segunda-feira, 31 de março de 2008

Conticulóides fobofóbicos


Ailurofobia
Misaías costumava andar todos os dias no parque. Respirava o ar puro, admirava as árvores, brincava com as pombas e sorria para os bebês nos seus carrinhos. Um dia, quando repousava da caminhada em um dos bancos de concreto, um gato caiu de uma árvore no seu colo. No dia seguinte já estava marchando na esteira da academia.

Catisofobia
Quando conseguiu o emprego como fiscal da companhia de trânsito Helena se sentiu nas nuvens. Era tudo que sempre sonhara, era uma mulher feliz. Até se desentender com um motorista infrator e acabar no banco dos réus por tentativa de agressão. Foi condenada à revelia e até hoje está foragida.

Dendrofobia
Os jornais estampavam mais uma façanha de Herodias : atravessara o Saara a pé e com isso se tornara o maior explorador de desertos do mundo. Convidado para participar do rali amazônico, declinou o convite alegando uma unha encravada.

Eritrofobia
Janaína adorava seus sobrinhos para quem comprava todos os brinquedos que queriam. Num sábado à tarde apareceu com uma caixa de química. Ao ser atacada pelo "sangue do diabo" ficou tão ruborizada que saltou pela varanda.

Gefirofobia
Anacleto fez uma carreira política brilhante na pequena cidade que morava. Foi professor, líder sindical, vereador mais votado e, finalmente elegeu-se prefeito com uma votação arrasadora. Era um governante honesto e querido mas, no dia de inaugurar a primeira grande obra da cidade, mandou sua carta de renúncia e nunca mais saiu de dentro de casa.

domingo, 30 de março de 2008

sábado, 29 de março de 2008

Contículo paranomásico

Desde o tempo trêmulo quem toda gente homenageava Januária na janela, eu passo, penso e peço que ela me faça a corte e me corto todo por dentro.

Um dia, quando usava uma saia em diminuto comprimento dela recebi um inesperado cumprimento o que me fez augurar que, com tais premissas, poderíamos retornar às nossa primícias.

Que nada. Foi só um engano estranho. Eu, que temi e tremi na esperança de casar e, do altar, levá-la para casa, percebi o som e o sentido da solidão. Ela não passaria minhas calças, nem passaria perto de mim.

Nunca fui capaz, como um rio, de lavar do límpido a mágoa da mancha. Ela sabia que eu não procurava nem luxo nem lixo, mas por causa dos privados fui privado da sua presença.

Pulei de um morro e quase morro. Foi como se uma fratura acabasse com minha fartura de paixão. Como se nada mais me importasse, senão exportar minhas agruras.

Eu, apenas uma mola de uma engrenagem que não amola, comecei viver de esmola.

Enviei-lhe violetas violentas com um cartão: nunca mais passo carão.

Agradecimentos a Chico Buarque, Thiago de Mello e Padre Antonio Vieira que sempre paranomasiaram perfeitamente.

*Paronomásia: aproximação de palavras de sons parecidos, mas de significados distintos

sexta-feira, 28 de março de 2008

Idas e vindas do amor


Diálogo do começo de romance

- Ah...até que enfim, mal posso esperar !
- Você vai me deixar ?
- Não ! Nem pense nisto...
- Você me ama ?
- Claro. Desde sempre e para sempre.
- Você já me traiu ?
- Imagina ! Essa pergunta não faz nenhum sentido...
- Você vai me beijar ?
- Em todas as oportunidades que eu tiver...
- Você não vai me magoar, vai ?
- Que diabos ! Claro que não !
- Posso confiar em você ?
- Sim.
- Querido....

Diálogo do fim de romance

Leia o mesmo texto de cima para baixo.

quinta-feira, 27 de março de 2008

Frases para uma carta que não foi escrita

São Paulo , outonal, úmida e caótica

O tempo engana. Como discutem os físicos pós-relatividade : o tempo existe ? Existe a sensação do tempo. E também a sensação da distância.

Alguns meses podem ser pouca coisa em relação à idade do universo, mas quando bate as saudades a relatividade de Einstein que vá para o éter (foi ele que disse que o éter não existe ? nem aquele da famácia ?)

Não sei como é que ela faz isto . Acho que o fato dela viver dentro do meu coração permite que note coisas que eu não falei. Especialmente com esse meu jeito de não falar sobre melancolia ou tristeza... Ela capta tudo. Percebe tudo.

Concordo que as minhas mensagens tenham uma boa dose de vida. Afinal, ela continua e precisamos aproveitá-la , como dizia uma pichação antiga : “ a vida é curta, curta a vida “. Faço o possível, acho que sou bem sucedido em muitas situações .

Temos reações semelhantes como forma de circunloquiar as dúvidas e vulnerabilidades. Vamos para os livros, para os discos, para o cinema. Será que estamos tentando compensar o prazer real através do prazer estético ? Será só uma fuga ou será uma solução razoável ? Existe solução ? Existe algo que seja razoável ?

Quando apelamos para os prazeres ditos racionais acabamos sendo tocados por eles e agravando a sensação de ausência. Tudo é dirigido para nós. Quando estamos cheios de buracos os estímulos entram por todos os lados.

Já me fizeram, certa vez uma sugestopedia* sinestésica. Definiram “Sinesteana “ como um poema barroco. Gostaria de uma análise mais detalhada dessa concepção, mas nunca a recebi..

Waaaallll !!! Como diria o Paulo Francis. Vou dormir antes que comece a ficar romântico.

*A sugestopedia (segundo Luzanov) foi desenvolvida para aplicação em sala de aula, mas é possível praticá-la em casa ou em qualquer outro tipo de ambiente tranqüilo, desde que haja um mínimo de duas pessoas envolvidas no processo. Enquanto um lê (das duas formas previstas – leitura dramática e leitura lenta) o outro simplesmente escuta. A seguir, trocam-se os papéis.

quarta-feira, 26 de março de 2008

Ética, nos olhos dos outros, é refresco


O idealismo é interessante, mas, quando ele se defronta com a realidade,
seu custo se torna proibitivo.
William F. Buckley Jr (jornalista americano)


Ética é o ramo do conhecimento que estuda o comportamento humano, estabelecendo os conceitos de bem e de mal. O debate a respeito de conceitos éticos sempre provoca discussões acaloradas. A começar pelo fato de que a ética de uns não é a mesma dos outros, ética sempre foi um conceito relativo no espaço, no tempo e nas diversas culturas. O que é bom ou aceitável na cultura ocidental não é , obrigatoriamente, tão bom nas culturas orientais. Queimar hereges na fogueira, algo absolutamente ético em tempos de inquisição é inaceitável no século da pós-modernidade.

No entanto, ultimamente, temos sido bombardeados, de um lado, pelos apelos de ética na política, no trabalho, na escola e, do outro por uma série de posturas e mensagens que invalidam esses mesmos apelos. É claro que a Internet não deixa de ser um tremendo canal para esses bombardeios, tanto de um lado como de outro. Com isso eu acabei descobrindo mais um ponto de relativização da ética, a saber, ética sempre é muito bom desde que praticada pelos outros a meu favor.

Mais de uma vez eu recebi a lista dos radares de velocidade espalhados pela cidade de São Paulo – uma aula prática de como burlar a lei sem ser punido. Como é do meu interesse andar em alta velocidade e não ser multado, isso pode ser uma norma de comportamento aceitável. Ou não ? Será que isso não significa que a ética é apenas a capacidade de cada um de não ser pego em delito ? Como diria o “filósofo” grego Aristóteles Onassis : “não ser descoberto em uma mentira é o mesmo que dizer a verdade”.

Há poucos dias recebi outro e-mail, me convocando para protestar contra a proteção anticópia dos CDs modernos, como dizia a mensagem: “Discos com proteção anticópia restringem os direitos dos consumidores e são uma grande ameaça à memória da cultura nacional. Esta é uma convocação de boicote aos produtos culturais com limitações anticópia”. Quer dizer então que liberou geral ? Se a ética se restringe apenas à defesa da memória da cultura nacional eu posso copiar e distribuir ilegalmente qualquer produto cultural.

