domingo, 30 de novembro de 2008

Baladas no fogão

Claro, você já percebeu pelo horário das publicações que eu sou coruja mesmo. Funciono melhor de madrugada do que de manhã.

Meu sono segue rigorosamente a lei da inércia. Quando estou acordado, tendo a continuar acordado. Em compensação, depois que durmo... costumo dizer que eu me levanto às 7, mas só vou acordar depois das 9. No intervalo sou, literalmente um zumbi.

Ultimamente dei para cozinhar de madrugada. Acabo a minha lide virtual e vou para o fogão ou, pelo menos, para a pia temperar algo para o dia seguinte.

A família não costuma reclamar, desde que eu não invente de usar o liquidificador. Se bem que outro dia minha mulher levantou dizendo que tinha sonhado com molho de tomate e qual não foi sua surpresa ao encontrá-lo pronto em cima do fogão.

Amanhã vai ser dia de fraldinha. E não é dos meus filhos que já passaram dessa fase e agora ao invés de usá-las devoram-nas

A carne foi temperada com flor de sal e pimenta do reino. Num recipiente à parte misturei salsa, cebolinha, louro em pó e alho em flocos e azeite. Reguei a carne com essa mistura. Cobri a carne que passará a noite nesse caldo.

Amanhã é só aquecer o forno à temperatura alta. Colocar a carne numa assadeira, com a gordura voltada para baixo e levar ao forno por 20 minutos, ou até dourar. Retiro do forno e deixo descansar por 5 minutos. Levo ao fogo uma frigideira com dentes de alho e o azeite de oliva. Frito, mexendo de vez em quando, até dourar.

A fraldinha fatiada vai para os pratos onde será regada com o alho frito no azeite de oliva. Ainda não resolvi se vou de batatas fritas ou farofa com banana.

O vinho será um Morgon, um vinho da região do Beaujolais feito com uvas gamay. Uma das variedades mais encorpadas da região junto com o Chénas, o Julienas e Moulin-à-vent.

sábado, 29 de novembro de 2008

Hai Kais em Camelot

Arthur

Espada na cinta
Amor lançado no chão
Inverno real

Guinevere

Seus cachos dourados
contrastando o mar de jaspe
Brilham no meu céu

Lancelot

Nunca fui herói
Exceto aos olhos da amada
que me é rainha

Galahad

Só os puros podem
lhe alcançar o coração
missão natural

Excalibur

Poderes brutais
Levaram-me ao seu dossel
Plena primavera

*Haikai (Haïku ou Haicai) é um forma poética de origem japonesa, surgida por volta do século XVI, que valoriza a concisão. O haikai é a arte de dizer o máximo com o mínimo. Cada haikai capta um momento de experiência, um instante em que o simples subitamente revela a sua natureza interior e nos faz olhar de novo o observado, a natureza humana, a vida. O grande mestre haikaista foi Matsuô Bashô (1644-1694). É um poema de três versos, escrito em linguagem simples, sem rima, com dezessete sílabas poéticas (sendo cinco no primeiro verso, sete no segundo e cinco no terceiro), e com uma referência à natureza expressa por uma palavra (o chamado kigô), que deve representar também a estação do ano.

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

Síncope amorosa



Síncope

procuramos
procuramos
procuramos

encontramos infinitos becos
apagamos infinitos beijos
voamos infinitos brejos

precisamos
precisamos
precisamos

desvendamos inocentes votos
desdenhamos inclementes vates
desenhamos insolentes vácuos

choramos
gritamos
dançamos

o tema
o lema
cinema

a prova
aprova
deplora
deflora o sonho

parecemos
parecemos
parecemos

brilhantes cores
instantes dores
amores

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Nossa (??) língua portuguesa? O retorno

João era ladino desde bacuri. Nunca dava trela para panca marrudo nem fazia picuinha por meia-pataca. Mesmo sendo um caboco do cafundó não costumava se estorvá.

Na roça era um pé-de-boi, nem fastiava nem se metia em fuá. Punha a fuça na enxada, que não dava para ganhar os tufos.

Um dia, avuado, deu um tropicão e se arranjou um unheiro de trincá, quase ficou zambeta. Mas ficar em casa como pata-choca não ornava com ele.

Antes que batesse a gastura e acabasse numa sororóca, mandou chamar o boticário da vila, uma mistura de charlatão com curandeiro.

O janota chegou desgueio, carregando um emborná e um jacá cheio dos trem.

João, acabrunhado, contou que tinha feito uma bestagem pros lado da grota, que parecia um quebranto no cambito.

O facultativo do arraiá achou que era xurumela, e começou a relá, entre um trelê e outro, até que mexeu no táio e João soltou os cachorros :

"- Quá ! ocê num tá vendo que eu tô escangaiado ? Já vai fincando...módequê ?

O farmacêutico se acoitô e quase deu o pira, mas era intojado e não queria deixar serviço pela metade. Deu uma gaitada, enquanto campiava o táio, pichou fora a casca e tacô iodo na xixilenta que deixou João sem fôrgo.

