sexta-feira, 30 de novembro de 2007

Uma linda mulher


Sabores tão delicados
Temperos que não provei
Os gostos desperdiçados
Nos anos que me atrasei

Se fosse me apaixonar
Seria só por você

Meigos risos intocados
De lábios que não beijei
Desejos sofisticados
Retratos que não sonhei

Se fosse só por você
Seria me apaixonar

Sabores desperdiçados
Retratos que não beijei
Meigos risos delicados
Nos anos que não sonhei

Se fosse só por você
Seria me apaixonar

Os gostos tão intocados
Temperos que eu me atrasei
De lábios sofisticados
Desejos que não provei

Se fosse me apaixonar
Seria só por você

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

Sem penas


Bipes implumis (atrib.Aristóteles )


Não sei exatamente o por quê mas, certas vezes, eu tenho a impressão de que tudo em volta gira perigosamente em torno de mim. Talvez seja culpa do whisky, mas é difícil acreditar que apenas duas garrafas em uma hora possam provocar esse tipo de efeito. Como agora, após passar o dia ouvindo música dodecafônica, bateu-me a irresistível necessidade de cortar as unhas. Minha namorada dizia que eu estava ficando pinel, mas acho que isso era só uma desculpa para dizer que arranjara outro.

Outro dia mesmo fomos ao cinema e, no meio da sessão, ela resolveu me dizer que eu havia esquecido de colocar as meias. Achei a observação inoportuna pois foi no exato momento em que eu ia lhe beijar. Quando olhei para os meus pés notei que ela murmurava algo para o cara sentado do outro lado, algo como o seu número do celular. Fingi que não havia notado nada mas, na saída, ela foi ao banheiro e demorou quase duas horas para sair. Se o filme não fosse tão chato eu teria assistido outra sessão. Ao sair se desculpou dizendo que não conseguia alcançar o fecho do vestido. Na hora nem me toquei que ela estava de jeans.

Resolvi contratar um advogado para entrar com uma ação de divórcio, mas nós não estávamos casados e ele recusou a causa. Achei que era melhor acabar com tudo mas depois pensei : onde é que eu vou arranjar outra maravilha como ela ?

Laura era o nome dela até nos conhecermos. Depois que começamos a namorar ela resolveu abandonar o nome de guerra e usar o verdadeiro que era Admirtes. Tipo fantástico de mulher que só é gerado uma vez a cada mil anos. Alta, morena, olhos verdes, com as gordurinhas certas nos lugares certos. Deliciosa é o adjetivo mais discreto que eu poderia usar. Conheci-a numa reunião da Associação Nacional de Admiradores de Colibris. Foi paixão à primeira vista. Falava de beija-flores como quem discutia Kant na universidade. Total espontaneidade. Sua primeira frase para mim foi : “que gracinha, você parece meu iguana de estimação “.

Começamos a sair pouco tempo depois. Para impressioná-la, depois do teatro (Gerald Thomas, é claro) levei-a para jantar no Fasano. Tirei todas as minhas economias da caderneta de poupança e até hoje arroto faisão com lagosta. Que ela comeu. Tentei discutir os problemas existenciais do discurso metalingüístico de Saussure e ela riu na minha cara. Não entendi a piada.

Meses depois fomos para a cama. Eu no quarto de empregada e ela no meu quarto. Acho que foi excesso de champagne que deixou as coisas daquele jeito. Fizemos outras tentativas mas o máximo que consegui foi dormir no sofá com ela na cama. Ás vezes ela diz que tem uma vida sexual intensa. Será que é isso que chama de sexo virtual ?

O mais engraçado dessa nossa história é o irmão dela. O rapaz é estudante de comunicação e trabalha numa central telefônica no Pari, aparece de vez em quando. Cada vez que chega fica umas duas ou três semanas na casa dela, quando ela se recusa a sair comigo, só se for para jantarmos a três. Eu pagando, é claro. O pior é que eu nem sei direito o nome do sujeito, achei que era Alberto, mas outro dia ela me disse pelo telefone que o Artur estava na casa dela e não poderíamos sair. Ontem ela me pediu dinheiro emprestado para viajar com o Antonio. Muito estranho.

Hoje fui ao aeroporto levá-la, quando cheguei ela me disse que o André ia encontrá-la dentro do avião. Ela não sabe quando vai voltar. Enquanto espero vou estudar as obras completas de Freud. Alguém me disse outro dia que ele explica.

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Velhos como vinho



Se você já passou dos 40, duvido que tenha conseguido evitar dizer ao menos uma vez que você é como vinho, quanto mais velho melhor. É um dos clichês mais clássicos e batidos dos nossos dias, repetido até por quem nunca experimentou um gole de vinho. Mas sou obrigado a dar uma má notícia, nem todo vinho melhora na medida em que envelhece. Pior do que isso, pouquíssimos são os vinhos que envelhecem com classe.

O envelhecimento do vinho é um elemento importante para se aproveitar o melhor dele, mas apenas um pequeno grupo de vinhos se beneficia do envelhecimento na garrafa. A grande maioria dos vinhos deve ser consumida dentro de um ano, ou no máximo dois, após ser engarrafado. Quase todos já passaram por processos naturais ou artificiais de envelhecimento em barris ou tanques e a permanência na garrafa não vai trazer mais qualquer benefício.

Entre os vinhos brancos, aqueles com PH mais baixo (mais ácidos) e, entre os tintos, aqueles que apresentam mais taninos, são os que tem mais chances de melhorar pois, à medida que o tempo passa, esses excessos de acidez e de taninos tendem a se abrandar e tornar os vinhos bem mais agradáveis. Se o vinho branco tiver pouca acidez ou o tinto poucos taninos, com o passar do tempo eles perdem o pouco da personalidade que tinham. Entre os brancos que se enquadram nesse possível envelhecimento, estão os feitos com uvas Riesling e os grandes Chardonnay. Dentre os tintos, os feitos a partir de uvas Cabernet sauvignon, Nebbiolo e Syrah.

De qualquer forma, para deixar um vinho envelhecer em casa, além de um bom vinho que permita isso, existem alguns outros componentes que vão ser decisivos no amadurecimento produtivo da bebida. O primeiro deles é a qualidade da rolha. Um vinho fechado com rolhas de má qualidade, mal cortadas ou minimamente porosas, só consegue produzir vinagres de boa qualidade (claro, se o vinho for de boa qualidade). Por mais insignificante que seja o contato do vinho com o ar, a oxidação é inevitável. Se, ao abrir uma garrafa a rolha quebrar ou soltar pedaços, pode ter certeza de que o vinho vai estar intragável. No fundo, algumas pessoas também são comos esses vinhos - quanto mais velhas, mais azedas.

O segundo componente importante é o armazenamento do vinho. Por melhor que seja uma rolha, se ela não ficar em contato permanente com o líquido da garrafa ela irá ressecar e, conforme isso acontece começam a surgir trincas e "buracos" - o resultado é o mesmo que foi citado acima, com a diferença que o vinagre ficará pronto muito mais rapidamente.

Alguns outros detalhes podem ajudar ou atrapalhar no processo de envelhecimento, mas costumam ser filigranas técnicas que não fazem parte do nosso dia-a-dia. Nem os enólogos mais competentes são capazes de fazer previsões exatas sobre o tempo ideal de maturação de um determinado vinho de uma determinada safra. O ideal seria podermos testar um vinho abrindo uma garrafa a cada ano até descobrirmos o ponto ideal, mas isso é um esporte para poucos seres que podem investir comprando várias caixas de um mesmo vinho.