É claro que vou definir como produto cultural aquilo que me interessa o que inclui além de CDs e livros, todos os softwares que eu preciso, os video-games dos meus sobrinhos e, quem sabe, até os selos postais, afinal filatelia também é cultura. Será que emissão de moeda também não é cultura ? Afinal tem umas pinturas interessantes nas notas, particularmente a de 100 reais me parece muito cultural, o dinheiro americano são verdadeiras aulas de história. Posso reproduzir livremente ?

Poderia desfiar uma série de outras posturas bastantes éticas como sonegar impostos, subornar guardas de trânsito e fiscais, mentir para evitar encontros ou telefonemas indesejados, mas deixo a cada um a escolha da sua própria ética, ou melhor, a ética que cada gostaria que os outros praticassem desde que não fossem obrigados a agir da mesma forma.

No final das contas, assim como pimenta, ética, nos olhos dos outros, é refresco.

terça-feira, 25 de março de 2008

Metafísica a uma hora dessas ?

Amor...ah o amor... o amor é lindo.

Mas também é um negócio complicado porque o danado tem a mania de se manifestar de formas variadas como se fosse um vírus mutante e fico pensando algumas vezes sobre essas manifestações.

Não seria perfeito encontrar a pessoa que reunisse, ao mesmo tempo, todas estas manifestações ?

O amor que se manifesta na paixão. Incendiário. Que faz com que você delire, perca a cabeça e siga o coração.

Amor que se manifesta no dia-a-dia, na rotina, mesmo quando as coisas parecem conduzir ao tédio ele está lá temperando o relacionamento. Em momentos com molhos fortes, em outros apenas com pitadas de flor de sal, sutilmente.

Um amor que se revele em todos os momentos. O amor incondicional. Sem medo de abrir o coração e a mente um para outro.

Amor sensual. Nos encontros e desencontros dos corpos. Na excitação criada por pequenos toques. E também em grandes turbilhões de prazer.

Claro, isto é apenas utopia. Mas não deixo de imaginar que poderia ser possível.

Todos nós acreditamos que um dia vamos encontrar esse amor. Que será aquele que só acontece uma vez na vida (e que muitos acreditam terem deixado passar a oportunidade). Asssim como sempre esperamos que seja exatamente aquele que está ao nosso lado, pronto para revelar uma face que desconhecíamos.

Não deixa de ser uma esperança que alimenta os sonhos e a poesia.

Vou ficando por aqui (no sentido original e não o moderninho da palavra). Como sempre apaixonado.

Vou ficando por aqui. Como sempre. Como nunca.

segunda-feira, 24 de março de 2008

Depois o Insano sou eu


Em busca da sala 115 do Bloco B


Há alguns dias atrás estava em um evento numa das faculdades da Universidade de São Paulo. Andando pelos corredores me chamou a atenção um aviso em uma das portas das salas que dizia: “a aula de Lógica e Senso Comum foi transferida para a sala 115 do Bloco B”.

Tenho de admitir que, na hora, fiquei muito curioso para saber o que é que se ensina numa aula dessas e, se não fosse pela aula ser em outro horário, certamente teria ido lá dar uma olhada.

Qual será a bibliografia básica de um curso de senso comum ? Eu até consigo imaginar temas para uma aula de lógica, afinal existem várias diferentes: a matemática, a jurídica, a de mercado, e até mesmo os conceitos complexos de lógica difusa. Se você gosta de filosofia, nada como se aprofundar no conceito que Aristóteles lançou nos seus Organon há centenas de anos.

Mas, e senso comum? Será que o senso comum é bom ou ruim ? Se for bom, será que se aprende em livros e nos meios acadêmicos ou é algo que todo ser humano deveria ter uma certa dose ? Não precisa responder, eu já descobri que não é uma capacidade inata e mesmo a sua construção social é muito complexa e limitada.

Na próxima vez que eu for até a USP eu vou me informar melhor a respeito das aulas desse bom senso : na pior das hipótese, vou me matricular para ver se consigo entender alguma coisa. O único risco é que isso possa afetar meu grau de insanidade.

domingo, 23 de março de 2008

Encontros improváveis




A música é um clássico de Natal. O diálogo inicial é hilário, especialmente o que o mais novo entende como sendo "velho".

O dueto maravilhoso.

sábado, 22 de março de 2008

Cod Gadus Morhua


Relutei um pouco sobre fazer bacalhau na 6a feira de Páscoa. Não tenho nenhuma questão religiosa sobre o tema, poderia ter feito uma picanha, como sugeriu o Lou, mas alguns membros da família iriam se escandalizar com isso e o apóstolo Paulo recomenda fortemente evitarmos escândalos.

O que limitava a confecção do bacalhau era que achava que ia gastar dinheiro demais. Quando fui ao mercado na semana passada descobri que o preço estava até mais baixo que o do ano passado (viva a queda do dólar). Comprei um de mais de 4 kg, pedi para fazer um pacote só com os pedaços do lombo e outro com as pontas e as lascas (que vão virar um risoto de bacalhau em breve)

Não é qualquer bacalhau que pode usar esse nome, só o Cod Gadus Morhua, o Legítimo Bacalhau, e o Cod Gadus Macrocephalus, o bacalhau do Pacífico. Os demais devem receber a designação "pescado salgado seco". Mas existe bastante enganação por aí.

O escolhido foi um Cod Gadus Morhua, ou seja, o Legítimo Bacalhau, também conhecido no Brasil como Porto que é uma denominação tradicional e comercial do bacalhau Cod quando o peixe apresenta um tamanho superior a 3,5kg. É pescado no Atlântico Norte, bem longe do Porto) e considerado o mais nobre bacalhau. Normalmente, é maior, mais largo e com postas mais altas. Tem coloração palha e uniforme quando salgado e seco; quando cozido, desfaz-se em lascas claras e tenras, de sabor inconfundível e sublime. Ou seja, é um mito que é a técnica culinária que faz o bacalhau desmanchar. É o bacalhau ideal.

O Cod Gadus Macrocephalus, ou Bacalhau do Pacífico, é muito semelhante em aspecto com o Cod Gadus Morhua, e vem sendo comercializado há cerca de 15 anos no Brasil. No entanto, é diferente do Legítimo Bacalhau, com diferenças fundamentais: não se desmancha em lascas, é fibroso e não tem o mesmo paladar. Por isso, é um peixe mais barato e tem sido vendido em muitos pontos de venda, devido à semelhança, como sendo Legítimo Porto.

Não é fácil diferenciar um do outro: uma das formas é observando bem o rabo e as barbatanas (aliás, também é na observação das barbatanas que se sabe se é um macho ou uma fêmea, mas essa é outra história) - se tiverem uma espécie de bordado branco nas extremidades, é macrocephalus. Outra forma é pela coloração: o macro é um peixe bem mais claro (quase branco) que o Legítimo Porto, o que confunde boa parte dos compradores.

Na 4a feira tirei o bacalhau do freezer e comecei o processo de dessalgar muito a contragosto da minha mulher que achou que eu ia deixar o bichinho completamente sem sal. Para um bacalhau vindo diretamente do mercado, dois dias talvez seja muito tempo mesmo, mas depois de ser congelado é recomendável fazer isso pois o congelamento concentra o sal. Mesmo depois de dois dias de trocas de água, ele ainda acabou um pouquinho mais salgado do que deveria.

O ideal é se trocar a água do bacalhau a cada três horas e na última troca deixá-lo de molho no leite ou em água misturada com leite. No meu caso misturei pois a quantidade de bacalhau era muito grande (cerca de 2,5 kg) e precisaria de quase 3 litros de leite para cobrí-lo totalmente. Tirei da água deixei num escorredor e depois coloquei as postas em refratários e cobri com muito azeite (quase três xícaras) e muito alho picado (uma cabeça inteira picada bem miúda). Ele passou a noite nesse caldo.



Pela manhã cozinhei um quilo de batatas grandes. Não se deve cozinhar muito, 10 minutos de água fervendo é o suficiente pois a batata ainda vai cozinhar mais no forno. Não coloquei sal nessa batata.

