sábado, 31 de maio de 2008

Ditados impopulares


Máxima, breve, popular; adágio, anexim, ditado: como o próprio nome diz, é a expressão que através dos anos se mantém imutável (exceto quando alguns insanos resolvem fazer pequenas alterações nos mesmos), aplicando exemplos morais, filosóficos e religiosos. O primeiro, abaixo, é uma transliteração do meu pai, as demais são de lavra própria.


Que me importa que a azêmola claudique, o que eu quero é acicutá-la

Antes seródio que atemporal

Albucoque que nasce sanhudo, perece oblíquo

É de antanho que se rotaciona o cogombro

Fluido hipotônico em calhau rijo, tanto zurze que verruma

A casmurrice é mais grave de todos os cataclismos

Contra o empirismo não antagoniza a retórica

Bípede implume acautelado se estima bivalente

Prepondera um ovíparo alado nos membros terminais do que dois adejando

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Hai Kais para Beatriz


Me ensina a não andar com os pés no chão (Beatriz - Edu Lobo e Chico Buarque)


Me ensina a errar
Olhar os campos distantes
Odor de rosas

Me ensina a cantar
Dissonâncias amarelas
Pés longe do chão

Me ensina a falar
Sabores, toques mansos
Repletos de estrelas

Me ensina a sonhar
Paredes, muros de giz
Feliz solidão

Me ensina, me ensina
Flores frias da estação
Adeus permanente

quinta-feira, 29 de maio de 2008

Investindo na bolsa


Poucas palavras na língua portuguesa tem tantas definições como Ação. Pode variar desde a definição anódina de que é um modo de atuar à extremamente ampla de que é tudo que se faz, passando por significados militares, artísticos, gramaticais e financeiros.

Nesse último, ação é um título mobiliário que corresponde ao direito de uma fração de uma empresa, representando uma parte do capital social dela. Fico pensando o que aconteceria se transportássemos os tipos de ações e acionistas para o mundo dos relacionamentos.

Uso a expressão mulher como equivalente da empresa (quem possui ações detém uma parte ou o total da empresa, e por isso recebe parte proporcional dos lucros). As moças que me lêem podem considerar exatamente como equivalente na inversão de gêneros.

Ação ao portador (que oficialmente não existe mais no Brasil) é aquela que não apresenta o nome do proprietário, que pertence a quem detém seu poder. Se refere aquela mulher que você sabe que tem um compromisso sério com alguém, mas ninguém sabe quem é e ela não conta de jeito nenhum.

Ação nominativa é aquela que identifica o nome de seu proprietário. Ele terá efetivamente a posse da ação depois do lançamento no Livro Registro das Ações Nominativas. No nosso caso, são as casadas, cujo direito de posse foi escriturado no Livro do Registro Civil.

As de primeira linha são ações das mais tradicionais, de grande porte, nunca menos que 1,70m e que têm maior liquidez (já pensou besteira, não é mesmo ?). Correspondem às blue chips, em inglês. As de segunda linha são ações com menor liquidez, embora também possam incluir empresas sólidas. Ou seja, primeira ou segunda linha só se diferenciam na aparência externa e não na qualidade em si.

Ação ordinária (que, ao contrário do que se pensa, tem mais importância que as não ordinárias) é a que proporciona participação nos resultados econômicos de uma empresa: confere a seu titular o direito de voto em assembléia. Nesse caso, o marido tem direito a voto nas decisões domésticas. Ao contrário da ação preferencial que oferece a seu detentor prioridade no recebimento dos lucros e benefícios, mas não pode dar palpite porque não tem direito a voto.

Além disso, os benefícios precisam ser sempre superiores aos das ações ordinárias - é só uma questão de saber se quer mandar ou aproveitar mais. De qualquer forma, na falta da entrega dos dividendos por longo período, ganha-se automaticamente o direito a voto.

Existem também as ações cheias e vazias. Não, não se referem à alimentação. Cheias são as ações cujos direitos ainda não foram exercidas, antigamente eram típicas de noivados antes da lua-de-mel, nos dias de hoje são cada vez mais raras, proliferando as ações vazias, ou seja, já se exerceu o acesso aos dividendos.

Já os acionistas podem ser majoritários, aqueles que possuem o efetivo controle da empresa, ops, da mulher, ou minoritários, não tem controle, mas recebem dividendos. É um caso mais complexo pois, na existência de ações nominativas e ao portador, algumas vezes quem se acha o majoritário, na verdade, não o é.

Quando uma ação é listada em bolsa, é porque o relacionamento já era, e a empresa entra em oferta pública.

Por fim, existe a ação com valor nominal são que tem um valor impresso, tipo de ação que só se refere às profissionais

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Contículo anacolútico

Sérgio chegou desabando uma torrente de afirmações desconexas. Ele, nada podia assustá-lo. Enquanto falava, eu parecia que estava ficando zonzo.

Deixe-me ver... É necessário começar por... Não, não, o melhor é tentar novamente o que foi feito ontem. Minha mãe, você sabe, não há idade nem desgraça que lhe amolde a índole rancorosa e lá o pai, esse coitado, as coisas não lhe correram bem. Entre os dois, a empregada, mas essas criadas de hoje não se pode confiar nelas.

Você sabe que, a mim, eu gosto de estimar e respeitar os meus amigos e eu não me importa a desonra do mundo, nem o fato de morrer, todo o mundo vai morrer.

Tentei interrompê-lo dizendo que o forte, o covarde seus feitos inveja, nada adiantou, quem escuta de si ouve.

Acredita que ela disse que esses miseráveis que se viram desalojados, não digo propriamente nada contra eles, mas não servem para nós... ?

Novas espécies de preconceitos, pensava em como é misteriosa a natureza humana. Justo nós que vivemos na situação de pobre quando come frango, um dos dois está doente.

Tentei mostrar que a mãe, ninguém é melhor cozinheira, não se satisfazia com qualquer um, mas não adiantou.

E continuou a peroração: a beleza, é em nós que ela existe. Eu sei que uma coisa pensa o cavalo; outra quem está a montá-lo, mas ela não podia dizer uma coisa dessas.

Eu, por bem farão de mim tudo e por mal, nada. Disse-lhe na cara que quem te não roga não lhe vás à boda. A vida, não sei realmente se ela vale alguma coisa. Agora, a rua onde moras, nela é que desejo morar.

Mais tarde, dois gatinhos miando no muro, conversávamos sobre como é complicada a vida dos animais.

Anacoluto: consiste em deixar um termo solto na frase. Normalmente, isso ocorre porque se inicia uma determinada construção sintática e depois se opta por outra.

terça-feira, 27 de maio de 2008

A festa da sogra


Na semana passada foi aniversário da sogra. Como bom genro (que inclusive a cumprimenta sempre no dia da sogra que, caso você não saiba é 28 de abril, mesmo dia em que, em 1768, uma provisão régia reiterou a obrigatoriedade do plantio de mandioca nas fazendas do Brasil - o que exatamente uma coisa tem a ver com a outra eu não faço a menor idéia) resolvi oferecer-lhe o almoço, convidando também meu cunhado e os tios (irmãos dela). Juntando todo mundo éramos 16 pessoas.

A definição do cardápio foi complexa. Não porque ela seja muito exigente, mas porque precisava evitar qualquer prato que desse alguma conotação jocosa. Galinha não faria jus à sua seriedade. Salada de pepino, nem pensar, tão pouco molhos adocicados à base de abacaxi ou banana. Meu famoso molho "alla putanesca" estava completamente fora de cogitação. Mas não escapei da abobrinha.

