caso, apenas uma meta topográfica) à feira livre (são chamadas de feiras livres aquelas que acontecem nas ruas, por oposição aos mercados e feiras confinadas, não existe a necessidade de se extrair conclusões precipitadas sobre a liberdade. As feiras livres não acontecem às 2as feiras, a menos que o autor do texto esteja enganado). Comprou o que precisava (e, aqui, precisar se refere ao verbo que significa ter necessidade e não aquele que determina se há precisão) e voltou para casa (a volta ao lar tem vários significados simbólicos - nenhum deles foi usado aqui). Naquele mesmo dia (ainda um dia absolutamente indefinido e inadjetivado), pela primeira vez (todas as pessoas tem várias primeiras vezes nas suas vidas, se você lembrou de alguma que lhe foi relevante pode ter certeza que isso aconteceu por mero acaso, já que o texto não lhe dá esse direito) na sua vida (seja do ponto de vista biológico, seja do ponto de vista psicossocial), experimentou os sabores (quando eu falo em sabores, meus leitores costumam ter delírios metonímicos agudos, esquecem que suas papilas gustativas não tem uso exclusivo para usos lascivos) de rabada (aqui, além de metonímicos partem para a catacrese chula. Raios! Será que ninguém nunca comeu um bom rabo de boi cozido na panela de pressão) com catalonia (o vegetal de folhas verdes e amargas, não significando que, por ser verde, simbolize a esperança, nem por ser amargo, simbolize alguma dificuldade na vida)

Será que dessa vez eu consegui ser claro ? (no sentido óbvio de ser explícito e não do uso de cores de tons suaves)

quinta-feira, 5 de março de 2009

Paranoia blues

Josefina descia a ladeira todos os dias pensando. Por que será que Clarimundo a olhava daquele jeito? Seria amor? Seria desprezo? Seria ironia?

No começo ela ainda olhava para trás e percebia que, do alto da guarita do prédio ele a observava até que ela chegasse no final da rampa e entrasse na avenida.

Depois, nem precisava mais olhar, tinha certeza que ele a mirava na descida.

Se eu ainda estivesse numa subida, imaginava, ele estaria olhando as minhas pernas. Mas na descida? De costas?

O pior é que a rua não tinha saída para nenhum outro lado.

Um dia ela encontrou uma loja que pintava camisetas na hora e mandou fazer uma com letras garrafais dizendo : "tá olhando o que?"

Ele não esboçou nenhuma reação, nenhum comentário. Aliás, apenas lhe dava boa tarde quando partia.

Um dia, a patroa pediu que descesse até a portaria para pegar uma encomenda que chegara.

Ela desceu e, pela porta de trás da guarita, pediu o pacote. Ele nem se virou para olhá-la e pediu que ela viesse até a frente.

O sangue subiu à cabeça de Josefina que gritou : " Você é algum tipo de tarado, ou o que ?"

Clarimundo, pálido de perplexidade e de vergonha, esticou a mão para trás com o pacote e, timidamente respondeu :

"- Moça, eu tive um problema de saúde quando era pequeno e o meu pescoço não vira para lado nenhum..."

Ninguém nunca entendeu nada mas, daquele dia em diante, Josefina passou a descer a ladeira de marcha-ré para o deleite de Clarimundo.

quarta-feira, 4 de março de 2009

Poemétrico


Vinhas inocente, rindo graciosa, irrompendo na imaginação aguardada.

Somente um sincero amor nos aninharia

Assim nada anteciparia soluções usadas suavemente

Apenas idéias nuas, irresponsáveis gritos, rondariam invisíveis votos.

Veredas indicando rastros gastos iluminados nesse anoitecer

Seremos únicos, sentiremos amanhã, noturnos apaixonados.

terça-feira, 3 de março de 2009

A execrável antologia de Fevereiro

O truque aqui é o seguinte : leia os comentários abaixo (todos publicados nesse blog durante o mês de fevereiro) e, sem tentar voltar aos posts originais, imagine o que foi que aconteceu.

Pode rir sozinho...é permitido:

Eles arrasaram com o Merlot e vc com o filme.

São peixes tuberculosos.

Adorei, mas fiquei em dúvida quanto à minha sexualidade... :-)

De boas analogias sempre se tira um bom papo.

Vai ser verborrágico assim lá na China

E mamãe que apostava tanto nele...

Mas minha irmã deu o nome de Riquelme ao gato. Pode?

...será que a Globo.com bloqueou meu blog porque teve um "surto psicótico?

...toda biblioteca sanitaria que se preze, deve ter um exemplar destes!

O que você tem contra as alcachofras?

Ouvi dizer que o caso foi parar na delegacia ;)

Daqui a pouco você vai dar uma receita de dobradinha com berinjela!

Quem sabe se a tal da cadeira do Afranio nao se encontra em casa sua...

...serei perseguida por comer tanta melancia, será?

Confesso que admiro a sua persistência...

Se ele ler o Proust em 7 dias também merece ir para o livro dos recordes.

Pena que voce não tem tempo...e eu não tenho coordenação...

segunda-feira, 2 de março de 2009

Contículo invertido


Sim dissera no dia que ele a conhecera, juras eram feitas, perfeitamente as ouviu.