Peguei um pouco mais de um quilo de camarões médios e limpos (sem casca), temperei com pouco sal, pimenta do reino e uma mistura de manjericão, alecrim, sálvia, manjerona, louro, segurelha e tomilho (não, não dá trabalho, basta comprar em qualquer mercado uma mistura chamada "ervas de Provence"). Fritei numa frigideira funda com alho (dois dentes picados) e azeite extra virgem, depois adicionei uma xícara de vinho do Porto, quando o álcool evaporou adicionei duas xícaras de suco de tomate (tomate batido no liquificador sem pele e sem sementes - também tem pronto no supermercado, mas se puder fazer em casa o gosto é melhor).

Montei os refratários com as fatias de batata, sobre elas as postas de bacalhau (com o azeite e o alho) e, sobre as postas de bacalhau os camarões com o o molho. Foram ao forno médio (cerca de 200 graus) por um pouco mais de meia hora (quando o azeite começar a ferver veja se as postas já estão se soltando, se sim, está pronto). Um pouco antes de tirar do forno polvilhei com salsa fresca picada. Voilá.

Algumas dicas : a coisa mais importante para se chegar a um bom prato é usar bons ingredientes, se precisar economizar reduza as porções e chame menos gente para comer, mas evite comprar ingredientes de qualidade inferior. Use o mesmo azeite do começo ao fim, se começou com azeite comum não use um extra virgem só para enganar no acabamento. Não precisa usar um Porto Reserva 30 anos, mas também não dá para usar qualquer coisa vagabunda chamada de vinho "tipo" Porto.

O bacalhau foi acompanhado apenas com arroz branco, básico. Éramos 6 adultos e duas crianças (se bem que o Samuel, quando se trata de bacalhau e, especialmente de camarão, vale por um adulto) e, só sobrou uma posta e meia, uns três camarões e algumas fatias de batata... Do vinho, um Chardonnay da África do Sul, só sobrou a rolha e a garrafa.

A sobremesa ficou por conta da patroa. E ela acertou na mosca : o delicioso bolo de morango da Ofner.

quinta-feira, 20 de março de 2008

O sangue de um traidor

Pode dizer que estamos na quaresma e que eu deveria me comportar melhor.

Mas não deu, caí em tentação e tive de trair de novo.

A vítima dessa vez é Walt Whitman, o poeta das Folhas de Relva e sua ode ao capitão :


Ah capitão! Meu capitão!


Ah Capitão! Meu capitão! findou-se nossa jornada
A tormenta é passada
A coroa que buscamos, conquistada.
O porto se aproxima, ouça os sinos, o povo que se alegra
Mirando a quilha do nosso barco audaz na procela.
Ah coração ! coração!
Espalhadas no convés estão
Gotas vermelhas de sangue do meu capitão
Frio e morto, sobre o chão.

Ah Capitão! Meu capitão! Ao som dos sinos levantai
Clarins tocando, a bandeira voando. Levantai.
Com buquês, fitas e grinaldas vos espera a multidão.
Grita seu nome a turba massa, sua face olharão.
Ah pai ! Ah capitão!
Os braços que seguram seus cabelos
São sómente sonhos e desvelos
Frio e morto, sobre o chão.

Meu capitão não mais responde. Dos lábios brancos, só silêncio vem
De meu pai que não sente meu braço, nem pulso nem vontade tem.
Ancorado e seguro está o barco, a viagem se encerrou
Viagem medonha, viagem vitoriosa, seu prêmio ganhou.
Exulta ó praia, os sinos dobrarão.
Desolados passos caminharão
no tombadilho da embarcação. Ah capitão!
Frio e morto, sobre o chão.

Se você se interessa por esse hábito traiçoeiro, as minhas outras puladas de cerca estão em :


* abaixo o texto original

O CAPTAIN! my Captain!
Walt Whitman

O CAPTAIN! my Captain! our fearful trip is done;
The ship has weather’d every rack, the prize we sought is won;
The port is near, the bells I hear, the people all exulting,
While follow eyes the steady keel, the vessel grim and daring:
But O heart! heart! heart!
O the bleeding drops of red,
Where on the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

O Captain! my Captain! rise up and hear the bells;
Rise up—for you the flag is flung—for you the bugle trills;
For you bouquets and ribbon’d wreaths—for you the shores a-crowding;
For you they call, the swaying mass, their eager faces turning;
Here Captain! dear father!
This arm beneath your head;
It is some dream that on the deck,
You’ve fallen cold and dead.

My Captain does not answer, his lips are pale and still;
My father does not feel my arm, he has no pulse nor will;
The ship is anchor’d safe and sound, its voyage closed and done;
From fearful trip, the victor ship, comes in with object won;
Exult, O shores, and ring, O bells!
But I, with mournful tread,
Walk the deck my Captain lies,
Fallen cold and dead.

quarta-feira, 19 de março de 2008

Palavras descruzadas


Antenor era um fanático das palavras cruzadas, podia-se dizer que ele era tarado pelas mesmas tal o prazer que sentia ao concluir cada uma das páginas das suas revistinhas. Começava sempre a ler o jornal pelas palavras cruzadas. Informação e notícias só depois de resolver as cruzadas do dia. No tempo em que as respostas só eram publicadas, quando não achava uma resposta acordava de madrugada no dia seguinte e só sossegava quando ouvia o som do jornal jogado na porta pelo porteiro do prédio.

"Darameçalá !! É isso, como é que fui errar essa ?!?"

Comprava revistas de graus de dificuldade cada vez maiores. Consultava seus dicionários e enciclopédias quando ainda não existia o Google. Chegou a fazer um curso de inglês para também resolver cruzadas nessa língua. Seu vocabulário era quase comparável aos dos grandes lexicógrafos tupiniquins. Começou a procurar exemplares antigos nos sites de leilão mas nunca encontrou uma cópia do jornal carioca A Noite, de 22 de abril de 1925 quando foi publicada o primeiro jogo de palavras cruzadas do país.

O problema é que, além de gostar de palavras cruzadas, Antenor era um conservador. Gostava mesmo dos jogos tradicionais com casa negras simétricas, se possível formando desenhos. Daquelas com indicação de verticais e horizontais, por isso tripudiou o surgimento das chamadas palavras cruzadas diretas, uma excrescência segundo ele. Pior, esse tipo de revistas trazia no mesmo exemplar as respostas no final, o que, segundo ele, tiravam todo o prazer do jogo.

Por algum tempo conseguiu manter-se fiel ao seu estilo. Um dia, porém teve o primeiro choque. Seu jornal trocou as palavras cruzadas tradicionais pelo modelo mais moderninho. Não teve dúvidas, cancelou a assinatura do jornal e continuou comprando só as revistinhas. Mesmo essas foram perdendo espaço nas bancas. Ficou limitado a uma única publicação que não era capaz de ocupar todo o seu tempo. E, mesmo essa trazia cada vez menos palavras cruzadas e mais de outros passatempos que não o seduziam.

Acabou, entre o lançamento de um exemplar e outro, comprando cruzadas diretas para não sofrer crises de abstinência.

A decadência começou quando Antenor passou a constatar que estava desaprendendo toda a sua vasta cultura inútil. Primeiro era um erro ocasional da editora da revista. Não deu muita bola. Essas coisas podem acontecer, pensou. Depois reparou que os erros se tornavam mais freqüentes a ponto de existirem vários em cada exemplar. Escrevia longas cartas reclamando, mas só recebia respostas padronizadas.

Até que um dia se deparou com a seguinte pergunta : "Metade de uma flor de raiz peciolada". Não chegando a nenhuma conclusão foi até as soluções da última página. Lá estava a resposta fatal : monocotiledônea. Teve um colapso nervoso. A polícia foi chamada para deter o louco Antenor lançando toda sua coleção de palavras cruzadas pela janela do 14o andar. Na última vez que foi visto, andrajoso, andava pelas ruas murmurando baixinho algo que parecia um mantra : monocotiledônea não é um dicotiledônia cortada ao meio... monocotiledônea não é um dicotiledônia cortada ao meio... monocotiledônea não é um dicotiledônia cortada ao meio...

