segunda-feira, 30 de junho de 2008

A presença ausente

Na primeira vez que eu ouvi o nome eu também achei que era brincadeira. Não era. Minha amiga não só garantiu que o lugar existia como disse que vai para lá com freqüência - o que faz com que a população de sua cidade sinta a sua ausência (cá estou eu anfibológico de novo)

Nos Campos em Cima da Serra fica a cidade de São José dos Ausentes. Embaixo da serra, dizem, estão todos presentes.

A história conta que a Fazenda dos Ausentes foi o maior latifúndio do Rio Grande do Sul, com uma área de mais de mil km². Seus primeiros donos, ainda no século 18, não assumiram as terras, que acabaram leiloadas duas vezes pela ausência de proprietários ou de sucessores - não por acaso, esse pedaço de Campos de Cima da Serra foi batizado de Ausentes.

Hoje, o município de 3.100 habitantes vive da pecuária extensiva, do cultivo de batata e maçã, do florestamento/reflorestamento e do turismo rural. (saiba mais aqui)

Se você clicar no link acima vai ver fotos maravilhosas da região, mesmo assim ainda tenho uma série de dúvidas insanas :

Quem nasce em Ausentes (como é popularmente chamada) é o que ?

O brasão da cidade é o símbolo de conjunto vazio ?

Onde se escondem os 3 mil e poucos moradores que nunca estão presentes ?

Será que conseguem quórum em dia de eleições ou a ausência já é um padrão que nem precisa se justificar no cartório eleitoral (mesmo porque nunca deve ter ninguém trabalhando por lá)

Quando a professora faz chamada, responder "presente" é uma negação ontológica ?

Se Hamlet tivesse nascido lá, mudaria o famoso solilóquio para "estar ou não estar, essa é a questão..." ?

Dar presente de aniversário é uma gafe ?

Quando nasce um bebê, a população aumenta ou diminui ? Afinal, surgiu mais um ausente...

De que forma se correlaciona a cidade com a existência de buracos negros ?

Se uma árvore cai na floresta dos Ausentes, ela fez barulho?

As pousadas da região tem direito a cobrar "no-show" dos seus hóspedes ?

Já que nem só de filosofia vive esse blog, encerro com um poema de Rabindranath Tagore, que dedico, ausentemente à minha musa.

À musa ausente

"De tanto vigiar, meus olhos acabaram perdendo o sono. Contudo, mesmo que não te encontre, é doce ficar vigiando.

Meu coração se assenta na sombra das chuvas, esperando teu amor. Todavia, mesmo que ele se frustre, é doce ficar esperando.

Eles vão embora, cada um por seu diferente caminho, e me deixam para trás. Porém, mesmo que eu esteja sozinho, é doce ficar à escuta, esperando por teus passos.

A face nostálgica da terra tece as névoas de seu outono e desperta a saudade em meu coração. E, embora seja inútil, mesmo assim é doce para mim sentir a dor da saudade."

domingo, 29 de junho de 2008

Perpetuum mobile

Uma das coisas mais difíceis no humor é se perpetuar, ainda mais o humor político que costuma ficar datado.

O cartum de Henrique de Souza Filho consegue essa proeza.

sábado, 28 de junho de 2008

Cem anos de gratidão

"Eu quase que nada não sei. Mas desconfio de muita coisa." João Guimarães Rosa - Grande Sertão: veredas
Cordisburgo, 27 de junho de 1908 — Rio de Janeiro, 19 de novembro de 1967



Eu tinha relembrança do cheiro dela. Mas no atual já estou doente e dei de fraquejar as idéias que nem sei mais se a memória é do cheiro ou do corno cheio em que me encontro.

Já estou mais na saída que na chegada, o real se dispôs no meio da minha travessia e já não posso divagar com este meu miolo zanzando. Tudo é muito dificultoso. Tantas coisas se remexeram nos lugares que talvez seja só fantasia da idéia.

O fino das feições me enternecia. Mas quem era eu para tanto querer? Nunca truquei de falso na peleja, meu revólver pariu dúzias de filhotes que mamaram no couro de quem bufou que nem tigre. Bando de filho da outra que tentou me desafiar.

Mas ela. Ah...por ela me desarreganhei , me pus bêbado que nem gambá, tomei conhecimento da aragem no meio da treva espessa mesmo que sabendo que burro não pode enxergar no escuro.

Chafurdei, perdi o juízo, espadanei a água e tentei me escafeder da sua imagem. Nada, o joão corta-pau no meio da caatinga sempre me lembrava.

Eu não queria querer falar. Estou com medo de morrer hoje. Não está direito guardar. Agora vou aonde não quero, saio por embaixo e ainda escuto o pio.

De ninguém eu fui. Mas meu sentir deixa de ser do sentidor para ser do sentente. E quem é que eu fui? Divergi de todo mundo. Menos dela.

Ela foi minha neblina e seus olhos nunca me deixaram. Olhos que meus dedos, de leve pus meus dedos. Beleza verde que me adoeceu sem parolagem.

Meu corpo desejava dum jeito condenado, cheguei a estender a mão para as suas formas, bobamente. Deixei meu corpo querer tramadamente e calei qualquer palavra.

O amante apaixonado. Fui eu? Fui e não fui. Não fui! – porque não sou, não quero ser. Deus esteja!

O que foi, foi o começo do que vai vir, a cada hora a gente está num compito.

Eu agora vou, sem mais vir, sem mais hora. Minha natureza não cabe mais em nenhuma incerteza e o nome que foi segredo hoje não acicata mais o coração.

sexta-feira, 27 de junho de 2008

Mistura de sotaques

“- Mas , bichinho, esse negócio é tri legal, não se avexe e pode trazer os guris para conhecer a plantação. Eu preparo aquele fogo de chão e já vou temperando a carne de sol com sal grosso e o charque com um pouquinho de dendê....”

Isso lhe soa muito estranho ? Parece bahiano que migrou para Vacaria ou algum gaúcho morando em Itapoan ? Pois saiba que alguns dos melhores vinhos gaúchos hoje são produzidos no sertão da Bahia e de Pernambuco.

A região do Vale do São Francisco vem-se firmando como um importante pólo de produção de vinho no país. Nesta região, o vinho tem características originais e uma personalidade que tem feito crescer sua participação no mercado brasileiro e torná-lo competitivo no comércio internacional, que exibe a tendência por consumo de vinhos jovens. A produtividade é a grande vantagem da Bahia em relação ao Rio Grande do Sul, no Nordeste, por conta da grande insolação, a videira produz duas safras e meia de uvas por ano com qualidade igual ou superior à das regiões vinícolas mais bem-faladas do mundo, enquanto no Sul há somente uma colheita que dura um mês, de janeiro a fevereiro.

A produção pernambucana de vinho, concentrada em oito vinícolas no município de Lagoa Grande (PE), já detém 15% do mercado nacional de vinhos finos. Essas empresas produzem por ano cerca de sete milhões de litros de vinho fino de mesa e movimentam um negócio de, aproximadamente, 50 milhões de reais. A atividade deve crescer ainda mais. Atualmente, mais quatro vinícolas estão se instalando na região e um grupo empresarial português deve instalar uma fábrica para produção de garrafas. A estimativa é de que o setor receba investimentos da ordem de 100 milhões de reais em infra-estrutura e nas vinícolas.

