sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Constatações bissextas

Anos bissextos (eu sempre achei que no ano bissexto, alguma semana teria duas sexta feiras) sempre provocam delírios numerológicos. Como eu nasci em um acabei ficando insano desse jeito. Além disso sempre gostei de números a ponto de trabalhar na única área do marketing que adora fazer contas e olhar planilhas - sim, admito, é uma espécie de perversão.

De vez em quando vou até o Google Analytics dar uma olhadas nos números do Mens Insana. Cada vez que vou lá me dedico a um indicador diferente. Hoje olhei a distribuição geográfica dos leitores

Desde sua criação tive 8.736 visitas que vieram de 46 países (27 idiomas) e 366 cidades que foram identificadas pelo espião oficial da net

Claro que não é nada surpreendente que quase todos os meus leitores (mais de 90%) sejam do Brasil - como diz o Lou Mello, citando Paulo Brabo, isso não é um bom sinal, especialmente para quem almeja ser insano universal.

Só da cidade de São Paulo foram 3.712 visitas. O segundo lugar disparado é de, pasmem, Osasco, seguido de Londrina e, só depois dessas as grandes capitais. A primeira cidade do exterior a aparecer é Lisboa, em 13o. lugar.

Ter leitores nos demais países de língua portuguesa me parece razoável , os gajos e raparigas vêm de Portugal, Angola, Moçambique e até Guiné Bissau (faltou o Timor).

Os Estados Unidos em 3o. lugar e o Japão em 4o., certamente são consequência da imigração legal e ilegal dos nossos conterrâneos.

Dos países sul-americanos só não tive leitores no Equador (justo eu que sempre quis ir para Galápagos) e nas Guianas. Em compensação da América Central, um único herói do Panamá.

Na Europa Ocidental, todos os países e principados, exceto a Noruega (e olha que eu nem falei mal do bacalhau), cheguei até a Europa Oriental na República Checa, na Eslováquia, Romênia e Polônia (4 visitantes !) e mesmo na Austrália.

Nem vou fazer uma relação de cidades, a grande maioria não tenho nem idéia de onde seja. Se bem que eu sei onde fica Kracóvia e Vila Nova de Gaia. Alguém tem alguma idéia de onde seja Hospitalet de Llobregat ??

Tenho de admitir que alguns lugares foram a mais absoluta surpresa : Gibraltar ? Tanzânia ? Malásia ? Paquistão ? Taiwan ? O que me sugere que esses caras são mais insanos que eu a ponto de chegarem até aqui.

Alguém sabe como é que se escreve insanidade em malaio ?

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2008

As múmias da Luz


Os jornais divulgaram nos últimos dias a descoberta de duas múmias escondidas num vão de parede do Mosteiro da Luz, em São Paulo. Segundo os especialistas (o que é exatamente um especialista em múmias ? Um mumificador ou mumiólogo ?) são as mais bem conservadas de todas as encontradas no país.

Imagino o susto que levaram os funcionários que as encontraram: foram caçar cupins e acharam cadáveres. Ter mortas, ao invés de termitas.

Uma chama Maria Caetana e outra ainda não foi identificada. Não existem mais detalhes a respeito das duas. Os hieróglifos ainda serão desvendados por um neo-Champollion, até porque o original já está mumificado há mais de 150 anos.

O que me chamou a atenção no caso é que hoje saiu uma notícia (capa do caderno de Cidades) que podem haver outras e já estão analisando as paredes em busca de múmias perdidas. Descobri que existe até um aparelho especial tanto. Eu nunca imaginei que múmias provocassem tal avanço tecnológico.

De qualquer forma, algumas dessas afirmações demonstram o quanto o nosso jornalismo escreve acriticamente sobre o óbvio. Como assim : podem haver outras ?? Claro que existem, estão espalhadas em todos os cantos, basta prestar atenção.

Eu conheço várias. Múmias políticas, acadêmicas, empresariais, religiosas que, apesar do seu avançado estado de composição continuam firmes e inabaláveis nos seu nichos. Algumas estão dentro dos próprios veículos de comunicação e não poucas na blogosfera, o que demonstra que o uso de novas mídias não significa, obrigatoriamente, progressismo.

Nem é necessário usar nenhum sonar para identificá-las, estão encasteladas nas sua pirâmides. A maioria pode ser vista à olho nu , se bem que, no caso de várias delas, a nudez não seja algo aprazível aos olhos. São múmias ambulantes que atrapalham o desenvolvimento de muita coisa e que nunca abrem espaço para o desenvolvimento e a inovação.

Não menos recentemente, uma das mais célebres múmias da política internacional resolveu se aposentar, o que não ajudou em nada, pois foi substituída por outros mortos-vivos que estavam no banco de reservas.

O mérito de Maria Caetana e sua colega é que elas souberam a hora de sair de cena.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2008

As minhas carpideiras

Para a Vilma, minha companheira na luta anti-carpideirista



"Óh dia ! Óh céu! Óh azar... Isso não vai dar certo!" Quem foi criança nos anos 60 e 70 sabem de quem eu estou falando. Quem não foi já deve ter ouvido essa expressão de alguém mais velho.

Hardy Har Har, a hiena coadjuvante do leão Lippy nos desenhos animados da Hanna Barbera era uma pessimista irrecuperável. Talvez tenha feito mais sucesso que o próprio protagonista das aventuras. Lippy sempre cheio de planos mirabolantes. Hardy sempre resmungando. Como uma boa anti-hiena nunca ria.



Eu tenho encontrado vários Hardys pela vida, um grupo especial deles eu comecei a denominar de carpideiras. A carpideira é uma mulher que, mediante pagamento , chora o defunto alheio. Nunca entendi muito bem a lógica disso, fico imaginando que o defunto deveria ser tão ruim que a família preferia contratar lágrimas mercenárias para compensar as inexistentes. Mas já imaginei algumas negociações. O choro custa X por hora, mas o senhor pode adquirir o plano Gold que dá direito a gritos e um desmaio.

Minhas carpideiras conseguem atingir o ápice de combinar sua função clássica de chorar o tempo todo e ainda imprecar contra qualquer sugestão de como poderiam resolver seus problemas. São as carpideiras Hardy.

Elas não querem solução. Aliás, nem solidariedade, só querem mesmo chamar a atenção e distrair as pessoas do foco dos assuntos. Quando confrontadas ou desmentidas apelam para ignorância e começam a xingar.

Elas se proliferam. Estão nos grupos de discussão, nas comunidades, nas palestras, nas escolas, nas ruas. Me surpreende que ainda não tenham aparecido por aqui.Tenho certeza que é só uma questão de tempo.

Existem carpideiras em todas as especialidades. As do marketing são notórias pela expressão : "alguém já fez e não deu certo". As da educação nunca se acham preparadas para nada e, além das desgraças em que foram jogadas, ainda são mal pagas. As da inclusão preferem o estilo "não comi e não gostei" e, como, geralmente, estão ligadas a uma pessoa excluída, além do pessimismo usam seu choro como um recurso de conquista de comiseração (se a pessoa excluída ainda é uma pessoa com deficiência esse recurso é levado ao limite da dó).

As carpideiras religiosas tentam legitimar suas previsões de desgraças jogando a culpa nas costas largas do seu "deus". As que não crêem a lançam no inexorável destino de todas as coisas (seja lá o que isso quer dizer). As que não são nem religiosas, nem fatalistas, colocam a culpa no governo.


Apesar do termo ter sua origem no feminino, isso não quer dizer que os homens estejam imunes aos carpideirismo Hardy. Não são poucos os exemplares do sexo masculino.

Talvez não seja muito educado (como eu já sou reconhecido como um ogro mesmo isso não faz diferença nenhuma) mas o caminho que eu encontrei para lidar com elas é a da total indiferença. Exatamente o que você pensou : desprezo, desdém, desconsideração. Claro que elas reagem chorando mais alto, o que não impede que eu deixe o som entrar por uma orelha e sair pela outra. Afinal, só a pessoas de cabeça oca não conseguem fazer isso - o som não se propaga no vácuo.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2008

Pedra poema


Pedra apoiada em seu peito
Cena de cinema
Uma gota de sangue.

Brilho forte no pescoço
Sem problema
Sangue. Gota de sangue.

Lânguida. Tênue. Simples.

Primavera descobrindo
Um dilema
Gotas de chuva. De sangue.

Uma pedra. Um brilho. Uma gota.
A gota de sangue que existe
Em cada poema.

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2008

Uma adega mais que mimosa


Quase no meio do caminho entre Petrópolis e Itaipava, na estrada que vai do Rio para Belo Horizonte, existe um lugarejo chamado Vale Florido. O lugar não teria nenhuma projeção não fosse o fato de, entre a meia dúzia de ruelas que o compõem, está situada a Locanda della Mimosa, um hotel de apenas seis apartamentos e um dos sete restaurantes chamados de magníficos pelo guia 4 Rodas (junto com o Antiquarius, o Claude Troigros e o Cipriani no Rio de Janeiro, o Fasano e o Massimo em São Paulo e o Boulevard de Curitiba).