Comecei servindo canapés. Torradinhas com fatias de salame de avestruz (de verdade, você encontra no Pão de Açúcar e é muito saboroso) cobertas com catupiry derretido. Como entrada também foi servida uma casquinha de siri trazida pelo meu cunhado.

As carnes foram um carré de porco e uma picanha, acompanhadas de legumes cozidos, arroz branco e farofa (uma hora eu escrevo um texto específico sobre as minhas farofas).

O porco é bastante fácil de fazer, usei uma peça de carré de cerca de um quilo e meio. Raspe a casca de um limão siciliano (aquele amarelo - não use o limão tahiti que é ácido demais) e misture em uma xícara de azeite, acrescente uma colher de sopa de erva doce. Tempere a carne com sal e pimenta de reino a gosto e depois regue com o azeite misturado e flocos de alho. Deixe descansando de um dia para o outro. No dia seguinte é só assar. O ponto é simples de determinar (também serve para lombo) - quando você espetar a carne com um garfo e não sair sangue está pronta.

Já a picanha é bastante complexa. Se você não gosta de pratos trabalhosos pule direto para os legumes cozidos abaixo. Tempere a carne com sal e pimenta do reino. Doure a peça inteira em fogo alto. Quanto estiver bem tostada por fora, adicione água aos poucos e cozinhe por cerca de 40 minutos. Guarde o caldo da carne. Em outra panela ferva uma xícara de vinho do porto com cenoura, salsão e cebola picados, deixe reduzir pela metade. Acrescente duas xícaras do caldo da carne (eu avisei para guardar...) e deixe reduzir de novo. Ainda no fogo coloque duas colheres de sopa de mostarda l´ancienne (aquela que tem grãos de mostarda) e uma colher de chá de tomilho, misture e desligue o fogo e coe o molho. Leve o molho coado ao fogo, só para aquecer, desligue novamente e a crescente uma xícara de creme de leite fresco e duas colheres de sopa de manteiga e bata na mão até o molho emulsificar (ficar com uma cara meio pastosa), se necessário, coloque mais uma colher de manteiga. Tempere com sal e pimenta do reino. Corte a carne em fatias, cubra com o molho e leve ao forno rapidamente, só para aquecer.

Se você resistiu à receita da picanha ou se a ignorou conforme minha recomendação, aqui vai a receita dos legumes. Corte em rodelas berinjela, abobrinha, cebola e tomate. Num assadeira de vidro refratário coloque as rodelas alternadamente. Tempere com sal, pimenta do reino, salsinha picada e orégano. Regue com bastante azeite e leve ao forno médio. Quando a berinjela e a abobrinha estiverem macias pode servir.

Servi um Chablis, que eu recomendava que fosse bebido com o porco, e um Malbec, para acompanhar a picanha. Mas cada um bebeu conforme lhe deu na telha, o que ainda é a melhor combinação de comida e vinho - aquela que dá prazer.

Ao contrário do camarão empanado que relatei na semana passada, os pratos ficaram ótimos. Não sobrou nem para o "já te vi" do dia seguinte.

segunda-feira, 26 de maio de 2008

Conticulóides estilísticos

Trovadorismo

Janete se encantava com as canções que Manuel lhe dedicava todas as noites. Imaginava-o um ser de nobre formação e intenções. Até o dia que viu sua foto numa revista de fofocas. Não passava de um garçom na boate Jogral que plagiava descaradamente os músicos profissionais.

Humanismo

Salvatore, erudito e agnóstico, apaixonou-se por Marieta, chucra e carola. Tentou racionalizar teorizando sobre a natureza transformada pelo homem. Ela pura matéria prima e ele seu humanizador natural. Quando ela enfim cedeu aos seus desejos deixou-o de quatro uivando para a lua de tamanho prazer.

Quinhentismo

Por oceanos que ele nunca imaginou foi aventurar-se. Via-se com uma amante em cada porto e uma tatuagem em cada escala. As crises de enjôo o largaram na primeira parada do navio e voltou de ônibus para sua cidade. Nunca mais viu o mar.

Barroco

Sebastião vivia em crise de identidade. Suas convicções religiosas o impediam de publicar seus poemas excessivamente descritivos. Oscilava entre o céu e o inferno. Foi para o seminário que cria ser sua vocação. Quando estava prestes a assumir o cargo supremo da ordem foi preso por pedofilia.

Arcadismo

Tomás idealizava todas as suas namoradas, ainda que nenhuma delas fosse tão bela quanto dizia, nem tão pura quanto imaginasse. Rendeu-se finalmente aos encantos de Marília, uma zootecnista que o levou para morar na fazenda e criar porcos.

Romantismo

Antonio só confiava nos seus próprios sentimentos. Fugia de tudo que tivesse cheiro de teoria e seu egocentrismo era seu parâmetro de julgamento de todas as coisas. Achava-se um intuitivo nato fadado a sofrer e morrer de amor. Foi reprovado em todas as matérias no primeiro semestre da faculdade e reconheceu que alguma coisa ele precisava estudar.

Simbolismo

Entre as brumas vaporosas da neblina do poente, Cadu olhava o infinito. Nada fazia sentido naquela hora só a névoa esgarçada que se espalhava sobre a cidade. Uma visão serôdia da eternidade. Enquanto isso os ladrões arrombaram seu carro e fugiram com o seu notebook.

Modernismo

Mariana era uma radical. Contestava os pais, os professores e até mesmo os amigos a quem chamava de anacrônicos ou de neo-qualquer-coisa. Suas atitudes irreverentes e escandalosas lhe renderam mais desafetos que admiradores. E todas as noites chorava baixinho no travesseiro porque sonhava casar de branco, véu e grinalda.

domingo, 25 de maio de 2008

Dando bandeira

As imagens não são novas, mas acredito que desconhecida de muitos, é originária de uma campanha publicitária feita para a revista portuguesa Grande Reportagem pela FCB Portugal.

Alguns acham que é apenas uma mensagem de desesperança. Para mim, é uma oportunidade de reflexão.

Se as imagens estiverem pequenas, clique na bandeira para ampliar


Angola

Brasil

Burkina Faso

China

Colômbia

Estados Unidos


Somália


União Européia

sábado, 24 de maio de 2008

Encontros com o passado

Conforme vou ficando mais velho sou cada vez mais convidado para reuniões nostálgicas com antigos colegas do passado.

Já estive com meu pessoal de colegial, ajudei a organizar encontros da minha turma de primário e ginásio (onde, aliás, exercitei meu lado detetive e, da minha turma de 42 pessoas só não encontrei uma), do exército, da faculdade, do pessoal da igreja que freqüentei na mocidade. Além disso, de vez em quando, sou convidado para encontrar antigos colegas de trabalho de algumas empresas pelas quais passei.

De todos os grupos, o único que me dá prazer real de reencontrar (e, por isso mesmo, temos o hábito de nos encontrar a cada 3 ou 4 meses) é a turma da faculdade. Apesar de quase 25 anos de formados, ainda temos afinidades e papos que vão além das recordações. Nos demais grupos reencontrei pessoas interessantes com quem mantenho contato, são as que valem a pena, mas são poucas.

Todos os demais encontros seguiram um roteiro padrão. Com poucas variações, todas as reuniões são iguais. Os encontros são em pizzarias ou botecos. Os organizadores (que costumavam ser da turma dos mais conhecidos) chegam antes e vão saudando os colegas - e também relembrando quem é quem para os esquecidos.

