quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Contículos boreais

Andrômeda

Seus pais nunca lhe deram muito valor. Mesmo assim a ofereceram a um monstro, em troca de favores pessoais e financeiros. Não contavam que um desconhecido que aparecera na cidade a salvasse do seu destino minutos antes de se consumar o casamento arranjado.

Lira

Os sonhos onde ele navegava eram tão brilhantes que a incomodavam todas as noites. Não conseguindo acompanhá-lo em seus delírios, acusou-o de negligenciar o sustento da casa e saiu carregando os filhos. Nunca entendeu que ela era o seu norte e o alimento da sua imaginação.

Perseu

Sabia que ela era perigosa. Ouvira histórias de outros homens que se perderam por seu olhar, mesmo assim resolveu enfrentá-la. Vencida ela se descabelou toda e não conseguiu impedir que ele fugisse com a primeira que encontrou no caminho de volta para casa.

Ursas: maior e menor

Eram lindas e inteligentes. Deveriam ser objeto de desejo de todos os rapazes da cidade. No entanto, ninguém sequer as flertava. Todos sabiam que a gelidez de ambas era muito maior que os boatos a respeito.

Corona Borealis

Ele leu. Pasmou. Leu de novo. Não poderia ser aquilo. Faz um cópia que carregou para cima e para baixo e tentou descobrir alguma entrelinha misteriosa que desdissese o que tinha entendido. Só se acalmou quando assumiu que, mesmo sendo tão bom, era verdade.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Onde está o Antenor Nascentes* ??

Coçou o alare, ajeitou a fatiota gázea de lese e se debruçou sobre a bacineta.

A forma díscola que Marieta lhe dispensara fora um lardoeiro de causar tarsal.

Esquinado, numa analose que quase o deixou em cárus, tropeçou no angelim.

É certo que raposeara, mas a situação já era rúptil. Ela não precisava bancar a sarrônica com sua dança pírrica.

Muito menos lançá-lo no atascal epifenomênico.

Saiu à rua ao som dos mimídeos que gorjeavam nos carpelos do sarçal. Mirou a agena, parecia o adamo com sua luz titanita.

Ajeitou o abanete como se trajasse uma éfode e, mesmo parol, adentrou o bitáculo onde erodiu um pantagruélico ipim cifado com aité.

Na saída eclodiu um épodo ao romance neomorto, como se fora um cimélio de Iseu.

*Antenor de Veras Nascentes (Rio de Janeiro, 19 de junho de 1886 — 6 de setembro de 1972) foi um filólogo, etimólogo, dialectólogo e lexicógrafo brasileiro de grande importância para o estudo da língua portuguesa no Brasil, havendo ocupado, como fundador, a Cadeira nº 3 da Academia Brasileira de Filologia.

segunda-feira, 27 de outubro de 2008

Siri descascado

Houve um tempo em que casquinha, se não era de sorvete, era só de siri. O que fazia todo o sentido, uma vez que a carne do bicho está literalmente dentro de uma casca. Em alguns restaurantes mais pedantes era chamada de carne de braquiúros em seu exoesqueleto de quitina (dizem que até hoje esse é o nome do prato na cantina da faculdade de biologia).

A primeira deformação do acepipe foi quando começaram a servir a carne de siri em casquinhas que não eram as próprias do crustáceo (o que, por si só, já era uma afronta aos finados portunídeos), mas em conchas. Arrancam-lhes a carne e nem permitem que seu funeral seja em casca própria. Mais indecentemente ainda, alguns lugares chegam ao ponto utilizar conchas recicláveis (de plástico ou algum policarbonatos que eu não tenho competência para identificar). Quando vejo isso, fico em dúvida até se a carne é de siri mesmo.

A outra heresia é que começaram a usar a base da receita da casquinha de siri com carnes de outros seres marinhos. Até aí não haveria nenhum problema, conheço várias receitas que são derivadas de outras (não devem estar sob licença dos Creative Commons), o problema é que mantiveram o nome de casquinha...

Uma é a casquinha de lagosta que até seria algo tolerável, se servida na casca da lagosta (mas aqui surgem novamente as indefectíveis conchas de plástico). Casquinha de camarão para mim é aquela que pode-se comer, sem maiores acidentes exceto a necessidade posterior do uso do fio dental.

Agora, que raios vem a ser "casquinha de bacalhau" ?? Alguém já viu bacalhau com casca? Casquinha de lula ? Se você descobrir me avise, adoro novidades científicas.