A história das palavras cruzadas pode ser datada desde 1700 a.C., se considerarmos o disco de Festos como o primeiro ancestral conhecido do jogo. Há também exemplos de cruzamento de palavras que recuam ao antigo Egito (1350 a.C) como a da imagem de hieróglifos cruzados criando um acróstico.Mas o jogo, nesse formato que conhecemos é de invenção relativamente recente, supõe que a revista St. Nicholas: For Girls and Boys publicou o primeiro jogo de palavras cruzadas da era moderna por volta de 1880. Se você gosta do assunto, Sérgio Barcellos Ximenes dedicou um site inteiro às suas descobertas sobre a História das palavras cruzadas.

Doce afagar




Alguém espera de ti
um doce afagar
No dia chuvoso
No sono cansado
No tempo apagado.

Alguém espera de ti
um doce afagar
Na ausência de carinho
Na tarde de rancor
Na latência da dor

Alguém espera de ti
um doce afagar
No noite enluarada
Na noite mal amada
Na noite, mais nada.

Alguém espera.

segunda-feira, 17 de março de 2008

Conticulóides geométricos


Régua
Luísa media suas palavras, seus sentimentos, suas amizades. Não dava um passo sem ponderar os prós e contras de cada atitude que tomaria e não tolerava as pessoas que não agiam da mesma forma. O diagnóstico do médico foi irrecorrível, transtorno-obssessivo-compulsivo profundo, receitou que ela bebesse um garrafa de vinho todas as noites até perder o juízo.

Compasso
João apaixonava-se loucamente cada vez que conhecia uma nova mulher mas seus romances andavam sempre em círculos não indo a lugar nenhum. Ele preso às suas manias e elas orbitando em volta dele até se desgastarem e serem descartadas.

Esquadro
Mariana, a cartesiana, era uma garota certinha. Nunca imaginou que ao conhecer Durango as linhas retas que tinha traçado para a sua vida sofreriam tamanha revolução. Se desfez dos tailleurs, largou a faculdade e foi morar numa comunidade hippie decadente onde fazia artesanato e teve três filhos de pais diferentes.

Transferidor
Antonio sabia distinguir claramente os diferentes graus de afeição que dedicava a cada pessoa. Amores agudos, amizades retas e inimigos obtusos. Seu mundo caiu quando um dia acordou com sua melhor amiga ao seu lado na cama.

Borracha
Cláudia não guardava rancores. Tinha a capacidade de esquecer os aborrecimentos passados rapidamente e achava que isso era um privilégio reservado a poucos. Depois da primeira sessão no psicanalista chorou compulsivamente durante uma semana sofrendo todas as dores que cria estarem apagadas.

domingo, 16 de março de 2008

Melhor não contrariar


Ela estava num daqueles dias (essa expressão seria suficiente para enfurecer todas as feministas de plantão mas, antes que alguma salte nas tamancas, eu continuo...) em que o mundo parecia conspirar contra qualquer coisa que ela fizesse. Aquele dia a que cada ação correspondia uma crítica arrasadora.

O que não sabia é que o dia ainda não tinha acabado e, ao encostar o carro (que tinha sido multado por estacionamento irregular) na porta de casa, deu de cara com Margarida, a sua vizinha. Quando a viu, lembrou-se imediatamente que miséria pouca é bobagem. Margarida era daquelas pessoas que não pode ser contestada a respeito de nada. Ela sempre tinha razão, por mais irrelevante que fosse o assunto, sempre reagia com furor.

Desceu do carro para abrir o portão da garagem e tentou ser breve, oferecendo apenas um aceno de cabeça. Não adiantou nada, Margarida era sempre Margarida :

"- Oi lindinha. Chegando mais tarde hoje ?"
"- Fazer o quê ? O trânsito anda cada vez pior." - respondeu tentando entrar no carro antes que a conversa esticasse.
"- Faça um chá de maracujá que diminui o stress."
"- Eu odeio maracujá..." A frase ainda não tinha saído completamente da sua boca e ela já tinha percebido a besteira que cometera.
"- Como assim odeia maracujá ? Ninguém odeia maracujá. Maracujá é a melhor fruta que existe, chega mesmo a ser chamada de fruta da paixão..."
"- Não, não sabia...você sabe se o carteiro passou hoje ? Estou esperando um pacote."
"- Que a paixão do maracujá é a paixão de Cristo por causa do formato da flor que parece uma coroa de espinhos...Qual é o seu problema com o maracujá ? "
"- Meu problema nesse momento é só entrar na minha casa e tomar um banho..."
"- Também sabe das propriedades calmantes do maracujá ? Que é da família da passiflora..."
"- ...depois disso fazer a janta, lavar a roupa e estudar para a prova de inglês de amanhã..."
"- Você tem idéia de que o Brasil é o maior produtor mundial de maracujá ?"
"- ...e tentar dormir um pouco.."
"- Sabe que o nome do maracujá é um nome tupi que quer dizer..."
"- Chega ! Seu maracujazeiro está cheio ? Pode me dar uma dúzia...duas dúzias...qualquer coisa, eu vou comer maracujá até morrer de indigestão, de azia, de torpor..."

Essa é apenas uma parábola e, mesmo gostando de maracujá, eu também já conclui que é melhor deixar para lá. O médico mandou não contrariar

Defeito 10: Cedotardar

Tenho no peito tanto medo, É cedo
Minha mocidade arde, É tarde
Se tens bom-senso ou juízo, Eu piso
Se a sensatez você prefere, Me fere

Vem aplacar esta loucura, Ou cura
Faz deste momento terno, Eterno
Quando o destino for tristonho,Um sonho
Quando a sorte for madrasta, Afasta

Não, não é isto que eu sinto, Eu minto
Acende essa loucura, Sem cura
Me arrebata com um gesto. Do resto
Não fale, amor, não argumente. Mente

Seja do peito que me dói, Herói
Se o seu olhar você me nega. Me cega
Deixa que eu aja como louco, Que é pouco
No mais horroroso castigo, Te sigo

sábado, 15 de março de 2008

Cavaquinha no efó


Eu trabalho com marketing direto e as pessoas que sabem do que eu vivo adoram guardar pérolas raras para mim. Me mandam cópias de e-mail marketing, me contam histórias hilárias de operadores de telemarketing e, claro, sempre me trazem as malas-diretas que julgam ser os piores exemplares da história (engraçado é que só me trazem os maus exemplos, quando recebem algo legal ao invés de guardar para mim, compram o produto..)

Uma das minhas aquisições recentes me foi presenteada por uma amiga. É uma mala direta de uma rede de motéis (não sei se são da mesma rede ou fazem sua propaganda de forma cooperada) anunciando uma "Semana de culinária baiana", segundo essa amiga, não é a primeira vez que eles fazem algo semelhante, já teve a semana italiana, a francesa, entre outras. Imagino que a especialidade da rede seja uma combinação de Kama Sutra com Cordon Bleu.

Óbvio que as piadas e trocadilhos são inevitáveis. Culinária baiana num motel deve ser um programa apimentado. O nome do prato com sururu deve ser sururuba. Eles não cansavam de se mungunzá. Vatapá pode ter diversas interpretações e, claro, sempre corre-se o risco de um efó recheado. Caruru (não confunda com sururu - uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa) usa quiabo com azeite de dendê e bastante amendoim, já imaginou ?

Agora, a pergunta que não quer calar é : que tipo de pessoa vai a um motel para comer, ops, para se alimentar ? Será que alguém consulta o Guia 4 Rodas antes para saber se o restaurante é estrelado ? Fico imaginando situações :

Antes :
- Querido, faz tempo que a gente não vai, não é mesmo ?
- Tempo mesmo, você está com vontade ?
- Claro ! Se você estiver animado posso até pedir para minha mãe cuidar das crianças.
- Hummm.. nesse caso acho que a gente podia ir no Motel X que está com uma promoção de cavaquinha no efó...
- O que ?? Enlouqueceu ?? Nunca, jamais em tempo algum... esquece.