" - Num tô aqui para adular tôco nem para fazer agrado. Vou arrumá a nódia, depois inté pico a mula, mas só saio sem questã."

João sentiu a quentura enriba da perna e, mesmo enfezado e birrento, viu que não adiantava pelejá. O cara era papudo, mas era mais forte que quebra peito, não dava para gorá. Enxoxou.

O boticário acabou o serviço. Tomou uma caneca de café prá boca de pito e foi embora.

Dois dias depois João já estava trabalhando de novo.

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Conticulóides minimalistas

Lembrança tênue

Quando Fernando chegou em casa naquela noite só encontrou um fio de cabelo no chão do banheiro impecavelmente limpo. Armários, gavetas e penteadeira, tudo estava vazio. Descobriu que, dessa vez, Carolina tinha falado sério.

Brilho

Henrique nunca deu muita bola para cor de olhos. Oftalmologista, sabia que era apenas uma questão de pigmentação. Até o dia que, enquanto examinava uma das suas pacientes começou sentir tonturas. Dois meses depois estava casado com Íris.

Queratina

Carla entrou no salão de beleza avisando que precisava de um serviço impecável. Naquela noite seria apresentada à família de Rafael e não podia errar em nenhum detalhe. A manicure, depois de quase duas horas de trabalho recomendou : use sapato fechado, você é a primeira pessoa que eu conheço que rói as unhas do pé.

Melanina

Antonia gostava de usar roupas que deixassem os seus ombros nus. A pinta redonda e perfeita no ombro esquerdo era o seu orgulho, além do que a usava como instrumento de sedução. Um dia, no cinema, notou que o homem na fileira de trás não tirava os olhos do seu sinal particular. Sorriu para ele. Ele retribuiu o sorriso e lhe entregou um cartão dizendo que era melhor ir até o seu consultório tirar aquilo. Era câncer de pele.

Politelia

Marcinha entrou na adolescência como se entrasse num convento. Enquanto todas as colegas usavam e abusavam de decotes, ele se vestia do calcanhar ao pescoço. Ninguém entendia, afinal, seus pais eram bem liberais e ela tinha o corpo bem feito. As meninas começaram a ficar e Marcinha não ia para nenhuma balada, nenhum garoto podia tocá-la. Apaixonou-se por André durante uma aula de biologia, quando ele teve coragem de dizer que tinha 3 mamilos. Ela também.

sábado, 22 de novembro de 2008

Ao infinito, e além

Dizem os italianos que "traduttori traditori" - Tradução é traição. Traduzir decassílabos da língua que me acusa de traição é muita petulância : vindo de um insano, tudo é possível.

Considerando que o poeta era, ele mesmo, um exímio tradutor/traidor, tenho certeza que não virá me puxar os pés à noite.


O infinito



Sempre querido foi o ermo monte
Este arbusto, que de todas as partes
Do último horizonte, levo aos olhos
Sentado, olhando, infindável espaço
além dela, sobrehumano silêncio
Em calma e paz profunda quietude
Finjo que penso, por muito pouco*
Não me para o coração. Com o vento
Ouvindo o murmurar triste das folhas
De infinito silêncio vem a voz
Tudo comparo, vejo a eternidade
Mortas estações. Viva, esta presente,
com os seus ruídos. Face à imensidão
meu pensamento suavemente afunda
É doce naufragar neste oceano.

Versão original

L'infinito
Giacomo Leopardi

Sempre caro mi fu quest'ermo colle,
E questa siepe, che da tanta parte
Dell'ultimo orizzonte il guardo esclude.
Ma sedendo e mirando, interminati
Spazi di là da quella, e sovrumani
Silenzi, e profondissima quiete
Io nel pensier mi fingo; ove per poco
Il cor non si spaura. E come il vento
Odo stormir tra queste piante, io quello
Infinito silenzio a questa voce
Vo comparando: e mi sovvien l'eterno,
E le morte stagioni, e la presente
E viva, e il suon di lei. Così tra questa
Immensità s'annega il pensier mio:
E il naufragar m'è dolce in questo mare

sexta-feira, 21 de novembro de 2008

Onomatopaixão

Há algum tempo publiquei um poema dadaísta do Samuel. Seguindo os passos do meu filho, ofereço agora a minha versão pessoal, diferentemente dele, não inclui as legendas que eu deixo por conta da imaginação de cada leitor:

Flic, flic, flic...pá !
Flic, flic ?
Flic !
Zóóóim. Pum !
Bzzz, bzzz, flic, bzzz
Uóck, smóck, uuuóóóck
sss...hum, uock, humm
ã ã, á , ú, humm, á, á, á
Uauauauau. Aúúú
uó..ck, uó...ck, uó...
zzzzzz

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Nós somos os maiores

Toda cidade precisa ter algo onde é a maior, para contar isso para os turistas. A referência é sempre quantitativa, nunca qualitativa.