O plantio de videiras na região começou há cerca de 20 anos, apenas com variedades de mesa e, ao contrário do que se imaginava, o Vale do São Francisco tem condições climáticas e de solo favoráveis também para a produção de uvas finas. Graças a um longo trabalho de aclimatação, o desejo de se produzir uvas viníferas, de mais difícil adaptação, foi alcançado.

Ao final desse processo, as variedades Shiraz e Moscatel foram as que melhor se adaptaram às características climáticas da região, onde existem hoje aproximadamente 30 fazendas que produzem diversas variedades de uva, na divisa dos estados de Pernambuco e Bahia, o pólo vinícola do Nordeste já é o segundo maior produtor de vinho do Brasil.

E alguns vinhos são muito bons, o Moscatel Terranova, por exemplo, ganhou a medalha de ouro na região de Asti, na Itália. A Miolo já fabrica em Casanova as marcas Terranova Shiraz, o Espumante Moscatel Terranova, processo Asti, e o único vinho de sobremesa brasileiro, o Late Harvest. A empresa é ainda responsável pelo lançamento do primeiro vinho de guarda produzido no Vale do São Francisco, o Terranova Cabernet Sauvignon/Shiraz, provando que o sertão não é só a terra dos vinhos jovens.

O TerraNova Cabernet Shiraz é um vinho de guarda, resultado de um corte de 50% de Cabernet Sauvignon, que lhe confere estrutura e robustez, e 50% de Shiraz, que lhe confere complexidade. É um vinho bem-estruturado, que pode envelhecer por alguns anos.. Já o tinto Shiraz tem aroma intenso da uva e de madeiras. Seu sabor é equilibrado, com taninos doces e marcantes. O Moscatel apresenta uma cor amarelo pálido, de aroma intenso, fresco e um doce sabor, com um final de boca bem refrescante. Doce e constante ao paladar, o Late Harvest tem bom equilíbrio do açúcar e acidez. Seu aroma é forte, com toques de frutas, flores e madeira. Apresenta uma cor com tonalidades que vão do amarelo ao dourado.

Em Pernambuco, o destaque é o Garziera, com o seu espumante. Elaborado pelo processo Asti a partir de uvas moscatel é ligeiramente doce, leve e fino. O Shiraz é um vinho de cor rubi intensa, de aroma acentuado, além de maciez e equilíbrio nos taninos, com toques de carvalho.

Mesmo que você tenha passado por um choque inicial, tenho certeza que alguma hora você vai perceber que o charque fica bem mais saboroso temperado com dendê.

quinta-feira, 26 de junho de 2008

Mais ditados impopulares

Ditado : Máxima, breve, popular; adágio, anexim: como o próprio nome diz, é a expressão que através dos anos se mantém imutável (exceto quando alguns insanos resolvem fazer pequenas alterações nos mesmos), aplicando exemplos morais, filosóficos e religiosos.


Partem-se as manilhas, permanecem as falanges

Alabastro funesto não ilaqueia

Comprou ailuro por leporídeo

Um dia da maritaca, outro da arataca

Sazão é bufunfa

Beato doméstico não prodigia

Se abalar o marruá agadanha, se restar a besta deglute

Soberano entrado em óbito, monarca suprido

quarta-feira, 25 de junho de 2008

Pagando o jabá

O processo de salgar e expor a carne ao sol é pré-histórico e, apesar de termos algumas variedades de carnes salgadas no Brasil, o processo não é nativo. Nossos índios não tinham o hábito de de conservar alimentos. Também, para que ? Era só ir dar uma volta no mato e voltar com um bicho fresco. Já nossos colonizadores eram useiros e vezeiros no assunto. Especialmente na conservação de peixes. Encontrando um país com tanto sol e com tanto mar - portanto, tanto sal - passaram o processo do peixe para as carnes vermelhas, especialmente bovinos e ovinos.

Temos quatro tipos de carnes salgadas no Brasil : a carne-de-sol, a carne-seca, o charque e a frescal (não confundir com o queijo que é outra coisa...). Você pode encontrar um monte de outros nomes, mas serão apenas sinônimos dessas quatro. O mais popular é jabá (que é carne-seca). Porque que a propina paga por gravadoras às rádios para tocar suas músicas pegou esse apelido eu não descobri.

A frescal é carne de gado especialmente os cortes chamada tatu ou lagarto, salgada e curtida ao relento apenas durante a ausência de sol, geralmente à noite. É produzida no interior de Santa Catarina e não deixa de ser uma variante do charque, adaptada à região. O charque difere dessa por usar mais sal e é produzida em galpões ventilados durante o dia.

No Nordeste temos a carne-de-sol que depois de cortada em fatia não muito grossas é ligeiramente salgada e deixada em locais cobertos e bem ventilados, passando por um leve processo de desidratação. Como exige um clima muito seco, o preparo da carne de sol legítima só é possível nas regiões semi-áridas do Nordeste. A secagem é rápida, formando uma espécie de casca protetora que conserva a parte de dentro da carne úmida e macia.

A carne-seca, é um método de conservar carne, em geral bovina, salgando-a e empilhando-a em lugares secos. As mantas de carne são constantemente mudadas de posição, para facilitar a evaporação. Em seguida elas são estendidas em varais, ao sol, até completar a desidratação. O resultado final é muito parecido com o charque, especialmente porque usa uma grande quantidade de sal. Aliás, o fundador de Pelotas era um português que trabalhara no nordeste como fabricante de carne-de-sol e mudou para o Rio Grande do Sul numa das muitas secas nordestinas.

O preparo da carne-seca segue o mesmo processo básico da carne-de-sol, mas leva mais sal e fica mais tempo "exposta ao sol". Já o charque passa por um processo mais elaborado, normalmente em industrias, é prensado e acondicionado em embalagens plásticas à vácuo.

Se você fizer uma breve pesquisa no São Google vai encontrar centenas de receitas usando carne seca. A minha é a seguinte

Pegue meio quilo de carne-seca, prefira a de coxão mole que é mais macia e menos gordurosa e coloque de molho de um dia para o outro, trocando várias vezes a água. No dia seguinte refogue a carne em azeite e uma cebola picada, depois adicione água, uma cenoura picada, um dente de alho e uma folha de louro. Cozinhe até a carne estar tão macia que desmanche.

Espere esfriar e desfie a carne, experimente um pedaço para saber o quanto salgada ela ainda ficou, ou se vai precisar corrigir o sal na preparação do prato.

Pronto, agora pode começar a brincadeira, invente sua combinação, as que eu já fiz com sucesso foram:

1. Numa panela coloque azeite e alho deixe dourar um pouco. Em seguida adicione a carne seca desfiada e mexa bem. Pimenta-do-reino a gosto.

