terça-feira, 30 de outubro de 2007

Contículo tautológico


Eu tinha certeza absoluta que tinha pago a quantia exata e, ainda assim, continuaria com um superávit positivo na minha carteira. Juntamente com a compra eu deveria ter recebido um bônus extra de pontos no meu programa de milhagem. Mas surgiram alguns sintomas indicativos de que a moça do caixa não tinha feito o elo de ligação entre o meu pagamento e o dinheiro que estava na sua gaveta. Ela separou as notas em duas metades iguais, me encarou de frente e, para a minha mais inesperada surpresa, repetiu outra vez o valor, com um tom de cobrança.

Redargui que não haveria outra alternativa senão eu lhe explicar em detalhes minuciosos o que ocorrera : " Há dez minutos atrás eu deixei à sua livre escolha definir qual seria o meio de pagamento, sei que era uma escolha opcional, o que não lhe impediu de demonstrar um preconceito intolerante contra o meu cheque. Dei-lhe o dinheiro, e agora você volta atrás ?"

Ela tentou me explicar que estava terminantemente proibida de, às segundas, terças e quartas, inclusive, de realizar o acabamento final das compras em espécie. Me deu sua palavra de honra que isso era um fato real. A partir de agora, insistiu, a menos que eu esperasse amanhecer o dia seria dessa forma.

Ameacei gritar bem alto que isso era abusar demais da minha paciência e, ainda que essa fosse uma propriedade característica minha, iria denunciá-la por esse vandalismo criminoso que me deixaria completamente vazio de bufunfa. Os demais clientes compartilhavam conosco essa cena. Todos foram unânimes em considerar que a moça se excedia em demasia.

No final, um vereador da cidade, proprietário do estabelecimento, compareceu pessoalmente ao caixa, considerou o caso um destaque especial e me concedeu a lógica razão. Exultamos de alegria, eu por vencer a querela, a caixa por se livrar de mim e o resto da fila, porque essa andou em frente.

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Júlia


Morto. Para a surpresa de todos ele fora encontrado na cadeira da sala com a televisão ligada, alguns cigarros apagados no cinzeiro e um copo de leite caído no chão. Pensaram no coração, um ataque súbito. Mas era pouco provável, apesar de fumar sempre tivera uma vida atlética e nunca descuidara da saúde. Suicídio ? Impossível. Ele andava muito feliz nos últimos tempos. Quem o encontrou foi Rosângela. Pensou que estivesse dormindo. Desmaiou quando notou o acontecera. Quando voltou a si chamou os amigos. Depois a polícia.

A autópsia não acusou absolutamente nada. Perplexidade. O corpo demorou dois dias para ser liberado pelo IML, os médicos se recusavam a assinar o atestado de óbito. Mas tinha de ser enterrado. Acabaram indicando insuficiência cardíaca. Ninguém acreditou. A causa da morte não estava no seu corpo.

Naquela noite Gérson havia chegado cedo em casa, pensara em ligar para Rosângela para irem ao cinema, acabou desistindo. Teria de acordar cedo no dia seguinte e os programas com Rose sempre acabavam tarde. Começou a ler um livro de Cortázar. Júlia, sua gata, se alojara no seu colo e ele a acariciava. Pelos negros que se eriçavam suavemente. A história lembrou-o de tempos passados quando trabalhava como jornalista em Limeira. Alguém que lia as suas crônicas se apaixonou por ele.

Tentaram vasculhar a casa para encontrar algo que levasse a alguma conclusão. O pouco que encontraram não dizia muita coisa. Rascunhos espalhados na escrivaninha com apontamentos sobre a tese que pretendia defender. Um poema dedicado a Rosângela. Algumas observações sobre os contos de Poe. Dentro do livro de Poe um bilhete escrito numa folha do Hotel 4 Rodas. “Fui para o meu quarto. Beijos. Cláudia”. Águas passadas pensou Rose.

Era formado em filosofia e se especializara em história da arte. Acreditava na vida como uma experiência estética. Dizia que a vida se transformava como os movimentos artísticos. Kierkgard. Lia incessantemente e se recusava a concordar com ele. Estava na fase dadaísta da sua vida.

Rose, inconformada com o acontecido, pensou em contratar um detetive para investigar o caso. Depender da polícia era besteira. Comentou o caso com uma colega da faculdade que se interessou pelo assunto. Resolveram investigar juntas. Lia, a colega, chamou seu irmão, Hugo, para irem juntos ao apartamento de Gérson e começarem a pesquisa. Antes de chegar pararam num barzinho e discutiram como iam trabalhar. Sistematizaram a investigação e foram.

Depois de formado fora para Limeira atrás de uma namorada. Não tinha nada para fazer como filósofo. Começou a escrever crônicas e crítica de arte no jornal local. Foi quando se interessou pela estética e pela sua ausência em torno dele. Foi fazer mestrado na Unicamp. Defendeu tese sobre Marcel Duchamp. A vida andava surrealista. Brigou com a namorada. Voltou para São Paulo.

Lia investigava os livros, pegava um a um e vasculhava as páginas. Rose tentava descobrir alguma coisa no quarto, nos bolsos, nas gavetas. Hugo ficou na sala. Pouca coisa sobrara ali depois da passagem da polícia técnica. Sentou na cadeira onde o corpo fora encontrado, ligou a TV e começou a fumar um cigarro. Viu o livro em cima da televisão, pegou-o e começou a folheá-lo. Não gostava de Cortázar. Pouco depois, Rose entrou na sala. Lembrara de uma coisa estranha. Júlia, a gata, havia desaparecido. Nenhum vestígio.

Dava aula numa faculdade particular e prosseguia seus estudos, pretendia conseguir o doutorado até o final do ano. Uma filosofia de vida. Pretendia implantar uma filosofia de vida baseada na estética. Júlia, encontrara-a ainda filhote no meio da rua, resolveu levá-la para casa. O nome era o de uma canção dos Beatles. Conversava muito com ela. Gata preta de olhos azuis. A única amiga que ele considerava definitiva.