A história da Locanda começou com a criação de enorme subterrâneo, a oito metros de profundidade, cuja construção foi feita em concreto maciço e toneladas de ferro. Depois de fechar esse este buraco com quatro metros de terra, estava criada La Cave, evidentemente, por ser Danio Braga, o proprietário do local um apaixonado por vinhos, não poderia deixar de ter uma adega de qualidade.

Encravada embaixo da terra, a adega privilegia os cuidados especiais para os vinhos e se mantém com duas diferentes temperaturas controladas: uma para vinhos tintos, entre 14 e 16 graus centígrados, e outra para vinhos brancos, entre oito e 10 graus, ambas regidas por um nível de umidade relativa do ar entre 60% e 75%, para que não sejam desenvolvidos os mofos tão letais e fatais às rolhas e aos rótulos.

Não é uma adega de luxo, tem uma decoração simples, porém funcional. O lugar é aprazível e dispões de uma mesa para eventuais coquetéis de boas-vindas - rápidos e para poucas pessoas. A visitação é obrigatória para quem gosta do assunto por tratar-se de ambiente realmente único e extremamente peculiar, que abriga grande variedade de rótulos que compõem a carta de vinhos. A visitação é sempre acompanhada pelo Jorge (o somellier titular da Locanda) ou pelo Márcio, que não se furtam de revelar os segredos mais prosaicos, como explicar que o chão da adega de pedriscos, não tem nenhuma função mágica de retenção de umidade ou de manutenção de temperatura. A função do pedrisco é simplesmente a de servir de amortecedor caso, no manuseio, alguma garrafa caia no chão.

São verdadeiros tesouros guardados debaixo da terra com diversas vantagens: ausência de trepidações, total controle de incidência de luz, da umidade relativa do ar e da temperatura. Entre os vinhos da reserva podem ser encontradas jóias raras, entre elas o polêmico Romanée Conti, safra de 1988, pela bagatela de quase 12 mil reais a garrafa, ou os famosos Château Lafitte Rotschild e Château d’Yquem.

Mas a carta de vinhos do restaurante não se resume apenas aos rótulos de alto luxo. A Locanda tem uma ideologia em relação à carta de vinhos: ela deve ser, antes de tudo, dinâmica e não estática, privilegiando todas as regiões produtoras de vinho. Existe uma preocupação clara com a mudança das estações, oferecendo em época de grande calor, maior opção de vinhos brancos e, em época de frio, aumentando a oferta de vinhos tintos. Fica clara a preferência pelas duas viniculturas mais importantes do mundo: a Itália e a França, mas também dão destaque aos vinhos mais expressivos de outras origens.

No último final de semana de outubro, a adega costuma passar por mais um dos seus movimentos.O Danio chega do exterior com trufas frescas para o cardápio do restaurante e, com isso, a disposição dos vinhos é modificada para deixar mais à mão os vinhos que melhor combinam com essa iguaria.

Se você estiver por perto de Petrópolis (são apenas 40 km do Rio de Janeiro), prepare o bolso e não perca a oportunidade.

domingo, 24 de fevereiro de 2008

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Conticulóides míticos


Narciso
Depois de analisar toda a topografia da casa, ela se enforcou diante do espelho.
Até na morte sua auto estima vivia na estratosfera.

Zeus
Mesmo casado tinha uma namorada em cada canto e se achava o maioral da parada.
Foi preso depois que sua mulher desistiu de perseguir as amantes e o denunciou na delegacia da mulher.

Atena
Não aguentava mais aquela enxaqueca, já tentara todas as ervas conhecidas e desconhecidas. Em alguns momentos teria dado com a cabeça na parede.
Salvou-a um neurocirurgião com seus bisturis fundidos a fogo.

Héstia
A vida inteira foi uma dona-de-casa, vivendo às custas do aluguéis que recebia de imóveis recebida como herança. Tida como casta e pura, ninguém nunca soube das suas aventuras. Até o dia em que a polícia invadiu a casa e identificou o DNA de várias vítimas cujos ossos eram queimados na lareira.

Perséfone
Seus sumiços frequentes atormentavam a sua mãe, que caía em depressão todas as vezes que ela saia de casa sem dizer para onde ia. Só voltava 4 meses depois de garantir uma boa poupança no inferninho onde trabalhava.

Olimpo
Era um gourmet, resolveu abrir um restaurante onde pudesse servir ambrosia e beber néctar ouvindo as mais sofisticadas bandas de jazz. Caiu nas graças do escol. Até o dia em que a vigilância sanitária interditou o estabelecimento por falta de alvará de funcionamento.

sexta-feira, 22 de fevereiro de 2008

Me engana que eu gosto


O exemplo clássico de frase "me engana que eu gosto" é quando alguém diz que compra a Playboy por causa da entrevista. Além de uma demonstração de onanismo intelectual é uma forma explícita de chamar o seu interlocutor de burro. Mas essa prática (de enganar, não de ler a Playboy) tem uma coleção de variantes, abaixo algumas outras clássicas (adicione a sua nos comentários) :

Eu subi no elevador com aquela mulher do 4o andar. Ela estava usando um perfume tão forte que acho que grudou em mim.

Eu vou dormir na casa da fulana porquê ela mora mais perto da escola e amanhã a gente não perde o horário da prova. (também na versão masculina)

O whisky que serviram naquele coquetel era tão vagabundo que me deixou com um bafo de quem tomou uma garrafa.

Atropelaram um motoqueiro na marginal e o trânsito está todo parado.

O médico só tinha horário disponível na sexta-feira à tarde

Deve ser algum tipo de praga me jogaram, todo carnaval morre algum parente meu.

Mala direta de motel para mim ? Esses marketeiros pegam qualquer lista e ficam mandando essas porcarias.

Fulana ? Nem lembro quem é... (também na versão feminina)

Não, não recebi seu e-mail... essa Internet anda mesmo uma porcaria. (pode ser a secretária real ou eletrônica, o SMS....)

Nota baixa ? Acho que foi algum erro de digitação da secretaria, amanhã eu vejo isso.

É só um minuto... já vou... é prá já....e todas as equivalentes.

quinta-feira, 21 de fevereiro de 2008

Oximorose


Dedicado a Luiz Vaz de Camões autor do maior oxímoro da língua portuguesa*


Anabell acreditava que o amor transcendia todas as antinomias mundanas. Na sua lúcida loucura que ela exercia com uma espontaneidade calculada começou a sair com um ilustre desconhecido vindo do movimento apolítico que combatia a ditadura democrática.

Na sua guerra santa contra o socialismo de mercado sempre discriminou positivamente num breve discurso contra os políticos honestos. Na sua autêntica falsificação acabou se enredando com valente covardia numa realidade ficcional onde ouvia música silenciosa na sua varanda de obscura claridade.

Esse claro enigma foi alvo de boatos fidedignos que espalhavam mentiras sincera sob a inocente culpa de ambos, veiculados em todas as televisões educativas.

Anabell com sua típica humildade argentina perpetrou com seu amante um tácito tumulto só controlado com gelo fervente, que fez daquele um instante eterno.

Depois disso só restou um longo silêncio eloqüente e a relação entrou em crescimento negativo.


Oxímoro é o enunciado contraditório onde na conjunção de duas proposições uma é a negação ou implica na negação da outra.

Soneto*

Amor é fogo que arde sem se ver,
É ferida que dói, e não se sente;
É um contentamento descontente,
É dor que desatina sem doer.
É um não querer mais que bem querer;
É solitário andar por entre a gente;
É nunca contentar-se de contente;
É cuidar que se ganha em se perder.
É querer estar preso por vontade;
É servir a quem vence, o vencedor;
É ter com quem nos mata, lealdade.
Mas como causar pode seu favor
Nos corações humanos amizade,
Se tão contrário a si é o mesmo Amor?

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2008

Tempo, tempo, tempo, tempo


Depois do acúmulo de insanidades recente, achei melhor pegar mais leve.


Tempo


A partir de um texto de Ana Cláudia Braga


Pequeno gesto
Anônimo , impensado,
Passado.
O rei pressente
a falta de apoio
Presente .

Nem haste, nem copo
Fotos, cenas passeios
Passado .
Pouco importa a forma,
Aroma que se sente
Presente .

Chora a nota do piano
chora sax assoprado
Passado .
Hoje passa o presente
O amanhã é passado
Dormir passado
Acordar presente.

Memória :
a melhor das formas - passado ;
a pior das penas - presente.

terça-feira, 19 de fevereiro de 2008

Frugal gourmet


Aquela noite celebravam-se as bodas de ouro da confraria dos gourmets esquizofrênicos da Bessarábia Oriental. Homens que, um dia, tinham se revoltado contra a lei imperial obrigava o uso de flor de sal em todas as carnes de ungulados e foram para as ruas protestar lançando azeite de gengibre nos limiares de todas as casas que não tivessem um lemur primogênito.

Esse movimento foi o suficiente para alçar a ira da turba massa em direção ao palácio e depor Abedzassar LIX, o Ungulófago. Essa história está relatada em detalhes no livros das crônicas dos impérios improváveis, único livro que resistiu à destruição das bibliotecas de Pérgamo e Alexandria, até por ter sido escrito em sânscrito com caracteres ciríacos, o que lhe conferia propriedades apirotécnicas.