2. Esquente um pouco de azeite e adicione a carne seca. Quebre 6 ovos sobre a carne, coloque a pimenta-do-reino, e mexa bastante para que os ovos formem uma farofa bem sequinha.

3. Frite duas cebolas em rodelas no azeite.. Quando as cebolas dourarem, adicione a carne e apimente.

4. Refogue 4 pimentões fatiados e deixe refogar um pouco. Coloque a carne seca desfiada. Apimente e deixe cozinhar só até aquecer.

5. Pique 4 batatas em pedaços pequenos e junte à carne. Coloque a água necessária e deixe cozinhar a batata até engrossar o caldo e a batata ficar macia.

6. Deixe a carne fritar o máximo possível. Então, vá juntando 400g farinha de mandioca e virando para misturar bem. Sirva com bananas fritas.

Todas combinam com arroz branco e salada fresca.

Beba com um vinho do Vale do São Francisco, nessa semana vou escrever sobre eles.

terça-feira, 24 de junho de 2008

Omissão de amor

Porque você provavelmente nunca vai ler estas palavras é que eu as escrevo.

Reconheço a atitude covarde e vil de esconder meus sentimentos. Reprimo o amor e escondo meu carinho.

As palavras substituem as ações que meus temores evitam que eu faça. Não mostrar para não te machucar, a tensão e a intenção de te beijar.

Quando tua mão a minha aperta cala na garganta a palavra de amor.

Quando a saudade aperta e angustia, prolongando os dias da tua ausência, eu me escondo no silêncio.

Até o dia em que você vier a descobrir o que hoje não permito que saiba.

Todas as palavras que não quis dizer já não serão parte de nossas vidas.

segunda-feira, 23 de junho de 2008

Contículo anafórico

Quando não tinha nada, eu quis. Chico César

Nem tudo que ronca é porco, nem tudo que berra é bode, nem tudo que reluz é ouro, nem tudo falar se pode.

Mas contarei essa história fatal.
Ah homens… Ah moradores… Quantos, correndo… Quantos, embarcados… Quantos, navegando… Quantos na nau…

Pelos mares singrando, só um chegou vivo à ilha. Ilha cheia de graça. Ilha cheia de pássaros. Ilha cheia de luz. Ilha verde onde havia mulheres morenas e nuas.

Mulheres que ao verem o náufrago navegante se perguntavam : será que ele vem me ver? será que ele me deixa viver? será que posso aquecê-lo?

Ele adorou os cabelos, adorou as vozes, adorou o calor a ponto de reconhecer que era fogo que ardia sem se ver, era ferida que não sentia , era um contentamento descontente, era uma dor desatinada sem doer.

Mas um dia chegou outra nau, um dia chegou o resgate, um dia chegou a salvação que ele não mais desejava.

E o levaram da ilha deserta, e o levaram de volta à patria, e o levaram de volta aos seus.

Nunca se recuperou, nunca se conformou, nunca, nunca mais voltou à razão.

E murmurava nos cantos, e murmurava nos becos e murmurava à beira do cais.

Depois o areal extenso... Depois o oceano de pó... Depois no horizonte imenso...

Desertos... desertos só...

Com as colaborações involuntárias de Cassiano Ricardo, Camôes e Castro Alves
Anáfora: consiste na repetição de uma mesma palavra no início de versos ou frases.

domingo, 22 de junho de 2008

O ombusdman contra ataca

clique na imagem para ampliar



Você achou que o governo ia criar um novo imposto e aceitar as reclamações ?

sábado, 21 de junho de 2008

Conticulóides emocionais

Impassional
Josué nunca soube dar más notícias. Durante três meses quis romper o namoro, mas nunca conseguia achar as palavras ou a ocasião.
Helena foi encontrada na banheira com um tiro na testa.

Fatal
Ela saiu do carro linda e vaporosa. Tinha certeza que seria a estrela da festa com o seu decote em dábliu.
O garçom extasiado com sua figura errou a pontaria e serviu o vinho entre os seus seios.

Ficcional
Aquela sua foto lhe derretia todo. Sempre que a olhava imaginava que as caras e bocas eram só para ele, além do resto é claro.
Se ela não fosse um animé ele a pediria em casamento.

Estival
Com certeza seria uma grande noite. Antonio escolheu o vinho, selecionou a trilha musical e deu os últimos retoques nos pratos que preparou.
Quando Anete ligou avisando que não vinha, ele saiu para beber sem perceber que o fogão ficara aceso.

Profissional
Maria não quis acreditar quando André avisou que estava partindo. Depois de 20 anos de convivência ele a trocara por outra.
Passado o choque começou a procurar nas agências de emprego um novo motorista.

Mais conticulóides : aqui

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Traindo o vagante Aengus


Ezra Pound o considerava como "o único poeta merecedor de um estudo sério" o que, se tratando de Pound, não era pouca coisa. Para muitos, ele só é menor que Shakespeare...

Com vocês a minha tradução do vagante Aengus, de William Butler Yeats

A canção do vagante Aengus

Andando a rota das avelãs
Minha cabeça num fogaréu
Prendi em cascas cor de manhã
Na linha a baga cor de romã
Brancas mariposas pelo céu
Estrela mariposa meu chapéu
Na fonte cai a baga aldeã
Pescou a truta nadando ao léu

Mal tinha colocado no chão
A labareda queimando a lenha
Da terra surge uma aparição
Grita meu nome e me desdenha
Cintilante garota a penha
Qual flor de maçã sua feição
Meu nome chama e se embrenha
Na mata. No ar, some então.

Hei de envelhecer, sempre vagando
Em terras ocas, terras rochosas
Inda vou achá-la, tão amorosa
Beijar os lábios, as mão tocando
Na grama fresca nós caminhando
Colhendo em tempo, hora saudosa,
Maçãs de prata, lua enganosa
Maçãs douradas do sol queimando


Aengus é um personagem da mitologia celta

O original é :

The song of Wandering Aengus


I WENT out to the hazel wood,
Because a fire was in my head,
And cut and peeled a hazel wand,
And hooked a berry to a thread;
And when white moths were on the wing,
And moth-like stars were flickering out,
I dropped the berry in a stream
And caught a little silver trout.

When I had laid it on the floor
I went to blow the fire a-flame,
But something rustled on the floor,
And someone called me by my name:
It had become a glimmering girl
With apple blossom in her hair
Who called me by my name and ran
And faded through the brightening air.

Though I am old with wandering
Through hollow lands and hilly lands,
I will find out where she has gone,
And kiss her lips and take her hands;
And walk among long dappled grass,
And pluck till time and times are done,
The silver apples of the moon,
The golden apples of the sun.

Para conhecer outras traições, clique aqui

quinta-feira, 19 de junho de 2008

As pernas de Lily Norwood

Num país que supervaloriza os seios ela se destacou pelas pernas. E que pernas! Tão valiosas que chegaram a ser seguradas por 5 milhões de dólares (se hoje é muito dinheiro, na década de 50 era um absurdo que chegou a entrar para o Guiness).