Fica aqui a minha receita preferida de casquinha de siri. Bom proveito :

Ingredientes

4 colheres de azeite de oliva (se seu estômago não for delicado, troque o azeite de oliva por dendê)
½ xícara de cebola ralada
4 dentes de alho bem picados
3 tomates médios , sem sementes, cortados em cubinhos pequenos
1 pimentão verde grande, sem sementes picado em cubinhos pequenos
2 colheres de sopa de coentro picado
500g de carne de siri e suas respectivas cascas (não esqueça de tirar a carne das patas que é a parte mais saborosa)
1 colher de sopa de farinha de trigo
sal e pimenta do reino a gosto
½ xícara de leite de côco
¾ xícara de farinha de rosca
2 colheres de sopa de manteiga cortada em pedacinhos

Modo de Preparar

Pré-aqueça o forno em temperatura média (180°C). Numa panela, coloque o azeite, leve ao fogo alto e deixe aquecer.
Junte a cebola, o alho, o tomate , o pimentão e o coentro e cozinhe por cerca de 5 minutos, mexendo de vez em quando.
Abaixe o fogo e acrescente a carne de siri, a farinha de trigo o sal e a pimenta do reino a gosto, misture bem e deixe cozinhar por 5 minutos.
Acrescente o leite de coco e misture novamente. Tire do fogo.
Recheie as casquinhas com a mistura preparada.
Polvilhe com a farinha de rosca e por cima distribua os pedacinhos de manteiga.
Coloque em uma assadeira , leve ao fogo pré-aquecido e deixe ficarem bem quentes.
Sirva com um branco muito seco (se a verba permitir, fica ótimo com um champagne brut)

domingo, 26 de outubro de 2008

Paideuma da telona

Você pode me criticar pelo fato de não ter listado algumas das unanimidades do cinema como Cidadão Kane ou Os 7 samurais, ambos excelentes filmes, mas lembre-se que um paideuma carrega consigo uma dose brutal de subjetividade.

Se eu tivesse de escolher apenas 10 filmes de todos os que eu já vi, esses seriam os que eu deixaria para a próxima geração. Posso garantir que não foi fácil chegar só em 10.

Casablanca (1942) - de Michael Curtiz, com Humphrey Bogart, Ingrid Bergman

Singin´ in the rain (1951) - de Stanley Donnen com Gene Kelly e Donald O´Connor

O sétimo selo (1956) - de Ingmar Bergman com Max von Sydow e Bibi Andersen

Le notti di Cabiria (1957) - de Federico Fellini com Giulietta Massina e Amedeo Nazari

Vertigo (1958) - de Alfred Hitchcock com James Stewart e Kim Novak

Breakfast at Tiffany´s (1961) - de Blake Edwards com Audrey Hepburn e George Peppard

Cria Cuervos (1976) - de Carlos Saura com Geraldine Chaplin e Ana Torrent

Apocalipse now (1979) - de Francis Ford Coppola com Martin Sheen e Marlon Brando

Crimes and misdemeanors (1989) - de Woody Allen com Alan Alda e Martin Landau

Mystic River (2003) - de Clint Eastwood com Sean Penn e Tim Robbins

Pode reclamar que não tem nenhum filme nacional nessa lista. Para mim os únicos que se aproximam dessa definição de clássicos são o Bye Bye Brasil e o Chuvas de Verão (ambos do Cacá Diegues)

Pelo conjunto da obra, os melhores diretores são, em ordem alfabética:

Alfred Hitchcok
Carlos Saura
Federico Fellini
Francis Ford Coppola
Ingmar Bergman
Woody Allen

Dos filmes infantis, os meus preferidos continuam sendo Mary Poppins e Alice nos país da Maravilhas (se bem que esse não seja tão infantil quanto parece)

Tenho certeza de que cada leitor vai fazer substituições na minha lista (conheço alguns que vão substituir apenas todas as minhas escolhas...risos), isso é inevitável - viva a diversidade.

sexta-feira, 24 de outubro de 2008

Hai kais em extinção


Jacarandá

Consegui roubar
além do beijo, um olhar
mimosa paixão

Araribá

Encosta de pedra
espinhos da multidão
sem constrangimento

Sucupira

Tremores nas mãos
tratamento natural
emana do tato

Peroba

Sem uma palavra
O desejo cor-de-rosa
no pé da montanha

Pau-brasil

Momento presente
arrepio em seu olhar
sem começo ou fim

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Estamos em greve

Em tempos de greves de bancos e de policias, fiquei pensando em possíveis categorias que poderiam dar início a movimentos paredistas de grande porte.