Na dúvida, beba o vinho antes que ele estrague - afinal, os vinhos são realmente como as pessoas, com o tempo realçam suas qualidades e defeitos. Se forem bons, ficarão melhores. Se forem ruins, passe longe.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

Lá em cima do piano


Nada poderia fazê-lo supor que algum dia acabaria sozinho. Tudo parecia levá-lo ao amor eterno. Não fosse a decisão dela até hoje estariam juntos.

Sempre que recordava o passado Pedro pensava como tudo poderia ter dado certo. Sentava-se ao piano e tocava todas as músicas que lembrassem dela. Mesmo depois de tantos anos, depois de tantas mudanças ainda era ela que comandava as suas emoções.

Era um bom profissional. Bem empregado e bem remunerado. Casara com outra e tiveram três filhos que já estavam adultos, uma família exemplar. Tudo desaparecia quando começava a tocar.

Conheceram-se no colégio onde nunca foram mais que colegas cordiais. Uma vez foram ao cinema. Nada sério. Quando estava acabando a faculdade foi convidado para uma festa, estava sem companhia. Vasculhando velhos cadernos de telefone encontrou o seu nome. Arriscou ligar. Ela ficou surpresa. Aceitou o convite.

Ela não mudara muito. Não era exatamente bonita. Elegante, delicada, agradável. Dançando beijaram-se. Apaixonados. Tudo muito sem razão. Muito sem querer. Aconteceu.

Com o tempo conheceram-se melhor. Quanto mais se conheciam mais se convenciam que tinham sido feitos um para o outro. Eram vistos como o casal perfeito, nada dava errado para eles. Nunca brigaram. Sempre cultivaram a liberdade do outro. Depois de dois anos de namoro foram morar juntos. Nada afetou a perfeição do lar. Pensaram em se casar, mas não precisavam disso.

Um dia ela chegou e disse que não era mais aquilo que queria. Sem motivos. Não tinha outra pessoa. Não acontecera nada que provocasse a atitude. Ela apenas foi embora.

Pedro passou meses amargurado. Não com ela, com a vida. Ele sabia que se não existisse amor era melhor não haver nada. Sempre fora um idealista. Tornou-se um idealista amargurado. Conseguiu se recuperar, mas nunca a ponto de esquecê-la.

Agora, mesmo com a família, sentia-se sempre só. Casara por interesse, mantinha uma distância suportável da mulher, apenas o suficiente para manter as aparências.

Parou de tocar. Tomou o último gole do vinho que estava em cima do piano e foi dormir.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Minha mais recente traição


Nesse blog eu já traí em francês e até em alemão medieval, mas é a primeira vez que me arrisco a trair um compositor popular americano, com o agravante de você saber a melodia e tentar cantar com a minha versão.



Morrer um pouco
(Ev’ry time we say goodbye - Cole Porter)

Cada vez o teu adeus
Me mata um pouco
Cada dia o teu adeus
Provoca um sonho louco

Será que anjos ao longe
Não tendo como sorrir
Me maltratam tanto
Te deixando partir ?

Quando estás por perto
Há um ar de primavera
O som de cotovias
Cantando uma quimera

Canto igual não existe
Me quando o tom
Vai de alegre ao triste

Todo dia o teu adeus
Também existe

Ah....o texto original diz o seguinte

Everytime we say goodbye, I die a little
Everytime we say goodbye, I wonder why a little

Why the gods above me, who must be in the know
Think so little of me, they allow you to go.

When youre near, theres such an air of spring about it,
I can hear a lark somewhere, begin to sing about it,

Theres no love song finer,
but how strange the change from major to minor

Everytime we say goodbye.

domingo, 25 de novembro de 2007

Eu e você

Jon Anderson, Chris Squire, Steve Howe, Rick Wakeman e Alan White (que a essa altura tinha substituído Bill Bruford) para quem, em 1973, vivia perto das beiradas da Terra

And you and I climb, crossing the shapes of the morning.
And you and I reach over the sun for the river.
And you and I climb, clearer, towards the movement.
And you and I called over valleys of endless seas.

sábado, 24 de novembro de 2007

Alucinações anacrônicas


Eu nunca fui consumidor de drogas, exceto aquelas prescritas por médicos. Só tomei um porre na vida e, como passei diretamente do estado sóbrio para aquele que encontramos o amigo Hugo, sem as etapas "alegre" e "engraçadinho inconveniente", foi o primeiro e o último, nunca mais me arrisquei depois disso.

No entanto, descobri que já tive alucinações. Remexendo meus alfarrábios encontrei o texto abaixo que eu escrevi em 1984. Não consegui me lembrar nem o por quê, nem para quem. Procurei nas agendas velhas e não encontrei nada que me explicasse o sentido do mesmo. Não sei por onde eu estava viajando...


Declaração de amor/pavor


Mesmo que eu quisesse, não poderia fazer nada. Apenas olhava atento dentro dos seus olhos. De vez em quando desviava a atenção. A sensação de estar sendo consumido em fogo lento me incomodava. Poemas sobre a mesa. Vinho e cigarros.

Você falava calmamente sobre o medo. O mesmo medo que me corroía. Vontade de explodir e despencar num temporal. O limite do medo é a coragem absoluta. Eu andava no fio da navalha. Se você tivesse insistido um pouco mais, não sei o que teria acontecido.

Eu me contorcia em argumentos e fugas. Nem sei bem do que. A oportunidade ressurgiu e, novamente, me calei. Poema mudo. Pinto as cores do desejo em papéis interiores escondidos em porões.

Meu amor é completamente surrealista. Despertar e crescimento do desejo líquido. Os anseios subconscientes mais fortes que os medos reais. Explodindo em raios, despencando em temporal.

Você olhava. Falava. Me dava a impressão de que percebia tudo, que a motivação dos meus medos era completamente infundada. Ou absolutamente correta.

O momento cobrava uma decisão rápida. Sim ou não. Um lance de dados, só uma chance : ganha-se ou perde-se. Outro lance seria apenas outro começo, mesmo que sejam o mesmo dado e a mesma mão a lançá-lo. Jamais. Mesmo lançado em momentos eternos, jamais abolirá o acaso (ah...Mallarmé....)

Por caso, ou pelo acaso, nasce o medo. Medo de amar.

O papel explica tudo. O teclado da máquina não tem seus olhos a me perscrutar. Só palavras.

19/09/1984

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

100



Cheguei ao post número cem do blog. Achei que mereceria uma comemoração estrepitosa, quem sabe uma Roederer, mas o bolso sofreria um desfalque perigoso. Também pensei em colocar as estatísticas de visitação. Me pareceu um tanto entediante.

Resolvi ser mais simples e deixar um agradecimento às pessoas que têm tolerado meus e-mails, visitado e comentado o Mens Insana. No começo achei que não conseguiria manter o ritmo de publicação mas vocês me estimulam todos os dias a pensar em alguma coisa nova.

Forte abraço a todos e todas. Amanhã tem mais.

Ah ! Essa mensagem tem 100 palavras, incluindo essas.

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

Soneto do desconforto


Ela disse que eu a quebrava ao meio
Mas a queria inteira, delicada,
Conduzindo o meu barco sem receio
No rumo de uma angra abrigada

Como se ela temesse seu anseio
A pele em outra pele afagada
De um tempo num desejo que não veio
Levamos nossa nau na madrugada

As vísceras expostas do seu seio
A faca no meu peito encostada
O sangue jorra intenso em devaneio

Nas horas da vigília bem guardada
Desconforto é só um peso fugaz
Carinho mesmo nunca se desfaz

terça-feira, 20 de novembro de 2007

A alma feminina


Ontem navegando por poemas, hábito antigo meu, me deparei com a trágica Alfosina Storni. Não que todos seus poemas sejam trágicos, mas o foi a sua vida. Um dia entrou no mar. Entrou e entrou para nunca mais voltar (a Violeta Parra fez uma música linda dessa história).