Não tem a menor graça dizer que uma atração é a maior da cidade. Maior do estado também não chega a emocionar os guias. No mínimo precisa ser a maior do Brasil. se for da América Latina é um plus a mais adicional. Quando é a maior do mundo é a glória.

Em Recife fui apresentado à maior avenida em linha reta da América Latina (sic). Fiquei pensando qual deve ser a maior em linha curva...será a Av Sapopemba ?

Imagino que o turista clássico deva adorar esse discurso ainda dizer : ohhhhh. Daí resolvi criar o meu roteiro paulistano:

Começaria mostrando o maior canal de esgoto a céu aberto da América, formado pelo eixo Tietê-Pinheiros.

Claro que para chegar nele, seria obrigado a passar pela maior concentração de congestionamento da América Latina, pelo menos 100km de vias congestionadas nos dias de trânsito light.

O clima mais imprevisível do hemisfério sul é facilmente notado. Também temos a maior xepa do mundo ocidental em dias de sacolão no Ceasa.

A maior estátua multiétnica é aquela do empurra-empurra no Ibirapuera. Em frente temos a assembléia legislativa com índices de fisiologismo incomparáveis.

Em compensação perdemos o título de maior poluição visual depois da lei da cidade limpa.

E a sua cidade ? É a maior em que ?

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

Contículo Prosopopéico

Os cacos da vida, colados, formam uma estranha xícara.
Sem uso,
Ela nos espia do aparador.
Drummond


Quando a lua me disse que se recusaria a brilhar naquela noite imaginei que ficaria naquele frio inteligente até o galo cantar.

Olhei para o peixinho que, silencioso e levemente melancólico lembrava dos seus rios carregando as queixas do caminho.

Ele me olhou com desdém quando o sofá me acolheu e peguei uma antiga versão do Morro dos Ventos Uivantes.

Na cabeça a canção, a lua, tal qual a dona de um bordel, pedindo brilhos de aluguel às estrelas desnudadas.

No telhado do vizinho, os morcegos faziam a ronda habitual e os grilos, como numa mesa redonda, discutiam os destinos do mundo.

O longo braço das nuvens retinham os ventos. E nada de lua.

A essa altura da noite apenas os murmúrios do relógio da sala me mantinham acordado. Foi quando o telefone me chamou.

Quem poderia ser aquela hora ? Algo importante ou um engano prosaico ?

Era ela.

O maestro dos grilos levantou a batuta para uma pausa. Os morcegos me encararam emudecidos. Até o relógio pensou melhor antes de executar a baladada da meia-hora

Como o vento entoando sua ária solitária num canyon a lua assoprou no meu ouvido sua mensagem.

Sinta o meu canto na boca do vento. Minhas ilusões gemem entre os rubores da aurora. Mesmo na escuridão o céu está mostrando sua face mais bela.

O peixe arregalou os olhos mostrando grande sisudez, sua água não parava de chorar.

Ela continuou : Quando o meu corpo esmaecer e eu for nova, continuará o jardim, o céu e o mar. E como hoje igualmente hão-de bailar as quatro estações à sua porta.

O aparelho de telefone fugiu das minhas mãos. Drummond estava certo ou então eu andava lendo Esopo demais

segunda-feira, 17 de novembro de 2008

Saindo pelo cano

Mais de uma vez eu fiz dieta. Todas elas com acompanhamento médico e sempre evitei as bombas químicas que aceleram o processo. Conheço bem o meu metabolismo e o método mais eficiente sempre o foi a dieta do zíper atlético, ou seja, a combinação de boca fechada com atividade física.

Conheço pessoas que já fizeram todas as dietas da moda. Passaram dias tomando sopa ou shakes. Em outros momentos tinham cardápios de acordo com a fase da lua (a Cecília Meirelles tinha fases amorosas, essas dieta induz a fases nutricionais). Tentaram aquela de só ingerir proteínas. Depois a outra onde se come tudo, menos proteínas. A do médico americano, a do endocrinologista russo, e até a da nutricionista de Galápagos (também conhecida como dieta Rapa Nui).

Nenhuma delas funcionou como a minha nova descoberta dessa semana. Em 6 dias perdi quase 2 kg, sem fazer nenhuma escolha direcionada de alimentação. Foi a dieta do canal.

Eu poderia ficar rico com a fórmula, mas como um sujeito generoso, deixo abaixo a orientação gratuitamente para quem quiser usufruir da mesma :

a) Numa sexta-feira qualquer (é importante que seja nesse dia) sinta uma vaga dor de dente, sem importância, em algum dos últimos molares.

b) Acorde no sábado com a dor um pouco mais forte, começando a refletir em direção ao centro da arcada dentária. Ainda nada tão forte que pareça uma emergência.

c) No domingo de manhã saia para passear com as crianças e comece a sentir terríveis dores de dente. Chegou a hora de procurar um dentista, em pleno domingo de sol. Se der azar vai sofrer até a segunda de manhã. Se der mais azar vai achar o dentista que vai tratar o molar como se fosse apenas uma infiltração numa restauração antiga. Primeira dose de anestésico.