Vereadores : ainda que recém eleitos, poderiam fazer greve reivindicando a volta dos parentes aos gabinetes. O movimento provocaria comoção popular, uma vez que ruas ficariam sem ser batizadas, beneméritos não ganhariam as suas comendas e cupinchas teriam de esperar suas nomeações.

Fiscais : independentemente do tipo e da alçada do fiscal, uma greve da categoria traria impactos econômicos significativos. Não que fosse fazer algum mal à arrecadação pública (sobre essa veja abaixo o caso dos marronzinhos), mas provocaria um súbito crescimento de rentabilidade das empresas e esse dinheiro, no mercado, poderia gerar um boom consumista (o que não seria de todo mal em tempos de arrocho de crédito). Os únicos prejudicados seriam as concessionárias que vendem carros importados de luxo.

Aposentados : não imagine, caro leitor, que uma greve desse tipo seria inútil. Quem é que cuidaria das crianças para os pais irem às baladas ? Quem ocuparia os bancos de parques ? Dependendo da duração da greve poderia provocar demisssão de funcionários alocados nas filas exclusivas em bancos e supermercados. Essa categoria deveria ser enquadrada como sendo de interesse nacional e greves deveriam garantir, pelo menos, 50% dos seus membros em atividade.

Marronzinhos: para quem não sabe, são os funcionários da empresa que gerencia (sic) o trânsito em São Paulo. Greve perigosíssima para o erário municipal pois provocaria uma queda brusca de arrecadação. Além disso, a ausência dos mesmos nas ruas da cidade permitiria que o trânsito fluísse livremente, o que diminuiria o consumo de combustível e o lucros dos postos de gasolina.

Numa próxima edição contarei dos possíveis efeitos de greves de passeadores de cachorros, cabos eleitorais e malabaristas de semáforos.

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Secretas secretárias

Quando Estela casou com Romeu estava a par da sua história, ela mesmo fazia parte dessa obsessão.

Ainda estagiário na empresa, onde já trabalhava há 30 anos, Romeu se apaixonou por Margarida, a secretária do seu gerente. Logo que foi efetivado a pediu em casamento. Durou 10 anos.

Já era ele mesmo o gerente, quando começou a reparar nos dotes de Evelise, a sua secretária. Sucumbiu à tentação. Primeiro de maneira furtiva, depois reconheceu que não estava sendo honesto com a esposa e se separou. Casou com Evelise dois meses depois da homologação. Durou quase 20 anos.

Estela viera trabalhar com ele por indicação de uma agência de empregos de alto padrão, seria a secretária do presidente. Foi mais que isso. Teria sido apenas uma amante de luxo (dessa vez Romeu já não era tão honesto) se não tivessem sido flagrados por uma amiga de Evelise.

Já que estava descasado de novo, Romeu demitiu Estela e se casaram. Estela condicionou o casamento ao direito dela ser a responsável pela contratação da sua próxima secretária.

O processo de seleção não foi fácil. Descartou todas que eram minimamente bonitas ou jovens demais. Pensou em contratar uma idosa, mas isso não era garantia nenhuma uma vez que Romeu também não era mais um jovenzinho.

Só ficou feliz no dia que apareceu um candidato. Ernesto. Conhecia bem Romeu e sabia que era um machista convicto. Além do que Ernesto também era casado, o que o tornava um candidato de risco zero.

Dois anos depois recebeu uma ligação de Romeu que estava na África do Sul em uma conferência. Não ia voltar. Ele e Ernesto tinham resolvido assumir e iam morar juntos em Seychelles. Nunca mais precisaria de secretárias.

Estela quase teve uma síncope. Ligou para a mulher de Ernesto pensando numa estratégia para reaverem seus maridos. Descobriu que o casamento destes era só aparência, a mulher de Ernesto vivia com uma companheira.

A pior notícia ainda estava por vir. descobriu que durante esses dois anos Romeu tinha transferido todo seu dinheiro para um paraíso fiscal no nome de Ernesto. Estava abandonada e na miséria.

domingo, 19 de outubro de 2008

Poemenda


Sempre gostei de brincar com as palavras, uma maneira divertida de exercitar os neurônios.

Da "senda" do texto anterior saiu essa brincadeira sem nenhuma pretensão literária

Que a senda te surpreenda escrevi na minha agenda
Nada que me arrependa, nem provoque contenda
Espero que compreenda, sem nenhuma emenda
Os versos que lhe mando : por encomenda.