A começar da aparência das pessoas que eu consegui resumir a 3 tipos : as pessoas que, impressionantemente, não mudaram nada, as que continuam iguais com 15,20 ou 30 anos a mais e as irreconhecíveis. A maioria se concentra no grupo de meninos e meninas envelhecidos, mas que mantiveram os traços - inclusive eu.

As frases de reencontro são um turbilhão de clichês. "Você continua o mesmo ! Parece que foi ontem ! Você dorme no formol ? Lembra quando você fez...?" Claro, sempre tem a tradicional : "você não lembra de mim ?" geralmente é dita pelos irreconhecíveis.

Claro que também existem as frases de bastidores. Não são ditas para a mesa toda ouvir mas, geralmente, só para o vizinho. Homens e mulheres tem repertórios diferentes nesse caso. As femininas incluem : "você viu a fulana ? aposto que ali tem, no mínimo, uns 300ml de silicone... onde será que o fulano arranjou aquela mulher ?" O lado masculino tem outro estilo : "onde foi parar aquela cabeleira, trocou por uma barriga nova ? a fulana está aí...com o marido! Brancos sim, mas pelo menos ainda tenho !"

Os assuntos comuns vão mudando de acordo com a distância em relação ao passado e a idade atual.

A primeira fase é a de relembrar as travessuras do passado, e de dar a entender que continua aprontando - uma forma de auto afirmação de eterna jventude - raramente crível. Na segunda fase o papo gira em torno dos filhos - incluindo as loas tradicionais à escola do nosso tempo que não era essa zona que é agora.

Eu ainda não cheguei nesse ponto (meus filhos são pequenos), mas minhas turmas já começam a entrar na fase 3, que é a de falar dos netos - ainda são nenês, mas já começar a pulular entre os temas. O papo também inclui a troca de receitas de medicamentos (geralmente para pressão ou colesterol) e a pergunta clássica é : "quantos miligramas ??"

A fase final terá início quando começarmos a falar dos colegas que morreram. Sei que vai chegar, mas ainda torço para que demore um pouco.

Minha turma de berçario da maternidade ainda não me encontrou, mas acho que é só uma questão de tempo.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Sem compromisso


Queria te aguardar
Guardar
Meta nunca alcançada
Cansada
Por isso, se reclamo
Clamo
Que isso é só pretexto
Texto
Num golpe desferido
ferido
Vã superioridade
Idade
Ou falta informação
ação.

quinta-feira, 22 de maio de 2008

Assassinando analogias



Fórmula : pegue uma analogia clássica, dessas que todo mundo usa ad nauseam (que quer dizer : até dar ânsia de vômito) e comece a usá-la com variações até que percam completamente o sentido.

Tema

Para quem só tem martelo, parafuso é prego

Variações

Para quem só tem frigideira, ovo cozido é omelete

Para quem só tem computador, tabuada é planilha

Para quem só tem tomate, só existe molho ao sugo

Para quem só tem violão, todo show é acústico

Para quem só tem colher, todo prato é sopa

Para quem só tem blog, todo texto é Creative Commons

quarta-feira, 21 de maio de 2008

Camarão desastrado

Eu gosto de comida chinesa. Ou melhor dizendo, da comida que os imigrantes chineses no Brasil fazem por aqui, tipicamente da região do Cantão, mesmo porque num pais com quase 2 bilhões de habitantes devem existir alguns milhares de cozinha típicas. O que chegou nessas plágas é apenas uma amostra grátis.

Os primeiros chineses chegaram ao Brasil na época de Dom João VI para plantar chá no jardim Botânico. Não deu certo e eles foram fritar pastéis. No começo do século 19 mais uma leva foi para Matão, ser explorada pelos fazendeiros que não sabiam tratar trabalhadores rurais de outra forma que não fosse como escravos. Também não foi adiante. Foi necessária uma revolução na China para trazer os dissidentes e fugitivos para o outro lado do mundo.

Embora haja registros de experiências rurais bem sucedidas, a imigração chinesa para o Brasil teve um caráter predominantemente urbano. A grande maioria dos que aqui se radicaram dedicou–se ao comércio, estabelecendo–se com pequenos bazares, bares, restaurantes, pastelarias e mesmo como profissionais liberais. Quase 70% dos imigrantes que vieram para o Brasil se fixaram na cidade de São Paulo.

Lembro-me, quando criança, de frequentar o restaurante Sino Brasileiro nas Perdizes. Invariavelmente para comer camarão empanado, frango xadrez com amendoim e pimentão e arroz misto. Muito devo à dona Betty e ao Sino Brasileiro. Seu encontro com a gastronomia, como quase tudo que acontece na vida dos imigrantes, foi casual. Ela era formada em Sociologia pela universidade de Xangai, e seu marido, economista, vieram para São Paulo representar uma empresa de fiação de Hong Kong, onde haviam se instalado ao deixar a terra natal na esteira da revolução maoísta. Primeiro abriram uma pensão na mesma rua, com o mesmo nome onde existia o restaurante.

Claro que, quando comecei a me meter na cozinha, um dos meus sonhos era reproduzir o camarão empanado do Sino Brasileiro. Minha irmã sabia fazer um bom frango xadrez e, imaginava que poderíamos servir um jantar chinês "completo", o que nunca aconteceu por culpa minha.

As primeiras tentativas foram ainda solteiro. A Internet não existia e eu nunca achei uma receita que parecesse confiável. O melhor que consegui foi uma versão de camarão a milanesa. Não era a mesma coisa. Quando consegui, finalmente, uma receita que parecia fidedigna ao que eu comia, ocorreu o primeiro desastre. Produzi um legítimo camarão empapado e intragável, nem muito Shoyu resolveu a situação.

Depois de um longo sabático camaronês, fiz outra tentativa quando estava em Peruíbe. No fundo, uma forma de auto-defesa, se não desse certo, ninguém iria perceber. E não deu mesmo.

Comprei camarões imensos, preparei a receita ao pé da letra, sem mudar uma grama de farinha, me dediquei uma tarde inteira ao prato. Tudo que consegui foi uma travessa de camarões emplastrados de massa, com uma cara de que tinha sido atropelados por uma manada de mamutes furiosos. A única forma de comê-los era raspando o excesso de massa.

Já me fizeram várias recomendações para corrigir minhas falhas. Por enquanto me limito a ir no Hi Pi Shan e aproveitar que ainda existam bons restaurantes chineses em São Paulo.

terça-feira, 20 de maio de 2008

De Adiron para Adiron desde 1890

Me lembro que quando estava no 2o ou 3o colegial fiz um trabalho sobre o movimento dadaísta e me encantei com a sua total insanidade. Tzara e Duchamp continuam sendo modelos para esse blog.

Na lição de hoje do Samuel (4o ano, que significa a nossa antiga 3a série) , ele precisava escrever um poema dadaísta (mon Dieu de la France...o que ele não vai ter de fazer com 20 anos ?!?), tomando como referência um poema de Kassak

"Die Schlacht (A Batalha)*

"Berr... bum, bumbum, bum...
Ssi... bum, papapa bum, bumm
Zazzau... Dum, bum, bumbumbum
Prä, prä, prä... râ, äh-äh, aa...
Haho!...

(Ludwig Kassak)

Resolvi publicar aqui a primeira insanidade do meu filho :

A chuva

Ho ho ho ho ho ho ho ho ho
cabrum...cabrum...
tr..tr..brum...
ti...ti...ti...ti...ti...
ti...ti...ti...ti...ti...