O grande jantar realizou-se no salão helicoidal do palácio privé de outono/inverno da Res Pública. Cada um dos remanescentes da confraria (que eram só 6) deveria preparar um prato à base de Ungulata sem sal, em memória da Revolta da Flor de Sal.

Além dos confrades, estavam presentes o presidente do país, os líderes das câmaras alta e baixa, assim como o grão vizir da Câmara Hiperbárica. Não foi permitida a presença de cônjuges de qualquer gênero.

Os pratos foram atribuídos por ordem alfabética :

Entrada fria, por Antonio Abcessoaldro, à base de Perissodactyla. Antonio, um mestre na arte de empanar, preparou mocotó de zebra à milanesa sobre um leito de folhas de baobá, ao molho de óleo de sementes de andiroba (não confundir com o Adiron). Bocas estalaram antes e depois de servido.

Carolíngio De Puis y Hier, foi responsável pela entrada quente de artiodactyla fendida e trouxe à mesa um rocambole de tripas de girafa ao pesto de fígado de rã (uma raridade caríssima contrabandeada dos mangues da Bessarábia Ocidental). A essa altura já se servia uma safra cinquentenária de Château de Dieu M´Exempte.

Para o prato de massas, foi convocado Manuriconix von Befreitt, a quem foi atribuído um artiodactyla quadricarpo. Dele fez um tagliarini a congolesa (com coxão duro de hipopótamo moído) e alhos frescos da Transilvânia. O grão vizir revirava os olhos.

A Паыль Александр изымает coube o prato de resistência, com a incumbência de usar Cetacea na sua receita. Fritou em óleo de linhaça barbatanas de manati acompanhadas de batata agridoce. Seus colegas tiveram espasmos de emoção, Carolingio chegou a derramar lágrimas. O presidente da Res Pública, por suas vez, não continha seus espamos flatulentos.

Veio a sobremesa, à base de Proboscidea, sob a responsabilidade de Degodredt de Koningin. Esse não poupou esforços e serviu uma torta de marfim moído envolta em fios de ovos de avestruz. Abcessoaldro urrava de furor figadal, Maruconix se embebedava e Паыль cantava, sózinho, hinos polifônicos de Palestrina.

Todos ficaram esperando o que Zoroastruxico iria fazer com queijos, sendo obrigado a usar Probathyopsis, uma vez que todos esses seres estavam extintos há milênios. Mas ele não podia decepcionar seus colegas. Serviu um prato de queijos feitos de leites diversos e curados em fungos de esqueletos da besta do deserto de Góbi. Junto uma garrafa de champagne Jemesens Malade. Resultou num orgasmo sensorial coletivo.

No dia seguinte, logo pela manhã foram acordados pelos foguetes. Abedzassar LX marchava triunfalmente pela cidade, de volta do seu exílio. Seus primeiros editos foram de enviar para trabalhos forçados nas salinas todos os participantes do jantar e assinar a lei de abertura dos portos a todas as cadeia de fast-food amigas.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Discutindo a relação


Uma relação binária, ou seja, entre duas pessoas, é uma correspondência existente entre dois conjuntos não vazios A e B. É importante que os conjuntos não sejam vazios, caso contrário, ou A ou B estará falando com a parede e, nessa hipótese, não se discute barafunda nenhuma e qualquer hipótese matemática, assim como certas vacas, já foi para o brejo.

O conjunto A é denominado conjunto de partida e o conjunto B é denominado conjunto de chegada. É importante ressaltar que partida, nesse caso, não se trata de partir um prato na cabeça do outro. Nem chegada é o ato, popularmente conhecido como "chegar junto', isso não tem nada a ver com a retórica, ainda que algumas vezes seja benéfico para o contexto como um todo.

Se A e B forem pessoas comuns, a correspondência entre os dois conjuntos é dada em termos de pares desordenados, onde o primeiro elemento do par é ordenado e procede do conjunto de partida A e o segundo elemento do par procede do conjunto de chegada B, com o único objetivo de destruir qualquer possibilidade de lógica no sistema. A possibilidade de entropia é nula. Nem se aventa a hipótese de ímpares ordenados, essa só é possível entre pessoas incomuns.

Os conjuntos de partida e de chegada não tem necessariamente que ter uma estrutura, o que é bastante frequente quando se chega ao ponto de se discutir a relação. Entretanto, segundo o tipo de estrutura que é sobreposta a esses conjuntos e o tipo de restrição que se impõe à própria relação, têm-se tipos especiais de relações, cada qual com um nome específico. Os nomes mais comuns são filoxera, mnemônico, filologia e fofinho.

O baixo calão também é bastante utilizado, mas a Fapesp veta-os para fins de estudos científicos, nesse caso além da relação ir para o espaço, perde-se também a bolsa.

Sacou ?

domingo, 17 de fevereiro de 2008

Contículóides obstrusos


Envidia
Quando ele chegou em casa ela estava com as malas prontas, nada a faria mudar de idéia.
Ele entregou a chave do carro e passou a noite sonhando com o carnaval na praia.

Selenitas
Mulheres de bicicleta vagam na noite de lua cheia revirando os lixos em busca de latinhas para vender.
A economia da cidade é movida por uma dose de vampirismo etílico.

Chiroptera
Os planos de Alice não previam aquele encontro inusitado e fatal.
Poucos morcegos sobreviveram à furia da Rainha de Copas que clamava por cabeças frescas.

Anastomasia
Quando ela escrevia poemas quase todos gostavam, ou se calavam.
A jugular pulsando, no entanto, só foi vista quando passou a ser autobiográfica.

Abstineri debet aeger
Tentou entrar num programa de desintoxicação digital. O método era radical, rápido e, segundo os médicos, infalível.
Só começou a se recuperar da crise de abstinência quando, na UTI, o médico lhe aplicou soro através de um cabo de rede.

sábado, 16 de fevereiro de 2008

Continua me assombrando

Though I am old with wandering
Through hollow lands and hilly lands,
I will find out where she has gone,
And kiss her lips and take her hands;
And walk among long dappled grass,
And pluck till time and times are done,
The silver apples of the moon,
The golden apples of the sun.

Sete e sete são catorze


Seth nasceu dia 7 de julho de 1977, com 3,5kg e 49cm. Teve uma infância comum mas, aos 14 anos, sua vida virou de ponta cabeça ao conhecer os significados cabalísticos da numerologia. Coincidentemente, foi logo depois de despencar de uma escada de 7 degraus e passar 7 dias internado numa UTI. Assumiu que sua existência toda dependia do número que muitos consideram mágico, outros trágico e, não poucos, conta de mentiroso.

Passou a condicionar todas as suas ações por essa referência. Tornou-se o aluno mais estudioso da turma. Não porque queria ser o melhor, mas poder tirar nota 7 em todas as suas provas. Sabia tanto que tinha a capacidade de deixar respostas em branco nas provas com esse objetivo. No vestibular passou por uma crise de identidade ao prestar 7 concursos, ser aprovado em todos, mas não conseguiu ser o sétimo colocado em nenhum e , pior, não encontrou nenhum curso superior de 7 anos.

Formou-se com média 7 e logo conseguiu um emprego, onde trabalhava das 7 às 19h, onde trabalhou por 7 anos. Subornou funcionários das companhias telefônicas, do departamento de trânsito e até dos serviços de identificação para obter os número da sua vida para telefones, placa de carro e documentos. Mudou 7 vezes de banco até conseguir um número de conta corrente adequado. Morava na rua Sete de Setembro 777. Sétimo andar, é claro.

Era um apaixonado por cinema. Seus filmes preferidos eram : Os 7 samurais, 7 noivas para 7 irmãos, o Sétimo selo, Branca de Neve e os 7 anões, 7 homens e um destino e todos do 007. Não tinha a mesma admiração pela música mas gostava de todas as 7as sinfonias existentes e de Seven, cantada pelo Bowie. Os sete, de André Vianco, era o seu livro de cabeceira. De Borges só lia Siete Noches. Escrevia poemas, em redondilha maior ou em heptâmetros.

Tinha todas as suas roupas em múltiplos de 7. Seus sapatos tinham saltos para mantê-lo com 1,77m, se pesava todos os dias e garantia os seus 77 kg com uma dieta que variava de acordo com as perdas ou ganhos de peso. Viajou muito, singrou os 7 mares e conheceu as 7 maravilhas do mundo. Visitou o Parque Nacional das 7 cidades e os 7 Povos de Missões. Chegou a ter um sítio em Sete Barras onde construiu uma casinha heptagonal.

Assumiu que não poderia se casar pois não poderia ser heptágamo*, chegou a cogitar mudar para uma religião que isso fosse permitido, mas nenhuma das possíveis aceitava sua aritmomania**. A igreja do Sétimo dia não permitia nem uma coisa nem outra. Por desaforo, dedicou-se a continuamente cometer os 7 pecados capitais.

Desenvolveu um complexo sistema para manter-se permanentemente com 7 namoradas. Fazia planilhas de programação de encontros e, no seu Palm, versão 7, mantinha um resumo dos gostos e características de cada uma, que consultava antes de cada saída. Além disso criou um modelo de conversas génericas de forma que falava dos mesmos assuntos com todas. Na primeira vez que tomou um fora, constatou que precisava manter, além das 7, sempre mais uma em prospecção.