Mas não é só de quando se foi que surgiram obras de arte, ela mesmo escreve a respeito de quando chegou num soneto chamado "Quando cheguei à vida" onde perscruta a alma feminina.

Não sei se as mulheres, da perspectiva feminina acham a mesma coisa....mas eu me encanto com essas variações da alma feminina. Algumas são assustadoras, outras deliciosas.

Já me disseram que a alma feminina não é nada objetiva, que é regida pelas emoções, muitas vezes fica quase que à deriva, correndo o risco de sucumbir à loucura. Até tenta se manter vigilante como se realmente segurassem o leme, mas as ondas e pedras do caminho acabam provocando desvios inesperados e, não poucos, beirando o abismo (ou serão as beiradas da Terra ?) .

A vigília, como no poema de Alfonsina é questão de sobrevivência para continuar tateando o perfume do ar.

Os olhos, se são as janelas da alma, precisam vigiar. A vigília é constante, a alma variante.

Mesmo quando se é a mesma, incompreensível, flutuante, sujeita aos ventos, temente ao mar.

Sói que velem amores imensos, que valham as viagens pela alma.

Alma feminina, meu abrigo, luz e sombra. De onde vem essa esperança ? Que anseios esconde ? Qual é a tua essência , ou será transcendência ?

Meu olhos espreitam e admiram. E continuam a vigília.


A imagem é uma pinup do Vargas

segunda-feira, 19 de novembro de 2007

Contículo cacofônico


Quando eu vi ela a vez passada achei que parecia uma moça fada. Pelo menos como a concebo não poderia imaginar outra cena que não a de Eva e Adão , eu paraninfo dela e ela, alma minha.

Eu havia dado a essa fada um prêmio por ter me tido em seus braços. Uma mão de pelica e a boca dela cheia de batom.

Por cada momento eu, antes um homem de pouca fé no amor, comecei a oscilar entre episódios de fé de mais e fé de menos. E até nos dias em que meu coração por ti gela, ela tinha o hábito de usurpar os sentimentos que por ti são.

Ela tinha voz de rouxinol. Nosso hino ela trinava muito bem. Como ela nenhuma ouve. Eu que nunca ganho no amor via-a partir dizendo : vou-me já !

Hoje ela confisca gado no sertão e não me pergunta mais do que : como está tu ?


Essa apenas uma brincadeira em cima dos vícios de linguagem, a anterior foi sobre Tautologia

sábado, 17 de novembro de 2007

Swing no supermercado


Outro dia fui fazer compras no Sam´s Club. Para quem não sabe, o Sam´s é um supermercado semi atacadista da rede Wal Mart. Como toda loja de atacado ela é feia e confusa. O atendimento é próximo do zero, o check-out não tem nem esteira para colocar os produtos que o caixa vai passando pelo leitor de código de barras do carrinho cheio para outro vazio, não existem sacolinhas e, a grande maioria dos produtos só pode ser comprada em lotes (alguns de apenas 3 unidades, mas outros como açúcar e sal, só em pacotes de 10 quilos - o que é que vou fazer com 10 quilos de sal ?). O benefício de comprar lá é que os preços são realmente muito mais baixos que em qualquer outro lugar. Muito mesmo (o merchandising, nesse caso, não foi patrocinado pelo Sam Walton)

Uma das características do local é que os carrinhos são imensos. Como os corredores de gôndolas sempre estão abarrotados de produtos no meio deles é impossível entrar com o carrinho. Você para na ponta da gôndola, entra no corredor, pega os produtos e leva de volta ao carrinho. Eu já tinha feito mais da metade do meu roteiro quando ao voltar para a ponta da gôndola cadê o meu carrinho ? A primeira reação foi olhar para os outros lados, será que deixei mais para lá ou para cá ? Nada. A segunda foi ir até a outra ponta da gôndola. Nada. O carrinho sumiu.

Você deve estar perguntando : quem roubaria um carrinho de compras não pagas ? Eu também me perguntei isso. E perguntei a um funcionário local que me disse que, de vez em quando, as pessoas saem dos corredores e pegam carrinhos por engano e, quando percebem, largam-no no meio do caminho. Resolvi dar uma volta. Nem sinal do carrinho e das minhas compras. Achei mais fácil pegar outro e começar de novo e, ao invés de entrar num corredor e minha mulher em outro, nos revezamos na guarda do carrinho.

Fiquei imaginando uma cena possível das trocas de carrinhos que, pelo jeito, são frequentes :

- Engraçado, eu sempre achei que você não gostava de atum...

- Eu odeio atum.

- Então por quê comprou esse pacote de 6 latinhas ?

- Eu não peguei nada, foi você que pegou.

- Mas só eu como atum em casa, não ia pegar um pacote.

- Não é para comer com essas torradas de centeio ?

- Que torrada de centeio ? Eu tenho intolerância a glúten, será que depois de 20 anos de casado você não sabe disso ?

- Nunca se sabe, ainda mais com essas caixas de farfalle e passata de tomate...

- Agenor ! Você está me traindo com alguma carcamana ? Poderia pelo menos ter a sutileza de não comprar presentes no meio das minhas compras...

- Matilde ! Acho que você é que está recebendo gente em casa... café gourmet ? Quem é o grã-fino ?

A discussão rola, a fila aumenta, o caixa chama o supervisor que não chega. Subitamente ouve-se o barulho de estilhaços. Agenor estrebuchando no chão. Matilde ainda na mão com um pedaço do que sobrou da garrafa de cerveja que quebrou na cabeça dele :

- O resto eu ainda tolero, Agenor...mas 12 dúzias de camisinhas !?!?!

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Novos hai-kais


Essa é a minha segunda tentativa com Hai Kais. Vale a comparação com a primeira . Também naquela deixei uma breve explicação do que eles são.


Alimento sóis
Cena de brilho fugaz
Intenção no ar

Libera a alma
A bandeira distante
Da maresia

Incenso ronda
Acende flor girassol
Um pouco depois

Celacantos sós
Na imensidão gelada
Dores ancestrais

Espero o canto
Inda que chovam hoje
pedras lilases

quinta-feira, 15 de novembro de 2007

Le Beaujolais Nouveau est arrivé



Em uma de suas cartas à igreja de Corinto, o apóstolo Paulo escreve: "Quando eu era menino falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem desisti das coisas próprias de menino" (Carta de Paulo aos Coríntios capítulo 13, versículo 11). Todos os anos, quando é lançada mais uma safra do Beaujolais Nouveau, me vem à mente esse texto. Quando eu era menino, enologicamente falando, eu gostava de um vinho levíssimo, frutado, um pouco mais do que um suco de uva. Quando eu deixei de ser menino, ele passou a ser apenas um grande sucesso de marketing.

Todo mês de novembro é lançada a nova versão do Beaujolais Nouveau, um vinho que surgiu da ansiedade que os vinicultores da região do Beaujolais (extremo sul da Borgonha) tinham para experimentar os seus vinhos recém-colhidos e produzidos. Acabou se tornando um vinho cheio de regras para a sua produção: a única uva que pode ser utilizada é a gamay (gamay noir à jus blanc, uma variedade diferente da que conhecemos como gamay beaujolais) e precisa, obrigatoriamente, ser colhida à mão.