Durante :
- Ai, ai, ai...que delícia...
- É verdade, acho que nunca tinha visto um assim.
- Agora o que eu quero é um nabo...
- Cru ?
- Cru não...molha antes no dendê...

Depois :
- Acho que você abusou daquele creme...
- Mas sem o creme estava difícil de engolir, ainda mais mole do jeito que estava.
- É verdade, mas isso nunca tinha acontecido antes...
- Fala a verdade !
- Verdade verdadeira, acho que eles trocaram o chef, antigamente tudo vinha al dente...

Detalhe importante : minha amiga não sabe, mas motel só manda mala direta para clientes cadastrados que aceitaram receber propaganda (que eles não são bobos de criar problemas para os clientes), mas eu fingi concordar com sua afirmação de que "esse povo de marketing direto fica mandando propaganda para qualquer um..."

sexta-feira, 14 de março de 2008

A nova bossa velha


Eu gosto de música. Gostar talvez seja pouco, pode me chamar de melômano que eu não me ofendo. E eu gosto só de um estilo de música : a de boa qualidade. Ouço clássicos, pop, jazz, rock, samba, eletrônica, folclórica, religiosa. Não me importa o rótulo. Sendo bem construída e bem executada, me agrada.

Eu também gosto de bossa nova. Tenho os discos do João Gilberto, do Jobim, Menescal, Sylvinha Telles, Oscar Castro Neves, Nara Leão, Os cariocas. Também tenho diversas releituras, Ella Fitzgerald, Stan Getz, Frank Sinatra além de muitos outros intérpretes nacionais.

Mas eu não aguento mais os "inéditos" lançamentos de Bossa Nova. Não porque os intérpretes sejam ruins, ou porque tenham destruído as músicas. Eu cansei de ouvir sempre a mesma coisa. Com raríssimas e honrosas exceções, todo mundo que resolve gravar bossa nova usa os mesmos arranjos, os mesmos instrumentos e até o mesmo timbre de voz.

A começar do próprio João Gilberto que há mais de dez anos está gravando o mesmo disco, com o mesmo repertório. Aí os críticos que não criticam nada acham lindo que ele regravou Corcovado pela décima oitava vez mudando um trinta e dois avos de uptempo na segunda linha da primeira estrofe. Nem o Tom Jobim, que teria o direito de fazer o que bem entendesse, gravava a mesma música da mesma forma duas vezes.

Por isso eu desisti. Não compro mais disco de bossa nova. Cansei de um banquinho e um violão.

Até que hoje eu comprei "Onde brilhem os olhos seus", homenagem da Fernanda Takai (isso mesmo, aquela do Pato Fu... ah você não faz nem idéia do que seja o Pato Fu...então descubra) à Nara Leão. Claro, não comprei desavisado, já tinha ouvido algumas músicas no Vozes do Brasil da Patrícia Palumbo.

E sabe de uma coisa : o disco é ótimo. Não tem banquinho, tem violão junto com sons programados. Tem bateria eletrônica. Tem arranjos completamente diferentes daqueles que eu já ouvi mil vezes. E tem a voz da Fernanda, que é de primeira. E tem até o Roberto Menescal fazendo solo de guitarra em Insensatez. Guitarra ?? Pois é, até os velhos da bossa podem ser novos.

Tem a dificílima Lindonéia. Tem Luz Negra num arranjo que deve ter feito o Nelson Cavaquinho sair do túmulo...e dançar. Também os clássicos : Insensatez, Estrada do Sol, Com açúcar com afeto.

Já li um comentarista (daqueles que gostam dos trinta e dois avos do João Gilberto) reclamarem do disco. Eu fecho com a Fernanda.

E meus ouvidos, humildemente, agradecem.

quinta-feira, 13 de março de 2008

Contículo aliterado


Em homenagem a Cruz e Souza, autor da mais longa aliteração da língua portuguesa*


Valter sempre chegava de forma velada com sua voz de veludo incendiando a volúpia de Beatriz que, mesmo na brisa, balançava em beijos vorazes.

Suas formas alvas, formas claras, sua mágica presença eram cometas vagando brancos e velozes nos vórtices sentimentais dele.

Mulher de cama, de cana, de lama, anacronicamente bacana.

Em dias de velozes ventos eles voavam vulcanizados em meio a todos trons de trovôes, com a ajuda da chuva num vai e vem sem fim.

Tinham um jeito de homenagear a toda gente com girassóis nas janelas. Uma paixão que vinha vivendo o visto e vivando estrelas ** e os deixavam bebedérrimos de brilhantes borbulhas de bebidas belgas.

Mesmo nas horas louras e lindas nunca brincavam bravos, ainda em tempos de vãs berlindas passavam vendo das varandas as brandas alvoradas.

Como se fosse eterna a flanejante flor que floria às suas frentes. Mas um raio rútilo e rápido retalhou o romance.

No dia que Valter foi para os Estados Unidos, Beatriz se ocultou num convento onde orava e chorava dizendo : ai do amor que não anula as aliterações abusivas!


Vozes veladas, veludosas vozes,
Volúpias dos violões, vozes veladas
Vagam nos velhos vórtices velozes'
Dos ventos, vivas, vãs, vulcanizadas

Violões que choram... - Cruz e Sousa


** obrigado Guimarães Rosa.

quarta-feira, 12 de março de 2008

Ao sabor dos vinhos argentinos


Toda copa do mundo de futebol é a mesma coisa. Eu não tenho um rojômetro (aparelho que serviria para medir a quantidade e a intensidade de rojões), mas tenho a impressão de que a festa sempre é maior para as derrotas argentinas do que para as vitórias brasileiras. Se a derrota ainda implicar em desclassificação a demanda de rojões supera a oferta. Quando isso acontece eu, que não solto rojões, aproveito para tomar um bom vinho. Argentino é claro.

Conta a história que em 1556 chegou a Santiago del Estero, região de Cuyo, o padre Juan Cidron trazendo em sua bagagem estacas de vides que originaram os primeiros vinhos da Argentina. No entanto, somente mais de dois séculos depois, em 1777, é que teve início a produção comercial, primeiro com alguns imigrantes portugueses e depois com europeus de outros países que se radicaram em Mendoza. Em 1875, o governo mendocino resolveu investir na produção vitivinícola, contratando o agrônomo francês Aimé Pouget. Dessa época até o final dos anos 50 (do século 20) o consumo argentino cresceu até a marca de cem litros por habitante ao ano. É verdade que a maior parte do vinho produzido era de baixa qualidade, chamados de vinhos gruesos aos quais os argentinos acrescentavam água com gás na hora de beber. Para alguns enólogos, isso era um escândalo, outros porém entendem que era uma decisão sábia, pois o vinho era tão ruim que só se tornava bebível dessa forma.

Na década de 80, começaram a notar que o solo das regiões vinícolas argentinas era muito bom para ser despediçado com os gruesos. Afinal era o mesmo solo onde, do outro lado dos Andes, os chilenos produziam vinhos de alta qualidade e, se isso era um ótimo negócio para os chilenos, por que não seria também para os argentinos? Novas cepas foram plantadas, os métodos industriais modernizados e especialistas estrangeiros contratados. Atualmente, a Argentina produz vinhos de excelente qualidade.

A malbec é a uva mais difundida entre os vinhos finos apesar de que os vinhos que gera nem sempre são elegantes, um pouco pesados demais. Alguns vinhos cortados com essa uva, porém, conseguem ser excepcionais. Além da malbec, destacam-se a cabernet sauvignon, a merlot e a syrah. A uva semillon é a mais importante entre os brancos finos, mas vem perdendo terreno rapidamente para a chardonnay, que produz um vinho com mais acidez e menos oxidação.

A Argentina , assim como o Brasil e o Chile, não tem um sistema de regiões demarcadas como existe na Europa, o que torna mais difícil a identificação dos melhores vinhos. Para isso é necessário conhecer os produtores. As regiões que produzem os vinhos finos (apesar de também produzirem os gruesos) são Mendoza - a maior delas, Salta, La Rioja não confundir com os riojanos espanhóis), San Juan e Rio Negro.