Tentaram encontrar a gata no prédio. Nada. Ligaram para o investigador que cuidava do caso e ele disse que não havia nenhum gato no apartamento quando a polícia estivera no local. Hugo pediu para Rosângela contar de novo como encontrara Gérson. Achou muito curioso o fato da televisão estar ligada. Afinal, ele estava lendo ou vendo TV ? Perguntou em que canal estava. Ela não prestara atenção, apenas lembrava que desligara o aparelho pois o volume estava muito alto. Foram até o arquivo de um jornal, Hugo queria ver a programação daquele dia.

Gostava muito de conversar pelo telefone, segundo ele evitava constrangimentos. Tinha horror de quem falava olhando para os seus olhos. Conhecera Rosângela na faculdade, era aluna da graduação, oito anos mais nova que ele. Ela sempre o procurava para ajudá-la nos seus trabalhos, boa desculpa. Gostavam de música clássica e ela sempre ia à sua casa para ouvir seus discos ou para ouví-lo tocando fagote. Ela achava um instrumento muito exótico. Uma noite ficou por lá. Foi difícil inventar uma boa história para contar em casa. Lia salvara a situação dizendo que ela passara mal e tinha ficado na sua casa.

O seu amor por Rosângela era estranho. Estava com ela e gostava dela mas, às vezes, tinha um impulso irresistível de não estar com ela. Traição nunca. Acreditava em fidelidade. Só que haviam horas em que queria ficar absolutamente só. Como naquela noite. Ficaria em casa com Júlia, seus livros e a televisão. Costumava ler com a televisão ligada, quando a vista cansava da leitura assistia algum programa. Júlia, no seu colo, de vez em quando também olhava para a TV.

Voltaram para o apartamento. Resolveram passar a noite lá. Lia e Rose dormiriam no quarto de Gérson. Hugo na sala. Ele se acomodou no sofá e colocou um disco na vitrola. Não conseguia dormir. Pegou o livro que largara na mesinha de centro e resolveu ler um pouco. Abriu no primeiro capítulo. As páginas estavam em branco. Sentou-se. Pulou algumas páginas. Em branco. O livro estava todo vazio, nenhuma letra impressa. Estranho, pensou, havia folheado o livro algumas horas antes e estava tudo no lugar.

Foi até o bar procurar algo para beber. Todas as garrafas estavam lá. Cheias de leite. Pensou em chamar as meninas. Preferiu não assustá-las. Encheu um copo. Sentou de novo. Não sabia se deveria beber. Lembrou que a autópsia não acusara a presença de nenhuma substância tóxica. Bebeu.

Pegou o livro de novo. Dessa vez tudo estava impresso. Mas não conseguia ler. Olhava para as letras e não conseguia concatenar as palavras. Ligou a TV, procurou algo interessante, sentou-se novamente. A televisão saiu do ar. Pegou o livro de novo. Vazio. No entanto, o copo de leite estava cheio e ele acabara de bebê-lo. Teve a impressão de alguém o observava. Ficou parado. Absolutamente parado. O copo caiu no chão. Estava morto.

Pela janela da sala, o vulto de um gato desaparecia na escuridão.



Essse texto foi escrito originalmente em Francês como uma lição de redação que fiz na Alliance Française em 13 de setembro de 1984
Traduzido e revisado em 27 de Outubro de 2007

Ruas de um anarquista noturno

O trânsito em transe intenso antecipa a noite
Riscando estrelas no bronze do temporal
Ares de milonga vão e me carregam
Por aí, por aí

domingo, 28 de outubro de 2007

Nossa (??) língua portuguesa


Não é todo dia que eu gasto pólvora em chimango. Hoje, porém, estou duro de boca e mal enfrenado. Imagino que pelo fato de me encontrar a meia guampa o que me deixa com o estribo frouxo. Não sei bem se tirei o culo ou se estou de laço a laço a cabresto de uma prenda.

Ela sempre me diz que está com o pé no estribo e que não quer aquentar banco. Suspeito que ela esteja botando guampa com aquele lombo de sem-vergonha, o que me forçaria a largá-la campo afora. Parece mais sensato do que, em cima do laço, passá-la no pelego. Sempre existe a hipótese de num upa passá-la no relho.

Melhor abrir a cancha. Eu não sou capão nem sinuelo e quem vem das minhas querências não enrola o poncho sem peleia, afinal sou biriva e colhudo. Se encontro o vivente no bolicho não vou deixar que ele continue a gauderiar com a minha china. Vai ter entrevero.

O guaipeca diz que é valente. Mas nem a indiada põe fé. Sou guasca capaz de trinchar e trancar lamba abaixo o papudo. O pereba vai querelar, mas passo a mão no rebenque e dou-lhe um trato.

Depois faço a armada para a rapariga, me aprochego à sua badana e cuido da buenacha. Ela nunca mais vai campear. Que não me mande chasque, senão vai se embretar. Que fique na minha invernada e cuide da minha quincha. Encha a cuia, ajeite a bomba sem chorar as pitangas.

E que junte comigo seus pelegos. Oigalê !

sábado, 27 de outubro de 2007

ah....a chuva


a bebida desce deliciosamente
pela garganta
na mesa do bar
tranquilamente
se canta

lá fora chove,
escorre a enxurrada,
na rua
a voz da melodia inventada
é sua

enxurrada
nada nada
minha amada
mais que nada,
nada
nada
enxurrada.

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Dispersando catabólitos


Outro dia eu conversava com uma pessoa a respeito do lixo. Sim, você leu direito. Lixo. Tudo aquilo que não nos serve mais e jogamos fora. Os nossos dicionários definem a palavra como sendo: coisas inúteis, imprestáveis, velhas, sem valor; aquilo que se varre para tornar limpa uma casa ou uma cidade; entulho; qualquer material produzido pelo homem que perde a utilidade e é descartado.