Não é poesia estupenda, mas não chega a ser horrenda
Arrenda palavras simples, outras quero que aprenda
Distenda as frases ao léu, outras apenas transcenda
Entenda que é no papel que se constrói a lenda.

Não lhe mando a legenda, não faço cara pudenda
Espero que subentenda, a metáfora tremenda,
Aquela que te desvenda, que também te acenda
E que pretenda ser mais que breve oferenda.

Sempre se reacenda, se estenda e suspenda
A paixão se recomenda que a defenda.
Que nada mais dependa, apenas atenda
Nossa vivenda na tenda, gerada por uma fenda.

sábado, 18 de outubro de 2008

Topografia onírica

O relevo do caminho era suave, até tedioso para um alpinista como ele, o que não o impedia de continuar.

Via a montanha no final da planície que parecia nunca se acabar, mas não se importava se chegaria tarde ou não. Para isso estava lá.

Como partira sem nenhum planejamento, não sabia bem o que iria encontrar. À distância ela parecia inacessível, ainda mais sabendo que tinha saído sem seu equipamento.

Conforme se aproximou descobriu que era pequena, mas não sem mistérios e perigos. Ela estava diante dele, finalmente. No entanto, ele não conseguia enxergar qual trilha deveria seguir, todas lhe pareciam perigosas.

Havia clima no ar de reverência mútua.

Como se a montanha estive constrangida em ser escalada. Como se ele temesse perdê-la, logo agora que havia chegado a seus pés.

Ele não era seu primeiro alpinista, nem ela a sua primeira montanha. Ele não era o mais valente, nem ela a mais difícil.

Pareciam trocar olhares.

Por mais que se imaginasse em seu topo, ele não conseguia ver o caminho.

Sentiu um tremor. Era o chão que se mexia. Em meio às árvores que balançavam viu a senda que buscava, como se a montanha mesmo lhe mostrasse o caminho.

Embrenhou-se por ela, como um amante se entrega à sua amada.

Do começo ao fim.

Aforismos incongruentes


Nada como. Um dia depois do outro... já diria o miserável.

O que é roubar um banco em comparação com quebrar um banco ? (d´aprés Brecht)

Variações bruscas de temperatura sempre deixam o clima meio pesado

O que caracteriza uma traição grave : a duração ou a profundidade ?

A privacidade se escondeu embaixo da cama e foi engolida pelo aspirador de pó.

Políticos estão migrando em massa para o PVT, o partido do vale-tudo

Governo de coligação é um eufemismo para assumir a falta de congruência em políticas públicas.

quinta-feira, 16 de outubro de 2008

Humilde pecador

(a partir de uma idéia de Mário Quintana no Caderno H)


José era um sujeito muito humilde. Não que fosse um zé qualquer, mas tinha um espírito absolutamente desprendido.

Não se achava melhor que ninguém, muito pelo contrário, acreditava ser apenas mais um no meio da massa. Não cria ser merecedor de nada, ainda que tivesse conquistado muitas coisas por seu próprio esforço.

Sempre fora um sujeito honesto, correto, sincero e fiel. Muito religioso, admitia pecados que mal imaginara ter cometido só para se penitenciar de algo.

Um dia, já velho, adoeceu. Sabia que estava com os dias contados.

Começou a ouvir de todos que não deveria se desesperar : com a vida que levara só poderia esperar o céu.

Não que não conhecesse a perspectiva de um local maravilhoso, justamente por saber é que começou a ficar ansioso, aquilo era demais para ele.

Ninguém conseguiu convencê-lo de que ele merecia o paraíso, sua humildade excedia essa possibilidade.

Arranjou uma amante. Desfalcou o caixa da empresa onde trabalhava. Xingou o padre no meio da missa e, a caminho de casa matou o vizinho.

Podia morrer tranquilo. Seus pecados o excluiriam de um prêmio que não merecia.

terça-feira, 14 de outubro de 2008

Só mesmo com poesia


Depois de um fim de semana e segunda-feira agitados, só poesia para acalmar um pouco


O rei


Sentados aguardamos a entrada majestosa
Vem o rei escoltado por simpático escudeiro.

Borbulha o rei
Encantando-nos com seu ritual
Sem saber que, como ele ,
Nossas emoções borbulham igual .

Borbulha o rei
Silenciosa e misteriosamente
Sem ao menos imaginar
Os sonhos que fermentam cada mente .