Infelizmente, os melhores vinhos argentinos são muito difíceis de encontrar no Brasil ou, quando encontrados são incompráveis. Os melhores que tomei até hoje foram da Catena, de Mendoza, tanto o Catena Zapata como o Angélica Zapata são fora de série. Vemos com bastante freqüência os vinhos médios e bons. Mesmo esses valem a experiência. De qualquer forma, se você encontrar algum dos melhores pela sua frente, talvez valha a pena um investimento ocasional, além de beber um vinho de primeira classe você ainda pode ajudar a economia dos nossos hermanos argentinos.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Somos todos deficientes intelectuais


Talvez nem todos saibam que eu sou pai de um menino com síndrome de Down (e de uma menina com síndrome de capataz - quer mandar em todo mundo) e, por esse motivo, já há alguns anos estou envolvido com as questões relativas à deficiência intelectual (isso mesmo, não se usa mais deficiência mental desde a Declaração de Montreal de 2004), especialmente a inclusão de todas as pessoas em todos contextos.

Tornei-me um militante da inclusão, participo de grupos, de comunidades, bato perna falando e ouvindo sobre o tema e já estive em lugares que eu nem sabia que existiam. Como, além de falar, eu gosto de ler e de escrever, além dessas insanidades escrevo sobre vários assuntos nas mais diversas mídias. Divido meus escritos em quatro categorias : marketing, inclusão, teologia (sou protestante e professor de teologia sistemática) e, claro, insanidades. Também leio bastante sobre tudo isso e mais um pouco.

Desde que o Samuel nasceu tentam me provar (ainda não me convenceram e, à medida que ele cresce, me convenço menos ainda) que existem algumas áreas do raciocínio que são problemáticas nas pessoas com deficiência intelectual : percepção, memória, abstração e capacidade de interpretação. Lendo e escrevendo eu descobri que não são as pessoas com deficiência que tem essa dificuldade. Somos todos nós.

Temos sérios problemas de percepção. Poucas vezes conseguimos notar que algo diferente está acontendo ao nosso redor. Quando percebemos o fato, não conseguimos ler suas entrelinhas, quando lemos as entrelinhas distorcemos tudo.

Dizem que o brasileiro é um povo sem memória. Tenho a impressão que essa não é uma exclusividade nacional. Com a desculpa da nostalgia voltamos a cometer os mesmos erros do passado. De um lado valorizamos a forma de viver do "nosso tempo" (nesse caso sempre algo da nossa infância e juventude) como se esse tempo não fosse o agora. Ressucitamos anacronismos e ainda achamos bonito. Do outro lado, esquecemos totalmente a história , geralmente naquilo que ela teve de pior, até que seja tarde demais e o estrago já tenha sido feito...de novo.

Também descobri que o uso de metáforas, analogias, metonímias e outras figuras de linguagem são inviáveis. Ironia, então, nem pensar. Não sabemos ou não queremos exercitar nossa abstração. Isso dá trabalho e exige que se pare para pensar. Só conseguimos conviver com o que é concreto, visível, palpável ou compreensível de forma direta. Precisamos personificar conceitos, ou melhor, só personificar sem conceituar nada. Deve ser por isso que os reality-shows façam tanto sucesso, uma vez que não exigem nenhum esforço intelectual.

Sempre que eu digo que o Samuel está alfabetizado desde os 6 anos, alguém me pergunta : "mas ele sabe ler (i.e. decifrar o código) ou consegue interpretar o que está escrito ?". Sou obrigado a responder que ele interpreta perfeitamente. Deve ser porque ele se limita a interpretar o que está escrito. Muitas das discussões que vejo nos grupos acontecem simplemente porque as pessoas começam a responder antes de lerem o que está escrito. Não se tem nenhuma capacidade de interpretação, não por incompetência, mas por displicência. Um fala bola e o outro responde a respeito das condições meteorológicas. Volta-se e explica-se o que é a bola e dizem que você não gosta de chuva.

No que que isso vai dar no futuro ? Não sei, acho que não tenho a percepção do todo e, de qualquer forma, quando o futuro chegar ninguém vai se lembrar mesmo.Talvez os seres do porvir apenas nos interpretem como uma abstração qualquer.

Os seres do porvir serão justamente esse que hoje chamamos de deficientes intelectuais que prestam mais atenção, guardam nas suas memórias o que lhes é relevante, conseguem abstrair e interpretam corretamente o que é escrito porque estão preocupados em acertar.

Aforismos out e in consequentes


Causas são mais fáceis de abraçar do que de construir.

Nem tudo que é ouro reluz.

Se você é o que você faz, como se define quando vai ao banheiro ?

Ninguém me ama, ninguém me quer...só em compacto da Chantecler.

No dia que as pessoas calçarem as calças e sapatearem os sapatos a língua vai ficar mais compreensível.

Falar difícil é fácil. Complicado mesmo é se fazer entender.

Idéia fixa é coisa de quem não tem idéia nenhuma. (corolário de "Não é triste mudar de idéias; triste é não ter idéias para mudar" de Imannuel Kant)

domingo, 9 de março de 2008

Whoops Mr Moto, I´m a coffee pot




Minha relação com o café já é conhecida dos meus leitores...

Nada melhor que juntar música (da melhor qualidade) com café....aí eu viro um bule cheio.

sábado, 8 de março de 2008

Nossa (???) língua portuguesa - amazonês

Aquele era um dos dias em que ele aparecia cheio de aço e tentava abafar uns trocados adubando os clientes da taberna, mesmo porque estava roendo pupunha. Costumava entrar se alteando : "- A como tá a cerveja hoje ?" Naquele dia sua vítima foi um aloprado que acochava a sincera na mesa dos fundos. Olhou a porção de fritas e apresentado perguntou : "- cês tão comendo a pulso ? posso pegar uma ?" O batóré que estava batendo caixinha prá cabrocha respondeu : "pode se aviar, se quiser até o tucupi, mas tá carne de tetéu"

O baba-ovo percebeu que era o lugar certo e foi adiante : "Alguma babita tem também ?" Depois da bagaceira de ontem fiquei sem nada e tem uma barca lá em casa para comer... Não teve nem tempo de acabar a frase quando levou uma cachuleta de garçom cheio de biloto : " - Capina beradeiro, está achando que isso aqui é biboca ? Se tu bateu fofo não vem com caqueado. e pode capar o gato. Sua alma sua palma seu coração sua pindoba."

Ele pensou no bodozal e achou melhor não arriscar a biqueira de outro cocorote, deu outra brechada no casal e saiu. Atravessou a bola sem perceber que tinha breado uma garrafa na calçada e, mesmo brocado não de fez de calundu. Pensou em roubar um cascalho do regatão mas não ia ser bonito para sua cara.

Estava mesmo na casa do sem jeito, com a venta cheia de cataraca e o pescoço com cordão de ceroto.Foi quando viu a cobrinha do chibé. Chegou cheio de caqueado e entrou com borra e tudo. Uma cunhatã que estava para trás gritou : “ - Como já então?! Do nada? Parece que comeu coquinho" Ao que ele respondeu : "Não precisa cortar e aparar minha curica, não estou de cruzeta não".

Quando se olharam a tijubu gostou do curiboca e mesmo percebendo que ele era de dar bolo em catita se apaixonou pelo danado. Ele de primeiro e tentou dar um chagão mas ela já estava cheia de dengo e não tinha como tirar as broncas. Do jeito que estava vazado era melhor não se frescar que podia ter uma bilora.Mesmo vendo que ele estava desplanaviado não deixou ele embiocar e só ficou satisfeita quando o viu empachado com todo aquele sarnambi reimoso.

Encangou no pescoço do dito cujo toda esticada. Convidou-o para dar umas facadas nos facultários. Ele nem fez meuã, mesmo achando que a piriguete era fanta, ele não era de gabulice, nem de rebolar no mato. Deram de cara com um galalau com cara de folote que estava de bubuia, mas não buliram com o cara pois viram o gambão na esquina.