Já havia projetado toda sua vida para morrer aos 77 anos, mas acabou sendo atropelado na Sete de Abril, pelo ônibus da linha 1777 - Metrô Tucuruvi, às 7 da noite do dia 7 de julho de 2007.

Acabou a 7 palmos de profundidade.

*não procure, essa palavra não existe.
** essa existe sim !

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

Pulei a cerca de novo


Parece uma coisa inevitável, chego a ter crises de abstinência. De tempos em tempos me vejo obrigado a pular a cerca e trair de novo. Dessa vez em dodecassílabos.

A vítima dessa vez foi o Paul Verlaine, um dos poetas decadentes (ao lado de Mallarmé e Baudelaire).

O nome do poema, em inglês, não pode ser traduzido nem como verde, nem como o gramado dos campos de golfo. A fada verde (La fée verte) era o apelido dado ao absinto, bebida consumida ferozmente por essa geração de poetas.

Se você tem voz de barítono, existe uma versão musical do poema, basta baixar a partitura .

Green

Paul Verlaine

Eis aqui os frutos, flores, folhas e galhos.
E meu coração, por ti, a bater perdura
Que tuas mãos brancas não o deixe em frangalhos
E teus olhos tudo recebam com doçura

Eu chego, coberto a fronte, de fino orvalho
O vento da manhã gela minha figura,
A teus pés repouse meu corpo lasso e falho
Com sonhos brandos afastados da amargura.

Minha face sobre teu seio enfim descanse,
Ouvindo ainda o som dos beijos me ninar,
Sossego, da tormenta fora do alcance,
E eu durma tranquilo junto a teu repousar.

O texto original é

Voici des fruits, des fleurs, des feuilles et des branches
Et puis voici mon coeur qui ne bat que pour vous.
Ne le déchirez pas avec vos deux mains blanches
Et qu'à vos yeux l'humble présent soit doux.

J'arrive tout couvert encore de rosée
Que le vent du matin vient glacer à mon front.
Souffrez que ma fatigue à vos pieds reposée
Rêve des chers instants qui la délasseront.

Sur votre jeune sein laissez rouler ma tête
Toute sonore encor de vos derniers baisers;
Laissez-la s'apaiser de la bonne tempête,
Et que je dorme un peu puisque vous reposez.

As outras traições estão em :

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2008

Malhação


No meu caso precisaria ser o mouse..

Puros ou cortados ?


Muitas vezes, ao enfrentarmos uma prateleira de vinhos em uma adega ou mesmo no supermercado nos deparamos com uma infinidade de nomes produtores, regiões, "appellations", safras e nomes de uvas e mal sabemos por onde começar a nossa escolha. Geralmente sabemos se vamos comprar um vinho tinto ou branco, mas a partir daí o caos se instala.

Pensando só na questão da uva, o que acontece quando encontramos uma garrafa que tem o nome da uva no seu rótulo e outra que não indica a uva que foi utilizada na fabricação do vinho? Uma das tendências típicas de quem está se iniciando no mundo dos vinhos é escolher aquele que indica a uva - a esses vinhos, produzidos com um único tipo de uva, damos o título de varietais. Os vinhos varietais são mais comuns nos países do novo mundo. Por uma questão mercadólogica (existem mais principiantes do que maduros nesse mercado) algumas vinícolas européias também têm aderido à produção de varietais.

De outro lado, temos os chamados vinhos cortados, ou seja, são feitos com uma mistura de várias uvas chamadas de cortes. Esses vinhos são menos comuns fora da Europa, pois é uma técnica complexa e muitas experiências continuam sendo feitas. Não existe uma regra geral sobre a quantidade ou o tipo de uvas que devem entrar na composição de um vinho cortado. Algumas regiões têm regras específicas para os vinhos produzidos nelas. Por exemplo, o tradicional corte bordalês (sim, esse é o termo em português para se referir à região de Bordéus...arghhh) para vinhos tintos precisa ter obrigatoriamente uvas cabernet sauvignon e merlot, podendo ainda ter um quantidade menor de cabernet franc, malbec e petit verdot. Em algumas sub-regiões de Bordeaux ainda se definem porcentagens mínimas das uvas principais dos seus vinhos.

No entanto, você quase nunca vai saber quais uvas foram utilizadas, pois essa informação dificilmente consta do rótulo e, se consta, jamais vai saber qual a proporção de cada uma das uvas - são segredos guardados nos mais fundos cofres dos bancos suiços. Uma exceção que conheci foi o Z Cuvée da vinícola Zaca Mesa , produzido no Condado de Santa Barbara na Califórnia. A safra de 2005 especificava no rótulo o percentual de cada uma das uvas : 29% de grenache, 48% de mourvedre, 20% de syrah, 3% de cinsault (algumas safras mais antigas também usavam a counoise e muito mais grenache que mourvedre).

O vinho era excepcional.

Será então que vale a pena comprar e beber esses vinhos misteriosos? Um vinho cortado depende de muitas coisas para dar certo. Todas as uvas que o compõem precisam ter tido uma safra, no mínimo, boa. A vinificação de cada uma das cepas precisa ter sido bem feita. O mais importante: o produtor precisa de muita sensibilidade para poder fazer o balanceamento das diferentes uvas.

Mas o vinho cortado quando é bom é muito melhor do que qualquer varietal e isso acontece porque, se bem produzido, ele é capaz de extrair as melhores características de cada uma das uvas e amaciar os eventuais defeitos combinando uvas que tenham características que "limpem" esses defeitos. Se a cabernet sauvignon está com excesso de taninos e a merlot com pouca acidez, a adição de doses certas de cabernet franc poderá transformar o que seria um desastre num vinho excepcional. Uma uva cinsault sozinha provavelmente deixaria qualquer enólogo frustrado pela sua falta de robustez, mas um pequeno toque na mistura pode trazer o teor de açúcar que estava faltando.

No caso dos varietais isso é impossível. Se a safra de um cabernet foi ruim, o vinho vai ser ruim, se choveu demasiadamente sobre uma plantação de chardonnay, nada poderá recuperar seus aromas frutados.

Mas, se você for um iniciante, uma dica: comece pelos varietais. Experimente diferentes versões de cada um deles para descobrir as qualidades e os defeitos de cada uva e para começar a identificar os sabores e aromas de cada uma delas. Depois disso comece a experimentar os cortados, de preferência aqueles que utilizam os cortes tradicionais como os bordeaux, e tente identificar neles as uvas que o compõem. Depois é só seguir com a aventura por outros países e outras uvas.

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

Carta da amiga


As cartas de amor
deveriam ser fechadas
com a língua.
Beijadas antes de enviadas.
Sopradas. Respiradas.
(Fabrício Carpinejar)



Calor de verão. Dias de sol. Tempestades repentinas.

Amigo

Fernweh. Nostalgia. Dores de distância. Dores de regresso.

Um dia comecei um texto que iria se chamar Nostalgia (dor do regresso : “nostos = regresso ; algos = dor". Em bom grego como você gosta : νόστος άλγος), o primeiro verso dizia que o tempo curaria as dores de amores . Eu tentava acreditar naquilo. Me esforçava para acreditar naquilo. Ainda não descobri exatamente qual é a dimensão desse tempo.

Depois, com Schiller, aprendi outra palavra : fernweh ("dor= weh , no sentido de falta/ausência de algo; da distância = fern ) um termo alemão absolutamente intraduzível. Seria algo como a saudade do distante, não distância no espaço mas no tempo, ou seja, algo como uma saudade ou nostalgia de algo que ainda não aconteceu e parece que está longe de acontecer. Algo que é possível sentir, mas não achei nenhuma expressão na língua portuguesa que fosse razoável para definir esse sentimento.

Nada mudou.Tudo mudou. Algo (ou terá sido algos ?) me afastou daquele momento. Dúvidas, imaturidade, insegurança. Ou terá sido simplesmente a demanda de um cronograma amoroso ? Meu amor não tem prazo de validade que precise ser consumido antes de apodrecer. Aquele relacionamento estava recheado de prazos e datas.

Tudo mudou. Nada mudou. Não perdi nem acabou o meu amor. Mas tenho a impressão que, com o tempo, pode acabar - " not with a bang, but with a whimper ". Tenho a sensação de sentimento abundante e, ao mesmo tempo, não aproveitado.

Meus amores imaginários doem menos.

Mudou tudo nada. Sei que nunca mais vou ter os sentimentos que tive no passado e os do presente não são os que me seduzem.

Nada mudou tudo."O coração continua ". Eu continuo igual. Apesar de sofrer as consequências de ser romântica, apaixonada, poética e sonhadora, eu gosto de mim dessa forma.
Ainda bem, sou a única pessoa com quem terei de conviver até o final dos meus dias.

Tudo mudou nada. Apesar de tudo, você continua sendo um anticorpo poderosíssimo para angústia, depressão e "mal-de-coeur".

Tudo. Se for para falar de um amor sem prazo, sem distância, sem trombadas, prefiro falar do nosso.