Nem todo lixo deveria ser definido como tal. Muito do que jogamos fora e consideramos sem valor pode ser aproveitado por outras pessoas. Ou seja, se ainda tem alguma utilidade, deixa de ser lixo. Não deveria nem ser chamado de lixo reciclável, mas de matéria prima de outros processos de produção.

Aí hoje eu aprendi outra palavra bonita : catabólitos.

Calma, eu já explico : catabólitos são os "restos", ou seja, o "lixo" que sobra na degradação (catabolismo) das substâncias no organismo. Aquilo que o organismo não precisa mais e joga fora. Pelo que eu entendi de quem explicou isso (obrigado Denise), a não eliminação desse lixo pelo corpo pode provocar uma série de problemas de saúde. Nesse caso, eu imagino não existem catabólitos recicláveis.

Muita gente gosta de guardar dentro de si uma série coisas que deveriam ser descartadas. Provavelmente foram úteis em algum momento. Elas, no entanto, ou não perceberam que esses produtos não servem mais. Perderam seus prazos de validade. Apodreceram e são nocivos ao consumo e distribuição. Também existe a possibilidade que estejam passando por uma fase de baixo catabolismo intelectual (o que não é eliminado provoca sérios problemas de relacionamento pessoal), ou que as suas vias de eliminação suponham que estes deveriam ser reciclados por outras pessoas.

Não pesquisei qual seria a melhor solução para o caso, mas, pelo menos, essas pessoas poderiam tentar descobrir quais as melhores vias de eliminação desses catabólitos que não fossem para cima de nós...

Apesar de ser recipente de vários catabólitos, também me peguei refletindo sobre o que valeria a pena reciclar e o que deveria ir para o lixão.

Agora, se você concluiu que esse texto é um lixo, é bem provável que eu tenha catabolizado em você.

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Não se surpreenda quando o gelo quebrar



Você conhece Ute Lemper...não ?? então procure saber mais, vale a pena
Você conhece Roger Waters ...não ?? de que planeta você veio ?

If you should go skating,
On the thin ice of modern life,
Dragging behind you the silent reproach,
Of a million tear-stained eyes,
Don't be surprised when a crack in the ice,
Appears under your feet.
You slip out of your depth and out of your mind,
With your fear flowing out from behind,
You as you claw the ice.

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Farmacopéia amorosa


Apaixonar-se é um ato muito estressante para o corpo, afirmou a pesquisadora italiana Donatella Marazziti durante o 25º Congresso Brasileiro de Psiquiatria que aconteceu esse mês. A ilustre doutora, como cientista que é, limitou-se à análise das reações bioquímicas provocadas por paixonites crônicas e também as agudas, mesmo porque o congresso era técnico e não caberia a ela entrar em detalhes a respeito da sua vida privada.

O que não significa que eu deixe de ler frequentemente a respeito das propriedades saudáveis do sorriso , do beijo, do ato sexual, ou seja, nada como uma boa relação amorosa para acabar com o sedentarismo e manter a boa forma, exatamente o contrário do que preconiza a Dona Tella. Aparentemente os endocrinologistas não concordam com os bioquímicos. O que, também, não é nenhuma surpresa para quem convive com o mundo acadêmico. Como eu não gosto e entendo neres de pitibiriba sobre as ciências biológicas, recolho-me à minha ignorância e prefiro os segundos à primeira. Mesmo porque, sorrir, beijar e amar é muito mais divertido do que reprimir paixões. Nunca vou perder a oportunidade de alimentar esse tipo de stress.

No entanto, eu já passei por uma relação bioquímica passional. Quando tinha 16, 17 anos, namorava uma menina que trabalhava numa farmácia, o que fazia que muitos dos nossos encontros fossem entre prateleiras de medicamentos, geralmente nas horas de almoço quando o seu pai (dono da farmácia), não estava lá. Por sinal, o horário de chegada do pai, com cara de bravo, era a única fonte de stress dessa paixão. Dela surgiu a Farmacopéia Amorosa. Um poema bem bobinho e juvenil, que eu ainda acho divertido.


Farmacopéia amorosa

(1978)


Calmantes
Revigorantes
Vitaminas
Tiaminas.
Bulas , engulas.

Para o tédio
Há remédio
No coração
Uma injeção
Se tens pena
Cibalena.

Se me rogas
Tome drogas
Se és altivo
Um curativo
Na paixão
Põe-se algodão.

Vives mal?
Um melhoral
Antipatia
Homeopatia
Mal afamado
Agora é tarjado.

Mas só tua beleza
Pode curar minha tristeza

Sexta feira,13 horas.


Alguns dias da semana são absolutamente inóquos. Ninguém costuma fazer referências específicas às terças, quartas e quintas. Todo mundo odeia as segundas-feiras. Os sábados são bem aproveitados. Os domingos nem tanto, mesmo porque muitas pessoas gostam de sofrer antecipadamente e, no meio da tarde, já começam a pensar no dia seguinte. As sextas-feiras funcionam como o domingo invertido. Já se começa a pensar no fim de semana que está chegando.

Mais que isso, as sextas receberam em torno delas alguns ritos de relaxamento. É o dia de se vestir de forma casual (exceto em empresas com chefes paranóicos). Também é o dia de almoços mais prolongados. Sabe-se lá o por que. Eu preferiria um almoço com mais tempo às quartas, assim daria uma quebrada no meio da semana. Mas quem levou o prêmio foram as sextas. Também é o dia do happy-hour, com a desculpa que não é necessário acordar cedo no dia seguinte. E, de vez em quando, uma sexta-feira é mais sexta que outras.

Quando Antenor e Adelaide se encontraram no escritório naquela sexta feira, exceto pelos trajes casuais, ainda não tinham entrado no espírito do dia. Cara de sono. O mau humor habitual. Cartão de ponto. Ela estava cheia de trabalho e, para completar, ficara responsável por fazer o lanche de final de dia para comemorar os aniversariantes do mês. O cumprimento não passou de um resmungo para lá e outro para cá. Nada fora da rotina.