A menina até que erá filé de olhos gatiados mas muito gasguita. Foram para a casa da gueguete mesmo lisos. Pelo menos poderiam ir pras barcas e dar um ketchback. Ela lhe deu um ipadu e disse que estava lavando urubu e qualquer leguelhé a deixava incadiada com vontade de malinar. Ele, todo mocinha, não queria pimbar nem amarrado pelo chinelo preto.
Foi quando viu a osga ovada no teto, a bicha era maceta. A pirentinha fez um papoco e saiu correndo porta a fora como se tivesse visto visagem.Foi a chance que o pardioso, mesmo zambeta, viu e, sem pavulagem caiu fora zimpado antes se pebar e gritou : "Tô pegando o beco que está quente que só nesse requenguelo!"

Nem deu tempo da sacopemba lhe puxar o dedo ou queixar, quando se deu conta estava tudo quiriri.

Para as outras versões do Nossa (???) língua portuguesa : Carioquês, Gauchês, Mineirês, Baianês.

sexta-feira, 7 de março de 2008

Labirinto


Sonhos de labirintos mágicos
Revolucionam a cabeça
Curvas impunes
Portas fechadas
Parede brancas

Abro caminhos
Que, à minha frente,
Foram se fechando.
Arrombo portas,
Destruo janelas,
Machuco os braços.

Busco o fim do pesadelo
Fugindo do minotauro.
Objetos e pessoas
me perseguem.
Vejo o túnel no fim da luz.
Inútil enfrentar a fera
e continuar preso.

quinta-feira, 6 de março de 2008

Hematófagos no Itaim Bibi


Entre fumaça e buzinas eles se escondem durante todo o dia, nas tocas, nos beirais, nas poucas árvores que resistem à devastação urbana.

Começam espreguiçar-se quando o sol se põe mas continuam nos seus refúgios, ainda há excesso de luz de faróis e o barulho vindo dos bares da região ainda soam ameaçadores.

Na madrugada abrem as asas e saem em busca de subsistência. Frutas, restos de alimentos. E sangue, se não houver outra alternativa.

Percorrem janelas abertas, vasculham cozinhas, fruteiras, plantas de varandas. Observam atentamente os lixos das pias. Dirigem-se aos quartos.

Alguns já aprenderam onde encontrar cardápios mais sedutores, especialmente em noite de calor quando as pessoas estão pouco cobertas...

Muitos vão e voltam todas as noites, como as pombas do Correa.

Outros mudam seus caminhos e tentam vôos mais longos em direção a destinos menos árduos.

Mas quando um deles encontra Nala, a gata, a história se encerra.

Só servem para que ela demonstre, no dia seguinte, à sua dona, os restos mortais de sua caçada.

quarta-feira, 5 de março de 2008

Por Toutatis !


Dentre os meus muitos desastres culinários tem um em que insisti durante muito tempo até finalmente chegar a uma solução satisfatória. Minha relação com o singularis porcus, como o chamavam os romanos dos tempos de Asterix, e depois denominado simplesmente de sus domesticus, sempre foi de amor e perdição. Sempre que o encontrava em um restaurante me esbaldava, sempre que me defrontava com ele na cozinha, entrava pelo cano.

Fiz várias tentativas. Assado, cozido, grelhado. Tentei com o pernil, com a costela, com o lombo. Nada funcionava, chegava sempre a duas opções de resultado : ou o bicho ficava duro como pedra, ou ficava emborrachado, daqueles que você morde morde morde....e morde, morde e morde.

Comecei apelar para os métodos tradicionais de amolecimento. Deixar de molho no vinho. Encher a assadeira de azeite. Temperar como doses cada vez maiores de manteiga. Nada funcionava. Mudei de fornecedor de carne, vasculhei a Internet em busca de algum segredo ancestral de tratamento prévio. Pensei em subornar algum maître para me entregar o segredo do chef. Acabei desistindo. Teria de contentar nas oportunidades que o nossos encontros fossem arranjados por terceiros.

Antes de sair de férias me deparei com costelas de javali no supermercado. Me vieram à memória minhas cruéis lembranças de todas as vezes que eu havia tentado seduzí-lo e ele me deixara na mão. Tentei ser durão, fazer de conta que não era para mim que ele estava piscando. Quase disse, no meio das gôndolas : " - você de novo não ! vou pegar o cordeiro que sempre correspondeu minha paixão."

Quando cheguei em casa com as costelas de javali minha mulher olhou e não disse nada. É verdade que eu senti um certo tom de pena quando, mais tarde, ela me perguntou : vai tentar de novo ? Levei o pacote para a praia e coloquei no freezer. Para não passar vergonha deixei para fazer durante a semana, quando ela não estaria por lá.

E não é que deu certo ? Não consegui ainda descobrir porque a carne ficou macia, crocante por fora e saborosa. Se foi o tempero complementar da maresia ou foi a ausência de olhares críticos. Foi suficiente para reacender a velha paixão.

De qualquer forma. Só vou cozinhar javali de novo quando estiver na praia. Acho que funciona melhor como romance de verão.


Costela de javali


Ingredientes
1 costela de javali (pesando aproximadamente 1.800kg)
3 colheres de sopa de sal grosso

Para a Marinada
½ litro de vinho tinto seco
1 xícara de café de vinagre de vinho tinto
1 copo de água filtrada
1 cebola grande descascada e picada
4 dentes de alho descascados e picados
1 xícara de chá de cheiro verde (cebolinha e salsinha misturadas) bem picadinho
1 colher de café de pimenta-do-reino preta em grãos
4 folhas de louro amassadas
1 colher de sopa de salsão picadinho

Num recipiente de plástico, vidro ou refratário (nunca de metal), junte todos os ingredientes da marinada, mexa com uma colher de pau, e depois coloque a costela de javali para curtir, tampe e deixe na geladeira durante uma noite.
Na hora de assar, retire da marinada, seque e enrole em papel alumínio (2 voltas), e leve ao forno durante uma hora e meia. Depois desse tempo, retire a carne do papel alumínio (com cuidado, para evitar queimaduras), e volte ao forno só para dourar. Primeiro com os ossos virados para o fogo, depois o outro lado.

terça-feira, 4 de março de 2008

Atendendo a pedidos


Já que insistiram tanto para que tivesse uma opinião conclusiva sobre tudo, aí vai a minha lista

Eu sou a favor do Movimento dos Sem-Lava da Catânia.

Eu sou contra, por motivos políticos, a drenagem linfática dos lemures de Madagascar (um pleonasmo, eles só existem lá mesmo).

Eu sou a favor da reprodução assistida das tartarugas do Projeto Tamar.

Eu sou contra, por motivos filosóficos, a disseminação de termitas nos nossos parques.

Eu sou a favor da pimenta-do-reino, praticamente em qualquer contexto.

Eu sou contra, por motivos religiosos, o corte de palmitos.

Eu sou a favor do afogamento compulsório das baleias jubarte.

Eu sou contra, por motivos antropológicos, a perseguição dos aborígenes de Kiribati.

Eu sou a favor do escrutínio ultra secreto (sem votos) para o comando supremo das forças desarmadas.

Eu sou contra, por motivos metabólicos, a ingestão de manga com saquê.

E tenho dito.

segunda-feira, 3 de março de 2008

Quod erat demonstrandum


Em matemática, ao encerrar-se a demonstração de um teorema usa-se a sigla QED (quod erat demonstrandum, ou seja, como queríamos demonstrar na tese proposta)

No sábado publiquei num blog sério minhas considerações a respeito dos discursos pró e contra a pesquisa com células-tronco embrionárias num texto denominado "O discurso das células". O tema já é polêmico o suficiente e, como biologia nunca foi a minha praia, não iria me meter a besta de me colocar de um lado ou de outro.

Por outro lado, sempre gostei de linguística, de semiologia e de semiótica (que não se trata de visão monocular, antes que algum engraçadinho faça essa piada). Já passei por Jackobson, Saussure, Eco, Peirce, Hjelmslev, Pignatari, mas a minha identificação maior sempre foi com Lacan e Barthes. O inconsciente é estruturado como uma linguagem, dessa forma é através da linguagem e do discurso que podemos tentar compreender o inconsciente.