(Samuel Adiron)

Segue a seguinte legenda que ele mesmo colocou :

Ho ho - vento
Cabrum - trovão
tr...tr.. chuva fraca
ti...ti... pingos de chuva

*Recomendação importante, o texto de Kassak deve ser lido em alemão

segunda-feira, 19 de maio de 2008

Facilitando a sua vida

Você é daqueles que gosta de temas específicos ? Então o Mens Insana vai facilitar a sua vida.

Depois de um trabalho insano de rever 273 posts, eu coloquei tags (marcadores) em todos.

Ou seja se você quiser ler somente os posts sobre sexo, não vai achar pois não usei esse marcador que é muito comum. Se quiser sexo, use o Google.

Mas pode ler todos os textos com os marcadores insanidades, língua portuguesa, traição ou vingança

Você encontra cerca de 3 dezenas de marcadores à sua direita na página do blog, sob o título Insanidades Temáticas.
Divirta-se

Por uma revolução ortográfica

O problema de reformas é que elas nunca são radicais.

Eu sou contra as reformas, defendo as revoluções, se é para mudar, deixemos de eufemismos. Mesmo a reforma cristá do século XVI, que eu defendo, acabou sendo uma revolução e não apenas uma arrumação de casa.

A mais recente reforma em curso é a da ortografia da Língua Portuguesa. Não é a primeira, não será a última - e nenhuma resolveu os problemas da língua que vão muito além da ortografia.

Por isso, proponho que juntemos fileiras e lutemos pela revolução da Língua Portuguesa. Às armas, cidadãos...

Não seria simples ? Se tem som de Z, é Z, por ezemplo.

Aboliríamos todas as grafias que tem som de S e não são S, como ss, sc, c e ç

Idem ibidem com tudo que tenha som de X e não seja Xis, bebendo xávenas de xá.

Mesma coisa com o L quando tem som de U, seria maiz saudáveu.

Acabaria o uso de M antes de P e B (porque só essas duas letras tem esse privilégio ?)

Eliminaria totalmente o uso do H : depois do L colocaríamos o I, no caso dos sons nasais, depois do N, já temos o recurso do til, basta adotar a solução española

Só manteria o trema em homenagem à Cristiane, uma ex-tremista de primeira hora.

Vamos a um exemplo clássico usando as "Memórias Póstumas de Braz Cubas" de Machado de Assis, cujos primeiros parágrafos são os seguintes

Algum tempo hesitei se devia abrir estas memórias pelo princípio ou pelo fim, isto é, se poria em primeiro lugar o meu nascimento ou a minha morte. Suposto o uso vulgar seja começar pelo nascimento, duas considerações me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berço; a segunda é que o escrito ficaria assim mais galante e mais novo. Moisés, que também contou a sua morte, não a pôs no intróito, mas no cabo: diferença radical entre este livro e o Pentateuco.

Dito isto, expirei às duas horas da tarde de uma sexta-feira do mês de agosto de 1869, na minha bela chácara de Catumbi. Tinha uns sessenta e quatro anos, rijos e prósperos, era solteiro, possuía cerca de trezentos contos e fui acompanhado ao cemitério por onze amigos. Onze amigos! Verdade é que não houve cartas nem anúncios. Acresce que chovia - peneirava uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou um daqueles fiéis da última hora a intercalar esta engenhosa idéia no discurso que proferi. à beira de minha cova: "Vós, que o conhecestes, meus senhores vós podeis dizer comigo que a natureza parece estar chorando a perda irreparável de um dos mais belos caracteres que têm honrado a humanidade. Este ar sombrio, estas gotas do céu, aquelas nuvens escuras que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo isso é a dor crua e má que lhe rói à natureza as mais íntimas entranhas; tudo isso é um sublime louvor ao nosso ilustre finado."

Versão na Revolução Ortográfica Insana

Memóriaz póztumaz de Braz Cubaz de Maxado de Asiz

Augum tenpo esitei se devia abrir eztaz memóriaz pelo princípio ou pelo fim, izto é, se poria em primeiro lugar o meu nasimento ou a miña morte. Supozto o uzo vugar seja comesar pelo nasimento, duaz considerasõez me levaram a adotar diferente método: a primeira é que eu não sou propriamente um autor defunto mas um defunto autor, para quem a campa foi outro berso; a segunda é que o ezcrito ficaria asim mais galante e maiz novo. Moizéz, que também contou a sua morte, não a pôz no intróito, mas no cabo: diferensa radicau entre ezte livro e o Pentateuco.

Dito izto, ezpirei às duaz oraz da tarde de uma sezta-feira do mêz de agozto de 1869, na miña bela xácara de Catunbi. Tinha unz sesenta e quatro anoz, rijoz e prózperoz, era solteiro, posuía serca de trezentoz contoz e fui aconpañado ao semitério por onze amigoz. Onze amigoz! Verdade é que não ouve cartaz nem anúnsioz. Acrese que xovia - peneirava uma xuviña miúda, trizte e conztante, tão conztante e tão trizte, que levou um daqueles fiéiz da útima ora a intercalar esta engeñosa idéia no dizcurso que proferi. à beira de minia cova: "Vóz, que o coñeseztez, meuz señores vóz podeiz dizer comigo que a natureza parese eztar xorando a perda irreparáveu de um doz maiz beloz caraterez que têm onrado a umanidade. Ezte ar sonbrio, eztaz gotaz do séu, aquelaz nuvenz ezcuraz que cobrem o azul como um crepe funéreo, tudo iso é a dor crua e má que lie rói à natureza az maiz íntimaz entrañas; tudo iso é um sublime louvor ao noso ilustre finado."

Não concordam comigo ? Nós sofreríamos um pouco no começo, mas as gerações futuras, que estão sendo alfabetizadas agora, nos agradeceriam.

E, se é para detonar com a língua, que o façam bem feito !

domingo, 18 de maio de 2008

A música terminou


Quem me conhece um pouco mais sabe que a melhor forma de me entender é seguindo o meu gosto musical. Eclético para alguns, confuso para outros, insano para quase todos. Isso se manifestava nas minhas publicações dominicais de músicas.

Infelizmente, a partir de hoje, não teremos mais músicas aos domingos. Por alguma razão que eu não descobri, os links do You Tube não funcionam mais depois de um certo tempo, o que deixou todos meus posts musicais em branco.

Em respeito aos amigos e visitantes que deixaram seus comentários, não vou apagá-los mas, a partir de hoje, domingo deixa de ser o dia da música e passa a ser o dia da imagem da semana (poderá ser um cartoon, uma foto engraçada, uma piada).

Quem quiser me conhecer melhor, vai ter a árdua tarefa de decodificar minha criptografia insana.

E, já que essa é a mensagem da transição, fica um cartoon sobre música.

sábado, 17 de maio de 2008

Alguma coisa cheira mal

Eu já estive envolvido na estruturação de muitos bancos de dados para marketing. É um processo de aculturação difícil pois envolve todas as pessoas dentro da empresa e o marketeiro precisa ser um ator de múltiplas falas para negociar com as área de tecnologia, de vendas, financeira e especialmente a alta diretoria da empresa, sem o comprometimento da qual nada anda.

Mas as dificuldades que sempre me incomodaram mais sempre foram aquelas criadas pelo próprio pessoal de marketing. Não sei se por encantamento com as possibilidades da ferramenta ele acabam querendo incluir tudo dentro do database. O resultado é sempre o mesmo : boa parte dos campos acabam sem preenchimento ou inconsistentes e, mesmo dentre aqueles que tem alguma qualidade, poucos são utilizáveis para alguma campanha específica.