Além disso, têm de ser uvas exclusivamente das regiões controladas de Beaujolais e Beaujolais-Villages. O processo de vinificação, chamado de maceração carbônica, deixa a uva fermentando por pouco tempo para que o suco não receba a influência da casca da uva e tenha quase nenhum e, preferencialmente, nenhum tanino - para saber qual o teor de tanino de um vinho, basta passar a língua no céu da boca: quanto mais áspera for a sensação, maior a intensidade dos taninos.

A regra final é que o Beaujolais Nouveau - por lei - deve ser lançado exatamente na terceira quinta-feira de novembro - ou seja, hoje ! (nem antes, nem depois) de cada ano - o que significa, aproximadamente dois meses depois de colhido. Muitas vezes, os vinicultores se apressam exageradamente para tê-lo pronto nessa data e, já chegaram a ser acusados de chaptalizar o vinho (adicionar açúcar ao mosto para atingir mais rapidamente o teor alcóolico necessário).

O seu lançamento anual tornou-se o maior sucesso de marketing do mundo dos vinhos. É a maior fonte de renda da região e a que permite a entrada de dinheiro imediato no fluxo de caixa dos produtores. Os restaurantes do mundo inteiro colocam cartazes sobre a chegada do primeiro vinho da safra e, principalmente durante o auge da geração yuppie, era um diferencial de status quem já havia conseguido beber o primeiro gole do Nouveau.

Para quem já se acostumou a beber vinhos de verdade, o Beaujolais Nouveau pode ser divertido, mas não é um vinho sério. É um vinho para quem está recém entrando no universo dos vinhos tintos. É tão leve que chega a ser mais suave que alguns brancos secos, é muito frutado, quase uma sangria, e é um vinho para ser consumido rapidamente. A recomendação dos próprios produtores é que não se guarde o vinho além de maio do ano seguinte.

Se você é uma pessoa acostumada a beber vinhos tintos, nem passe perto de uma garrafa de nouveau. Se, ao contrário, você ainda é um "menino" nessa experiência, não deixe de prová-lo, daqui a alguns anos você vai se lembrar dele como se lembra hoje da sua primeira cartilha.

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Lua cheia na Bourbon


Os meus passos nada passam
Meus desejos ultrapassam
Tanta gente caminhando em meio à fumaça
Atravessando o som.


Enquanto isso a lua brilha na Rua Bourbon


Certos sonhos deveriam ser assim
Olhares tristonhos veriam enfim
As cores transparecendo através
de instrumentos no mesmo tom


Enquanto isso a lua brilha na Rua Bourbon


Assim se vão os sonhos
Se vão também os desejos
Cores, música, fumaça
Gente, instrumentos, olhares
Tudo triste, tudo bom


Enquanto isso a lua brilha na Rua Bourbon

terça-feira, 13 de novembro de 2007

Vulgus vult decipi, ergo decipiatur




Dura lex, sed lex : no cabelo só Gumex


Certamente você já deve ter recebido pelo menos uma vez uma mensagem contando a história de um família que morreu de leptospirose por ter tomado cerveja direto da latinha. Ou aquela do sujeito que acordou numa banheira de gelo num hotel de Buenos Aires sem os dois rins. Não ? Mas aquela do sujeito que estava morto na sua mesa de trabalho há uma semana e ninguém percebeu você já recebeu...

Esse tipo de “literatura”, onipresente na Internet já recebeu um nome e até existem sites dedicados a checar a veracidade das histórias. Um grande negócio que está se multiplicando tendo como alicerce a sua ingenuidade e a sua boa fé. Com certeza é preciso ser muito ingênuo para acreditar nessas histórias que imediatamente você repassa para todos os seus amigos e até para alguns inimigos.

O que as lendas urbanas tem em comum ? Elas aparecem misteriosamente e se espalham espontaneamente e, como quem conta um conto aumenta um ponto, vão tendo suas variações. Todas elas tem um elemento de humor ou de horror ( onde o horror sempre pune o sujeito que quebrou as regras sociais ou de etiqueta : quem mandou tomar cerveja no gargalo ? quem mandou encher a cara em Buenos Aires ?). Geralmente são histórias boas para papo de bar. Nunca estão baseadas num fato real, e sempre tem uma continuidade e uma conclusão absurda.

É verdade, a maioria das pessoas não tem a intenção de espalhar rumores, fraudes ou mentiras. Mas chega a ser fascinante como as pessoas correm para espalhar aquilo que elas suspeitam ou gostariam que fosse verdade. O desejo de contar uma boa história e, sempre que possível de ser o primeiro a contá-la para um amigo.

Que tipo de pessoa que repassa essas mensagens ? Imagino alguns tipos :

Scribitur historia ad narrandum, non ad probandum : acreditam que informação não precisa de fonte de informação ou pode ter qualquer fonte pseudo-oficial - a a história vem de “um amigo contou que o amigo dele...” . A fonte da história é sempre vaga os detalhes também. Você nunca fica sabendo quando e onde os fatos aconteceram, ou parecem de uma forma vaga ( “um hotel em Buenos Aires”, “uma grande empresa de Frankfurt”). Nas poucas vezes que os detalhes aparecem, são fictícios (mas escritos de uma forma crível). E, se você realmente prestar atenção na história vai notar que não fazem sentido. Em outras vezes aparece o aval do especialistas o doutor da Universidade de Chuchuinha do Brejo, ou a polícia de Nova Iorque (a Nova Iorque no estado do Maranhão, é claro).

Nihil est aliud falsitas nisi veritatis imitatio : adoram o apelo sensacionalista, se as lendas urbanas fossem um jornal , certamente seriam repórteres do finado “Notícias Populares”. Os fatos são escandalosos, chocantes ou assustadores, mesmo porque alguém passaria para frente uma história comum ? Mas é um sensacionalismo que fica no limite do possível – uma das histórias mais divertidas a esse respeito é aquele que diz que o Congresso vai criar uma taxa sobre e-mails para compensar as perdas de faturamento do correio – absurdo, não é ? Mas com o congresso que temos isso chega a ser crível.

Gaudere in calamitatibus aliorum, non est hominum : apelam para o pior dos seus medos. As lendas urbanas procuram sempre provocar terror, preconceito, repulsão ou pelo menos algum arrepio. Lembra da história que dizia que desodorantes tapavam os poros provocando câncer ? O mais popular dos terrores cibernéticos são os falsos avisos de vírus...o pior dos medos dos usuários de computadores.

Dicere quicquid in buccam venerit : vivem repetindo “eu não te disse ?”, mais do que alarmar ou assustar, as lendas urbanas se proliferam sobre os seus preconceitos. Quando uma história vem ao encontro de um deles precisam imediatamente mostrar para todo mundo....eu não tinha dito ?

Uberior est numerus a parvo, quam thesaurus a maximo, quia non quantum datur, sed quantum resideat expeditur : aproveitam aquele velho e bom sentimento de culpa ou a busca pelo dinheiro fácil : transformam aquela sua falta de participação na sociedade ( pela qual você se sente culpado) em um ato de caridade....cada vez que você encaminhar essa mensagem para um amigo uma entidade (que você nunca ouviu falar) estará recebendo $0,01 da multinacional XYZ....envie essa mensagem para sua lista de endereços e receba $100 da Microsoft.

Também existe uma forma mais simples de detectar absurdos, chama-se bom senso. Mas esse é um artigo escasso em tempos virtuais.