Por volta das 10 horas, quando Antenor caminhava em direção à contabilidade para tirar uma dúvida sobre um lançamento que lhe pareceu estranho, ele passou pela mesa de Adelaide quase sem olhá-la. Mas olhou. Ela estava com um brilho diferente. Ele não conseguiu identificar bem a origem do mesmo. Na volta passou mais devagar e prestou atenção. Ela estava bonita. Mesmo que ainda não conseguisse entender o motivo. Já a tinha visto com aquela roupa. Nunca reparara que o decote era tão sugestivo. Quase de forma automática convidou-a para almoçar. Ela, mesmo surpresa com o convite inusitado, aceitou. Meio dia ? Sim, meio dia, eu passo por aqui.

Podiam ter ido almoçar a pé. Havia dezenas de restaurantes nos arredores. Mas ele pegou o carro. Era sexta-feira, o almoço poderia ser mais longo. Ela entrou no carro cheia de interrogações. E feliz. Era óbvio que existia uma tensão sexual no ar. Justo entre eles que nunca tinham trocado mais que cumprimentos e frases relacionadas a trabalho. Ela gostaria que ele tivesse perguntado onde ela queria ir. Ele foi decidido para o restaurante francês do shopping, sem perguntar. Vinho ? Só uma taça. A comida está boa ? Quer experimentar a minha ? Aqui tem uma sobremesa ótima... Café ? O meu com leite.

Ele olhou no relógio. 13 horas. Apesar da sexta feira, ela lembrou do lanche que ainda tinha de preparar. Ele lembrou da ligação que prometera ao chefe. Ambos queriam mais. Os olhares pediam mais. Nenhum dos dois teve coragem de avançar o sinal. Voltaram.

Quando se encontraram de novo já era segunda-feira. E segunda-feira, vocês sabem, é um dia muito desfavorável para romances.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Meninas



Algumas cenas do passado sempre ficam gravadas. Boas e más lembranças. Assim é que caminha a vida. As boas, sempre sugerem poesia

Meninas


As meninas que, ao meu lado,
Brincam sérias, zombam flores,
Trazem no rosto marcado
Desnecessários temores.

As vizinhas que, ao meu lado,
Negociam prazos, cores,
Tornam meu dia calado
Esquecimento de dores.

Anárquico pensamento
Vivia nesta neblina
Mar imenso, curto tempo.

Ao meu lado, sem tenção,
Meninas de alma felina
Anelam minha emoção.

Defectiva é a língua


Eu não sei quem foi que batizou os tempos verbais da língua portuguesa. Mas tenho certeza que o dito cujo era bem mais insano do que eu.

Primeiro inventou uma história de tempos primitivos. Eu imagino que esses eram os tempos da idade da pedra lascada da última flor do Lácio. Segundo essa classificação, os tempos primitivos são apenas três : o presente do indicativo, o pretérito perfeito e o infinitivo. Todos os demais são apenas derivados. Se um derivado de leite é um laticínio, imagino que os tempos derivados deveriam ser chamados de verbocínios.

Depois começou a batizar os demais tempos com nomes que não fazem o menor sentido. A vida funciona de forma bastante simples : existem fatos que acontecem no momento da fala, fatos que já aconteceram e acabaram, fatos em andamento (e até o gerúndio pode ser usado corretamente) e fatos que acontecerão no futuro. Mas para que simplificar ? Isso acabaria com o emprego de centenas de professores de português, revisores e comentaristas de jornal e televisão.

Alguém pode me explicar por quê não chamar o passado de passado ? Precisa ser pretérito ? Pior, precisa dividir o pretérito em perfeito, imperfeito e mais-que-perfeito ? Ah...entendo, existem fatos no nosso passado que foram perfeitos e outros nem tanto. Tenho na lembrança alguns que chegaram a ser mais-que-perfeitos. Imagino que, nesse caso, o uso de cada uma dessas formas tenha uma função adverbial. Eu amei é perfeito. Se eu amava, passa a ser imperfeito. Mas se eu disser que eu amara isso chega a ser mais que perfeito. Seja lá quem tiver sido a Mara.

Mas, sem dúvida nenhuma, o meu tempo preferido quanto à sua insanidade é o futuro do pretérito. É um tempo sem noção dele mesmo. Como algo pode estar no futuro do passado ? Imagino que, se tirarmos a média, o futuro do pretérito na verdade é o presente. Chega a ser um sintoma indicativo da criatividade dos lingüístas. Tudo bem que Einstein provou que o tempo não existe (ou pelo menos é relativo, como alguns verbos), mas como explicar a um aluno de 4a série que a ação ocorre no futuro mas ela soa como sendo do passado ?

Defectivo foi quem inventou isso ou, na melhor das hipótese, um sujeito completamente irregular. Chega a ser imperativo que alguém tome alguma medida a esse respeito. E não apenas medidas subjuntivas. Quem poderia ser ? O Aurélio e o Houaiss já morreram, assim como algumas línguas, quem assumirá de forma nominal essa cruzada ? Mesmo que seja por um período transitivo, precisamos de um novo regente da língua portuguesa.

Você se habilita ?

domingo, 21 de outubro de 2007

No meio do caminho

Fate seems to give my heart a twist
And I come running back for more

sábado, 20 de outubro de 2007

Atualidades psicossomáticas


Foste ao teatro no ano passado e lá viste um filme de bang-bang. Não sei se entendeste a fita, mas ao virar a esquina começaste a dizer coisas estranhas. E o que é pior, ao passares por uma loja de armas ficaste olhando fixamente um três oitão que havia na vitrine.

No meio da noite acordaste. Saíste pela porta dos fundos, montaste na cerca e foste galopando pelo meio do asfalto. Ao chegar na tal loja, depois de atropelar duas capivaras e um pardal que estavam no teu caminho, atiraste uma côco-bomba no vidro e roubaste o revólver.