Uma vez estava olhando a estrutura de dados de uma empresa quando cheguei ao campo "profissão". Na prática eu já descobri que, a menos que você venda produtos profissionais, essa informação não tem relevância nenhuma na decisão de compra. Além disso as pessoas não sabem qual é a sua profissão, confundem com sua formação e especialmente com o título do seu cargo do momento, deixando os dados ainda mais inúteis.

Pedi uma listagem do preenchimento do campo - os tempos ainda não eram de um computador per capita. A pessoa que trabalhava na empresa me pediu dois dias para entregar. Quando recebi era um calhamaço de papel interminável. O campo era de preenchimento livre, portanto apareceu de tudo. Pior, cada vez que alguém digitava de um modo diferente (caixa alta e caixa baixa, por exemplo) a informação era considerada diversa.

No meio deles tinha um minhocultor. Isso mesmo, um criador de minhocas. Nada contra a atividade que, ao que me consta é muito útil e bastante rentável, mas para tentar convencer o pessoal de marketing sobre os meus argumentos eu perguntei : exatamente que campanha vocês pretendem fazer para esse cara ?

Silêncio. Um olhava para o outro sem saber o que responder. Até que um estagiário cheio de boas intenções se arriscou : "a gente pode tentar vender perfume...esse negócio de cavoucar cocô de minhoca o dia todo deve feder !"

Pano rápido.

sexta-feira, 16 de maio de 2008

Contículo coletivo

O uivo da alcatéia soou conclamando a fauna para o conclave do arquipélago.

Os primeiros a surgir foram a cáfila, a capela cheia de pencas, que vinham em comboio.

Das campinas surgiam a piara e o plantel com seu repertório de relinchos, a récua, o rebanho e o fato, como se numa caravana.

Do mar veio uma esquadra composta pelo cardume e a cambada, estes uma súcia formando elenco da areia.

A malta formada pela matilha em quadrilha sugeria que o cabido seria uma choldra.

Uma nuvem e uma revoada anunciaram a chegada da esquadrilha, ainda composta do bando saído do viveiro, míria e panapaná portando o ramalhete e o enxame com seu tradicional cancioneiro.

A colônia tal qual uma legião, levando a talha às costas, logo se aproximou da falange composta pela manada, pela tropa, pela junta e o sarmento.

O congresso teve início com a apresentação da banda que animava o consistório. Sob o feixe a banca julgava a matula que agira como uma horda atacando a chusma.

Depois de desfiar o romanceiro a corja alegou inocência ante o magote.

A refeição composta de cacho, molho e réstia serviu toda a roda. E a turma partiu na frota.

Sob a constelação, chegaram atrasados à assembléia a vara e a ninhada, nem ouviram o coro da congregação do concílio

quinta-feira, 15 de maio de 2008

O meu parecer

Segundo o princípio de direito intertemporal tempus regit actum, que norteia a aplicação das regras processuais, impõe-se a competência ratione materiae da Justiça.

O agravante interpôs o presente recurso perante Vossas Excelências, Doutos Desembargadores Julgadores e requer-se a Vossa Excelência, Eminente e Emérito Desembargador Relator,diante dessa situação de alto risco, de se encontrar, de repente, por tardio assomo promovente súbito de um procurador, sujeita a uma incongruente e ineficaz citação de um cogitado crédito já prescrito.

Conspícuos, concordarão os senhores, que a jurisprudência , sobejamenente qualificada via seus paracletos identificados. A saber : o demandado não foi intimado a demonstrar a lisura do vergastado exame, logo a contestação mostra-se inane e, em nenhum átimo do texto da própria proemial, pode a lei civil nédia concernente ao assunto em testilha, por não constar as decisões proferidas monocraticamente em cognição exauriente.

Ad finiendum, considerando que e ad argumentandum tantum.. que as adentrarmos na res in juditio deducta, o contestante nada trouxe de espeque para inviabilizar e, considerando a exceptio plurium concubentinum aventada reitera o teor dos demais pleitos escritos na peça proemial por seus paladinos firmados ut infra e requestra que V. Exa. se digne redistribuir.

Caso superada a preliminar acima arguida, o que se admite, apenas ad argumentum, passa agora a agravada a tratar do meritum causae da presente demanda, uma vez que aos ônus legalmente previstos no Codex Processual Civil foram negados provimento ao recurso de Agravo e considerando o empirismo da Turma para ser proclamada a soberana Justiça. Outrossim, adimplida a dívida, revogar-se-á o decreto ergastulário.

Pelo exposto por tudo que dos autos consta, do livre convencimento motivado que formo e primus ictus oculi , com fulcro no art e, em virtude da hipossuficiência técnica dos autores, tudo segundo as regras ordinárias de experiência .Vistos etc. Omissis... In casu o termo a quo é o da data em cárula chéquica e ergásulo público.

Diante da situação não podemos deixar de invocar fumus bonis iuris e o periculum in mora verificados, respectivamente, ante o inconcusso prejuízo à população do movimento paredista, e a impossibilidade de reparação de tais danos, após a natural delenga tramitatória de processo. Seja pela peça Incoativa, seja pela peça Increpatória.

Nessa Ação Ordinária de Cobrança com Pedido de Tutela Antecipada Inaudita Autera Pars In Limine Litis, para tanto passo a tracejar meus argumentos.

O indigitado possível genitor, átimo no qual este requestrado se insurgiu por razões finais foram ofertadas via outra paracleta do ajuizado sem oportunizar ao requerido impugnação de documentos adubados. O sédulo Representante Ministerial, como só a perleúda Câmara Cível Isolada, através de vários dispositivos legais cogentes e coevos perpretou o inditoso acórdão.

Na nossa Carta Política Democrática, a a exegese do preceptivo deve ser vislumbrado e, ao perscrutarmos percucientemente o feito, em nenhum santiâmem foi sanado durante a defluência do mesmo.De exórdio, vale consignar, como revelam declarações ora dunadas e como denotam declarações ora coalescidasem face dessa copia verborum e não sem considerar a exceptio plurium concubentium, leva-nos a compreender nediamente que a legalidade do processo trânsito em julgado se mostra onusto de nulidade.

Dada guarida ao iudicium rescindens, dar provimento ao feito para, ipso facto, anular o processo in limine, voltando tudo ao status quo ante o nascimento do iudicium rescissorium.Demonstrar-se-á, a seguir, o desacerto do r. ato judicial, em que pesem os predicados da ilustre Desembargadora, motivo bastante para arredar a sua conclusão, ainda que nesta fase de cognição sumária, mas suficiente para proteger o direito que restou violado, sobejamente identificado nos autos do processo acima enumerado, intermediado por seu paladino assinado ut infra, vem à presença de Vossa Excelência, a esta conspícua Relatora e aproveitar a deixa para requestar.

Certifico. Para os devidos fins de direito, que o advogado ao norte foi intimado, nos autos, em audiência, da decisão, transcrita ao sul.

Assevero na exordial, com espeque nesse sustentáculo e condeno, como condenado tenho. Diante do exposto e mais do que dos autos contam, resolvo, como resolvido tenho, julgar improcedente a qualificada na exordial.
Isto posto, pelo expendido ao norte, com guarida nos dispositivos legais supra e pelo exposto , por tudo que nos autos consta , por não vislumbrar PRIMUS ICTUS OCULI o direito pleiteado e do livre conhecimento motivado que formo, indefiro a liminar.

quarta-feira, 14 de maio de 2008

Memórias poéticas


Rachel,Raquel

Um dia Rachel amei
Mas soube não ser Rachel
Que eu amava - era Raquel
Engano tolo, pensei.