d) Durante o resto do domingo e toda a madrugada da segunda-feira sinta dor em todos os dentes da arcada afetada. Volte no dentista logo na segunda cedo. Depois de uma coleção de raios-X (primeira exposição à radiação) ele não vai achar nada no molar. Vai tirar outra chapa do dente onde a dor reflete (segunda exposição à radiação) e descobrir um problema no canino. Abre o dente (segunda dose de anestésico) e descobre que é canal. Põe um curativo e manda voltar de tarde para ser tratado pelo encanador (como é que se chama quem trata de canal?)

e) Volte à tarde. O canista vai abrir o dente (terceira dose de anestésico) e tratar do canal. A essa altura a boca já está toda dolorida de tanto mexeram e você já começa ter uns baratos de anestesia. Não dá nem para tomar café, o que, para mim, é a suprema heresia.

f) Quando passa o efeito da anestesia a dor recomeça. Pior do que era antes naquele molar e, como já é de noite, não terá a quem recorrer, exceto aos analgésicos caseiros que não fazem a menor diferença.

g) Terça de manhã você deve estar sentado de novo na cadeira do dentista que tratou o molar. Ele acha que o serviço do domingo foi superficial e resolve tratar com mais profundidade. Quarta dose de anestésico e prescrição de um antiinflamatório daqueles que a gente precisa fazer um boletim de ocorrência na farmácia. Efeito zero. Passe mais uma noite sem dormir.

h) Na quarta feira avise o dentista do canal que ou ele abre o outro dente ou arranca de vez. Ele abre. Trata o canal do molar depois da quinta dose de anestésico em 4 dias. Claro que, a essa altura, a boca é um campo de batalha e tudo dói um pouco. Exceto à noite, quando dói muito.

i) Claro que o dentista vai te atender logo no dia seguinte, ele mesmo já está se sentindo frustrado. Ele olha, admite que não há nada o que fazer a mais no dente e, de repente exclama : "- Ah...uma fístula..." . Assim como eu, olhe para a cara dele e pergunte o que é uma fístula e descubra que é um ponto branco parecendo uma afta, na verdade um ponto de infecção. Claro que depois dessa aventura toda não dá para saber se existia uma infecção que provocou os problemas de canal ou se o problema do canal provocou uma infecção. Antibiótico e analgésico.

j) Aos poucos a dor foi diminuindo, mas não o medo de comer ou beber qualquer coisa. Resultado final, entre domingo e 5a feira, dois kilos a menos na balança do banheiro.

Posso garantir que funciona. Se você vier com aquele papo furado de que não quer sofrer, só posso citar o ditado americano : No pain, no gain.

domingo, 16 de novembro de 2008

Trucidando analogias

Tema :

Os fins não justificam os meios

Variações:

Pitanguis reformam os seios

Cavalo bravo não aceita arreios

Passarins com seus gorjeios

Amor, mais que meros galanteios

Nem tão bonitos nem tão feios

Air bags não dispensam os freios

Não tem e-mail use os correios

Pessimista não tem anseios

sexta-feira, 14 de novembro de 2008

O assassino do biotério


Para Lucila e seus roedores de estimação

Maria e João, professores da universidade, eram os responsáveis pelo biotério. Lá eram os encarregados de reproduzir e manter animais de laboratório destinados às pesquisas da instituição.

Apesar do asco de alguns colegas, especialmente aqueles que se dedicavam somente às plantas e levantavam argumentos éticos contra a pesquisa com animais.

João e Maria nutriam uma paixão pessoal pelos seus Rattus norvegicus.O nascimento de cada ninhada era uma festa. Mas nos últimos dias, o clima do laboratório era de luto e pavor.

Depois de várias manipulações eles já contavam com uma criação de mais de duas centenas de bichinhos e começaram a fase de desmame. Os primos do Mickey eram extremamente ativos e alegres. É verdade que, de vez em quando, alguém acabava deixando um ou outro escapar, e o local virava um verdadeiro caos de caça ao rato. Isso sem contar as eventuais mordidas, nada sério, tirando a dor momentânea, os roedores eram muito bem tratados e não transmitiam nenhuma doença.

Uma manhã, quando chegou ao biotério, João notou uma excitação anormal entre seus animais de estimação. Em várias gaiolas os bichos pulavam loucamente. Foi ver o que era. Encontrou sete deles mortos. Separou os corpos, o que acalmou um pouco as gaiolas, mas não acalmou João.
Não havia nenhum sinal de violência, nem de doença aparente. Maria chegou um pouco depois e começou a aventar hipóteses. Teria sido a temperatura ? Tinha sido uma noite mais fria. Providenciaram um aquecedor.

No dia seguinte, outros cinco estavam mortos. Também sem nenhum sinal. Maria começou a pegar os filhotes vivos para examinar. Reparou que pouco tinham da sua habitual vivacidade. Alguns salivavam e tinham os olhos lacrimejantes. As perspectivas eram ruins.