Ósculos indizíveis

A "Carta à amiga" pode ser lida aqui

terça-feira, 12 de fevereiro de 2008

Sinesteana


Solto no ar
Quase livre
voar voar
e fotografar

Clareando claro lendo
Poemeu, texto meu
Amarana Ana amar
Solidariedade

Cadeira de balanço
Serenata e poesia
Flor na janela tão longe
Mas ouvia

Caríssima e mortal
Suicida
Carisma morte tal
Sinestesia

O poema é presente
O tempo ressente
Não estar sempre ao teu lado
Não cantar tudo que gostaria

Som imagem cor
Some e age a dor
Meio e mensagem
Libertinagem

Tudo ao mesmo tempo
Voar. Serenata.Morte.
Poema.Carisma.Foto.
Sinestesia.Presente.

Aesthésis conjunta
Infinita enquanto dura
Poema canção paixão
Amar morrer e fim.

Fragmentos de um convite amistoso


Houve um tempo em que eu acreditava que as mulheres eram imprevisíveis.

Talvez realmente o fossem, não por uma questão própria das suas naturezas, mas pelo fato de que eu as não conhecia o suficiente para entender o que estava acontecendo. Claro que tomei tombos fenomenais em função disso. Alguns doeram mais no orgulho que nas nádegas, mas sobrevivi a todos. E aprendi com eles.

Ainda jovem já sabia o que estava por trás de algumas frases clássicas. Podemos almoçar ? (estou namorando outro e não posso sair à noite). Preciso conversar com você. (prepare-se, vais tomar um fora). Você sabe, o problema é comigo. (arranjou outro bem mais interessante que eu). Hoje não é um bom dia (não está afim mesmo).

Depois comecei a ler Barthes, de Barthes fui a Lacan. O discurso foi ficando cada vez mais divertido de ser lido. Mais do que as frases, comecei a reparar no todo, afinal a linguagem vai muito além da fala. Olhares para mim ou para o lado eram verdadeiras declarações.

Chegaram os tempos de Internet, e surgiram novas formas de manifestação do implícito. Respostas rápidas e curtas dizem uma coisa. Se o texto for longo, repare na linha de assunto - é o bem ou o mal em profundidade. As frases escolhidas para ilustrar o MSN são reveladoras. Perfil do Orkut, nem se diga.

Mas nem o mundo virtual consegue mudar as intenções. Se aquela sua amiga de troca constantes de mensagens desaparece repentinamente, pode ter certeza, ela está de namorado novo. E nem adianta ligar, a menos que você esteja com vontade de receber um convite para almoçar...

Carta à amiga


As cartas de amor
deveriam ser abertas
com os dentes.


Cinza escuro, um dia qualquer de um ano comum.
Amiga,

Fiquei feliz ao saber que, apesar dos tombos, a fase é a de recomeçar. April is the cruelest of the months.... would say Mr Elliot. Ele se referia a outras sensações e sentimentos, mas não deixa de ser verdadeiro para você. E não deixa de ser verdadeiro para mim... Esta carta talvez reflita mais o que sou do que o que tenho feito. Os temas são simples de mencionar, difíceis de compreender e impossíveis de explicar.

A cabeça do seu amigo está em parafuso. na verdade não sei se a minha intenção é a de buscar orientação , pois sei toda a lógica do que me poderia ser aconselhado ; se é a de buscar solidariedade , mesmo porque não seria fácil para você ser solidária naquilo que você não conhece ; ou se apenas busco alguém que possa me ouvir.

Aos poucos, em almoços com temas variando de “psicologia barata“ (diferenças entre amor e paixão, ou sobre as bengalas que usamos para compensar a falta de pernas emocionais), passando por Cole Porter, até amizade e poesia, descobri uma pessoa que passei a amar como amiga. Alguém que eu queria ajudar e ao mesmo tempo que me entendesse (portanto me ajudando). Um amor muito parecido com o que sinto por você.

Como você pode notar mesmo se você não me conhecesse como você me conhece, alguma coisa além de amizade estava acontecendo. Ela percebeu sem perceber, pois preferiria não acreditar que isto pudesse estar acontecendo. Do ponto de vista racional eu também não queria acreditar. Eu queria não dizer, mas sentia e este sentimento me apertava. Eu queria que não acontecesse, mas cada vez menos conseguia resistir a mim mesmo. Pode parecer engraçado, mas o amor-amigo era e é tão forte, que meu maior medo era e é deixar o amor-eros machucá-la. Era melhor que eu me machucasse do que ela. Mas sabe o que o apalermado do seu amigo fez ? Entregou para ela um poema que ela nunca deveria receber.

Pior. Ou melhor, quem poderia dizer : ela gostou . E apesar de todos os seus medos e traumas ela também não foi capaz de evitar... Neste meio tempo, entre uma parte e outra chegamos a escrever um poema a quatro mãos (ou serão apenas duas ?) , sobre nossas experiências de degustação de vinho. Rituais. Nos pegamos em plena temporada de acasalamento, “ abril é o mais cruel dos meses “ - despertar de sonhos e desejos....

O mais delicioso dos rituais do amor e da paixão....O que que isto significa ? Tudo o que você pode imaginar, romântico e apaixonado. Assustador não é ??? E daí ? E daí cada dia me sinto mais apaixonado. E daí ? E daí que você tem tantas coisas mais sérias para se preocupar e eu fico te enchendo a cabeça com imaturidades e falta de juízo. E daí ? E daí que eu precisava te contar tudo isto...

Não vou te fazer, ainda, uma descrição mais detalhada dela, mas uma coisa eu preciso te contar. É a identificação dela com você. Como ? Primeiro por tudo que eu já contei a seu respeito - e não foi pouco. Aliás , ela é a pessoa que conseguiu chegar mais perto da compreensão da nossa amizade (será que nós compreendemos ?) . Ela é a primeira pessoa para quem eu falo de você tudo o que eu sinto , sem me preocupar com “ afterthoughts” . Depois , ela leu todos os poemas que eu escrevi para você e, notei que ela captou a minha intenção ao escrevê-los.

Finalmente, eu fiz uma coisa incomum , mostrei para ela a última carta que eu te escrevi (permitida pelo fato de eu ter a carta em arquivo - será que esta informatização torna as coisas menos românticas ou permite explorar o romantismo em outras latitudes ?). Outro dia ela comentou : “ parece que eu conheço sua amiga há tanto tempo...” E é verdade, ela fala de você como se realmente te conhecesse (conhecendo a minha versão a seu respeito) .

Realmente eu gostaria de saber mais sobre a sua nova leitura dos poemas, de qualquer forma, não se preocupe em responder as minhas cartas no mesmo ritmo que eu as escrevo, principalmente porque eu escrevo demais. Take your time... Antes de mais nada cuide da sua cabeça e do seu coração que são mais importantes para mim do que cartas. Mesmo escrevendo continuo com muitas saudades.

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Aforismos inconsequentes, sempre


Rojões e fogos de artifício são, junto com o tabaco, a forma mais literal de se queimar dinheiro.

Quem mais lucrou com o caos aéreo foram as lanchonetes dos aeroporto.

Ex-mulher está mais para segunda mãe ou para segunda sogra ?

Existem sonhos que, quando acordados, nos parecem pesadelos.

Até hoje não encontrei nenhum antônimo satisfatório para rotina.

Ansiedade é a tristeza do que ainda não aconteceu.

O bem amado


O mar é grande e cabe na cama e no colchão de amar. (Drummond)


Ela olha para mim e se queixa. Diz que eu a dispenso e a troco por um colchão. O que fazer se o colchão sabe cantar músicas de ninar e ela insiste que eu fique acordado ?

Meu colchão, todas as noites, me chama com promessas de sonhos. É verdade que eu nunca consigo me lembrar de nenhum deles, mas certamente eles acontecem o que deixa meu amigo de quarto com mais razão ainda.

Além disso, ele tem a densidade ideal para a minha coluna, o que me permite um um estilo de vida mais saudável. Ele se amolda ao corpo como ninguém até hoje fez. O material possui grande resistência às deformações (fundamentais no meus caso) e promove uma leve pressão em direção ao corpo, o que permite um melhor fluxo de circulação sangüínea durante o sono. Gostaria de entender melhor o que o meu sangue fica fazendo a noite toda, circulando por aí, mas isso é outra história.

O bichinho é ecológicamente correto (bem diferente do travesseiro que me acompanha há anos, de penas de ganso) e feito com fibras de bambu, o que nunca me permitiu adotar um koala como animal de estimação.

Ele é um fresco. Não tomem minha afirmação como ofensiva, é que o fabricante jura de pés juntos que o bambu é mais permeável e, portanto, ventila melhor. Nunca consegui fazer o teste. Naqueles dias que o calor apavora, eu suo do mesmo jeito.

Para completar a oitava maravilha do mundo moderno, meu amigo é hipoalergênico (bonita palavra, não é mesmo ?) e afasta fungos, micróbios e ácaros. Eu sou um menino limpinho e adorei esse recurso.