O primeiro assalto foi a um supermercado, como estavas sem munição roubaste três quilos de petit-pois e um quilo de banha de porco para lubrificar o cano da arma. Ao fugir, cobriste o vigia de tiros. Ele não se machucou, mas reclamou que as ervilhas estavam sem sal.

Em poucas semanas já estavas famoso pelo teus assaltos. E já te alcunhavam de Ervilha Kid. Os teus crimes, obtusos e cruéis, deixaram a cidade em completa euforia. Há muito não se registravam tantas mortes. Todos aguardavam ansiosamente pela tua visita.

Primeiro mataste o chefe dos jardineiros do paço municipal sufocado por mais de trinta e sete quilos, duzentos e cinqüenta gramas de soja. Em seguida enforcaste, com fios de tagliarini, toda a tripulação da única linha área local, que operava os serviços de vôo de urubu entre o estádio de futebol e a central do jogo do bicho.

Mas todos os crimes foram insignificantes perto do que fizeste comigo. Obrigaste-me a comer champignons até a morte, e tu sabias que eu detestava champignons. Foste realmente infernal. Sei que fizeste isso porque sabias que eu iria te perdoar.

Ontem foste ao cemitério para colocar estrume no meu túmulo. Tuas intenções são pérfidas, fazes crescer cogumelos junto à residência de minha alma para ver se prolongas o meu sofrimento. Além disso, ao deixar este meu hotel funesto avisaste ao coveiro que nunca deixasse faltar adubo junto à minha cova e que, se ele se esquecesse, tu o matarias a golpes de pirulito de genipapo. Ele jurou que não esqueceria mas, por via das dúvidas, tu levaste como penhor o seu baço e o dedo anular do pé esquerdo.

Hoje porém tu decidirás a tua sorte. O Cavaleiro Abóbora resolveu te enfrentar em praça pública e ele garante que te transformará num periquito no cio.

Meio dia. Chegou a hora do duelo. De um lado tu, com o três oitão carregado de jujubas de anis, montado em tua fiel e lastimável cerca viva. De outro, o sempre derrotado Abóbora Gun, cavalgando um pé de alface e, por ser carioca, com a pistola carregada de feijão preto.

Deste o primeiro disparo que pegou no pé de brócolis que estava em frente ao saloon. Ele tombou morto e saiu gritando impropérios imorais. O teu adversário revidou, atirando contra o cartaz de Coca Cola. Este, em represália, atirou-lhe uma latinha de refrigerante sem gás.

Esvaziaste os teus cartuchos em todas as direções, acertaste em tudo : nos ladrilhos do pet shop de paquidermes, na lâmpada da delegacia de estrupadores de baratas, na minhoca que estava convidando uma lesma para ir ao motel (e que ficou impotente depois de atingida), no relógio do convento dos padres fleurianos e na testa de um jabuti que estava visitando a cidade. Mas não atingiste o teu oponente.

Em compensação, ele foi tão feliz na pontaria quanto tu. O seu melhor tiro caiu dentro de uma garrafa de Vat 69 (é esse que é uma boa idéia ?) que estava sendo consumida por um casal de abelhas oceânicas.

A frustração foi geral. Tu sentaste no chão e começaste a chorar. O cavaleiro Abóbora, de raiva, batia o cotovelo num danoninho. Todos estavam estarrecidos com a situação.

Mas tu, como sempre, foste brilhante. Convidaste teu oponente para beber um trago e, depois de beberem três garrafas de cicuta envelhecida em barris de jacarandá, decidiram abandonar aquela vida de facínoras e abrir um bordel para jaguatiricas virgens.

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

Politicamente correto


Inadjetivamente*


Sentei na calçada da avenida com as mãos à cabeça. Já tinha passado por essa situação mais de uma vez. Por quê então a dor ? Por quê o ceticismo e a desilusão ? Chegarei em casa, contarei para a mãe , ela me ouve. Ela vai fazer aquele chá de camomila e me mandar dormir. Amanhã é outro dia e a vida continua, vai dizer. Vai recitar o poema do Drummond. Sete faces, acho que é esse. Ou serão sete torres ? Não, sete torres é o romance que ela gosta, o poema é faces mesmo. Como se fosse um eco.

A frase do adeus ecoa nos meus ouvidos. A desculpa foi a mesma de sempre. Não é você, a culpa é minha. Se não sou o culpado qual será o motivo que sempre acabo sozinho ? Essa foi a quinta namorada em menos de um ano. Me apaixonei por todas elas. Todas diziam estar apaixonadas também. Paixões que não duraram mais que algumas semanas. Em seguida os chavões : preciso falar com você... acho que não vai funcionar desse jeito... sabe a culpa não é sua.... podemos continuar amigos. Lágrimas.

Algumas lágrimas pingam nos meus sapatos. Precisam de graxa. Será que elas não gostam das minhas roupas ? Serão meus sapatos demonstram algo que eu não consigo ver ? Pode ser o meu trabalho. É um emprego para o resto da vida. O salário compensa a cara do chefe. Acho que mulheres não querem passar a vida ao lado de funcionários. Nada vai faltar, mas também nunca existirão sobras que permitam extravagâncias. Eu não gosto mesmo de extravagâncias, prefiro a frugalidade. Será que existem mulheres assim ?

Se existem, onde será que eu as encontro ? Preciso frequentar outros lugares. Nesses bares e festas que eu vou só tenho encontrado o mesmo tipo de mulher. O tipo que me abandona. Acho que vou começar a frequentar parques e museus. Será que as mulheres que vão a esse lugares pensam de outra forma ? Minhas exigências são poucas. Não procuro beleza em demasia. Não fico escolhendo mulheres como escolho tomates na feira. Esse sim, precisam beirar a perfeição. Mas eu não uso mulheres para fazer molho de macarrão.