Naquela noite resolveram deixar o computador ligado com a webcam conectada. Não podiam pedir câmeras para a reitoria, improvisaram. Cada um na sua casa gravou os sinais da câmera. Nenhum movimento durante a noite toda, exceto os espasmos dos ratos. No dia seguinte tinham perdido mais uma dúzia de filhotes. Para agravar a situação as fêmeas pararam de reproduzir.

Chamaram um amigo veterinário para fazer uma necrópsia. Os ratos estavam sendo envenenados com algum anticolinesterásico que ele não conseguiu identificar.

Imaginaram que a ração pudesse estar contaminada, afinal os bichinhos só começavam a dar sinais de doença depois de desmamados. Pediram um exame num laboratório oficial. A ração tinha alguns problemas de qualidade, mas não tinha veneno. A água vinha direto de um filtro, mesmo assim também examinaram. Nada.

No final da semana, mais da metade dos animais tinha morrido. Foram obrigados a sacrificar os demais. Teriam de começar tudo do zero.

O que deixava os dois mais inconformados era o fato de que se não era um envenenamento acidental, que é que poderia estar fazendo isso ? Pensaram em algum aluno. Mas os que ajudavam no laboratório eram de confiança dos professores. Algum funcionário ? Talvez o seu Almeida que uma vez fora mordido por um dos fujões. Mas uma mordida não seria o suficiente para gerar tanto ódio.

Resolveram só pensar no assunto depois do fim-de-semana. Mesmo porque no domingo teriam o churrasco dos professores na casa de campo de Adelaide, uma das colegas da botânica que se opunha as pesquisas com animais, não queriam dar a ela o gosto de saborear esse desastre.

Durante a festa tentaram disfarçar o desânimo. Apesar do assunto ser de conhecimento de toda a faculdade ninguém tocou no assunto. Nem os opositores.

Depois do café Adelaide convidou os colegas para conhecerem as suas estufas. Passaram de uma em uma ouvindo a respeito de rubiáceas, a especialidade da colega. Uma das estufas era o orgulho de Adelaide, era a sua plantação de espécies de Guettardas, flores belíssimas de várias cores. Nesse momento João coçou a cabeça e, sem querer, balbuciou algumas palavras que Maria não entendeu. Ele disse que não era nada.

Quando chegou em casa João foi procurar seus livros dos tempos da graduação. Desde que se formara, nunca mais se interessou por botânica, seu negócios eram os bichos. Os livros estavam encaixotados. Cada um que ele pegava olhava o índice para ver se achava o que queria. Arrancou uma página que lhe interessava e sorriu. Chegara o momento da vingança.

No dia seguinte chegou cedo à faculdade e foi direto para a sala do diretor. Pediu que chamasse uma reunião com todos os professores, ele tinha informações importantes sobre um crime que afetava a todos. As aulas foram suspensas e todos chamados ao auditório. Maria perguntou o que é que ele tinha descoberto. Ele pediu que ela aguardasse. No auditório todos olhavam com um misto de medo e curiosidade. João falou :

"- Como todos os colegas sabem, perdemos todos os ratos do biotério que foram dizimados por algum veneno de origem desconhecida. Apesar de termos conduzido todas as investigações sobre as fontes alimentares nenhum traço de veneno foi encontrado. Concluímos que o envenenamento não foi acidental, mas não conseguímos descobrir nenhuma prova."

Os professores se olharam com um ar de menosprezo, como se dissessem, se não achou provas, para que nos trouxe aqui ?

"- Até ontem ! - continuou João - ontem, durante o nosso churrasco de final de ano eu descobri como é que os ratos foram envenenados. E o assassino está nesta sala !"

A agitação foi geral. Alguns gritavam com João dizendo que aquilo era um absurdo, todos falavam com todos. O diretor teve de gritar pedindo silêncio. João continuou.

" - Como os senhores e as senhoras sabem, os ratos foram vítimas de um anticolinesterásico. O que não sabem é que essa toxina foi produzida aqui na faculdade. Mais especificamente no laboratório de botânica ! "

Um silêncio profundo tomou o auditório. Só foi cortado pelo grito de Adelaide :

" - Desgraçado ! Você não tem respeito pelo sofrimento que todos os seres são capazes de ter ! Viva a libertação animal !" e tentou sair do auditório, mas foi barrada pelos seguranças.

" - Colegas - continuou João - a Profa. Adelaide é a responsável pela chacina do biotério. Ontem quando vi sua coleção de Guettardas me lembrei que tinha ouvido algo a respeito das mesmas nas aulas de botânica da graduação onde, por sinal, fui aluno da professora. Encontrei meu velho livro de farmacobotânica onde achei que algumas espécies medicinais de rubiáceas frequentemente causam intoxicações pois grande parte dessa família é tóxica. Uma delas tem um teor tão alto de anticolinesterásico que é chamada de erva-de-rato. Também descobri que esse foi o tema da tese de doutorado da assassina.."