Com todas essas qualidades, não há como resistir ao seu cotidiano chamado noturno. Mesmo quando ela se vira para o lado e murmura alguns desaforos.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Sabe Deus que angústia te acompanhou

Sai-me dos dedos a carícia sem causa,
Sai-me dos dedos...
No vento, ao passar,
A carícia que vaga sem destino nem fim,
A carícia perdida, quem a recolherá?
Posso amar esta noite com piedade infinita,
Posso amar ao primeiro que conseguir chegar.
Ninguém chega. Estão sós os floridos caminhos.
A carícia perdida, andará... andará...
Se nos olhos te beijarem esta noite, viajante,
Se estremece os ramos um doce suspirar,
Se te aperta os dedos uma mão pequena
Que te toma e te deixa, que te engana e se vai.
Se não vês essa mão, nem essa boca que beija,
Se é o ar quem tece a ilusão de beijar,
Ah, viajante, que tens como o céu os olhos,
No vento fundida, me reconhecerás?

(Alfonsina Storni)

sábado, 9 de fevereiro de 2008

Sexo, mentiras e Internet


O Google é a segunda fonte de tráfego do Mens Insana (indecentemente...todas as outras ferramentas de busca juntas representam menos de 1% do total dessa categoria).

Olhando suas estatísticas, dentre as palavras mais buscadas no Brasil, no passado recente, incluem Natália Guimarães (quem ?), Rachel Bilson (quem ? quem ?) e Neji Hyuuga (quem ? quem ? quem ?).

Curiosamente, contrariando a tradição, palavras de cunho sexual estão em baixa - ou eles excluem das estatísticas, o que me pareceu mais provável - nenhuma consta da lista dos 48 países que eles analisam no Zeitgeist.

É verdade que as top ten do blog também não são referências eróticas, as mais procuradas são alguns termos técnicos que eu usei de forma insana como catabólitos, litíases e paideuma. Mas, dando uma olhada na relação completa é impressionante a quantidade de palavras usadas como busca de conteúdo que fazem referência a sexo.

Claro, o perfil é muito provavelmente mais masculino. Fulana ou beltrana nua. Mulheres, loiras, morenas ou ruivas de verdade. Outras são neutras quanto ao gênero : motel, pornografia, swing. Não pensem que as mulheres também não fazem esse tipo de busca...

Também me chamou a atenção a quantidade de buscas com erros de ortografia e especialmente alguém que chegou no site procurando : "alugar apartamento na rua diderot".

Aí pensei, vou escrever um texto que vai jogar a leitura do site para a lua, seria algo no seguinte estilo :

"Depois que Natália Guimarães fez um strip tease cheio de catabólitos em companhia Neji Hyuuga, cheio de sensualidade, o motel locupletou-se de garotas e mulheres loiras, morenas e ruivas de verdade. Rachel Bilson que não é de swing, espantou-se com a pornografia local e perdeu-se em litíases durante o paideuma."

Daqui a alguns dias conto para vocês o resultado dessa insanidade.

Entre nós



Entreaberta a blusa
Pele macia se apresenta
Fantasias, desejos constantes
Tão táteis
Tão próximos
Tão distantes.

Entreabertos os olhos
Brilho úmido, quase transparente
Ameaçado em lágrimas contidas
Assim sentidas
Pouco a pouco
Distraídas.

Entreaberta a história
Passado quase presente
Dias tão flutuantes
Pessoas, viagens
Sabores, poesia
Amores, amantes.

Entreaberta a alma
Pesada, leve, desconhecida
Escancarando idéias, melancolias
Sugerindo intenções
Despejando emoções
E alegrias

Entreaberta a blusa
Quando menos se supõe
A razão finge ser mais importante
O sonho foge
A realidade flui
Como um Chianti

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Com açúcar, sem afeto


Quem te ver passar assim por mim, não sabe o que é sofrer, já diriam os hermanos.

Da mesma forma, muitos que me lêem podem ser levados a acreditar que eu sou um daqueles conhecidos do Fernando Pessoa que nunca levou porrada na vida. Eu gosto de cozinhar. Modéstia às favas faço isso bem (tenho testemunhas várias), o que não significa que, de tempos em tempos, eu não cometa um desastre culinário qualquer.

O primeiro que eu me lembro já tem quase 30 anos. Tinha ido para New Orleans e me esbaldado com as culinárias creole, cajun, italiana e francesa. Um paraíso gastronômico, muito mais do que de jazz (se você quiser ouvir jazz de primeira mesmo, vá para Nova York ou Chicago). Estava nos primórdios da minha educação como piloto de fogão e resolvi fazer um jantar baseado num livro de receitas que trouxera de lá. A jambalaya ficou muito boa, até porque tinha trazido junto alguns ingredientes. Para a sobremesa fui fazer uma mousse de chocolate branco que era a coqueluche de um restaurante chique da cidade.

Com sobremesa não se brinca, já diria meu amigo Tadeu Masano, se estiver escrito 27 gramas e meia...arranja uma balança que permita medir isso. Segui a receita ao pé da letra. Converti as medidas americanas para os padrões nacionais, contei os segundos dos tempos de cozimento e congelamento. E apareci na sala com aquela obra de arte.

Como sempre faço, esperei meu convidados se servirem e experimentarem. Gosto de observar as reações. Não poderia ser pior. Caretas com tentativas de disfarces, pessoas se esforçando para pegar uma segunda colherada menor (muito menor) que a primeira. O mais sincero só disse : "...é , acho que eu já estou satisfeito, comi muita jambalaya".

Ataquei a minha porção. Intragável. Parecia que eu tinha errado a medida do açúcar e colocado duas xícaras no lugar de duas colheres. Mas eu não tinha feito isso. Que raios tinha acontecido ? Avisei os amigos que não precisam se submeter àquela tortura glicosada. Servi o café e assunto encerrado.

Encerrado ? Nada disso, devo ter relido a receita algumas vezes, repassei os meus passos na confecção do prato e nada. Um belo dia, muitos dias depois, me deu um estalo de Vieira (o padre, não os moluscos) : o chocolate ! No Brasil não tem (ou pelo menos não tinha) chocolate branco amargo, ou seja, a principal matéria prima do prato já vinha adoçada (e bem adoçada, diga-se de passagem) e eu ainda coloquei mais duas colheres de açúcar.

Claro que refiz a receita. Só para mim, para não dar outro vexame. Deu certo. Até hoje está lá no livro, em letras garrafais : Não adicionar o açúcar.

quinta-feira, 7 de fevereiro de 2008

Cozinhando com vinho


Lição nº 1: Riquewhir, um pedaço de fim de mundo na Alsácia, 1994. Entro em um restaurante local para comer o prato mais tradicional da culinária franco-alemã, o chucrute que, ao contrário do que muitos pensam, não é apenas repolho azedo, mas uma combinação de vários tipos de carne suína que são cozidas e depois assadas em uma chapa quente (muito parecida com a parrilla argentina) e servida com batatas cozidas e, é claro, repolho azedo. Na época, tinha recém descoberto um vinho da região, leve de gosto e complicado de nome, o Gewurztraminer, e pedi uma garrafa para o dono do restaurante. Ele me olhou com uma cara de pena e me falou que a carne do chucrute era cozida em vinho Riesling, logo não seria bom que eu tomasse um vinho diferente do que fora usado no cozimento. Claro, bebi o Riesling.

Lição nº 2: São Paulo, um pedaço de fim de mundo na América do Sul, 1999. Durante uma aula de culinária no evento Boa Mesa, uma pessoa interrompe o chef Emmanuel Bassoleil que demonstrava um receita feita à base de vinho Borgonha e pergunta a ele se não dava para substituir o vinho Borgonha por outro tinto mais barato. O bem-humorado Bassoleil olha para o auditório com uma cara de certo desgosto e responde que um molho à base de vinho vai ser tão bom quanto for o vinho, se a pessoa tiver expectativa de um prato barato, pode usar um vinho barato.

Essas duas histórias sintetizam bem a questão do uso do vinho na culinária e se contrapõem a dois costumes bastante freqüentes nos nossos hábitos. O primeiro deles é o de usar vinhos baratos que vão servir "apenas de temperos", o outro é o de esquecermos qual vinho que usamos no prato quando o levamos para a mesa. O ponto fundamental da combinação de vinhos e pratos é o equilíbrio, se ele já é necessário quando combinamos pratos que não foram feitos com vinhos, quanto mais quando o são.

Imagine-se na seguinte situação: você resolve finalmente fazer aquele legítimo risoto milanês que sempre gostou de comer no restaurante. Numa visita ao supermercado, compra um pacote de arroz italiano carnaroli, uma manteiga de primeira linha, escolhe cuidadosamente as cebolas, gasta uma fortuna por dois gramas de açafrão italiano ou espanhol, manda ralar na hora o parmesão e, antes de passar no caixa, compra uma garrafa de Château du Catiripipó, daqueles que custam R$ 2 o galão, afinal só vai usar mesmo meia xícara. Conforme cozinha o risoto, começa a perceber que ele não dá ponto. Pior, os grãos que deveriam ficar "al dente" estão duros como pedras. Claro, você vai jogar a culpa no arroz, chega mesmo a olhar na caixa se não está com o prazo de validade vencido. Depois pensa que deve ter sido a receita que você usou que deve estar com algum erro tipográfico ou tem algum segredo que não foi revelado. Quando percebe que o risoto não vai mesmo sair bem feito joga tudo fora e fala para si mesmo que nunca mais vai tentar fazer esse negócio de novo. Nem se lembra do vinho vagabundo que foi usado, mesmo porque meia xícara não poderia ter um efeito assim tão devastador.