A menina, batizada de Tula Ellice Finklea, começou a dançar como uma terapia (tinha sofrido uma forma leve de poliomielite) e acabou nas telas dos cinemas. Dançou com os melhores, dançou com outros não tão bons. Dançou sozinha (aliás seu número mais memorável, e mais sensual, é quando dança com um par de meias de seda - a foto é exatamente desse filme).

Dançou no musical mais genial de toda a história. Dançou em outros grandes filmes. Dançou em alguns caça níqueis.

Não era a mais bonita. Não era a mais badalada. Não ganhou nenhum Oscar. Diferentemente de seus colegas, ficou casada durante 60 anos...com o mesmo marido, que fica viúvo aos 95 anos. Adotou alguns nomes: Lily Norwood, Celia Siderova, Maria Istromena.

Ela parou de dançar profissionalmente alguns anos antes de eu nascer. Ainda assim, freqüentemente volto aos seus filmes. Não só por suas pernas, mas também por elas.

Morreu ontem, aos 87 anos. Nossos editores jornalísticos trocaram fotos, erraram nomes e a exaltaram por um filme onde ela não é a estrela (apesar de ser um grande número de ballet), numa demonstração inequívoca de falta de intimidade com o tema.

Agradeço a Robert Alton, Gene Kelly, Hermes Pan e Stanley Donnen, pelas coreografias.

Agradeço à tecnologia dos DVDs, pela qual continuarei sempre a revê-la.

Adeus Cyd Charisse.

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Foi só pegar na cavaquinha

Já vou começar avisando que cavaquinha não é a versão feminina do cavaquinho. Cavaquinho é um instrumento cordofone de 4 cordas e 17 trastes. Já a cavaquinha é o nome popular de algumas espécies de crustáceos decápodos da sub-classe pleocyemata. Tem o aspecto de um lagostim (parece um grande camarão com quelas, que são aquelas duas garras maiores do primeiro par de patas).

Isso esclarecido, vamos ao que interessa. Aproveitando que tinha no freezer 3 caudas de cavaquinha, resolvi enfrentar mais uma vez o fogão, tendo a companhia da minha cuca auxiliar Letícia. O cardápio proposto foi cavaquinha e risotto.

Fase 1 : os preparativos

A pior coisa para um cozinheiro é lembrar no meio da confecção de um prato que esqueceu de separar algum ingrediente. Pior, ter de parar a execução para procurar onde está aquele tempero especial e descobrir que não tem mais. Aí dá-se a boa e velha desculpa do improviso, também conhecido como quebra-galho ou gambiarra. O resultado final costuma ser duvidoso. Curcuma não é açafrão. Sal grosso não é flor-de-sal e orégano não entra na composição de ervas de Provença.

Primeiro fervi as cavaquinhas e tirei a carne da casca. Cortei em tiras e a Letícia temperou com flor-de-sal, pimenta do reino branca e ervas de Provença (uma mistura de manjerona, manjericão, alecrim, sálvia, segurelha e tomilho - em algumas casas de importados encontram-se algumas combinações que ainda podem ter feno grego e alfazema) e deixamos separadas.

Depois os ingredientes do risotto. Arroz arbório numa xícara, a manteiga, diluimos o açafrão, pegamos o vinho, preparamos o caldo de peixe. Eu descasquei e ralei a cebola sozinho, ainda não faço essas maldades com crianças. Também deixamos o sal e a pimenta do reino por perto.

Fase 2 : a execução

Começamos pelo risotto que leva mais tempo. A ceita do risotto é a mesma que você encontra aqui, com a única diferença que. ao invés de caldo de carne, usei caldo de peixe que combinava melhor com a cavaquinha.

A Letícia trabalhou arduamente mexendo o arroz, até o ponto em que me perguntou se eu não cansava de ficar em pé mexendo por tanto tempo, ou seja, ela tinha cansado. Assumi a colher de pau, enquanto ela arrumava a mesa.

Quando estava quase acabando o risotto, num frigideira funda coloquei uma colher de manteiga (poderia ser azeite, mas como o risotto é feito na manteiga preferi usar a mesma coisa para não chocar sabores) e quando estava quente, as tiras de cavaquinha temperadas. Quando estavam bem grelhadas adicionei um copo de vinho (o mesmo usado no risotto) e cozinhei até evaporar o álcool (cerca de 3 minutos).

Fase 3 : o serviço

Montamos os pratos com o risotto e a cavaquinha e enfeitamos com as cascas que tínhamos guardado (e que amanhã vão para a escola para os colegas verem).

A Letícia e o Samuel tomaram suco de laranja. Nós consumimos o restante da garrafa do vinho branco que usei nos pratos. Um Chablis.

Normalmente, eu vou lavando as panelas e utensílios enquanto os pratos estão cozinhando. Quando faço risotto isso é impossível, pois não dá para abandonar a panela sozinha. Claro que não fui acompanhado na sessão faxina... o site da Discovery Kids era mais divertido que lavar louça.

terça-feira, 17 de junho de 2008

Aula de física

Extraído do site : Pergunte ao Professor http://www.pap.net.ru/) : se não conseguir se conectar continue tentando até enlouquecer.

Pergunta: Se eu estou num carro andando à 90 km/h, quanto demora para percorrer 100 metros ?

Resposta: do demérito doutor livre-indecente da Universidade Livre de Pitcairn

Conforme todos sabem, essas questões de física necessitam serem abordadas de forma muito cuidadosa. Você precisa juntar todas as equações e, usando de lógica e graciosidade aplicar todos os corolários para se chegar a uma solução.

Nesse caso específico, temos uma série de equações que podem ser usadas, a saber 1/2*a*t^2 + v*t = d a*t = v v*t = d. Claro que, mais do que saber as fórmulas, é preciso rearranjá-las de uma maneira que possam ser úteis. Depois de alguns minutos de cálculos, que eu prefiro deixar que você mesmo faça em casa como um exercício de lógica caramboliana, eu obtive a seguinte equação :


Óbvio que você vai notar que eu fiz uso de algumas simplificações , mesmo porque não podemos esquecer que você está dirigindo o carro. Também tive de desconsiderar o fator de aceleração da rotação anímica da terra, até porque não sei de que país surgiu a pergunta, logo não sei se usa a mão inglesa ou a chave inglesa.

Caso você tenha esse valor no seu vade-mecum, faça o seguinte ajuste:


Depois dessa operação basica, basta balancear a massa do elétron e a velocidade da luz, que você chega à resposta : 42. O que não deixa de ser curioso, pois esse mesmo valor equivale ao significado da vida, o tempo satúrnico da origem do universo, à mediana radial dos parâmetros do elo perdido e, não menos importante, a idade daquela professora linda de química linear.

Caso você não chegue ao mesmo valor, verifique se você não omitiu o efeito polarizador da condensação de Bose-Einstein nem os efeitos de possíveis estrelas neutras que estejam distorcendo a curva de espaço-tempo.

Claro que essa solução só se aplica em condições normais de temperaturas e descompressão e considerando o atrito como vil e desprezível.

Boa sorte nesse maravilhoso e divertido mundo da física.