E, antes que eu me esqueça esse post é um vírus que pode apagar todo o seu disco rígido, queimar seu forno microondas e derrubar tinta vermelha no seu livro favorito, por favor, envie este blog a todos seus contatos.

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Nossa (???) língua portuguesa - o retorno


Trudia m'ia amiga chegô falano :

- Põe log'es chinelu, mininim, peg' lá u'copim procê qui mi cuntaram uns causo ingraçado. Quéu'ma carninha? Não ? Intonce iscuita :

- Esturdia cumpai contô qui u Zé chegô tardi in casa tontim qui nem gambá moiadu i a Maria num quissabê cunversa e sentô a mão na cara du infiliz. Ele inté qui quis dizê qui tava trabaianu inté mais tardi mas uns cumpanhero de sirviço tinha passado preguntanu pru ele. Ah, vixe santa o Zé ficô dirrubado i apanhô inté debacho duis suvaco. Deu no rádindagorinhamês. Cê iscutô? Ela inté falô qui vai largá deli.

- Nú ! Credeuspai ! Vixxxxxxx isso é doidimais.

- Imagine que sapassado lánacadavó taveu na cuzinha tomando uma picumel e cuzinhando um kidicarne com mastumate pra fazê uma macarronada com galinhassada. Quascaí de susto, quando ouvi um barui de dendoforno, pareceno um tidiguerra. A receita mandopô midipipoca dentro da galinha prassá. U forno isquentô, u mistorô e o fiofó da galinha ispludiu!! Nossinhora! fiquei branca quinein um lidileite. Foi um trem doidimais!! Quascaí dendapia! Fiquei sensabê doncovinha, proncoía, oncotava. Óiprocevê quelucura!!! Usei o psicológico i grazadeus ninguém simaxucô!

- Vamo andanô. Qué dáua volta no carrim?

- Prônostam'ínu ?

- Nóis passa badaponti lá berádurii e leva uma gra´d cerveja dentro da cadizopô...

- Dexovê. Sucêfôeuvô

- Mas tu num vai rachá no cabirová, vai ?

- Acámifia tôgarrádo

- Émezzz ?? Doutra veiz tu vazô na braquiara

- Ara sô! Vai cagá di morro abaixo pra vê a bosta rolá

domingo, 11 de novembro de 2007

Meninos e meninas


Vírus estranho. Dizem que até hoje nenhum prêmio Nobel de biologia ou medicina conseguiu isolá-lo, nem descobrir antídotos para suas manifestações. Alguns céticos não acreditam na sua existência. Até serem atingidos por ele. A relação causa-efeito também não foi detectada, conhecem-se os sintomas, não a origem exata. Um dos mais graves é o total embobecimento da pessoa atingida. Mas, acredito eu, o mais interessante é aquele que gera histórias. Reais ou não.

Quase todas começam assim : era uma vez, num distante país tropical do hemisfério sul um Rapaz. Sem adjetivos, o que simplifica bem o texto e estimula a imaginação do leitor. Rapaz tinha uma amiga chamada Amiga. Eram muito amigos desde que Amiga e Rapaz descobriram o que poderiam dividir entre eles. Rapaz já fôra apaixonado por Amiga, quando ela ainda não era amiga. Mas essa é outra história e, para evitar o prolixo vai, momentâneamente, para o lixo.

Acontece que Amiga tinha uma amiga chamada Menina. Menina era amiga de Amiga há mais tempo que Amiga era amiga de Rapaz. Rapaz conhecia Menina há muito tempo, e sempre a vira apenas como amiga da Amiga. Um dia tudo mudou.

Rapaz andava com o coração, órgão de vital importância para a sua sobrevivência, desocupado. A última locatária (sim, locatária, não caia na ilusão que ele tem proprietários) além de abandoná-lo repentinamente, tinha deixado a porta aberta. Aí , como dizem os contadores de histórias, bastou que Rapaz encontrasse Menina com lábios tentadoramente vermelhos e sorrisos cativantes para cair nas parnasianas garras (arghhhh) da paixão.

No dia seguinte foi à casa de Amiga. Lá também estava Menina. Escreveu-lhe um poema, no dia seguinte outro. Num momento teve a oportunidade de encontrá-la sozinho. Chegaram a andar de braços dados pela garoa. O vento da coragem não estava com ele. Nada aconteceu.

Acróstico. O acróstico que ele mandou para Menina, de tão sutil, não foi decifrado. Escreveu uma história, achou-a óbvia demais para enviá-la. Na calada da noite (alguém já viu uma noite falante ?), Amiga, com entusiasmo alcoviteiro tentou aproximá-los...

As histórias começam assim. O desfecho delas são tão inesperados e diversos . Ah....você quer saber o fim dessa história ? Eu também não sei.

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Como poema


Triste como nuvem
Meu coração não tem
Água para contar
O tempo passando

Suave como o mar
Minha canção não quer
Dizer palavras azuis
Nem viajar

Doce como flores
Tua paixão não quer
Chorar em adagios
A falta de céu

Triste como o mar
Suave como flores
Doce como nuvem

Não podemos nos render
à esperança
de esperar que nasça
num poema
O que nunca surgiu
no nosso caminho

Triste como flores
Suave como nuvem
Doce como o mar

Nada mais resta a dizer
Esqueço-me nos braços
e durmo no colo
De um bicho-papão

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

História banal


"La arena de los ciclos es la misma
E infinita es la historia de la arena
Así, bajo tus dichas o tu pena,
La invulnerable eternidad se abisma"
Jorge Luís Borges



Era verão, bem no seu começo. Só um almoço cotidiano. Sem compromisso, falar sobre o tudo e o nada . Era verão, fazia calor , uma ou outra pancada de chuva caía . Era verão, bom motivo (ou boa desculpa) para um passeio. Passarinhos se espalhavam pela calçada. Bem-te-vis, sabiás, garrinchas e pardais. Afinal eram bem-te-vis ou sabiás ? Era verão e eram dois olhos azuis olhando para ele. Um braço no seu braço. A mão na sua mão. Um abraço. Um beijo. Era verão. Aquele beijo transformou sua vida . Era verão, ele não ia esquecer.

Os dias seguintes foram um tal de trocar e destrocar olhares. Trocar e destrocar bilhetes e vontades de pular sobre a mesa do outro e fazer um escândalo... Dias de falar em jardins florescendo. Dias de poesia. Da troca de poemas. Da troca de olhares e de desejos foi crescendo o desejo. O desejo de tê-la nos seus braços, o desejo de estar nos seus braços . Os dias foram passando, o desejo foi crescendo e crescendo.

Era verão, uma outra sexta-feira em novembro. Foi um calor, um fogo, um vulcão... foi loucura, foi uma explosão. Beijos. Abraços. Paixão. Dentes. Suspiros. Corpos ardentes. Seiva. Êxtase. E uma antiga canção na memória : would like to swing on a star ? Ela precisava visitar clientes. Sempre que possível ele a acompanhava. Nem sempre o destino eram os clientes. Poderia visitar clientes para sempre. Não podiam esperar o final de semana. Na segunda-feira já estavam incendiados. Numa terça-feira foram passear , namorar, saciar desejos que não se controlavam mais .