Mas, vamos supor que os deuses da culinária, que moram no alto do monte Cordon Bleu, tenham colaborado com a sua aventura gastronônomica e, apesar do vinho, o risoto fique ao menos tragável. Ao chegar com o prato na mesa, alguém faz a mesma observação que o nosso amigo de Riquewhir fez - você teria coragem de servir aos seus convidados um legítimo Château du Catiripipó?? Claro que não. Você provavelmente vai trazer a sua melhor garrafa de vinho branco que, curiosamente, vai ter um gosto bem diferente do prato que está sendo servido.

Se você pretende fazer pratos com vinhos, nunca perca de vista esta regra: o vinho que se bebe é o mesmo com o qual se cozinhou. Isso vai fazer com que você, instintivamente, se recuse a cozinhar com vinhos que você não beberia e nunca vai ter de se preocupar se o vinho combina com o prato.

Ah...você quer saber como se faz o risoto ? Aí vai :

Risotto alla Milanese

(para 4 pessoas)


1 colher de sopa de cebola picada bem miúda
4 colheres de sopa de manteiga
2 xícaras de arroz carnaroli (não se lava arroz de risoto, um dos segredos da "liga" do mesmo);
½ xícara de vinho branco seco (leia o comentário acima de novo);
1 ½ litro de caldo de carne (se possível feito em casa);
3 envelopes de açafrão (não de curcuma que só dá cor e nenhum gosto);
4 colheres de sopa de parmesão ralado.

Doure a cebola em metade da manteiga. Junte o arroz e refogue por cerca de 3 a 4 minutos (de forma que os grãos fiquem bem envoltos pelo caldo de manteiga e cebola). Adicione o vinho branco e deixe evaporar em fogo alto. Junte aos poucos o caldo de carne (quase em ponto de fervura - à medida que o arroz for secando acrescente mais caldo e nunca deixe secar completamente). Depois de 10 minutos acrescente o açafrão dissolvido em um pouco do caldo. Continue mexendo. Quando o arroz estiver cozido, mas "al dente" retire do fogo e misture bem o restante da manteiga e o parmesão ralado. Sirva imediatamente (senão fica ressecado). Segredo fundamental: nunca pare de mexer o risoto até a hora de ser servido.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

O interrogatório



A sala escura e a fumaça que se acumulava no teto anunciavam o clima de tensão que pairava no ar , os rostos cansados e abatidos apenas serviam para confirmá-lo. Seu rosto, em particular, demonstrava grande exaustão. Ele fechava os olhos e franzia fortemente a testa cada vez que ouvia o sons vindos da sala ao lado :
“ - Mas eu já disse que não sei - gritava irritadamente uma voz feminina - quantas vezes eu vou ter de repetir...”
Durante alguns momentos o silêncio era sepulcral, de repente recomeçava :
“ - Eu sei... eu sei... não estou negando a minha participação nem a minha culpa... só sei que não sei o que vocês querem saber... eu fui sendo envolvida pela situação... não, não foi uma decisão precipitada, não aconteceu de repente... não, também não foi uma coisa que surgiu do nada... premeditado ? não, não foi premeditado... acho, ou melhor, tenho certeza, que se eu tivesse pensado... é, nestas horas a gente não pensa, ou se pensa a razão não prevalece... “
Sentiu um aperto na alma, só interrompido pelo tapa no ombro e a luz dirigida direto sobre os seus olhos. Não conseguia identificar exatamente quantas pessoas estavam na sala. Pelo timbre de voz achava que eram três ou quatro, além do delegado que o conduzira para o interrogatório, mas o movimento dos vultos à sua frente aparentava uma audiência maior. Não sabia se seu advogado estava lá, se estivesse não tinha aberto a boca.
“ - Chega de refresco - falou com voz grave o delegado - mesmo porque até agora o senhor não contou nada de novo. Nós vamos começar tudo de novo, e não adianta insistir que já falou tudo que sabia ! Eu tenho certeza que falta alguma coisa que por algum motivo escuso o senhor se recusa a falar... “
“ - Mas eu já assumi a culpa - replicou - aliás nunca, desde o primeiro momento , eu nunca neguei ter cometido o crime, será que isto não é suficiente ? “
“ - Chega ! - interrompeu bruscamente a voz do delegado - Lembre-se sempre das regras do jogo , e a regra número um é nunca interromper a pergunta e, principalmente, não me interrompa quando eu estiver falando...”
“ - Mas...
“ - Nem mais , nem menos. Durante as perguntas você cala a boca e ouve direitinho - e, virando de costas continuou - o senhor quer começar agora , doutor ? “
Uma voz nova confirmou ao delegado que estava tudo pronto para o reinício da sessão, Parecia uma voz conhecida, mas não conseguia se lembrar exatamente quem era, ou onde a ouvira antes.
“ – Muito bem, o senhor declarou aqui anteriormente que conheceu Carolina na escola. Que durante anos se relacionaram apenas como colegas de classe e que, ao final do curso cada um foi para o seu canto. Confere ?”
“ – Sim senhor, foi isso mesmo...” (que voz é essa ?)
“ – Durante o período escolar vocês nunca tiveram mesmo nenhum relacionamento amoroso ? “
“ – Nenhum. Uma vez fomos ao...”
“ – Não perguntei se foram ou não, responda apenas o que for perguntado !” (a voz....aquela voz...na escola? na igreja?) “ – Depois disso foram se reencontrar acidentalmente na rua ?”
“ – Sim, quer dizer, não, foi num shopping, não foi na rua.”
“ – E o que ocorreu depois disso ?”
“ – Eu não sei bem como aconteceu” , balbuciou, “ convidei-a para um café, conversamos sobre o passado, sobre o que tinha acontecido nas nossas vidas depois da escola... de repente eu a convidei para sair.”
“ – Assim do nada ? O senhor costuma convidar todas as mulheres que conhece para sair ?”
“ – Claro que não !”
“ – Respeito com o juiz !” – gritou o delegado.
Era um juiz, pensou. Por quê um juiz se estava ainda em fase de interrogatório ?
“ – O senhor pode me explicar, então, o motivo do imotivado ?”
“ – Meritíssimo, essa é a parte que até hoje eu não encontrei explicação. Foi paixão à primeira vista...”
“ – Que primeira vista rapaz ? Você conhecia a moça há anos...”
“ – Mas foi como se nunca a tivesse visto, era uma outra pessoa ou, sei lá, talvez fosse a mesma pessoa e eu nunca tivesse notado isso. Eu sei que, sem saber como nem por que, eu estava amando...”
Um murmurinho correu a sala. Mais uma vez ele confessava o crime, da sala ao lado só vinham os soluços de choro de Carolina.
“ – O senhor sabe que essa é uma confissão séria, não é mesmo ?”
“ – Claro que sei. O senhor é juiz sabe bem latim, amor tussisque non celantur.”
“ – Claro, mas também sei que amor tenebras infundit. Além do que, também percebi que você conhece bem nosso sistema penal e sabe que eu não posso condená-lo por um crime cujos motivos não foram apurados.”
“ – Mas eu não sei o motivo. Sei só o resultado...”
“ – Basta ! Estamos todos cansados. Vou adotar o processo sumário...”
Processo sumário ? então ele e Carolina seriam condenados sem nenhum direito a defesa ? Será que teria pelo menos a chance de recorrer à corte de direitos humanos em Haia....
“ – Na condição de juiz de direito dessa comarca e de acordo com as atribuições a mim concedidas pela constituição da República Obscurantista de Cardamomo, eu decreto que o casal receba imediatamente o certificado de casamento e, ato contínuo, sigam para o exílio, notem bem, eu disse exílio e não idílio, em qualquer país onde essa aberração seja tolerada. Delegado, pode encaminhar os detentos.”
Na saída ainda tentou perguntar ao delegado qual era o nome do juiz, mas não obteve resposta. Passou o resto da vida feliz ao lado de Carolina, exceto por aquela voz que o atormentou todas as noites.

Antologia de Janeiro


O mês de janeiro foi mais curto em publicações, o que não significa que os comentários tenham sido menos relevantes. Ou mais irrelevantes, dependendo da óptica do leitor.

Aí vai a, sempre fora de contexto, antologia do mês :

...sei que vou encontrar um cara mais de bem com a vida do que eu...

...pena que não deixei que a passassem em minha cabeça...

Acho que aí vai uma generosa dose de masoquismo

...programa pra um fim de semana chuvoso!

Um dia eu ainda consigo...

...pena que não deixei que a passassem em minha cabeça.

esse é meu! tira o olho!

pra sobrar espaço pro ego dos meus convidados...

você foi desmamado com sopa de letrinhas...

De seda à farrapo em uma noite.

Olhares - pequeno poema em prosa

Olhos verdes. Por algum motivo aqueles olhos me perseguiram por muito tempo.

Tempos de idas e voltas, de perdas e de achados. Nunca soube exatamente se estava descobrindo algo ou só me defrontando com algum tipo de enigma.

Decifra-nos, eles pediam. Eu não conseguia, e me devorava em incertezas. Mesmo essas, de alguma forma obscura me davam prazer. E eu devolvia as mensagens com olhares que não diziam nada.