Um macarrão pode ser a solução. Já é quase hora do almoço. Aquela cantina da quinta travessa costuma fazer macarrão aos sábados. Um pão de alho de entrada. Quem sabe até uma meia garrafa de vinho. Sózinho, só meia garrafa mesmo. Não vou chegar bêbado, além de deprimido. Uma coisa de cada vez. À noite, quem sabe, bebo em casa. Mas não vai ser a bebida que vai me levantar. Vou fazer igual aquele japonês que anda sobre as brasas. Eu li o livro dele. Eu consigo. É só olhar para frente e caminhar, sem olhar para os pés. Serei um herói da resistência. Vou caminhar de olhos fechados.

Eu já sinto o calor das brasas sob os meus pés. Será o fogo do inferno ? Depois que o Penha-Lapa passou por cima de mim não me lembro de mais nada.

* Inadjetivamente é uma palavra que não existe. Esse texto é um exercício de redação proposto por minha amiga Lucey. Não tem nenhum adjetivo (se encontrar algum me avise que eu reviso)

quinta-feira, 18 de outubro de 2007

Tenares, deltóides, bucinadores e orbiculares


Eu odeio mão mole. Aquelas pessoas que te cumprimentam como se estivessem dando seu último suspiro no leito de morte. Geralmente a mão é mole e fria. A minha vontade é de apertar com força até moer todos os ossinhos. Mas nunca tive coragem de fazer isso. Mas deveria. Gente de mão mole também costuma ser pálida, apática e chata. Não sei se algum fisioterapeuta junto com um psicólogo não poderiam desenvolver uma tese a respeito da correlação entre a mão mole e abulia. Provavelmente as minhas perorações seriam comprovadas cientificamente.

Mão não é só a mão mole que me incomoda entre os contatos físicos sociais.

Não chego a odiar, mas também questiono o abraço de tapinhas. Típico de executivos. Nunca vi mulheres trocando tapinhas nas costas. Mas o gerente de vendas e o diretor financeiro que se odeiam (um cortou as comissões do outro e mesmo aassim o cara de vendas ainda ganha mais que o financeiro) não deixam de se tratar cordialmente com tapinhas. Imagino que seja um substituto para as adagas que eles gostariam de enfiar, um nas costas do outro. Na falta delas, os tapinhas.

Outro caso é o da síndrome de formiga. Todo mundo já observou formigas no jardim, e não poucas vezes dentro de casa. Quando duas se encontram indo em direção opostas elas tocam as antenas e continuam em frente. Seres humanos trocam bochechadas. Mesmo porque o que chamam de beijinhos são apenas beijos jogados no ar durante a trombada de músculos bucinadores. Ainda tem como agravante o fato de que eu nunca sei qual é o protocolo das bochechadas. Já aconteceu mais de uma vez de eu avançar mais uma vez, quando deveria ter parado. Ou parar e deixar a pessoa com a boca no vácuo.

Agora começa a mania dos selinhos. Dessa eu estou fora. Beijo na boca, por mais leve ou rápido que seja, para mim é exclusivo da mulher amada. Sair beijando qualquer um na boca é uma profunda vulgarização do ato de beijar. Da mesma forma que trocar selinhos com filhos é uma erotização absolutamente desnecessária (já não chega o que a televisão está fazendo com elas ?)

Quando eu aperto a mão, é para valer. Para transmitir firmeza e confiança.

Meu abraço pode não ser para todos, mas aqueles que eu gosto, abraço com gosto.

Beijo, as pessoas que eu beijo, com os lábios tocando as bochechas, caso contrário, melhor nem beijar.

Na boca, só ela.

terça-feira, 16 de outubro de 2007

Bandido também não !


Nos anos 80 um dos livros do Roland Barthes estava na moda. Quando eu digo moda não estou me referindo aquela lançada pelas novelas ou pelos "féxion uíques" da vida. Estava na moda entre os leitores que se interessavam por linguística, estudantes de comunicação e suas variações, letras, ciências sociais. Aquele monte de gente estranha que, ao invés de estudar para ter uma profissão de verdade, preferia divagar sobre apocalípticos, integrados, paideumas e bestiários.

Ah... Voltando ao Barthes. O livro em questão era o "Fragmentos de um discurso amoroso" (que anos depois virou peça de teatro, nem imagino como, deve ter sido alguém daqueles estranhos que adaptou). Não só servia para estudar o fantástico mundo dos significados subjacentes aos discursos (gostaram ?? quando preciso eu falo bonito) mas também era usado por muitas pessoas como fonte de cantadas. Não sei o que era mais ridículo, quem dava a cantada usando Barthes ou quem a aceitava... (tudo bem ambos eram estudantes de comunicação)

Imagine seu amado ou amada lhe dizendo "eu não poderia decompor a expressão eu amo você sem rir, entre o eu e o você pende um elo lexical de afeição racional, amar não existe no infinitivo, a não ser por artifício metalingüístico...." e por aí vai. Romântico, não é mesmo ?

Apesar de nunca ter dado uma cantada barthesiana eu era (e ainda sou) um dos fãs do cara, foi com ele que eu aprendi a ler nas entrelinhas. E, dentre outros, continuo observando os discursos amorosos. Um deles me incomoda bastante. Não sei qual é a sua origem, se das revistas pseudo-feministas, dos livros de auto-ajuda ou dos consultórios virtuais de psicologia. Trata-se da história de dizer que o relacionamento precisa de cumplicidade.

Como assim cumplicidade ? Eu não sou cúmplice de ninguém ! Cúmplice, de acordo com o Aurélio é a "pessoa que tomou parte em um delito ou crime, co-autor". Mesmo numa definição secundária (e por extensão) é um parceiro, com sentido de sócio - que também não deixa de embutir algumas ações delituosas. Os meus relacionamentos não são criminosos. Podem ser permeados, dependendo de quem está do outro lado, por amor, amizade, confiança, conflito, desejo. Mas nenhum se configura como formação de quadrilha.