"- Mas como é que ela fez isso ? " perguntou um dos professores

" - Muito simples, a serragem que usamos nas gaiolas vem do departamento de botânica, que mistura folhas secas na mesma. Só que a única folha usada era da erva-de-rato..."

No dia seguinte o diretor da faculdade soltou um comunicado de esclarecimento a todos e condenou a professora raticida a trabalhar 4 horas por semana no biotério. Sem luvas.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Aforismos temáticos


Do complexo de superioridade

Nunca conte uma desgraça para um pernóstico, ele vai sempre ter uma desgraça maior para retribuir

Da oximorose do tráfego

A forma que a CET encontrou de "melhorar" a fluidez do trânsito é fazendo os carros pararem em mais semáforos (sic)

Da relação de poder

Levo uma grande vantagem em relação a Proust: eu sei o que ele escreveu e ele nunca vai saber o que eu falo a respeito dele.

Do desrespeito à cultura popular

Entrou na casa do enforcado gritando "corda". Levou 3 tiros no peito e um na cabeça.

Das cosmogonias diversas

Muitas pessoas preferem ter um mundo particular todo seu que compartilhar um mundo coletivo que é de todos.

quarta-feira, 12 de novembro de 2008

Traição lunar

Eu tenho o hábito de trair com freqüência, desde que comecei esse blog já foram quase 20 vezes.

Já traí com sofisticação e com simplicidade. Sempre usando a língua como ferramenta.

Hoje eu cometo uma traição popular, uma letra de música simples mas, ao mesmo tempo bem elaborada. Alguns talvez a achem piegas. Particularmente eu gosto muito

Leve-me prá lua

Leve-me prá lua
Num romance que não parte
Ver a primavera
Seja em Júpiter ou Marte
Quero dizer, dê-me a mão
Quero dizer, te beijar

Encha-me a canção
Neste canto sempiterno
Tudo que eu queria
Do teu jeito assim moderno
Quero dizer, eu proclamo
Quero dizer, eu te amo.

O original de Bart Howard é

Fly me to the moon
Let me play among the stars
Let me see what spring is like
On a-Jupiter and Mars
In other words, hold my hand
In other words, baby, kiss me

Fill my heart with song
And let me sing for ever more
You are all I long for
All I worship and adore
In other words, please be true
In other words, I love you



segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Comendo em Recife e Olinda

Meus roteiros de viagem sempre passam por restaurantes, não é a toa que eu peso o quanto peso (se valesse quanto peso estaria rico).

A mais recente foi para Recife onde falei duas vezes num evento do GAPP - Grupo de Apoio Psico-Pedagógico, uma no Centro de Estudo Inclusivos da UFPe e ainda numa reunião da ASPAD (a associação de Síndrome de Down). Depois tem gente que diz que eu só passeio...

A vantagem é que sempre existe um tempo para se almoçar e jantar. Eu comecei jantando, na noite que cheguei, num boteco ao lado do hotel, cujo nome era Boteco. Um bom arroz de camarão que, senão estava excepcional, era saboroso e bem servido.

No dia seguinte o almoço foi no hotel do evento (uma tristeza) e fui compensar meu estômago de noite num restaurante português (não são poucos por lá) : a Tasca. Aí sim, o local era muito agradável, as donas e os garçons simpáticos e o lombo de bacalhau com crosta de alho estava supimpa, a batata ao murro estava no ponto. Poderiam ter um pouco mais de capricho para tirar a pele e os espinhos do bichinho e o vinho mereceria mais cuidado com a temperatura, deixar a garrafa na temperatura ambiente e refrigerá-la em balde de gelo na hora de servir não é exatamente uma boa prática.

Como não quis arriscar mais um almoço no hotel, na 6a feira escapei para um restaurante no bairro da Graça chamado Porto Ferreiro. O ambiente é lindo e espaçoso, o serviço também de primeira e a comida excepcional. Mas é um restaurante como tantos outros em outras cidades, culinária genérica sem grandes invenções. Valeu pela sobremesa, uma banana frita com queijo de manteiga derretido e cobertura de canela açucarada.

Mesmo sem ter planejado dessa forma, o melhor ficou para o fim. No sábado, depois da reunião, fui até Olinda, na Oficina do Sabor. Frutos do mar, especialmente camarões e lagostins, usando os frutos e temperos regionais. Não me arrisquei no Jacamarão (acho jaca muito enjoativa), mas fui de camarão com molho de tamarindo, purê de banana e arroz de coco. Claro, bebendo suco de cajá.

Depois tive de caminhar muito nas ladeiras da cidade para compensar o tanto que comi. Um dia ainda volto lá para outras experiências.

domingo, 9 de novembro de 2008

Notas recifenses

Eu aproveitei muito minha estada de 4 dias em Recife há duas semanas: trabalhei bastante, comi bem e passeei um pouco. E, claro, como bom insano, observei com atenção algumas coisas do comportamento local:

Que a praia (estava de frente para uma) até o sábado é de quase ninguém. No domingo é praia é do povo, assim como a Praça Castro Alves. As pessoas descem em grandes blocos da avenida onde devem passar os ônibus em direção ao mar.