Nem poderiam. Se não conseguia desvendar o mistério que eles me propunham, o meu olhar era só perplexidade.

Paralisado. Nem meus dedos não se permitiam afagos, nem passeios pelas ruas desertas da cidade abandonada. Pedras rasgadas, incolores, sem sequer um pouco de limo. Secura absoluta. E mesmo assim brilhavam.

Um misto de ódio e ternura vagava nos meus sonhos. Uma alegria confusa no espaço onírico. Totalmente sem sentido.

Nunca soube se brilharam para mim. Eles continuam brilhando e eu continuo sem saber. Um rosto de vertigem.

Enquanto isso ela voa com suas asas de ilusão e pousa nas rochas da minha memória.

Sem nunca saber se são verdes mesmo, ou azuis.

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Volta


Como sonho e som antigo
Salto o canto e sinto
Amigo

Tanto conto e tal perigo
Tento tudo
O mal não sigo

Não entendo que se aproxime
Instigo desejo por teu crime

Fujo aflito do inimigo
Como o joio
Entrego o trigo

Saio então do meu abrigo
Como sonho e som antigo
Amigo

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Nossa (???) língua portuguesa na zona sul


Depois de sentar no aisfalto com a quentinha cheia de joelho, ficou goiabando os filés que iam para a praia. Pensou em passar no botequim e tomar um mel, mas estava sem um conto furado, além do que tinha voltar para a repartição e aguentar aquele péla-saco do Agostinho e, se bebesse, ia acabar perdendo a linha.

O cara era uma bucha mas se desse um sacode ele perdia o gás, mas sabia que não era o momento de chatubar. Ficou pensando numa forma mais irada de resolver a parada. "Amanhã queimo a largada", pensou, "e deixo o mané bolado".

No dia seguinte chamou o prego e disse : " Olha só mermão, eu preciso tratar de um lance aí com uma maluca e só volto quando estiver zero-bala. Sei que tu não é pipoqueiro e pode guentar".

O prego , que de sangue não tinha nada, ficou na mão do palhaço e redarguiu : "Péraí vacilaum, coé ?"

"É o seguinte, tenho de pegar o bonde e encontrar uma popozuda que está dando bobeira. Como eu não sou nem arroz, nem arame liso, tenho de chegar lá antes do marido dela, senão viro mosca de padaria. O cara é braço forte e me enche de porrada."

"Ih, ó o cara, aí!: eu não quero ser mestre sala, mas puô..."

"Aê, se tu é fura-olho..."

"Sei lá bró, tu é meio cabaço, sei não..."

"Fica tranquilo, vai ser mó maneiro. Ela, tipo assim, tá dando mole, nem precisa furar pardal"

"Tá bom, pica doce, mas amanhã a média é por sua conta."

Para as outras versões do Nossa (???) língua portuguesa : Gauchês, Mineirês, Baianês.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

30 anos depois

A tatuagem não tem o mesmo viço

Por falar em tatuagem

Oh Lydia, Oh Lydia
Now have you met Lydia
Lydia the tattooed lady
She has muscles men adore-so
And a torso even more-so
Oh, Lydia, Oh Lydia
Now have you met Lydia
Lydia the queen of tattoo
On her back is the battle of Waterloo
Beside it the wreck of the Hesperus too
and proudly above waves the red white and blue
You can learn a lot from Lydia

There's Grover Walen unveilin' the Trylon
Over on the West Coast we have Treasure Island
There's Captain Spaulding exploring the Amazon
And Lady Godiva--but with her pajamas on
She can give you a view of the world in tattoo
If you step up and tell her where
Mon Paree, Kankakee, even Perth by the sea
Or of Washington crossing the Delaware.

Oh Lydia, Oh Lydia, now have you met Lydia
Lydia the queen of them all
She has a view of Niagara which nobody has
And Basin Street known as the birthplace of jazz
And on a clear day you can see Alcatraz!
You can learn a lot from Lydia!
--Lydia the queen of tattoo!

Lydia, oh Lydia, have you met
Lydia, the queen of them all!
She once knocked an admiral off of his feet,
The ships on her hips made his heart skip a beat.
And now the old man is in command of the fleet,
For he went and married Lydia!

Facticius


A artificialidade é uma condição positiva dos fatos. Bruno Latour



Ele costumava perder o fôlego com frequência. Deixava-se arrebatar por imagens fátuas e embebia-se delas. Nem sempre a distância permitia que fosse muito além disso. Seu estilo de vida implicava numa série de limitações com as quais aprendera a conviver. Ficção por ficção, começou a se dedicar a fetiches. Não só os usava numa forma de compensação como passou a estudá-los, o mesmo estilo de vida lhe fornecia tempo suficiente para esse tipo de atividade.

Estudou os fetiches dos cultos africanos. Chegou ao limite de adotar as idéias de Marx (o sociólogo, não o comediante) sobre a influência fetichista da mercadoria e do seu valor de troca. Começou a perder amigos, em todos seus encontros sociais discutia a respeito do simbolismo da falsidade dos fatos. Tornou-se o modelo perfeito do chato. Só não sabia se sua atitude era real ou um fetiche de si próprio.

Não demorou muito para chegar à parafilia. Constatou isso na exposição de Rodin, depois da oitava visita se autodiagnosticou como agalmatoerasta. Mas durou pouco. Apesar da vida reclusa sempre gostou dos ambientes abertos e, como não tinha companhia para a prática agorafílica, nem dinheiro para a nesofilia. Tornou-se anemofílico compulsivo.

Mas isso não era bastante para ele, precisava experimentar mais. Evitou as práticas dolorosas e as ilegais, as demais provou todas, tricofilia, maieusofilia, pigofilia (que julgou superestimada pela população masculina), podolatria - afinal era um clássico. Chegou a se matricular numa escola de dança de salão só para degustar a coreofilia. Entrou numa comunidade de looners, mas seu interesse se esvaziou rapidamente.

Encontrou muita dificuldade na partenofilia. Para gerontofilia, por outro lado, não lhe faltaram modelos. Não teve coragem suficiente para o frotteurismo, o voyeurismo lhe pareceu muito fácil.

Atualmente está escrevendo um livro a respeito do fetiches hodiernos. Constatou que pés, saltos altos, cintas-liga e lingerie estão em decadência. Mesmo a manteiga ficou tão datada quanto o filme que a sugeriu. Já começou a identificar os primeiros sinais de parafilias tecnológicas e seu estudo sobre a macfilia, especialmente pelo prazer gerado em desbloquear i-phones, está sendo avaliado por uma conceituada revista acadêmica. Também pretende desenvolver mais suas tese sobre etiquetas e legendas.

Nas horas de folga, vaga pelas ruas em busca da ventania.

sábado, 2 de fevereiro de 2008

Um gato chamado Frankenstein ?

O original é do grande Sam Cooke, mas não existe nenhum disponível com a "lenda"

Ah...eu sei que hoje não é domingo mas, como a música se refere ao sábado, antecipei a publicação.

À guisa de cartão

Floração. Um canto de pintassilgos. Roxos pintarroxos silvavam no ar escuro da mata. Tico-ticos ticoticavam as amoras recém nascidas que, em vão, tentavam amadurecer. Maturação. A floresta florida feria os olhos azuis de gatos modorrentos lagarteando à sombra dos cinamomos. Tudo som e vida. Vida em paz.

Confusão. O cantos das sirenes anunciavam o fim de mais um dia de trabalho. Sindicalistas classistas e analistas piqueteavam uma nova greve reinvindicando o fim de ano com trimestralidade. Ano novo sem aflição e abono de felicidade. Enquanto isto , mais um pacote decretava a retenção na fonte dos fins-de-semana prolongados e empréstimo compulsório da Páscoa , com devolução, sem correção, de outros carnavais.

Coração. A jovem apaixonada escrevia confidências no diário sentimental, jurando inconfidências. Tudo, tudo tão banal. Cartas enamoradas gastavam selos de Natal que poderiam ser pagos em três vezes, sem acréscimo, em qualquer liquidação. Mas só até sábado. O comércio vendia uma ilusão a cada esquina, um amor em cada rua. Descontos fabulosos para as paixões pagas à primeira vista.

Diversão. Garrafas de champagne entretiam os convidados que tentavam esquecer o passado que piscapiscava nas mémorias de todas as agendas eletrônicas. Impulsos gastronômicos consumiam estoques de sal de frutas. A realidade não subsidia as festas de fim de ano. A solidão sim.

Intenção. Esperança de um futuro melhor que o passado. Por melhor ou pior que tenha sido. O futuro é apenas um minuto adiante do que marcam os relógios digitais das avenidas da metrópole.

Floração. Confusão. Coração. Diversão. Intenção.

Tudo isto numa carta escrita à guisa de cartão.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

O Amor da Raça


Luz ! Câmera ! Ação !

Roda, roda, roda o filme da vida
Sem idade
Sem espaço
Do infinito nada
Ao eterno algo

Entre a sensação e a emoção
Tomba a sombra.
Film noir?

A mente reage à paranóia
da tua insensibilidade.
Tua pele na minha
Amor fugaz.
Será absurdo?
Surrealista?
Amor estilo
Cinema novo.


Poema escrito alguns dias depois da morte de Glauber Rocha