Você vai redarguir que eu acabei de postar aí embaixo que o amor é um palavrão (em inglês, a expressão "four letter word" se refere ao palavrão mais popular entre os gringos). E eu direi, no entanto, de palavrão a crime vai uma distância estelar.

Se quiser, pode esperar de mim uma coleção de atitudes insanas. Posso até tentar te ajudar a dar uma cantada barthesiana, por mais absurda que seja.

Mas nunca me peça cumplicidade.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

O amor é só um palavrão

Strange it is to be beside you, many years the tables turned
You'd probably not believe me if told you all I've learned
And it is very very weird, indeed
To hear words like "forever" plead
so ships run through my mind I cannot cheat
it's like looking in a teacher's face complete
I can say nothing to you but repeat what I heard
That love is just a four-letter word.

domingo, 14 de outubro de 2007

Lesão por educação repetitiva


Quando eu estava na 4a série (acho) uma professora de matemática ensinou a teoria dos conjuntos. Dona Nice. Dona e não tia, no meu tempo de primário não tínhamos essas intimidades. Teoria dos conjuntos era aquele negócio de união, intersecção, contém, está contido... Se estou correto sobre o ano escolar isso foi em 1971. Vivi quase vinte anos sem saber para que isso servia e me esqueci completamente do assunto, até que em 1990 trabalhando com seleções para marketing com banco de dados tive um estalo de Vieira e a teoria dos conjuntos apareceu como mágica à minha frente.

As minha lembranças da escola, mesmo tendo sido um bom aluno, são de um lugar onde o conhecimento se transmite na base do fórceps e com as respectivas dores de parto. Pouca coisa mudou desde quando a escola assumiu esse formato que tem. Muita informação, pouco conteúdo, quase nenhuma aplicação prática do que se ensina.

Por isso não deixa de ser engraçado pensar a respeito do dia dos professores, nos últimos anos me envolvi muito com a educação e me relaciono com centenas deles. Ou melhor centenas delas e alguns deles já que ainda é uma área quase que exclusivamente feminina.

Eu mesmo, há mais de 5 anos, de certa forma, me tornei um deles. Tenho evitado que meus alunos acabem o curso com LER, o que me parece ser o padrão das escolas. Ou será que são os professores que sofrem de LER e a transmitem aos bancos (sim, ainda são bancos e carteiras) escolares ?

Fica a minha homenagem, e a esperança que as futuras gerações (futuras mesmo, porque as atuais só trocaram o Melhoral por Doril ou outras drogas) se lembrem da escola de uma outra forma.


Psicose escolar



verbos
verbetes
definições

fórmulas
formulários
comentários
sumários
resumos
explanações

contas
contas
contas

preciso de um melhoral

sábado, 13 de outubro de 2007

Solilóquios vulgares


...pessoas que pedem um norte, e evidentemente como um poeta eu dou o sul (Fabrício Carpinejar)


Ela nunca o entendeu. Não que tivesse feito algum esforço para isso, muito pelo contrário, ela tinha aquele hábito de perguntar e ela mesma criar aquilo que imaginava que seria a resposta. Pior, a resposta criada nos seus delírios criativos tornavam-se verdade absoluta, independentemente das respostas dele que eram solenemente ignoradas. Até mesmo aquelas que tinham lógica. Até mesmo as que eram acompanhadas de provas concretas. Nada valia, só as palavras que ela tinha colocado na sua boca ou nos seus pensamentos.

Quando ele apelava para respostas documentais, ela rasgava as cartas (nunca se soube se lera ou não) e alegava nunca terem sido recebidas. Uma vez ele chegou a usar o aviso de recebimento dos correios. Ela ameaçou ir à polícia dizendo que a assinatura que constava no documento era uma fraude que precisava ser denunciada. Desistiu. Afinal ela concluíra que fora ele mesmo que forjara a sua assinatura.

Na maioria das vezes isso nem o incomodava tanto, muitos temas eram irrelevantes que merecessem ser corrigidos. Mas em outros ele não queria deixar margem à dúvidas. Um dia a paciência dele se esgotou e ele passou e ignorar as respostas que ela inventava para ele. Emudeceu. Aí o caldo engrossou. O silêncio a incomodou mais ainda e ela passou a inventar respostas cada vez mais agressivas, como se partissem dele uma série de ofensas que ela supunha estar sendo vítima. Mesmo assim ele não abriu a boca.

Ficou pensando. Como poderia dar um fim nessa situação ? Faltava muito pouco para ela dizer que ele tinha dito que não a amava mais, e aí seria o fim. Aliás, já era o fim, de que adiantaria ele dizer alguma coisa ? Se em todo esse tempo ele nunca fora ouvido, por que o seria agora ? Em todo caso, ao menos ela precisaria saber que ele a tinha abandonado.

Numa manhã de domingo ela acordou com uma barulheira na sua porta. Os moleques passavam por sua janela, gritavam seu nome e corriam dando risadas. Abriu a janelas e no outdoor que ficava em frente à mesma, ao invés das tradicionais mensagens publicitárias estava escrito em letras garrafais :

"Elvira . Adeus. Eu te amo, mas não há mais monólogo entre nós. Dagoberto".

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

Todas las mañanas...