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Basium, osculum e suavium

Eu admito que sou um beijoqueiro. Não que eu saia aplicando beijos em qualquer um no meio da rua, mas tenho o hábito de cumprimentar amigas e mesmo alguns amigos de forma oscular.

Mais que isso, costumo mandar beijos nas minhas mensagens por e-mail. Claro, só para as pessoas que eu considero amigas. E gosto de adjetivar meus beijos, assim como meu amigo MAQ que costuma enviar abraços "acessíveis", "inclusivos" - eu geralmente retribuo-os com abraços em desenho universal.

Raramente tenho algum tipo de queixa. Mas já tive. Uma vez uma pessoa me pediu para parar de mandar beijos no encerramento dos meus e-mails porque o marido não gostava. Passei a mandar abraços. Ela reclamou de novo. Parei de mandar e-mails - seria ridículo mandar apertos de mão digitais. Quem não pode nem receber abraços virtuais merece ficar no isolamento.

Os mais antigos relatos sobre o beijo remontam a 2.500 a.C., nas paredes dos templos de Khajuraho, na Índia. Diz-se que na Suméria, antiga Mesopotâmia, as pessoas costumavam enviar beijos aos deuses. Na Antiguidade também era comum, para gregos e romanos, o beijo entre guerreiros no retorno dos combates. Era uma espécie de prova de reconhecimento.

Aliás, os gregos adoravam beijar. Mas foram os romanos que difundiram a prática. Os imperadores permitiam que os nobres mais influentes beijassem seus lábios, e os menos importantes as mãos. Os súditos podiam beijar apenas os pés.

Eles tinham três tipos de beijos: o basium, entre conhecidos; o osculum, entre amigos; e o suavium, ou beijo dos amantes. Para evitar situações desagradáveis como a narrada acima, talvez passe a mandá-los em latim. Se o marido for culto o suficiente, vai saber que o basium quem mandei, é apenas de um conhecido.

Por outro lado, acredito que o suavium é apenas para a mulher amada. Beijo na boca é, definitivamente, um gesto erótico. Esse negócio de selinho, de beijar criança na boca, está totalmente fora das minhas práticas. Beijo na boca, ou é para valer ou é dispensável. Beijar criança na boca, uma forma de pedofilia e de erotização infantil.

Na Escócia, era costume o padre beijar os lábios da noiva ao final da cerimônia. Alguns se tornaram célebres ao quebrar o recorde do Guiness cerimônias de casamentos. Acreditava-se que a felicidade conjugal dependia dessa benção - não encontrei nenhum artigo científico com teste duplo-cego que comprovasse a tese. Já na festa, a noiva deveria beijar todos os homens na boca, em troca de dinheiro (dependendo da noiva, daria um belo financiamento da lua-de-mel).

No século XV, os nobres franceses podiam beijar qualquer mulher. Na Itália, entretanto, se um homem beijasse uma donzela em público, era obrigado a casar imediatamente. Franceses costumavam ser presos na Itália e as italianas se divertiam nas suas férias na Côte d´Azur.

Existem centenas de beijos poetados por aí. Gosto de muitos. Detesto todos os mal escritos e piegas. Meu preferido ainda é o do português Jorge de Sena

Um beijo em lábios é que se demora
e tremem no abrir-se a dentes línguas
tão penetrantes quanto línguas podem.

Mais beijo é mais. É boca aberta hiante
para de encher-se ao que se mova nela.
É dentes se apertando delicados.

É língua que na boca se agitando
irá de um corpo inteiro descobrir o gosto
e sobretudo o que se oculta em sombras
e nos recantos em cabelos vive.
É beijo tudo o que de lábios seja
quanto de lábios se deseja.

Deliciosamente escandaloso, não é mesmo ?

Antes que me censurem, fico por aqui.

Ao conhecidos, beijos respeitosos...

Aos amigos, ósculos afetuosos...

Só para ela : um suavium, sem adjetivos.

domingo, 15 de junho de 2008

Reversão de expectativas


O menino pergunta : para que diabos serve uma câmera se não dá para usá-la como telefone?

sábado, 14 de junho de 2008

Poema azul


Se poemas nascessem de olhos azuis
Folhas e mais folhas de papel estariam
Azuis.

Poemas talvez não nasçam assim.
Mas certamente nascem assim as paixões,
Renascem emoções.

Renascem
A adolescência sem juízo ,
Beijos com sabor de dente-de-leão ,
A tensão do namoro escondido em ruas solitárias.

Renasce a discussão sobre a cor do bem-te-vi.

E, quando na vida ,
Importa a cor do bem-te-vi,

Importa o azul de palavras no papel.
Importa o azul de olhos que pedem

Um poema.


Essa é a postagem número 300 do Mens Insana

sexta-feira, 13 de junho de 2008

Assassinando analogias - o retorno


Tema: Quem não tem cão, caça com gato.

Variações:

Quem não tem ganso, patê de pato

Quem não tem concreto, cria abstrato

Quem não sabe a verdade, aceita boato

Licenciatura ou bacharelato.

Quem não tem pulga, coça carrapato

Se não me caso, concubinato

Se não é chimango, é maragato

Quem não usa chinelo, calça sapato.

Mica, quartzo e feldspato.


quinta-feira, 12 de junho de 2008

12 motivos para comemorar

Eu não poderia deixar passar o dia de hoje sem algum tipo de comemoração. Como todos sabem eu sou um aficcionado por datas comemorativas. Se eu fosse católico estaria me lembrando de Santo Onofre, o confessor, que viveu 60 anos no deserto (quem será que ia até lá se confessar?), e depois virou uma rede de farmácias. Como não sou, relaciono abaixo 12 motivos para festejar o dia 12 de Junho.

1442 - Rei Alfonso V de Aragão toma Nápoles, o que deixaria a pizza com um certo sabor de açafrão

1665 - Nova Amsterdam recebe o nome de New York, após a retirada do holandeses, é abandonada idéia de se construir canais na cidade, só retomada com a implantação das linhas de metrô

1812 - Napoleão invade a Rússia, entra numa fria e inspira uma das músicas mais famosas de Tchaikowsky

1839 - Primeira partida de baseball nos Estados Unidos, até hoje ninguém sabe exatamente como funciona o jogo

1926 - O Brasil abandona a Sociedade das Nações depois de Wahington Luís cair de uma cadeira fabricada em Verdum

1929 - Nascimento de Anne Frank, na Alemanha, 5 anos depois de George Bush, pai. Como diria Cecília Meirelles : "...quem é bom mandam matar"

1933 - Al Capone é condenado, não se sabe exatamente onde estava Eliott Ness nesse dia

1964 - Nelson Mandela é condenado à prisão perpétua, mas ainda vai demorar muito para o ocidente condenar o apartheid

1965 - Rolling Stones lançam o single Satisfaction. Mick Jagger nunca mais parou de mostrar a língua

1981 - Lançamento dos "Caçadores da arca perdida", primeiro filme de Indiana Jones. Comemore assistindo o 4o episódio da série

1990 - O Parlamento da URSS aprova a Lei de Imprensa e outros meios de comunicação, a primeira que garante a liberdade de imprensa e dos direitos dos jornalistas do país. Lá também algumas leis pegam e outras não.