Não deixei de amar porém
Inda não sendo verdade
Uma, a realidade
Outra eu amava também.

Tempo, sábio e experiente
Solução inteligente
Amando Rachel, Raquel

Como fogo no papel
Pouco importa o seu nome
Apenas brasa consome.

terça-feira, 13 de maio de 2008

O amante da Dagmar

Dagmar é uma amiga minha. Divertida, despachada e desbocada. Ao mesmo tempo séria, compenetrada e culta. Dentre muitas das suas qualidades, ela torce pelo mesmo time que eu, o que tem se tornado cada vez mais raro com o passar do anos.

Ela é um pouco mais velha que eu e casada há bem mais tempo que eu e, outro dia, veio me contar uma história a respeito do seu casamento que eu não sabia.

Quando casou Dagmar tinha entre os seus planos de vida arrumar um amante. Não que estivesse casando contrariada, pelo contrário, casou feliz. Mas sempre foi uma devoradora de livros e achava que ter um amante completaria seu ideal literário. Não sabia se queria ser Lady Chatterley, Capitu ou Emma Bovary, mas como uma pessoa que planeja meticulosamente sua vida já tinha tudo organizado, exceto encontrar o amante.

Por isso mesmo, quando mobiliou sua casa comprou um armário que tivesse uma repartição que fosse grande o suficiente para o amante se esconder. Daqueles armários antigos, mais de dois metros de altura por um de profundidade. A porta do amante tinha também quase um metro de largura. Como ela é uma pessoa bem alta se preveniu para um homem de porte compatível com o dela.

Com o passar do tempo, Dagmar continuou feliz no casamento e, tirando o planejamento, nunca teve motivos para se amasiar. Mas ela continuou comprando e lendo livros. Na falta do "outro" e precisando de espaço começou a guardar os livros no pedaço do armário que deveria ser o esconderijo.

Não que tivesse mudado de idéia. Ela é um mulher persistente. Só que passou a mudar suas expectativas. O possível amante foi diminuindo de tamanho. Depois de um par anos ele só poderia ter 1,80m, mais algum tempo e sua altura máxima não poderia passar de 1,60m. Começou a colocar os livros nas laterais o que a obrigaria a achar um sujeito bem magrinho.

Os livros continuaram se acumulando e ela chegou num ponto que só se ela apelasse para a pedofilia, que não era o caso. Depois de mais de 30 anos de casada, o espaço do amante estava totalmente tomado por livros. Amantes que a transportaram para espaços além da imaginação, provocaram, seduziram, compartilharam aventuras, romance e poesia. Centenas de amantes que a completaram muito mais do que qualquer outro poderia fazer.

Com a vantagem que nenhum deles nunca precisou pular pela janela do apartamento.

segunda-feira, 12 de maio de 2008

Vinhos com sobrenome

Um sobrenome muitas vezes pode dizer muita coisa a respeito de determinadas pessoas mas, se ele estiver sozinho pode não dizer nada, ainda mais se for um sobrenome extremamente comum de um determinado país. No Brasil, Silva é o sobrenome de maior freqüência em qualquer lista telefônica , mas um Silva é completamente diferente de outro. Um pode ser Tércio Lins e Silva, grande jurista e defensor da democracia, ou Arthur da Costa e Silva, grande ditador – um mesmo sobrenome com qualidades bem diferentes.

Muitas regiões vinícolas desde a Grécia antiga adotaram sistemas de dar sobrenomes aos seus vinhos. Como sistema surgiu na era moderna como uma forma de proteger o produtor e o consumidor de falsificações a partir de uma campanha do Barão Le Roy, dono do Château Fortia na região do Châteauneuf-du-Pape, daí o sistema se espalhou por toda França e depois para outros países. Mais do que isso, resolveram determinar padrões mínimos de consistência na produção e, só os produtores e engarrafadores que seguem esses padrões tem o direito de utilizar esse sobrenome.

Esse sistema, chamado de denominação controlada, define que um determinado vinho foi produzido em (ou, no mínimo com uvas originárias de) uma região geográfica delimitada; que seguiu determinadas proporções na mistura de uvas – quando se trata de um vinho cortado - e que foi produzido seguindo métodos industriais comuns (tempo de fermentação, armazenamento dos sucos, tempo de envelhecimento em barris antes de ser engarrafado).

Esses sobrenomes você encontra com freqüência em garrafas de diversas procedências. Da França vem os “appelation contrôllée” - são mais de 400 denominações. Da Itália (mais de 200) e Portugal os DOC – denominação de origem controlada (e em alguns casos da Itália além de controlada, também garantida - DOCG, onde o garantida significa que a uva foi plantada na área original da denominação). Na Espanha são os DO, em alguns locais dos Estados Unidos, AVA. Hungria e Bulgária tem sistemas similares. Além disso, quanto mais restrita geograficamente for a denominação do vinho, maior o rigor no controle do produto final e, na maioria das vezes, melhor o vinho. Observemos o caso da França para entender melhor isso :

Um vinho “appelation Bordeaux contrôllée” significa que o vinho pode ter sido produzido com uvas originárias de qualquer lugar do Bordeaux com regras menos ortodoxas quanto ao corte – é o vinho genérico da região. Mas dentro do Bordeaux existem sub regiões , Médoc, Graves, Lalande-Pomerol, etc. Portanto um “appelation Médoc contrôllée” já indica uma restrição quanto ao uso das uvas – que só podem ser originárias da sub-região que já costuma ter regras mais rígidas, até por que o controle é mais próximo. Mas o Médoc está dividido em Médoc e Haut-Médoc....e o Haut-Médoc, como as outras sub-sub-regiões está dividido em comunas como Pauillac, Saint-Estéphe, Saint-Julien....

O famosíssimo Château Mouton-Rothschild é um vinho produzido na comuna de Pauillac, portanto poderia usar as denominações de Pauillac, Haut-Médoc, Médoc e Bordeaux. Logicamente usa a denominação da comuna, que é mais específica e, portanto, tem mais prestígio. Seria o equivalente a dizer – se tivéssemos o mesmo sistema no Brasil – que o vinho Dal Pizzol, produzido na comuna de Monte Lemos, que é um distrito de Bento Gonçalves , que é uma cidade da Serra Gaúcha, que fica no Rio Grande do Sul, pudesse usar essas quatro denominações, optando pela que define melhor a sua procedência.

Isso não significa que todo vinho de denominação garantida é bom mas, se você tiver que escolher entre dois vinhos desconhecidos prefira sempre o que tem sobrenome. Entre dois vinhos de origem controlada, escolha preferencialmente o que usar a denominação mais restrita. O risco de errar não chega a zero mas diminui bastante.

domingo, 11 de maio de 2008

sábado, 10 de maio de 2008

Contículo polissindético (pequeno poema em prosa)


O amor que a exalta e a pede e a chama e a implora.*

E sob as ondas espumantes, e sob as nuvens e os ventos, e sob as pontes e sob a ironia, e sob a ilusão do sentido nos deitamos.

Depois de chegarmos de viagem, e depois de tomarmos banho, e depois de dançarmos ao som da vitrola.