Captou ? A partir dessa afirmação você já pode fazer uma análise da minha insanidade.

Voltando à bovina em temperatura subnormal... me limitei a colocar em debate a lógica verbal e não verbal de cada um dos discursos : pró e contra. Conclui que ambos estão cheios de furos e espalham uma imensa cortina de fumaça das suas verdadeiras intenções. Não, eu ainda não estou conseguindo ler através da fumaça e descobrir quais são essas mas, há muito, desisti de acreditar em idealismo puro.

Como eu já esperava recebi bombardeio dos prós e contras da pesquisa sobre células-tronco embrionárias. Cada um dos lados achou que eu estava torcendo para o outro time.

Estou me superando. Mesmo quando não tomo partido, acabam me atribuindo um e, de preferência, minha posição sempre é contra as idéias de quem está lendo. Não é a primeira vez que constato a minha imensa capacidade de conquistar desafetos.

Quando não estou de um lado nem do outro, como foi o caso, é porque estou em cima do muro - também levo chumbo.

Por que é que eu tenho de ter uma posição fechada a respeito de tudo ? Meu bom pediatra, Dr Zé Moacir, diria rapidamente : não deixa de ser uma normose .

E por que eu já sabia disso ? Serei eu tamanho conhecedor da alma humana ? Não, eu apenas descobri que as pessoas não lêem o que está escrito, elas passam os olhos sobre o texto e concluem aquilo que já estavam dispostas a pensar, afirmação que eu já tinha feito no próprio texto.

Ou seja : quod erat demonstrandum !

Ou seja : ai meus sais !

domingo, 2 de março de 2008

Cozinhando com muito vinho


No mês passado escrevi a respeito dos requisitos básicos para se cozinhar com vinho ressaltando as questões de equilíbrio entre o vinho com que se coze e o que se bebe e, conseqüentemente, a escolha de um bom vinho para se cozinhar. No mesmo artigo dei uma receita de risoto onde, apesar de essencial na receita, o uso do vinho era bastante comedido - apenas ½ xícara . Algumas pessoas poderiam ter me questionado: e quando se cozinha com muito vinho? Vale a pena gastar uma garrafa de um bom vinho apenas como tempero ?

Algumas receitas exigem um volume de vinho bem maior do que o normal e exatamente por isso a questão da qualidade do mesmo torna-se ainda mais fundamental, mas ao mesmo tempo eu concordo que o custo pode ser extremamente desfavorável. Vamos pegar um prato clássico como exemplo. O boeuf bourguignon, um prato popular (inclusive na questão de custo) e, provavelmente, o prato mais famoso da Borgonha, exige em sua receita uma garrafa inteira de vinho, obviamente, da Borgonha. É claro que nenhum chef, por mais exigente que seja, vai usar uma garrafa de Vosné-Romanée ou de Nuits St Georges, ainda que possa recomendar que se bebam esses vinhos acompanhando o prato.

Nesse caso, o ideal é utilizar um borgonha genérico que tenha, no mínimo, um controle de procedência (appellation contrôlée). Um vinho genérico, de qualquer região da França, significa que ele foi feito com uvas cultivadas na região como um todo e foi produzido e engarrafado no local de produção. Não são os melhores vinhos de cada local mas estão longe de ser vinhos vagabundos.

Para quem não dispõe de um verdadeiro borgonha existe uma alternativa razoável. Compre uma garrafa de um tinto preparado com uvas pinot noir, a principal uva da Borgonha, mas que também é cultivada em outros países, inclusive no Brasil, para cozinhar e outra para beber durante a refeição. Se for possível compre pinot noir australiano ou sul africano, ainda não conheci nenhuma tentativa bem sucedida com essa que deve ser uma das uvas mais chatas, em termos de adaptação, do mundo.

A receita do boeuf bourguignon não exige outros ingredientes caros, mas dá um certo trabalho e exige tempo de preparação. A receita abaixo é a do Chef Emmanuel Bassoleil, um francês da Borgonha radicado no Brasil, com algumas alterações minhas.

Boeuf Bourguignon

Ingredientes

Carne

1 kg de alcatra
1 colher de sopa de farinha de trigo
1 colher de sopa de óleo de milho
1 litro de caldo de carne, se possível feito em casa, mas pode usar os de cubinhos
1 garrafa de vinho tinto (Bourgogne)
100 g de cenoura em cubos
100 g de cebola em cubos
2 dentes de alho picados
1 bouquet garni (alho-poró, aipo,salsinha,tomilho e louro amarrados em um barbante)
1 colher (sopa) de extrato de tomate
2 colheres (sopa) de salsinha picada
sal e pimenta-do-reino preta

Guarnição bourguignonne

250 g de cogumelos frescos cozidos
150 g de cebolas miúdas (não é o cippolini italiano)
2 colheres (sopa) de açúcar
150 g de bacon em cubos
30 g de manteiga

Modo de fazer

Carne
Limpe a peça de carne, retirando os nervos e a gordura
Corte em cubos que não sejam muito pequenos. Tempere com sal e pimenta-do-reino preta. Coloque o óleo em uma panela grande e leve ao fogo. Quando ferver, doure a carne. Junte a cebola, a cenoura e o alho e refogue mais um pouco. Polvilhe com a farinha e deixe cozinhar em fogo baixo por mais 5 minutos. Acrescente o extrato de tomate, o vinho tinto e o bouquet garni. Cozinhe por mais 10 minutos para retirar a acidez do molho. Adicione o caldo de carne, tampe a panela e deixe cozinhar por 2 horas, em fogo muito baixo, mexendo de vez em quando não deixando o caldo ferver demais. Quando a carne estiver cozida, separe os cubos de carne e o bouquet garni. Passe o molho pela peneira. Leve o molho de volta à panela e junte os cubos de carne.

Guarnição bourguignonne
Descasque as cebolinhas. Coloque-as em uma panela rasa com o açúcar e a manteiga. Cubra com água e deixe cozinhar até que a água se evapore e as cebolinhas fiquem caramelizadas. Reserve. Doure o bacon na manteiga em uma frigideira. Acrescente os cogumelos frescos e refogue por alguns minutos. Junte as cebolinhas e retire do fogo.

Distribua o boeuf bourguignon em pratos individuais. Decore com croutons com alho e salsinha picada. Se você não estiver com paciência de fazer a guarnição também pode servir com batatas cozidas ou talharim fresco na manteiga que são mais fáceis e mais rápidos.

Com querubins e serafins cantai

Let the bright Seraphim in burning row,
Their loud uplifted Angel-trumpets blow:
Let the Cherubic host, in tuneful choirs,
Touch their immortal harps with golden wires.

sábado, 1 de março de 2008

A inominável antologia de Fevereiro


Esse mês eu exagerei nas publicações tirando o atraso das férias. Com isso a quantidade de comentários foi significativa e a escolha dos melhores não foi fácil.

Como sempre deixo os textos dos meus leitores fora de contexto e sugiro que você não procure a lógica, apenas solte a imaginação e divirta-se. Aí vão eles:

O que se faz com uma blusa entreaberta?

...ou seriam cobaias?

...ele poderia usar a grana pra pagar os carnês da menina de vestido de crochet...

Ventania é mais normal e menos sexual.

...não fazem sentido nem na zona sul, nem na zona norte e muito menos na favela...

...você continua um culinarista safado!

...em se tratando de sexo, nada é normal.

O vinho subiu à cabeça ou foi a falta dele?

Que confusão! Não entendi nada...

Um dia te conto do meu risotto de morango...

Não terei nem o direito de ser múmia!?

...preciso deixar minha blusa entreaberta mais vezes!

Mãe, Miojo é macarrão?

Quero sua cama!

Que nos livram dos altares Benzodiazepínicos!

...há dez anos, procuro um travesseiro legítimo de penas de ganso...

...e nunca houve sexo entre nós.

Podem ser "cortados", mas em taça inteira...

...qual a profundidade daquele baú que está escondido no canto do seu escritório?

Ouvi dizer que fizeram até um projeto para levantar um sindicato para categoria, mas que nunca saiu do papel por falta de motivação...

não consegui parar de ver múmias...