2003 - Morrem Gregory Peck e Itamar Assumpção. O dia, definitivamente, poderia ter sido melhor.

quarta-feira, 11 de junho de 2008

Contículo anfibológico

O Oráculo de Délfi disse a Croseus que se ele guerreasse ele destruiria um poderoso Reino (Heródoto)

Naquele dia Arnaldo fora à casa de José em seu carro. Ao entrar perguntou : aonde está a cachorra da sua irmã ? Você e sua mãe me fazem feliz. Sem o seu apoio, eu não sou ninguém. Pôs-se a chorar copiosamente, mesmo sabendo que o bom pai o filho ama. Ele era um infeliz. Tinha quatro anos quando o pai matou sua mãe , o trauma nunca se desfez.

Sem saber o que fazer, José saiu. Visitou a casa de sua avó que dá os fundos para o mar, não sem antes passar na loja e comprar meias para senhoras claras. Encontrou-a em frente à TV. Venceu o Brasil a Argentina, ela disse, sem reparar no seu semblante apreensivo.

O que aconteceu ? perguntou finalmente.

É a Judite. Depois dos exames, a médica disse-lhe que estava esperando um bebê. Ela visitou sua amiga, depois saiu com seu noivo. Agora José está em casa desesperado.

Isso pode ter consequências avassaladoras. Você sabe que uma vez ele já atirou em um elefante vestindo seu pijama. É capaz de qualquer coisa. Você sabe que eu gosto de seu pai, mas recuso-me a seguir a sua opinião.

O celular tocou. Era da polícia : o guarda deteve o suspeito em sua casa. O pai encontrou a filha em seu quarto e as consequências não foram felizes

O julgamento foi rápido, a sentença breve : foi condenado a 5 anos de trabalhos forçados por má colocação pronominal.

Anfibologia: trata-se de construir a frase de um modo tal que ela apresente mais de um sentido.

A imagem é uma homenagem ao Lou da Gruta que costuma colocar imagens de mulherões nos seus posts escatológicos.

terça-feira, 10 de junho de 2008

A salsicha do Pisek

Dizem as más línguas que quem sabe como as salsichas são feitas não as come. A salsicharia do Harry Pisek desafia essa lógica.

O preparo da salsicha é uma técnica antiga de preservação de alimento.É feita a partir de carne crua, gordura animal, ervas e especiarias e outros ingredientes. Normalmente, a salsicha obtém seu formato por conta de sua embalagem comestível, historicamente feita dos intestinos de animais, e, mais modernamente, fabricada de forma sintética; devido a isto, são classificadas como produtos embutidos, , com o intuito de que se obtenha uma maior preservação da salsicha, ela pode ser curada ou até defumada.

A fábrica do Harry fica no caminho para o Horto Florestal e, apesar do título de "fábrica", o espaço de produção não é maior que uma cozinha comum. O espaço todo de fábrica e restaurante é uma simpática casa no estilo montanhês. Claro que, além de servi-las no restaurante, você também pode comprar exemplares dos 5 tipos de salsichas que ele fabrica.

O cardápio do restaurante vai muito além dos embutidos e contempla os clássicos da culinária alemã. Estavamos em seis pessoas e pedimos só um prato - e que prato! Era composto de um joelho de porco (einsbein) , costelas de porco (kassler) e três tipos de salsichas. Junto, batatas cozidas e repolho azedo cozido com mostarda.

O mais incrível é que, apesar de todos os componentes serem carnes de sabor forte, nada estava pesado. Comemos todos muito bem e ainda daria para fazer uma marmita (que não íamos levar para o hotel, é claro). Bebi uma cerveja alemã que estava bem leve e não competia com os sabores suínos.

A situação das crianças se inverteu em relação ao dia anterior, a Letícia se limitou a uma salsicha (que achou esquisita), o Samuel encheu a cara de joelho de porco, batata e repolho

A sobremesa foi um apfelstrudel. Simples. Massa finíssima e muito recheio - só de maçã. Só faltou beber um café - a desculpa é que a máquina estava quebrada. Uma falha grave.

No cardápio uma informação de que em Setembro próximo o Harry vai abrir uma casa em São Paulo, na Rua Tupi. Não sei se acho isso bom, geralmente abrir filiais costuma deteriorar a qualidade de restaurantes - especialmente nesse caso, o porco engorda aos olhos do dono. Vamos ver o que acontece.

segunda-feira, 9 de junho de 2008

Os berries da Baronesa


Sempre que viajo costumo consultar o Guia 4 Rodas para descobrir novos restaurantes e pratos. Em alguns aspectos sou um tursita bastante comum. Visito as atrações do local, entro em museus e igrejas históricas. A diferença é que, ao invés de entrar nas lojinhas de souvenir ou gastar dinheiro nos produtos típicos da região, eu prefiro comer bem.

No final de semana passada fugi com a família para Campos do Jordão. Não é exatamente uma cidade desconhecida. Minha família se relaciona com a cidade há décadas. Meu avô foi administrador do Umuarama, quando aquilo ainda era um hotel de classe. Meus pais passaram a lua-de-mel por lá. Tenho dois tios e vários primos que moram na cidade.

Desde a minha época de mocidade de igreja, quando íamos para acampamentos, também no Umuarama, já um tanto decadente, eu me acostumei com as paisagens do Pico do Itapeva, do Horto Florestal, do Alto da Boa Vista e da Pedra do Baú. E também da sessão turismo brega : o teleférico do morro do Elefante, a Ducha de Prata e o chocolate quente da pracinha do Capivari. Nunca estive no Festival de Inverno, mesmo porque Campos do Jordão em julho é um programa de uma insanidade diferente das minhas.

Na minha pesquisa selecionei três restaurantes para escolher dois quando estivesse por lá. Harry Pisek, La Cucina della Donatella e Beto Perroy, esse último uma churrascaria que ficaria de estepe caso as crianças não topassem algo diferente.

Chegamos na 6a feira à tarde. Como já estamos na temporada de inverno resolvi ligar antes para fazer reserva para o jantar. O Harry Pisek não abria para o jantar de sexta feira (!!). Tentei La Cucina, a resposta que recebi foi que, como a Donatella não estava lá o restaurante não ia abrir (!?!) - um modelo bastante profissional de funcionamento numa cidade cheia de turistas. Comer churrasco à noite não era o meu sonho de consumo.

Fui salvo pelo guia da cidade que recebemos no portal quando chegamos - a indicação de um bistrô no Alto da Boa Vista - o Baronesa Von Leithner.

O Baronesa, está numa fazenda de berries (nunca vi alguma tradução para esse termo que designa as frutas como amoras, framboesas, morangos e mirtilos) e a sua culinária é toda cercada dessas frutinhas. Não é um restaurante para quem têm resistências a pratos acre-doces. Eles até tem alternativas mas seria um desperdício ir na Baronesa para comer macarrão com frango.