Borbulha o rei
Abraça a taça, larga porta de cristal
Suave e lento exala aromas e intenções
Envolve-nos num colo emocional .

Borbulha o rei ,
Movimento sutil , escorre suspirando ,
Esconde segredos que não entendemos
O rei nos invade, almas lavando .

Aos poucos as bolhas se dissipam
Nuvem de fumaça e sonhos
Sonhos de nuvens de fumaça
Fumaça de sonhos e nuvens
Encerra da curta vida o ritual .

Nós continuamos.

domingo, 12 de outubro de 2008

Inteligência

Alguns eventos recentes me fazem questionar a racionalidade humana.

Afinal, o que é a inteligência ?



Legenda :

Do primeiro ao último bicho : Comer, sobreviver, reproduzir.

Bicho homem : O que que é isso tudo ?

sábado, 11 de outubro de 2008

Folhas traídas


Não sei se uma traição rapidinha é menos traição, ou apenas mais concentrada:

Esses são pensamentos dos homens de todas idades, todas as terras,
Nada tenho de original.
Se não são teus tanto como meus não são nada. Ou quase nada.
Se deixam de ser o nó e o desatar do nó, não são nada.
Se não estão tão perto quanto distantes, não são nada.

São a relva que cresce onde está a terra, onde a água está,
O ar comum que banha o universo.

Folhas de relva 17 - Walt Whitman

Texto original

These are really the thoughts of all men in all ages and lands,
they are not original with me,
If they are not yours as much as mine they are nothing, or next to nothing,
If they are not the riddle and the untying of the riddle they are nothing,
If they are not just as close as they are distant they are nothing.

This is the grass that grows wherever the land is and the water is,
This the common air that bathes the globe.

Leaves of Grass 17

quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Contículo metonímico

Acostuma-te à lama que te espera (uma brilhante metonímia de Augusto dos Anjos)


Eu adoro tomar um porto, ela umas brahmas. Num fim de noite lhe perguntei :

- Quanto copos você bebeu ?

- Uma garrafa, mas já tinha comido dois pratos para forrar o estômago. Disse sorrindo

Ela me causava um tremor estranho. Era uma ótima cabeça e uma pena brilhante. Naquela noite trajava um pano de primeira reforçava o fato de que também era um avião.

Eu, que nunca fui um bambambã, pelo contrário, levava mais jeito para cavaleiro da triste figura, sempre me questionava o que fazia com que ela gostasse de mim.

Quando chegamos em casa ela abriu um litro de leite e uma caixa de biscoitos, olhou pela janela, o neon a relembrava que a cidade não dormia.

Foi para a sala, na vitrola um disco dos velhos olhos azuis traziam de volta o clima das poucas primaveras.

Eu, que já ando pedindo respeito pelos meus cabelos brancos, me postava atrás dela como um papagaio-de-pirata. Ela baixava a guarda e me amava como a juventude que não pensa nos seus atos.

Eu, como o homem que foi à lua, ficava sem chão. Ela povoava todos os meus sonhos. E alimentava minhas realidades.

Deitamos como plumas, dormimos como pedras.

No dia seguinte voltamos a comer com o suor dos nossos rostos, pois temos cinco bocas para alimentar.

Metonímia: como a metáfora, consiste numa transposição de significado, ou seja, uma palavra que usualmente significa uma coisa passa a ser usada com outro significado. Todavia, a transposição de significados não é mais feita com base em traços de semelhança, como na metáfora. A metonímia explora sempre alguma relação lógica entre os termos.

terça-feira, 7 de outubro de 2008

Inescondível

Ainda falta um pouco, mas eu caminho a passos largos para minha primeira metade de século. Já passei por várias situações comuns, outras inusitadas, muitas divertidas e algumas nem tanto.

Agora, pela primeira vez na minha vida, sei que estou sendo rastreado, coisa que nem minha mãe, na minha adolescência, nem minhas namoradas, na minha juventude, o fizeram.

Ou, se fizeram, nunca com os mesmos recursos tecnológicos atuais.

A responsável por esse fato é a companhia de seguros que detém a apólice do meu carro, que instalou o aparelhinho no veículo.

Eles afirmam de pé juntos (e de contrato assinado) que só acionam o rastreamento caso eu ligue para lá dizendo que o carro foi roubado. Quem garante ?

Nunca vou saber se na central de rastreamento não tem um curioso que fica monitorando a vida dos segurados.