Da sua vida, em seguida, desapareceu, negar não podia que o acontecimento mal percebera.

Um no outro tropeçaram algures, sem que isso relevante fosse.

Amor à primeira vista não poderia se chamar o novel sentimento, mesmo se outros ângulos alegassem.

Monocromáticas vidas outra paleta de cores descobriram. Tons menores em brilhantes acordes soavam.

Dos temores passados a noção perderam, de sorrisos as almas inundaram.

Foi como se o mundo todo, em um momento, tivesse se invertido.

Inversão: consiste na mudança da ordem natural dos termos na frase.

Envolto em brumas

Lázaro trabalhava há mais de 20 anos na mesma empresa, a Nolava Empreendimentos. Sempre subordinado ao mesmo chefe. O chefe foi subindo, ele junto. Até que o chefe chegou à presidência ao conseguir desatar um nó estratégico que impedia a corporação de se expandir.

Nem todos os colegas gostavam dele. Cunharam-lhe o apelido de Lazarote, brincavam que era o fiel escudeiro do rei.

Sempre mantivera com o seu superior uma relação de amizade distante. Bons amigos no trabalho, nenhuma relação fora dele. Lazarote conhecia vagamente a mulher e os filhos do presidente, que vira em uma ou outra festa familiar da empresa.

Até que, num sábado à tarde, fazendo suas compras de supermercado da semana, encontrou Ginevrina, a mulher do chefe, junto à prateleira de legumes. Reconheceu-a e cumprimentou-a. Ela olhou de forma inquisitiva e ele lembrou a ela quem ele era.

Nesse momento ele percebeu lágrimas nos seus olhos claros. Questionou se estava tudo bem e ela começou a chorar.

Deixou seu carrinho de lado e, amparando-a, levou-a até o café e sentou-se silencioso ao seu lado. Ela também não falou nada. Chorou um pouco mais. Depois enxugou as lágrimas, agradeceu a sua atenção e se desculpou pela cena.

Quando chegou a segunda-feira pensou em perguntar ao chefe se ela estava melhor. Mas era um sujeito discreto, o presidente não falou nada, ele não perguntou nada. Mas não se conteve e ligou para ela para ter notícias. Ela ficou feliz com a sua atenção. Conversaram um pouco, que já era muito mais do que tinha se falado nos últimos 20 anos.

No sábado seguinte, quando chegou ao supermercado para fazer as suas compras, ela estava sentada no café, como se o esperasse (e, de fato, o esperava, foi descobrir muito depois). Fizeram as compras juntos. Identificaram as marcas e produtos que tinham em comum, discutiram longamente o uso dos temperos.

Alguns sábados depois já estavam trocando receitas na casa de Lazarote, onde morava só desde que Elaine o abandonara.

Não demorou muito para que Mordred, um dos seus detratores os visse no supermercado e avisassse o chefe. Esse agiu rápido e, no sábado seguinte mandou que seus seguranças Gareto e Gareno (irmãos gêmeos, com dois metros de altura cada um) fossem buscar Ginevrina no supermercado e aplicassem um corretivo em Lazarote.

O que não se esperava era que fossem encontrá-lo armado. Em pleno estacionamento sacou sua pistola automática e matou os dois.

Em meio ao pânico que se formou, Ginevrina fugiu para um lado e ele para outro. Ela se escondeu com uma das suas irmãs que era madre-superiora de um convento e ele numa propriedade rural no interior de Tocantins, onde trabalhou como caseiro.

Só voltaram a se encontrar no enterro do chefe, anos depois. Os olhos de ambos brilharam, mas os temperos já tinham perdido seu prazo de validade.

domingo, 1 de março de 2009

Traiçoeiramente


A vida é cheia de descobertas.

Uma das mais recentes foi Paul Geraldy. Apesar desse senhor ter nascido em 1885, ele só me foi apresentado recentemente.

Mesmo sem ter intimidade, já saí traindo o cara....

Você e eu

Não é no justo momento
Que partes que me deixas.
Largue-me minha pequena,
Já é tarde, salve-se depressa !
Mais que tuas visitas
Amos suas continuações.

Tu me és mais presente, ausente.
Quando falas. Eu te vejo.
Mais errante. Mais amante.
Inconstante, estonteante
Me habitando e me encantando
Não preciso mais de ti.

Agora pálida, irreal
confusa, hesitante, infiel
Dissolve-te no tempo.
Fugidia e rebelde,
Me escapas, eu te te chamo
Sinto tua falta e espero.

Se sua ética não aceita esse tipo de traição, abaixo vai o texto original

Toi e Moi

Ce n'est pas dans le moment
où tu pars que tu me quittes.
Laisse-moi, va, ma petite,
il est tard, sauve-toi vite!
Plus encor que tes visites
j'aime leurs prolongements.

Tu m'es plus présente, absente.
Tu me parles. Je te vois.
Moins proche, plus attachante,
moins vivante, plus touchante,
tu me hantes, tu m'enchantes!
Je n'ai plus besoin de toi.

Mais déjà pâle, irréelle,
trouble, hésitante, infidèle,
tu te dissous dans le temps.
Insaisissable, rebelle,
tu m'échappes, je t'appelle.
Tu me manques, je t'attends