Comi um lombo de porco com molho de amoras, a Elsa uma truta recheada de amêndoas e mirtilos. As crianças foram em soluções mais comuns, mas a Letícia encheu a cara de comer as imensas amoras que vinham no couvert, mas não gostou dos mirtilos.

A carta de vinhos do bistrô é bem variada e os preços são honestos. Tomamos um Malbec da Catena que desceu muito bem com a profusão de frutas.

Para completar a festa, a sobremesa foi um mil folhas com frutas diversas. Até eu, que não sou um grande consumidor de doces, me esbaldei.

Amanhã eu falo das salsichas do Pisek.

domingo, 8 de junho de 2008

Prá lá do Cafundó

Não sei porque muitas pessoas se espantam com a profusão de insanidades que pululam nesse blog.

Seria eu uma fonte inesgotável de idéias absurdas ou teria encontrado algum caderno de rascunhos inéditos de Julio Cortázar em algum sebo ?

Nem uma coisa nem outra. Apenas o fato de que fico atento a pequenas coisas que acontecem à minha volta e, por algum processo de imantação as insanidades vêm em minha direção.

Uma frase mal colocada por alguém, uma notícia incoerente (e são tantas), uma propaganda esdrúxula. Nem preciso de muito esforço, basta manter olhos e ouvidos abertos e, voilá, eis o tema para mais um texto. Um livro do Drummond de 1974 já avisava que de notícias e não noticias faz a crônica.

Essa semana, lendo uma matéria sobre línguas que ainda são faladas por minorias, no Brasil, eu descobri que Cafundó existe.

E eu que sempre achei que era só uma expressão para designar qualquer lugar que fosse muito longe. No dicionário Cafundó significa local de difícil acesso. Significa também também "Deus me livre", fim de mundo. A origem da palavra é indígena (eu achava que fosse africana), caa em tupi quer dizer mato. Era o fundo do mato, para onde os escravos fugiam

Mas, apesar de ser difícil chegar a Cafundó, a localidade fica muito mais perto do que eu poderia imaginar fica num bairro da zona rural, a 14 km do município de Salto de Pirapora, distante 30 km de Sorocaba e 150 km de São Paulo. Ou seja, é aqui do lado.

Também é verdade que o acesso não é dos mais simples. Uma pequena placa na beira de uma rodovia indica a estrada de terra a seguir. Três bifurcações e seis quilômetros depois, numa estrada que acaba no centro de um vale de eucaliptos, se vê uma porteira e a placa "Cafundó".

É verdade que é um local fadado à extinção. Na comunidade de Cafundó, hoje vivem não mais que 50 pessoas, basicamente duas famílias: os Caetano e os Pires Pedroso. São os últimos brasileiros que ainda falam cupópia (essa sim uma língua de origem negra com mistura de termos caipiras). A língua não surgiu no Cafundó, mas na Fazenda Caxambu em Sarapuí. Atualmente só é falada no Cafundó.

Caso você queira dar uma passada por lá, não esqueça de cupopiá com o tata Pedroso para que ele tire o avere do andaru quando surgir o cumbe do téqui e você possa ir para o injó do marrupe, desviando do respeito do ngobe.

Já o Cafundó do Judas eu não descobri onde fica.

sexta-feira, 6 de junho de 2008

Aforismos sempre inconsequentes


O amor pede proximidade, mas a canícula exige espaço.

Quem decide se abster só quer se opor sem se expor.

Relativismo : maneira filosófica de ficar em cima do muro.

Voto útil, a mais inútil das práticas eleitorais.

Quem com ferro fere está desatualizado tecnologicamente.

Para mais aforismos, procure nos marcadores do lado direito

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Amor demais

Que me importa se a clepsidra corrói as praças das infâncias em ruínas? (Fernando Mendes Viana)

Enquanto aguardava na plataforma da estação, Mariano relembrou dez anos que já haviam passado.

Conhecera Ana Maria num festival literário. A afinidade de gostos fora instantânea. A de pele não demorou muito a aparecer. Mesmo morando em cidades diferentes mantiveram uma correspondência, ao mesmo tempo intelectual e fogosa, durante meses.

Quando voltaram a se encontrar, logo depois, parecia que se conheciam há anos. O amor foi intenso. O desejo guardado nesse tempo explodiu furiosamente. O mundo parecia maravilhoso, exceto pelo fato de que nenhum dos dois podia abandonar suas atividades e suas cidades.

Continuaram a se corresponder. Aliás, nunca deixaram de manter contato. O tempo e a distância levou cada um para o seu lado e para os seus amores.

Nas duas vezes que a visitou ela estava com outro alguém. A amizade e o amor não tinham acabado, mas não havia oportunidade para nada além disso. Ela também chegou a visitá-lo, mas como estava a trabalho na cidade dele, sempre havia mais alguém por perto.

Agora ela estava vindo de novo. Dessa vez sozinha. Ele nem sabia direito como deveria se comportar.

Quando a viu desembarcar, acenou e ela sorriu. Abraço forte no encontro e um certo ar de constrangimento. Ela também passara toda a viagem imaginando o que poderia acontecer.

Deixou-a na casa da amiga onde ela ficaria hospedada e combinaram programas para o final de semana que ela passaria na cidade. Parques, passeios, museus, teatro e jantares regados a bons vinhos. Ainda assim pareciam dois estranhos que se encontravam pela primeira vez.

Na última noite, quando acabavam a conversa no carro, ele olhou para os seus lábios e pensou em beijá-la. Os olhos dela brilhavam com a mesma intenção.

Já era tarde e, ao amanhecer ela partiria. Já era tarde, e ele tinha vários compromissos no dia seguinte.

Despediram-se sem o gosto do beijo. Já era tarde.

quarta-feira, 4 de junho de 2008

Traições de um troglodita

Eu tive um chefe inglês que me chamava de troglodita porque eu falava quatro línguas - ele sabia exatamente o que significa a palavra, mas o humor britânico é assim mesmo.

Em mais uma aventura traidora, eu ataquei um poemeto do Robert Louis Stevenson - aquele que ficou famoso com "A ilha do tesouro". Como o poema é muito curto, brinquei de fazer versões em francês e espanhol :


Esse exercício é dedicado à Izabel que me apresentou ao Stevenson, poeta :


Love - what is love? A great and aching heart;
Wrung hands; and silence; and a long despair.
Life - what is life? Upon a moorland bare
To see love coming and see love depart.
(Robert Louis Stevenson)

Versões :

Amor, que é o amor? Coração de enorme dor
Mão premida, silêncio e longo desespero
Vida - o que é a vida? Em pleno pântano vazio
Ver do amor a chegada e a despedida.


Amour - qu'est-ce que c'est l´amour ? Un grand et douloureux coeur ;
Mains extorquées ; silence ; désesperance
La vie - qu'est-ce que c'est la vie ? Sur une bruyère nue
Voir l'amour venir...voir l'amour partir.


¿Amor - que es amor? Un corazón grande de dolor;
Manos sacadas; silencio y una desesperación
¿Vida - que es la vida? Sobre una paramera desnuda
ver amor el venir y ver amor salir.