Que tocava os Penguins, e os Moonglows, e os Orioles e os Five Satins como na canção do cachorro de René e Georgette Magritte.

Por que antes nos beijamos, antes nos abraçamos, antes nos amamos, antes nos perdemos nos jardins delirantes do labirinto.

Nós que, antes nunca tivemos a glória, nunca tivemos o dinheiro, nunca tivemos o poder e nunca tivemos o perdão.

Acreditávamos na poesia, nas canções, na filosofia e não acreditavámos um no outro.

Sem crer partimos pelos mares, pelos desertos, pelas campinas, por dentro de nós.

No aconchego do claustro, na paciência e no sossego.Trabalhe, e teima, e lima, e sofre, e sua!**


Polissíndeto é o emprego repetivo da conjunção entre as orações de um periodo ou entre os termos de oração.

*Machado de Assis
**Olavo Bilac

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Nossa (???) língua portuguesa

De repente eu ouvi um grito : - Um, dó, lá, sí, já!!

Nem tive tempo de pensar e a bola pocou do meu lado, como se fosse uma chapoletada

Senti uma gastura e fugi como taruíra. .

Para me acalmar entrei no bar e pedi um vinho de jabuticaba e um pão de sal. O balconista puxou conversa :

- Qual é ?" Foram uszômi ?

- Deixa eu falar, acho que isso foi coisa da turma do Nacional

- Você é do Darwin ?

- É ruim, hein ?!

- Iá.

- Coisa mais palha

- Achei que iam te catar e dar um tilt

- Eu poquei fora, agora deixa eu pegar um ponga

- Vai lá que tá chegando o buzú.

Se você não viu, depois leia as versões anteriores, os links estão em

quinta-feira, 8 de maio de 2008

(Des)Aforismos inconsequentes


Dia do trabalho é um dos melhores oxímoros que eu conheço.

Mala direta mal direcionada, além de desperdício de dinheiro é uma prática anti-ecológica.

Muitos dos que gritam por mudanças são os primeiros a defender o status quo quando alcançam a almejada sinecura.

Ignorância tem cura. Arrogância não.

A omissão fala mais alto que a porfia.

Não há sinapse que resista ao sono.

Se o amanhã de ontem é hoje, o que é o hoje de amanhã ?

quarta-feira, 7 de maio de 2008

Satisfação de Cremilda Curupira

Eu sei que hoje não é dia de música mas, quando uma das minhas fiéis comentaristas sobe ao palco, eu sou obrigado a quebrar o protocolo.

Com vocês Cremilda em busca de satisfação :


Restauração de antiguidades


Um dos meus roteiros mais usuais por São Paulo é passar por Pinheiros, especialmente num trecho da Rua Cardeal Arcoverde repleto de lojas de antiguidades e, consequentemente, vários ateliês de restauração de móveis. Como é uma rua movimentada e o trânsito da cidade é um caos, fico parado tempo suficiente para imaginar insanidades.

Numa dessas vezes fiquei pensando o que aconteceria se as pessoas passassem a usar técnicas de restauração em si próprias, algo como uma inovação dos tratamentos plásticos. Seria bastante útil para todos que tenham cara-de-pau :

Pátina-provence : acabamento de aparência delicada, lembrando um suave envelhecimento (desgaste), sem relevo e de fácil aplicação. Pode ser feito em casa mesmo e é especialmente indicado para aquelas pessoas que acreditam em envelhecer com classe. Claro que a técnica pode variar de acordo com a pele de cada um. Especialmente recomendado para pessoas com faces de tons pastéis que tenham alergia a betume. Permite a mescla de cores mas, a menos que a pessoa esteja indo a uma festa à fantasia não é muito recomendado. Permite que humanos velhos ou com acabamentos fora de moda ganhem uma aparência nova e com tonalidades claras seguindo a tendência de mercado.

Pátina Satiné (também conhecida como pátina lavada) : satiné é uma pátina de fácil aplicação, mas que exige cuidados para que não fiquem manchas ou excesso de tintas, assim como certos tipos de maquiagem. Não é para qualquer um pois, apesar de realçar a beleza, ressalta o desenho de seus veios e poros. É preferível em peles claras e que tenham desenhos nos veios e poros abertos. Já na pele avermelhada não é muito indicada, pois a tonalidade obtida com a pátina é meio avioletada de difícil combinação outras cores. Os restauradores que usam essa técnica preferem trabalhar com matérias primas virgens, sem acabamentos anteriores, pois a técnica necessita dos poros abertos e uma vez com depósitos de base ou botox não é possível a aplicação, a menos que se faça a limpeza total da peça.

Pátina com fundo : o objetivo desse acabamento, também conhecida como pátina cheia é esconder a aparência original. Essa técnica permite corrigir pequenas imperfeições existentes, como buracos, arranhões, deixando a peça com uma aparência lisa e uniforme e com aspecto de rosto novo - concorre diretamente com a cirurgia plástica.

Decapê : técnica usada para envelhecer peças. O visual é semelhante ao da pátina com fundo, porém o decapê, possui os “risquinhos” em alto relevo, assim como na pátina essa técnica também esconde o material original. Tem tido alta demanda de adolescentes que querem aparentar mais idade do que tem.

Laqueação : não confundir com laqueadura que é outra coisa. A laqueação é uma técnica de restauração de gente onde se pode escolher mais de 1200 cores em catálogo, sendo que podem ser brilhantes, acetinadas e até foscas, trabalha-se com cores personalizadas e amostras de clientes. È a mais inclusiva das técnicas, mas também a mais complexa e cara. O laqueado não é apenas uma pintura normal . Antes de ser aplicado existe todo um processo de acabamento anterior (aplicação de massa, fundo de tinta, lixamento completo) a fim de deixar a pessoa sem nenhuma imperfeição (buracos,riscos profundos). Seu acabamento é liso, sem falhas, sem manchas e por igual. A aplicação é difícil de descascar pois as tintas não são a base de água.

Estonado e Satiné : restauração bastante rústica, o aspecto lembra o desgaste do tempo, arranhado nos cantos e bordas como se o tempo o tivesse desgastado. Geralmente em branco e com o efeito da cor de fundo da pele existente. Perfeita para pessoas que querem aparentar serem maus, especialmente capatazes, chefes de repartição e professores bravos.

Texturização e marmorização : é uma técnica utilizada em pernas e braços podendo ser misturados vários tipos de desenhos,motivos com envelhecimento, com gel ou tintas (sem relevo) e aplicação de estêncil. Cada corpo necessita de um estudo anterior para verificar qual técnica se adapta melhor ao caso. A marmorização hoje é mais utilizada em pernas, braços e nádegas pequenos onde assim pode-se passar a sensação de ambiente aconchegante. Pode-se imitar qualquer cor existente ou criar algumas com tonalidades variadas

Tromp l’oeil : trata-se de uma técnica de pintura que reproduz o aspecto de materiais nobres ou até objetos, flores, que realmente parecem verdadeiros. Original da França, esta técnica abusa de efeitos de luz e sombra para conferir aspecto de realidade aos desenhos reproduzidos. Já era muito utilizada pelos gregos e romanos. Na Renascença, noções de perpectiva adicionaram ainda maior credibilidade às reproduções. Dentre os materiais mais reproduzidos, estão o os brincos e anéis de diamante, penteados exóticos, o granito, o bronze, ônix, cortiça e couro. Muito usada por punks e góticos.