Por via das dúvidas tenho andado mais a pé e já me garanti comprando o meu bilhete único.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

Receita de refogado

Eu não votei na Marta, nem no Kassab, nem no Geraldinho. E, antes que algum engraçadinho sugira, nunca votei no Maluf - sou insano, mas tenho limites.

Mas tenho de admitir uma certa satisfação com a derrota do cucurbitáceo.

Não sou um eleitor tucano, apesar de ter feito campanha e votado para uma candidata do partido para vereadora (Mara Gabrilli, por sinal, uma das vereadoras mais votadas nessa eleição).

Não acho que quem tenha perdido tenha sido o partido. Quem perdeu foi o candidato.

Fico feliz porque o indistinto foi o principal traidor de uma aliança política com o único objetivo de promoção pessoal. Aliança nem sempre é bonita, mas se foi feita é para ser cumprida.

E o sorvete de Sechium edule não honrou os compromissos assumidos pelo partido. Compromisso que ele também assumiu na sua candidatura a presidente.

Ao contrário de muitos, não desejo que ele se candidate a prefeito de Pindamonhangaba. Eu servi no quartel de lá e acho que a cidade não merece isso.

Também não desejo nenhum mal aos moradores do prédio que ele mora a ponto de lançá-lo como candidato a síndico.

E longe de mim sugerir que ele volte a ser anestesista, eu sou contra a eutanásia.

Que fique numa salada ou num refogado qualquer.

domingo, 5 de outubro de 2008

Isso lá é hora de poesia ?


Gostos

Gostos da vida
Secos , simples, suaves

Gostos da vida
Salgados, solenes, sonhadores

Gostos da vida
Soltos, serenos, saborosos

Como esquecer , ainda que só por um momento,
a existência , as convenções, o mundo ?

Gostos da vida
Sensíveis, sinestésicos, saudáveis.

E , apesar de tudo,
E apesar do nada,
Sem metafísica

sábado, 4 de outubro de 2008

A inconsútil antologia de Setembro

Mais um mês de frases dos comentários, insanamente descontextualizadas.

Não procure o significado delas, deixe sua imaginação voar pelas possibilidades de cada uma.

...aqui em casa é um zoológico...

pessoas o ler, sempre tem alguém!

São mais esperadas que a TPM.

...além casal de periquitos que ficam na gaiola acima da máquina de lavar roupas.

Ainda bem que existe o PETA e outros órgãos defensores dos fracos e oprimidos!!

Como vou por a vaca no elevador ?

...tradicional método de se usar o proprio estômago do animal.

Ela nasceu com um susto que a mãe tomou no 11 de setembro fatídico!

Ainda que eu morra, nunca exagero em nada.

Acabei de acordar e estou sem inspiração para um comentário engraçadinho!!!

Antes um tubarão morto que um ser humano mal cheiroso.

...parte da culpa é da flora bacteriana...

minha perna treme só de pensar em usar ditados populares...

...você não sai da classe, entra no corredor.

Apenas o lugar onde um molusco se instala...

Faz de conta que eu entendi tudo, tá?

Pichuco Augusto manda dizer que não se identificou com nenhuma...

quinta-feira, 2 de outubro de 2008

Conticulóides felinos

Siamêsa

Diana tinha uma voz e uma forma de falar inconfundível, especialmente quando estava junto de Alfredo. Até o dia em que ele resolveu provocá-la e, na frente dos amigos brincou sobre a sua sexualidade precoce. Ele nem teve tempo de percebê-la subindo na mesa e atirando-lhe o lustre na cabeça.

Angorá

Nada tirava Andréia do sério. Sempre bonachona era amiga de todas as pessoas. Só não contava com a perda repentina dos longos cabelos sedosos. Piolhos não perdoam ninguém.

Persa

João Alberto conheceu Mariana ainda na adolescência. Era uma figura muito comum, corpo robusto, cabelos longos, nariz de batatinha e ancas largas. Podia ser reconhecida de longe. Ele a perdeu no dia que ela se apaixonou por um geneticista que a convenceu a fazer uma plástica completa.

Shorthair

Joana malhava todos os dias na academia ao lado da faculdade, parecia uma fisioculturista. O que não a impediu de fugir correndo quando viu o marido chegando com um 38 na mão. Escapou pela janela do vestiário.

Vira lata

Ana Maria vendia cosméticos e vivia na rua. Tão acostumada com isso, todas as noites preferia ir para os bares e baladas do que voltar cedo para casa. Foi pega numa batida da lei-seca e amargou 5 dias na cadeia. Ninguém deu por sua falta.