Para entender minha prática traidora, veja aqui onde ela se origina. Para outras traições, basta usar os marcadores à sua direita

terça-feira, 3 de junho de 2008

Antologia de Maio

Escolha a Margarida, e coloque a Dália num vaso...

Pare de arrumar desculpas para trair...

...queria ser sua filha :-))

explica direito o que razoável...

Quando a carcaça não ajuda (meu caso), mehor deixar para os urubus...

Nunca escolha pelo nome no Paraguai.

Salton e Valduga são nomes expressivos neste argumento.

...dormindo, ninguém é mais inteligente do que ninguém.

...algumas amigas emprestam meus amantes e nunca devolvem

...eu aprendi que emprestar amantes jamais, melhor arranjar um "encontro marcado" com um novinho só pra elas

...além de serem suas amantes, ainda a obrigava a tirar o pós delas, de vez em quando

Justifique a razão da improcedência da liminar.

...posso supor que este pugilo de amigos teus não encarou o desafio proposto.

...reencarnadas em minhocas e protestam contra matá-las...

...eu gostaria de ser chinês para aprender a ler com os olhos...

...o pai , canta , tô nem ai e manda a gente se virar com o Houaiss...

Vossa majestade pode vomitar, se quiser...

...me senti numa daquelas reuniões pentecostais...

Agora ele pirou mesmo...

E a que horas acrescentamos o pozinho?

segunda-feira, 2 de junho de 2008

O pão que eu acerto


Como vocês já sabem, pão comum não é uma das minhas especialidades, a menos que você classifique inabilidade como uma forma de especialização, o que não seria totalmente ilógico, uma vez que eu conheço pessoas especialistas em gafes e acidentes domésticos.

Por outro lado, tendo 50% de sangue de mineiro, não poderia deixar de fazer pão-de-queijo. Um primo do meu pai costuma dizer que pão-de-queijo bom só sai de mão de mineiro, o que ele mesmo comprovou que não era verdade pois minha mãe, paulistana até a raiz dos ossos, sabia fazê-los muito bem.

Mas não foi com a minha mãe que eu aprendi a fazer os bichinhos, mas com a minha avó. Minha irmã também fazia os seus bebendo na mesma fonte, infelizmente, tanto a mãe como a irmã abandonaram a manufatura e adotaram a versão supermercadista. Não consigo entender como pessoas que a vida inteira comeram pães-de-queijo excelentes toleram essas enganações.

Fazer pão-de-queijo não é difícil, dá um pouco de trabalho e suja bastante as mãos. Mas vale a pena. Mais com a ajuda da Letícia do que do Samuel (o cara é meio nojento e detesta ficar com aquela massa mole entre os dedos) de tempos em tempos vamos para a cozinha. O processo é o seguinte.

Ferva uma xícara de leite integral e uma xícara de óleo juntas, até o leite começar a subir. Despeje o líquido quente em meio quilo de polvilho e misture com as mãos até dissolver todos os "grumos". Pode ser tanto o doce como o azedo, eu prefiro o azedo. Se tiver oportunidade, compre polvilho de Goiás, é o melhor que tem, para desgosto dos mineiros. Se bem que os goianos são bons de polvilho, mas não de pão-de-queijo.

Rale cerca de 300 a 400 gramas de queijo. O melhor queijo é o meia-cura de verdade, que é mais duro que esse Minas Padrão que se encontra em todo lugar. Algumas pessoas preferem o queijo fresco, o Minas Padrão também dá bons resultados. De forma alguma use parmesão - isso é crime de lesa pátria. Se o queijo que você usar tiver sal, não precisa colocar mais sal na receita.

Misture bem o queijo ralado na massa de polvilho até ficar homogênea. Aqui começa a sujeira. Um a um vá colocando ovos inteiros e misturando com as mãos até dar o ponto. O ponto é quando a massa está pastosa o suficiente para fazer bolinhas quase no limite de ficar fluida. Dependendo do tamanho dos ovos isso significa uns 4 ou 5 ovos.

Lave a mãos - não que afete a receita, mas com a mão empapada de massa não dá para segurar as colheres - pegue duas colheres (se gosta de pão de queijo grande use colheres de sopa, eu prefiro as de sobremesa) e enrole bolinhas nas colheres. Vá colocando em formas (não precisa untar) com espaço suficiente entre eles sabendo que vão dobrar de tamanho.

Se você não for consumir tudo não asse. Coloque a forma com as bolinhas cruas no freezer e deixe congelar, quando estiverem duras tire da forma e guarde num saco plástico bem fechado, depois podem ir diretamente para o forno, não precisa descongelar.

Asse em forno médio. Forno alto deixa o pão-de-queijo torrado por fora e cru por dentro. Forno baixo vira borracha. Quando estiverem morenos estão prontos - deixe a manteiga por perto, pão-de-queijo quente com manteiga fica uma delícia. Eu também gosto de comer com paté de fígado - se encontrar um chamado Bunuel (não, nada a ver com o cineasta) não deixe de experimentar. Caso não goste de paté e tenha problemas com a manteiga, não faça o crime de passar margarina, coma-os puros que já são ótimos.

domingo, 1 de junho de 2008

Cultura geral

Quanto continentes o Equador cruza ?

O Equador é uma linha imaginária, portanto não existe e não pode cruzar continente nenhum. Além do que continentes não são bichos para serem cruzados. Existem 7 continentes (por ordem de CEP) : América, Eurásia, África, Austrália, Magadascar, Groenlândia e Havaí. O Equador passa por perto de todos e, dependendo do tamanho do desenho do cartógrafo, pode cruzar alguns. Mesmo assim, não geram filhotes.

Quantos centímetros existem em um kilômetro ?

Qualquer criança de escola já decorou essa resposta, mas a maioria dos adultos esqueceu a resposta. Existem 254 metros em cada kilômetro e 932 centímetros em cada metro. Portanto, em cada quilômetro existem 3 radares.Verifiquei essa informação em 2 enciclopédias e 3 sites. Todos estão com a resposta errada. É lamentével que os editores dessas renomadas publicações deixem passar esses detalhes sem sequer publicar um errata.

Por que os cabelos curtos crescem mais rápido ?

Os cabelos curtos crescem mais rapidamente porque não são afetados pela lei da gravidade. Quando a força da gravidade puxa os cabelos longos eles se dobram na raiz inibindo o fluxo de sangue e impedindo o seu crescimento. Cabelo curto fica em pé e reto, o que permite um melhor fluxo sanguíneo. Cabelos muito saudáveis chegam a sangrar quando cortados.

O que significa a teoria do inconsciente coletivo de Jung ?

A teoria do inconsciente coletivo explica porque as mulheres só vão aos banheiros em grupo, uma vez que elas se conectam através do seu insconsciente. Ele já diria que Simia quam similis, turpissimus bestia, nobis! Assim detalhando a necessidade de sincronização de necessidades urinárias femininas. Ele também provou que as mulheres sempre vão ao banheiro aos 27 minutos depois da hora cheia, exceto no horário de verão.

Para que complicar ? Simplifique


Ou como dizem nossos hermanos gringos : MISS (Make it simple, stupid!)