Se a praia é do povo, o mar é dos tubarões. Fui alertado mais de uma vez sobre isso : não passe dos arrecifes. Se não tivessem me avisado as placas na praia não deixam dúvidas a esse respeito. Por que isso acontece exatamente em Recife ninguém soube me explicar. Deve ser algo no tempero do pernambucano que atrai os selaquimorfos.

Nunca deixe de colocar agasalhos na mala se for para Recife. Eu não coloquei e passei frio várias vezes. O clima pode ser tropical nas ruas, nos demais locais (incluindo os carros) o ar condicionado é programado para congelar os ossos.

No final de semana a cidade não acorda. Tudo, ou quase tudo, funciona depois das 12h. No guia da cidade tinha uma sugestão de local para tomar café da manhã, horário de abertura : 11h30.

Esqueça a batida, a caipirinha e a cerveja. Recifense gosta mesmo é de whisky. Basta olhar as prateleiras dos restaurantes e bares com as mais variadas marcas e tempos de envelhecimento. Eles tem até um equipamento para levar o whisky e o gelo para a praia.

Não procure frutas e verduras no mercado central. Se quiser esses produtos eles são vendidos nas barracas da rua. Dentro da área de alimentação do mercado só tem a mistura (carnes, frango, frutos do mar).

Diferentemente da maioria das cidades nordestinas, não encontrei sorveterias. Devem existir, é claro, mas bem escondidas. Em compensação, bolo de rolo com os mais variados recheios tem em todo lugar.

sábado, 8 de novembro de 2008

Historinha vulgar

Joana estava desempregada há quase seis meses quando viu o anúncio : precisa-se de recepcionista, não é necessária experiência. Pegou a bolsa, ajeitou o cabelo e foi para a agência de empregos.

A entrevistadora gostou dela, mas fez questão de ressaltar que o emprego exigia absoluta discrição, independentemente do que ela pudesse presenciar. Joana concluiu que isso seria fácil. Era tímida e detestava qualquer tipo de fofoca. Foi aprovada e encaminhada diretamente ao local de trabalho para acertar os detalhes.

Ao chegar tomou um susto : era um motel. Justo ela, a recatada e pudica. Pensou em desistir e ir embora. Mas lembrou da conta de luz atrasada, mais um mês seria cortada. Tinha também o carnê dos tênis das crianças. Ficou.

Mas não contou para ninguém o que era o trabalho. A quem perguntava dizia que era um escritório de contabilidade.

O chefe avisou que ia ver coisas estranhas, mas que ela só podia se manifestar se aparecesse algum menor de idade. Esses, disse ele, de jeito nenhum, pode dar cana. Ele também lhe mostrou a caixa secreta para casos de emergência.

Nos primeiros dias só se escandalizou. Ficava corada a cada situação que ela julgava indecente, o que a salvava é que os clientes não tinham contato visual com ela.

Primeiro foi a perua, já avançada em anos, com o garotão marombado. Depois a sequência de casais do mesmo sexo. Quase teve um treco quando chegou o primeiro grupo. Para piorar, de vez em quando ainda ouvia os gritos vindo dos quartos.

Aos poucos se acostumou com tudo e nem reparava mais em nada, mal olhava as pessoas.

Até o dia que ouviu uma voz conhecida e olhou : era Nestor, seu marido. Pior, quem estava com ele era a irmã. Dela. Ficou vermelha como nunca, mas dessa vez, de raiva. Conseguiu manter a fleugma, disfarçou a voz e deixou entrarem.

Uma hora depois saiu para o seu intervalo de café. Passou pela porta do quarto e ouviu os gemidos. Foi a gota d´água. Voltou para a recepção, abriu a gaveta atrás da caixa secreta.

Arrombou a porta a tiros da pistola automática. Descarregou a arma nos dois. Depois saiu pela avenida. Sem olhar para trás.

sexta-feira, 7 de novembro de 2008

Adolescentices

Muitas pessoas se queixam da adolescência (mais da dos filhos do que das suas próprias), eu não posso reclamar da minha.

Claro que foi um período de emoções em altos e baixos, acompanhando as flutuações hormonais do período. Também tive meus momentos de choque de gerações. Tudo muito comum.

Já naquela época escrevia loucamente e, como seria de se esperar, com muito pouca qualidade. Especialmente poemas apaixonados. Como me apaixonava com frequência, a produção era alta.

De tempos em tempos releio algumas coisas que eu escrevi e, ocasionalmente, encontro alguma que tinha uma idéia razoável e uma execução ruim e tento recuperá-la.

Aí vai uma delas :


Namorados

Na praia, sós, o feio e a descabelada
Ele louco e repleto de anseio por encontrar a bela amada
A descabelada e o feio.

Vinha de orgulho assim tão cheio, de amor vinha tão carregada
Olhavam-se assim de permeio
A descabelada e o feio.