E o verão foi passando, muito depressa para o seu gosto. Se passava o dia fora a trabalho, ela ficava com saudades do rosto maroto. Mesmo quando não diziam nada acabavam dizendo tudo. Intimidade : um silêncio preenchido por subentendidos. Ele precisavam de mais do que subentendidos. Sumiram uma tarde toda. Uma tarde ao som do concerto de violino de Beethoven.Allegro molto. Uma tarde de amor . Não só de corpos se enroscando. Não só de desejos e de calor. Uma tarde de amor e da estranha sensação de estarem apaixonados. Uma tarde de amor de sanduíches. Era quarta-feira. Era verão.

Três dias depois ele iria viajar, ficaria fora 10 dias. Morrendo de saudades. Ligava para o trabalho só para poder falar com ela. Recebeu mensagens do seu bosque com sabiás e bem-te-vis. Afinal eram bem-te-vis ou sabiás ?

Quando voltou soube que ela ia embora para outra cidade. Justo quando o amor que estava crescendo. Um dia que a surpreendeu quando disse que a amava. Nunca tinham falado sobre isso, tinham medo.

Um cartão. A foto de uma lareira . Seria incendiário fazer amor naquela sala, junto aquela lareira. Um almoço em Dezembro. Mais do que um almoço . Poderia ter sido na Noruega ou na Dinamarca com aquela lareira, mas não, era verão e só sentiam falta de um aparelho de ar condicionado. O cardápio estava recheado deles mesmos . Foi um almoço gourmet , o gosto e o tempero que só eles possuiam. Um sabor que nunca se dissipou.

Mas eles queriam mais. Era fim de dezembro, bem no fim de dezembro. Em tese, estavam trabalhando, mas havia muito pouca gente no escritório. Ele, ela, uma outra moça e o chefe dela. Um andar quase vazio e ela lhe tentando com insinuações por baixo da mesa. Ela disse que ia escovar os dentes, ele esperou atrás da porta . Não havia quase ninguém por lá. Ele invadiu o banheiro feminino e lá estava ela : bonita, excitante, tentadora. Ela resistiu sem resistir. De repente um barulho, alguém entrou para a limpeza, eles se esconderam no cubículo. O alguém saiu e eles continuaram.

Um novo ano. Ela foi para um lado e ele para o outro, ainda tiveram uma última vez. Como a primeira, numa sexta-feira, em janeiro: swinging on a star again. Na semana seguinte um café na livraria que se repetiu numa sexta feira de fevereiro. Em março ainda foram almoçar juntos. Só se encontraram de novo em Junho, eles e mais 10 pessoas na comemoração de um aniversário. Alguns telefonemas trocados. O ano não foi bom para ele. Ela também se afastou, virou executiva, mulher super atarefada. Nunca tinha tempo.

Uma festa de final de ano e se encontraram de novo. De novo, mais 10 pessoas juntas. Mas ele sentiu que foi bom vê-la. Continuava linda e apaixonante. E por mais que a distância e a falta de tempo os separassem, algo batia fundo no seu coração. Mais um ano e continuaram longe. Encontraram-se quase sem querer no outro Junho. Ligações sem resposta. Convites.

Hoje ele escreve cartas que ela não vai ler. Liga para telefones onde não a encontra . Deixa recados que se perdem e espera. Espera ouvir. Espera reencontrar. Espera entender tudo o que passou e o que não passa nunca. Espera.

Insano, como de hábito

Pérolas musicais, muitas vezes vêm de onde menos esperamos. A letra é do velhinho cabeludo :

I'm crazy
crazy for feeling so lonely
I'm crazy
crazy for feeling so blue
I know
you'd love me as long as you wanted
then someday
leave me for somebody new
worry
why do I let myself worry
wondring
what in the world did I do
crazy
for thinking that my love could hold you
I'm crazy for crying
I'm crazy for trying
I'm crazy for loving you

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Aforismos, cada vez mais inconsequentes


Odiar é um grande gasto de energia. Eu sou muito preguiçoso para tanto.

Não xinguem minha mãe. Meu mau comportamento não provém de determinismo biológico.

Concretismo é um estilo que fica melhor na arquitetura do que na poesia.

Eu desconfio de pessoas que, no Orkut, tenham mais comunidades que amigos.

Existem seres tão auto suficientes que nem percebem que o são.

Quem muda muito de direção acaba no mesmo lugar.

Se mais doce é a vingança, onde é que se vende insulina para alguns diabéticos ?

Na minha cidade, transitar é um verbo intransitivo.

Estou ficando velho. Constatei isso ao descobrir que já sirvo de referência bibliográfica.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A extensão do Filomeno


Eu tenho espelho em casa. Aliás, mais de um e, desde que me mudei, não só tenho aqueles tradicionais espelhos de banheiro onde a gente se enxerga da barriga para cima, como também tenho um espelho na porta de um dos armários do quarto que vai do teto até o chão, ou seja, nada me escapa.

Além disso, eu enxergo bem. Tirando as letras miúdas escritas em negativo e à noite, minha visão, apesar da idade, não anda me traindo. Mais que isso, tenho senso crítico e consciência plena das minhas imperfeições anatômicas. Tenho muito mais peso que seria necessário e, em especial, o abdômen avantajado (melhor que falar que eu sou barrigudo, não é mesmo ?). Estou ficando com os cabelos brancos, mas pelo menos não estão caindo. Na minha pele proliferam cravos (a dermatologista me falou um nome bonito que eu sempre esqueço) que, graças ao meu intenso cutucar, muitas vezes se convertem espinhas. Não sou nenhum monstro e nenhum galã.

Tirando os regimes, de tempos em tempos, mais por questões de saúde do que de estética, nunca cogitei nenhuma reforma estrutural. Nunca visitei sites de cirurgia plástica, nunca comprei pílulas mágicas, nunca usei cremes (a dermatologista tentou, é verdade, mas nunca tive disciplina para isso)

Por que diabos então eu recebo mais de 10 e-mails por dia me oferecendo produtos para aumentar o meu filomeno ? Em que raios de banco de dados que eu fui cair que acredita que eu tenha algum tipo de frustração com a centimetragem do mesmo ? Acho que a última vez que ele foi medido eu deveria ter uns 13 anos (e que menino, entrando na adolescência, nunca fez isso ?) e, para ser bem sincero, não me lembro mais de qual foi o resultado. Se isso não fez diferença nenhuma quando eu era mais jovem, por que faria a essa altura da vida ? Os rapazes de meia-idade andam fazendo campeonato de extensão ?

Me questiono quais seriam os benefícios de 5, 10 centímetros a mais (algumas mensagens prometem crescimentos ainda maiores). Talvez melhorasse a pontaria por chegar mais perto do vaso. Mas ainda não estou tão ruim de mira assim. Não participo de concursos de fisioculturismo com aquelas sungas ridículas. O filomeno não é tímido, mas também não fica se exibindo em público, tem mais o que fazer. Ele tem amor próprio e não precisa de elogios desse tipo. Criança é que gosta quando alguém vira fala : -"Pôxa, como você cresceu...".

Não consegui ainda a solução para me livrar desse aborrecimento (dos e-mails, é claro, não pretendo me livrar do filomeno), mas se você estiver enfrentando problemas com o seu filomeno ou com o filomeno do qual você é usuária, me avise que eu lhe encaminho as mensagens. De repente, podem ter alguma utilidade.

domingo, 4 de novembro de 2007

A galera fantasma


Eu poderia simplesmente ter esquecido aquele sonho e tocado a vida em frente. Mesmo porque faltava apenas um semestre para o fim do curso e São Carlos não era uma cidade de todo ruim. Mas o pique era outro, o coração também. Larguei tudo. Hoje só me arrependo de ter demorado tanto para resolver .