Stêncil : Com essa técnica, é possível reproduzir desenhos diversos, utilizando-se máscaras vazadas, é muito usada em festas infantis em buffets. Esses moldes, que podem ser feitos em papel-cartão plastificado ou em acetato, são fixados na superfície para receber a tinta, que pode ser aplicada com pincéis, esponjas ou sprays. Esta técnica é muito utilizada para reproduzir flores em ombros, pernas, calcanhares, sem a necessidade do sofrimento e das agulhas de tatuagens e, ao mesmo tempo são mais duradouras que as tatuagens de hena.


Découpage : esta técnica, mais ousada, deve ser usada só por tribos mais radicais, consiste em colar imagens, figuras e desenhos ( extraídos de livros, revistas, ou do Google images)em superfícies e depois pintá-la com tintas e vernizes. O efeito é surpreendente e não tem limites, basta usar a sua imaginação. Dê preferência para as imagens que possuam pouco relevo pois caso contrário, aparecerão as marcas dos papéis e imagens que utilizou.


Eu ainda estou avaliando qual delas se aplica melhor em mim. Aceito sugestões.

terça-feira, 6 de maio de 2008

O pão que o insano amassou

Minha avó materna, a Maricota, era uma excelente cozinheira. Aprendi várias coisas com ela, as que cheguei mais perto foram o seu capeletti (sim, quando baixa a inspiração eu faço massa de macarrão) e o molho ao sugo. Nunca aprendi fazer os seus doces, mesmo porque não sou um consumidor ávido de açúcar e admito meu egoísmo em me dedicar mais às coisas que eu gosto de comer.

Uma das suas especialidades era fazer pão caseiro. Foram raras as vezes que eu cheguei na sua casa e não tinha um filão de pão na cozinha. Casca dura o suficiente para ficar crocante e miolo macio. Quando dava a sorte de pegar o pão saindo do forno era uma festa. Dava para comer puro que já era ótimo, com uma boa talagada de manteiga (claro, a manteiga era a Aviação de latinha) era de se comer de joelhos em reverência ao mesmo.

Mas o que ela gostava mesmo era quando eu aparecia durante a preparação do pão. Ela entrava com toda sua experiência em fazer pão e eu entrava com o braço para sovar a massa. No fim da história o que aconteceu é eu fiquei com o bíceps mais desenvolvido e nunca aprendi a fazer pão. O problema é que eu sou um consumidor voraz de pão. Desde pequeno minha mãe me recomendava que eu casasse com a filha do padeiro, para não dar muito prejuízo. Casei com uma analista de sistemas. Bits e bytes não tem o mesmo gosto.

Pior, minha tentativas de fazer pão sempre foram desastrosas. Faço um excelente pão de queijo, como manda meus 50% de sangue mineiro, mas o pão básico nunca acertei. Já deixei a casca dura e o miolo cru. Consegui fazer com que uma fornada saiu dura diretamente da forma, nem como torrada servia. Já usei receitas clássicas e alternativas. Nada deu certo.

Nesse fim de semana ataquei de novo de padeiro. Tomei cuidado de comprar bons ingredientes, incluindo a banha de porco que minha avó usava e fui à luta junto com as crianças.





Primeiro misturei dois tabletes de fermento biológico com uma colher de sopa açúcar. Dissolvida a mistura, acrescentei as duas colheres de sopa de banha e a colher de sal. Continuei mexendo a mistura. Aos poucos acrescentei o copo e meio de água morna até chegar a uma pasta quase líquida e homogênea. Comecei a colocar a farinha e misturar, até completar todo o kilo do pacote. E dá-lhe braço para amassar. Depois de uma sessão de sova coloquei a massa para descansar.

Uma hora depois tinha crescido bastante, conforme o dito bíblico, um pouco de fermento leveda toda massa. Mais uma sessão de amassa e sova. Novo descanso e vamos ao forno. Cortei um pedaço da massa para o Samuel (que fez um pãozinho) e outro para a Letícia (que resolveu fazer um cubo que se transformou em algo indescritível depois de assado), com o resto formatei o meu filão.

O resultado foi razoável. Bem melhor que meus desastres anteriores, mas ainda longe do pão da Maricota. Pelo menos me animou a continuar tentando. Afinal, como diria Sêneca : "Panem et aquam natura desiderat".


segunda-feira, 5 de maio de 2008

Traindo a pedidos

Há alguns dias publiquei um texto no Calvinistas me referindo a uma canção do Leon Gieco (Solo le pido a Dios), uma espécie de Bob Dylan dos pampas.

O Volney me pediu uma tradução/traição, prática constante dessas páginas insanas (se quiser saber mais sobre outras puladas de cerca basta clicar aqui)

Como boa traição, não está "by the foot of the letter", mas acho que consegui manter o sentido da mensagem.

Tudo que peço a Deus
é que a dor não me seja indiferente
que a árida morte não me encontre
vazio e só sem ter feito o suficiente

Tudo que peço a Deus
é que o injusto não me seja indiferente
que não me agrida a outra face
quando a garra já me arranhou o destino

Tudo que peço a Deus
é que a guerra não me seja indiferente
é um monstro grande e pisa forte
toda a pobre inocência dessa gente

Tudo que peço a Deus
é que o engano não seja indifierente
se um traidor pode mais que alguns tantos
que esses tantos não esqueçam facilmente

Tudo que peço a Deus
é que o futuro não me seja indiferente
desalojado está quem é forçado
a viver numa cultura diferente

A letra original está no texto mencionado acima

domingo, 4 de maio de 2008

Nunca mais vou sorrir




A Voz junto com o melhor grupo vocal de todos os tempos.

Impossível não sorrir de prazer

sábado, 3 de maio de 2008

A inescrutável antologia de Abril

Os melhores comentários dos meus leitores apresentados totalmente fora de contexto...

Exatamente para cada leitor criar a sua própria interpretação insana.

Aí vão eles, divirtam-se :


Esses comunistas tem cada uma né?

Assim como não se deve irritar o porco não se deve irritar meu marido

...porque os garçons sempre dão a prova para os homens?

Acho que não vou conseguir dormir...

...prometo solenemente tentar traduzir suas insanidades...

tiveram que colocar a ração em uma bandeja que vibra e faz a ração pular

E pensar que tem gente que escreve essas coisas...

...se você passasse as madrugadas arrancando os cabelos brancos!

Já verificou se está na andropausa?

5 graus a menos e as coisas poderiam ser totalmente diferentes.

Ela é muito estranha. Belamente estranha. Como nossa estranha vida.

Entendi bolhufas... aff!

Preciso de 01 cibalena e 10 copos d'água...

Eu quero um Andrômaco....

...sobe aqui de escanteio, entra à esquerda, e pergunta de novo.

é que não tinha mais vaga na faixa amarela,então fui obrigada a por no estacionamento...

Você já participou de uma conversação entre falantes árabes?

A imagem é de Rejane Martins e ilustra a mistura heterodoxa dos comentários

sexta-feira, 2 de maio de 2008

Hai kais de amores florais

Depois da flor devassa de ontem, volto com novas flores em forma de hai-kais, formato em que já fiz umas experiências com um tema proposto, depois uma segunda tentativa aleatória e, finalmente com temas praianos.

Margarida diz
emoção primaveril
desabrochei só.

Hortência mostrou
Campos, mares, florestas
ardente verão.

Amarílis foi
delicadeza demais
outono febril.

Dália não me quis
profunda desilusão
inverno d´alma.

Rosa rosas dei
escândalo e amizade
nenhuma estação.


quinta-feira, 1 de maio de 2008