Assim se beijaram por nada, um do outro eram o esteio
Ela, bela, tímida e descabelada
Ele, louco, apaixonado e feio.

quinta-feira, 6 de novembro de 2008

A volátil antologia de Outubro

Meus leitores/comentaristas andam insuperáveis. Cada mês é mais difícil escolher as frases para essa antologia.

Se você é novo por aqui, a intenção é ler as frases fora dos seus contextos e, a partir delas, imaginar suas próprias histórias:

...não jogaria um lustre em um ignorante...

...só não foi presa porque ainda não pegou gosto pela bebida...

Mês que vem eu recebo alta... ahuahuahuahua!

E o tempero tem um gosto de indigesto mesmo antes que se prove a mistura...

...rezando para que meus ácidos estomacais consigam digerir logo...

Bestial", como diria meu amigo Portuense!

só não serve pra quem tem companheiro ciumento...

e metionina você sabe o que é?

O cara acorda no meio da noite e manda a secretária...trazer o penico

Acho que vou comprar a merenda lá na venda onde tem uma moenda.

...eu seria uma montanha feliz.

Já pensou em incluir blogueiros?

Oba, até que enfim ela vai perder o barrigão.

E eu que nem sabia que sucupira era uma árvore...

pai de uma o quê?

nosinhoradosmeuspecados, que que é isso?

não sabia que constelações andavam para cima e para baixo com cópia no bolso

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Caliconto insanopígio

A primeira vez que ele a chamou de calipígia* ela não sabia se sorria, se lhe dava um beijo ou uma bofetada bem estalada.

Como ele parecia falar sério e num tom romântico, ela fingiu entender. E correu para o dicionário logo que chegou em casa.

Descobriu que era um elogio ousado. Mas um elogio.

Resolveu retrucar no encontro seguinte.

- "...é bom você saber que, além de calipígia, também sou calimérica e calipódica..."

Foi a vez dele ficar com cara de tacho...mais ainda quando ela completou :

-"...e, cá entre nós, acho que você é sensualmente calistomático e calichêirico !"

Nunca mais ele se deixou pegar no contrapé.

Um dia na praia revelou que descobrira que ela também era caliafálica**, além de caliauquênica, o que ele já sabia há muito tempo.

Ela nem piscou, mas gostou.

Não demorou muito para ele constatar que ela também era calimástica e calihelêica, o que a deixou embevecida.

Um dia se arriscou a dizer que estava louco para saber se ela era caliquética. Ela deu o golpe fatal :

'- Caliquética, meu amor, só vai saber casando..."

* calípígias podem ou não ser esteatopígias, depende do referencial estético de cada um
**não confundir afálos com phalos que são coisa completamente diferentes.

Imagem : Vênus Calipígia - Museu Nacional de Nápoles

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Cantada inesquecível

Eu nunca fiz o gênero machista. Nem nos tempos de moleque adolescente me agradava o papo furado dos colegas que arrotavam conquistas com detalhes absolutamente inverossímeis. Já sabia que as meninas detestavam ser "faladas" (ainda que gostem até hoje de falar...). Descobri que cão que ladra não morde, o que me foi muito favorável na minha juventude.

Nunca fui ciumento, o que incomodou uma ou outra namorada. Nunca dei ordens, nunca levantei a voz para mulher nenhuma (se bem que duas vezes fui obrigado a ouvir gritos). Abandonei e fui abandonado em namoros, em quantidades equilibradamente proporcionais.

Não posso negar que fui criado numa sociedade machista e alguns resquícios me acompanharam. Sempre tive o hábito de pagar as contas dos programas (poderia ter feito umas economias...risos), ainda dou a mão para mulheres para ajudá-las sair do carro (e, claro, já fiquei com a mão abanando algumas vezes) e até hoje gosto de comprar flores (inclusive para mim mesmo).

Mas a situação em que me senti mais surpreso foi quando, certa vez, levei uma cantada (a primeira e única da minha existência). Fiquei encantado, mesmo com a cara de bobo que me acompanhou. E foi, literalmente, uma cantada musical. Ganhei um disco com um cartão que dizia que as palavras da primeira música eram a dedicatória.

Apesar de existir uma certa atração pairando no ar, nada indicava aquele desfecho, ou melhor, aquele começo. As circunstâncias eram desfavoráveis. Eu e ela estávamos com outras pessoas e, nessa situação, não seria eu a fazer algum tipo de investida.

Ela fez. Apostou na zebra e acertou. Olhando a capa do disco, o nome da música saltou aos meus olhos. Não lembrava a letra toda, mas o que lembrava era suficiente para entender tudo. Cheguei em casa e fui direto para vitrola (tudo bem, já se chamava toca-discos...) e, usando uma expressão da época, ouvi a música até furar o disco (It might as well be swing).

Sempre que ouço a música me lembro do fato e do romance musical. Como se pudesse descobrir as sensações da primavera em Júpiter e Marte.