Era um domingo. Eu e Mauro, colega com quem dividia a casa, resolvemos dar uma volta. Lívia, minha namorada, tinha ido passar o fim-de-semana com os pais em São Paulo. Eu não achara ruim.

Antigas latas de conservas serviram para preparar o almoço, acompanhado da última garrafa de vinho. Saímos depois de almoçar. Passamos na Federal (universidade, não polícia) onde encontramos um pessoal na piscina. Nada de novo. Sugeri que fossemos à casa de Edna beber um pouco de "frutilla".

Memórias. Coleção de fatos que se acumularam em pouco tempo. Hoje se refazem como uma coleção de fotos antigas encontradas num velho baú. Quando cheguei em São Carlos achei tudo muito estranho. O preconceito contra o interior ainda era forte e eu não conhecia ninguém além de uma menina que fazia pós em Biologia. Seis meses depois da minha chegada ela voltou para São Paulo para casar. No começo morei numa pensão de uma velha e gorda viúva que tinha a paciência curta com os estudantes. Sua comida, no entanto, era tão boa quanto a sua disposição para criar casos. Memórias.

Quando chegamos à casa de Edna, ela ainda estava com sono. Gisele, sua filha, estava na sala tocando "Le lac de Côme", como toda boa mocinha do século passado fazia. Bonita, sorriu quando entrei. Parou de tocar e veio me cumprimentar. Pediu que eu tocasse um pouco. Mesmo sem prática arrisquei alguma coisa. Nunca aprendi tocar "Le lac". Mauro me chamou. Edna estava na cozinha. Ele me perguntou se havia alguma possibilidade de eu não voltar para casa naquela noite. Disse que não tinha nada para fazer, mas dava um jeito. Pedi que me levasse em casa para pegar meu carro.

Memórias. Conheci Mauro quando mudei da pensão para uma república de estudantes. Ele estudava Física e dividia o quarto comigo. Através dele conheci Lívia. Saímos para um concerto na universidade. Em pouco tempo estávamos juntos. Fatos passados. Fotos passando. Memórias.

Comecei a pensar no que fazer para passar a noite fora. Mauro certamente teria uma noite agradável com Edna que, apesar de ser muito mais velha que nós, era uma mulher atraente. Ficara viúva há três anos e se dedicava à filha , de quinze. Lembrei de uma amiga que não via há alguns anos. Cláudia. Morava em Araraquara, setenta quilômetros de São Carlos. Às seis e meia estava na estrada.

Memórias. A estrada era uma velha conhecida. Antes de alugar a casa com Mauro o único jeito de passar a noite com Lívia era sair da cidade. Na república era impossível. Na sua casa também. Ao luar não era nosso estilo. A solução era um hotelzinho em Ribeirão Preto. A primeira vez foi cômica. Chegamos ao hotel como se fossemos casados, bagagem incluída. O porteiro nos olhava com suspeitas. Deixamos as malas no quarto e fomos beber alguma coisa. Bebemos todas. Na volta o quarto girava como uma montanha-russa. Ríamos da nossa nudez. Deitamos e dormidos tão profundamente que esquecemos o que íamos fazer. Na manhã seguinte acordamos rindo. Da nossa bebedeira. Do nosso esquecimento. Do pudor de Lívia ao se ver nua ao meu lado. Da mútua virgindade. Das trapalhadas na cama. Memórias.

A placa indicava Araraquara a um quilômetro. A noite clara anunciava o calor da cidade. Fui direto para a casa de Cláudia. Me perdi. Depois de tanto tempo tinha esquecido o caminho. Telefonei. Ela me explicou o caminho. Ela me recebeu surpresa com a visita inesperada. Só ela e o irmão estavam em casa. Sentamos na sala em desordem porcausa de uma reforma. Conversamos até de madrugada. Expliquei como tinha resolvido ir para lá. Mostrei alguns dos meus poemas. Ouvi suas histórias. Dormi no sofá da sala.

Acordei no meio da noite, nem lembro bem porque. O relógio indicava quatro horas.
A luz do quarto de Cláudia estava acesa. Não resisti a curiosidade de ver o que ela fazia aquela hora. Lia meus poemas. Me convidou para entrar. Sentei ao seu lado na cama. Ela apagou a luz.

Memórias. Os sonhos são memórias daquilo que gostaríamos de ter vivido. Lembrei do mar. O mato e o cheiro de terra molhada de chuva. De um acampamento com Mauro. Não havia pessoas no meu sonho. Só eu. Olhava o horizonte esperando uma galera fantasma que me levaria a outros mares. Outros matos. Outros cheiros de terra molhada. Memórias.

Acordei assustado. Estava sozinho. Encontrei Cláudia e seu irmão tomando café. Ela me olhou com um olhar de cumplicidade de que tudo estava sob controle. Seu irmão não percebera nada.Voltei para São Carlos antes do almoço com a certeza que não demoraria tanto para visitar Cláudia novamente.

Ao chegar em casa vi o carro de Mauro na garagem. Hesitei mas acabei entrando em silêncio. Alguém estava na cozinha. Mauro ou Edna fazendo café, pensei. Ia até fazer uma brincadeira mas, ao entrar, fiquei parado na porta. Olhei perplexo. Era Gisele.
Engoli em seco e perguntei se o seu café tinha gosto de "Le Lac de Côme". Ela, sorrindo sem graça, não respondeu. Mauro ainda dormia. Fui para o meu quarto sem entender nada. Deitei e dormi.

Acordei com Mauro me chamando para almoçar. Ele tentou me explicar alguma coisa que não entendi. Nem acreditei. Contei o que fizera. Os fatos. Os sonhos. Fomos para a aula.

Não consegui prestar atenção em nada. No meio da aula lembrei que deveria ter ido buscar Lívia na rodoviária. Pensei em ligar. Desisti. Ela devia estar furiosa. Voltei para casa . Comecei a falar para Mauro que eu ía desistir de tudo. Precisa ir para o mar. Ele me contou a verdade sobre a noite anterior. Ele, Edna e Gisele sairam . Edna encontrou amigas e pediu que ele levasse Gisele para casa. Ele levou para a casa errada. Edna estava furiosa. Gisele apavorada. Disse que ia comigo até o clima melhorar. Telefonei para Cláudia e a convidei para ir junto. Ela não pensou duas vezes. Chegamos ao mar uma semana depois. Escrevi para Lívia explicando tudo.

Mauro voltou para São Carlos um mês depois. Sua última carta foi o convite para o casamento dele com Lívia. Não sei se vou. Cláudia não aguentou mais que um ano. Mora em São Paulo, trabalha numa escola.

O mar continua o mesmo. O mato está um pouco destruído. A terra cheira forte a cada chuva que cai. A galera fantasma ainda não chegou mas, a esperança é maior e o sonho persiste. Memórias apenas. Nada mais.

sábado, 3 de novembro de 2007

Canículas


Durante algum tempo eu escrevi sobre vinhos para um site chamado Redemoinho, na categoria de amador metido a besta. Claro, nunca cheguei a ser tão besta a ponto de falar sobre os aromas secundários de frutas tropicais subsaarianas. Então vou reeditar os melhores momentos e também escrever alguns inéditos.

Aproveitando a onda de calor, vou começar com Canículas, ou porque só os vinhos são discriminados no verão.


Canículas


Rio de Janeiro. 40 graus à sombra. Num boteco do Leblon come-se uma farta feijoada acompanhada de doses nada homeopáticas de caipirinha - de pinga, é claro.

Ijuí. 35 graus. Hora do almoço no campo. À beira da fogueira come-se um churrasco gordo. De mão em mão vai circulando a cuia de chimarrão, quente - é óbvio.

São Paulo. Temperatura do ar : 30 graus, temperatura do asfalto: 45. Dentro de um restaurante japonês bebe-se saquê em xícaras de porcelana. Morno - como manda a tradição.

Mas experimente pedir um vinho e rapidamente alguém vai perguntar:

- Vinho no verão? Você ficou louco??

Foram incontáveis as vezes que deixei de tomar um bom vinho por conta dessa queixa de quem me acompanhava - independentemente da temperatura em que se encontrava o ambiente. Sempre aparecia um chato para lembrar que era verão - e no verão não se toma vinho. Não se toma vinho ?

Não sei de onde surgiu o preconceito estival contra as bebidas derivadas da uva. Não tomamos vinho, não tomamos conhaque, não tomamos grapa. Por outro lado bebemos uísque, vodca, rum, cachaça - bebidas com teor alcóolico muito superiores a qualquer vinho e que esquentam muito mais. Se você resolver fazer uma continha simples, duas garrafas de cerveja contêm mais álcool que uma garrafa de vinho.

Talvez seja o fato de que os vinhos são produzidos em regiões temperadas. Talvez associem o vinho às cenas piego-românticas dos casais à beira da lareira e neve através da janela. Talvez alguma superstição que eu desconheça. Se não for por nenhuma dessas razões, fique à vontade para beber qualquer vinho em qualquer estação do ano. Mesmo em plena canícula do nosso verão.

Por outro lado, se a temperatura exterior não impede uma boa degustação, a temperatura do próprio vinho pode causar grandes desastres. Nada que não possa ser resolvido com alguns minutos de geladeira.

A temperatura de uma geladeira costuma ser de 4 a 5 graus. Tire um vinho branco de dentro dela e sirva-o imediatamente. Você acabou de detonar um grande Borgonha....

Os vinhos brancos devem ser bebidos frios, mas não gelados - isso apenas faz com que eles fiquem com gosto de refrescos ou de (arghhh) "wine cooler". A temperatura ideal é de 10 a 12 graus. Para se chegar a essa temperatura no verão basta deixar a garrafa fora da geladeira por uns 15 minutos antes de servi-la. Depois disso, mantenha a garrafa num balde alto com água gelada (só água, sem cubos de gelo). Só vinhos de sobremesa e os espumantes se tomam gelados, mesmo assim, não os abandone na geladeira por dias a fio.

Já os vinhos tintos tornam-se um caldo de sopa a partir de 22 graus. Os vinhos mais leves como os beaujolais e os cabernet franc e merlot nacionais ficam deliciosos a 15 graus. Os mais encorpados têm o seu melhor desempenho a 20 graus. A solução também passa pela geladeira só que dessa vez faça o contrário : coloque-o na geladeira cerca de meia hora antes de servir. O balde de água também pode ser utilizado para manter a temperatura, nesse caso com água menos gelada do que seria usada em um vinho branco ou, a menos que você se escandalize demais (ou seja mesmo um fresco, nunca se sabe), use aqueles protetores de garrafa de isopor que costumam ser usados com cervejas (lembre-se que o gosto do vinho é muito mais importante que a aparência da garrafa).

É claro que você não precisa ficar com um termômetro verificando se já está na temperatura ideal, basta que o vinho esteja aproximadamente na temperatura ideal. Na dúvida, é melhor gelar um pouco mais . No verão é mais fácil fazer a temperatura subir do que descer.

Bom verão. E bons vinhos.

sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Antologia de Outubro


"A descontextualização faz o mundo girar como roda gigante na cabeça dos quem tem alforria literária."

Seja lá o que isso quer dizer, descontextualizar os comentários do blog é uma das minhas diversões pode ser a sua também : faça o exercício de ler as frases da antologia sem ir para o post que a gerou e criar uma situação onde ela se aplique. Vai rir junto comigo e descobrir que a insanidade compensa. Aí vai a antologia de Outubro :

...nada como estar de costas pra porta da cozinha....

Meu grande trauma (e o da minha mulher) é a bagunça que deixo afterwards ...

...os estragos são parecidos, as vítimas não...

...neste percurso, considerei acidente de trabalho alguns procedimentos das chefias...

Eu uso óculos há anos e muitas vezes prefiro tirá-los para não ouvir o que os sóbrios dizem por ai.

Céus! Jamais imaginei que aquela voz fosse de um senhor de cabelos brancos!

Não há molde que seja bom, nem (in)sanidade que o justifique.

...são vampiros emocionais conduzindo uma carroça vazia, o barulho é tanto que não percebem o abismo onde estão caindo.

...o pior de todos: o tal "um beijo no coração". Me dá arrepios na coluna.

Não palerma, mão boba é a outra que não tá fazendo nada!

Bem, bem... dois homens agora discutindo a "cumplicidade"...

aiiii...tem maionese?

...pouco tempo para os hormônios...

...continue treinando e vc vai longe!

...seu blog não me permite ser a Outra...

Depois que a enxurrada bioquímica passa, vem a bonança...

...até menos de 2 minutos eu acreditava por algumas (hehehe) décadas que era do planeta Terra.. agora não sei mais!!
Deu a loca no xirú...

Posso pedir cola?.. posso falar com um amigo e voltar?

Talvez o leite estivesse contaminado com água oxigenada e soda cáustica.

...foi um crime passional, disso tenho certeza.

...esperneia quem tem razão , e sai da fila quem encontra um vereador...

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Toma este vals

Só um cara genial consegue pegar a obra de outro gênio e fazê-la ainda melhor.

Federico Garcia Lorca - Pequeño Vals Vienés

En Viena hay diez muchachas,
un hombro donde solloza la muerte
y un bosque de palomas disecadas.
Hay un fragmento de la mañana
en el museo de la escarcha.
Hay un salón con mil ventanas.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals con la boca cerrada.

Este vals, este vals, este vals, este vals,
de sí, de muerte y de coñac
que moja su cola en el mar.

Te quiero, te quiero, te quiero,
con la butaca y el libro muerto,
por el melancólico pasillo,
en el oscuro desván del lirio,
en nuestra cama de la luna
y en la danza que sueña la tortuga.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals de quebrada cintura.

En Viena hay cuatro espejos
donde juegan tu boca y los ecos.
Hay una muerte para piano
que pinta de azul a los muchachos.
Hay mendigos por los tejados,
hay frescas guirnaldas de llanto.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals que se muere en mis brazos.

Porque te quiero, te quiero, amor mío,
en el desván donde juegan los niños,
soñando viejas luces de Hungría
por los rumores de la tarde tibia,
viendo ovejas y lirios de nieve
por el silencio oscuro de tu frente.

¡Ay, ay, ay, ay!
Toma este vals, este vals del "Te quiero siempre".

En Viena bailaré contigo
con un disfraz que tenga
cabeza de río.
¡Mira qué orillas tengo de jacintos!
Dejaré mi boca entre tus piernas,
mi alma en fotografías y azucenas,
y en las ondas oscuras de tu andar
quiero, amor mío, amor mío, dejar,
violín y sepulcro, las cintas del vals.

Olhos mouros ou isso lá é hora de poesia ?


Olhos mouros


Quantos segredos contados
Quantos mistérios desfeitos
Quantos sinais, quantos finais
Nada demais

Quanta luz é revelada
Quando não esconde nada
Uma expressão, uma canção
Sem comoção

Quanto tempo perdido
Metafísica sem sentido
Mesa de bar, não vai calar
Um olhar