Yo te conozco de antes
desde antes del ayer
yo te conozco de antes
cuando me fui no me aleje
llevo la voz cantante
llevo la luz del tren
llevo un destino errante
llevo tus marcas en mi piel
y hoy solo te vuelvo a ver
y hoy solo te vuelvo a ver
y hoy solo te vuelvo a ver

Sob nova direção


(ou , porque eu não compro um GPS)


A placa dizia, sob nova direção,
Mas continuamos com o mesmo carinho
e atenção

Se necessária fosse uma nova direção
O carinho deveria ser trocado
por rejeição

A menina dizia, sob nova direção,
Largou-me aquele ingrato
outro deu-me a mão

O rapaz gritava, sob nova direção,
Deixei minhas angústias
a esperança não

A vida reclamava, uma nova direção,
Mas o relógio ostentava
Hora de obrigação

E eu que não procuro, uma nova direção
Insanamente sigo adiante
Sem orientação

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

Melancias reformadas




Outro dia saiu no jornal uma notícia a respeito do desenvolvimento de uma melancia quadrada (na verdade é um cubo, uma vez que se trata de um sólido geométrico e não de mera figura plana). Não se trata de nenhuma experiência diabólica de alteração genética da imensa fruta, mas apenas processo de torturar a distinta colocando-a após seus primeiros dias de vida em formas onde ela não consegue desenvolver seu perfil esférico. Claro que me interessei em saber o objetivo de tal esforço, mesmo porque não seria apenas pela fixação de alguém por cubos. Descobri que melancias "quadradas" facilitam (e tornam mais baratos, o que não significa que a bichinha seja barata, atualmente o preço mínimo é de cerca de 250 reais, podendo chegar até 400) o transporte e o armazenamento das mesmas. Em breve teremos abacaxis cônicos e jacas paralelepipedoidais (ufa...essa foi difícil de escrever)

No fundo é algo muito semelhante aquela história das chinesas com pés minúsculos que eu nunca descobri se é apenas uma lenda, ou das tribos africanas em que as mulheres colocam uma dezena de anéis no pescoço ao longo da vida. Lembro-me de um quadrinho da Mafalda em que ela olhava para o globo terrestre (com a Argentina virada para baixo) e depois para o pai e concluía falando para o seu amigo Filipe : "Na verdade os adultos não crescem, mas como eles passam mais tempo de ponta cabeça, a gravidade faz com que eles estiquem". Quem não se lembra da Emília (a do Monteiro Lobato) com a sua reforma da natureza ?

Claro que fiquei pensando na infinidade de outras aplicações para esse tipo de processo, afinal, se a natureza se adequa a cada uma dessas forçações de barra, será que esse não seria o melhor caminho para resolver muitos dos nosso traumas estéticos ?? Claro que nenhum médico vai concordar comigo, afinal isso representaria a falência de toda uma especialidade da categoria - os cirurgiões plásticos. Em todo caso poderia representar um imenso passo em termos evolutivos (assim como a história do pescoço da girafa).

Pessoas com tendência a baixa estatura poderiam ficar até os 14 anos pendurados de cabeça para baixo nos tetos das casas (modelo mafaldístico). Homens geneticamente inclinados à calvície usariam capacetes 24 horas por dia durante toda a vida , os cabelos não cairiam ou, se se soltassem do couro cabeludo pelo menos ficariam fixos no lugar.

Ao invés das mulheres gastarem dinheiro com silicone poder-se-ia (adoro mesóclises) fabricar grandes sugadores, do tipo daqueles usados para tirar leite das mães novas, que seriam usados até o peito atingir o formato desejado - do lado masculino isso poderia acabar com a indústria de spam que recebemos todos os dias. Para uma série de outros detalhes anatômicos floresceria uma riquíssima indústria de formas em substituição à indústria de bisturis.

E, obviamente, teríamos definitivamente resolvida a questão de torcer pepinos (alguém sabe para que se torce um pepino ??)

Enquanto esse momento não chega, vamos ter de nos contentar apenas com as melancias cúbicas. Quel domage !



quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Amiga alegria


This is the way the world ends

Not with a bang but a whimper.

(TS Eliot - The Hollow men)


Ela não era uma menina bonita. Alguém resolveu inventar que ela era minha namorada. Ela deitou no meu colo e eu acariciava seus cabelos. Ela foi a minha primeira namorada. O primeiro amor.

Ela foi minha primeira amiga. Sem outras intenções.

Só falta o romance. Ela era o poema. Eu sempre gostei dela. Mas não assim...

Ela foi para muito longe. Ela sempre esteve tão perto.

Agora aguardo , com ansiosa expectativa, o renascer das folhas, das flores e dos frutos.


Amiga Alegria,
Uma rosa paixão :
Primeiro

Amiga antiga e inteira
Rosa primeira de uma planta
no chão.

Alegria imensa e densa
Paixão
Quem me dera fosse a única
a arrebatar meu coração

Amiga alegria, rosa em botão
Antiga raiz
planta feliz, sonho e emoção

Primeiro um poema
depois a canção
Palmas alegres
da multidão

Amiga alegria, uma rosa paixão
Primeira
Sem marcas
Em cartas

Recebes em cartas
Um poema
Paixão

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

O sono do leão

Para quem conhece a versão engraçadinha do hipopótamo e do cachorro, aí segue a versão original sem legendas

domingo, 7 de outubro de 2007

Aforismos ainda mais inconsequentes


Eu já começo precisar de óculos, mas tenho dúvidas se quero enxergar melhor o mundo.

Algumas pessoas dizem coisas quando sóbrias que jamais diriam se bêbadas.

Em São Paulo, a menor distância entre dois pontos é aquela que a CET ainda não decobriu para piorar.

Em casa de ferreiro ecológico, espeto é de plástico reciclável.

Entender o passado nem sempre é a melhor forma de planejar o futuro

Eu odeio ser abduzido por ET´s com mau gosto musical.

Bom senso é entender claramente que, muitas vezes, a gente se engana.

No amor, preocupar-se em buscar novidades é a garantia de não perder o que já se conquistou.

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

Dias e recordes


Se você já visitou alguma fábrica ou alguma obra já deve ter se deparado com a famosa placa colocada pela CIPA (Comissão Interna de Prevenção de Acidentes) sobre acidentes de trabalho no local. O modelo básico diz mais ou menos o seguinte : Estamos há XX dias sem acidentes de trabalho. Nosso recorde é de YY dias.

Outro dia visitando uma fábrica olhei a placa e tentei medir a frustração do pessoal de RH e da CIPA. A placa indicava que estavam há 6 dias sem acidente e o recorde era de 495 dias. Imaginei que cada um que olhasse a placa pensasse : "cara...lá vamos nós começar tudo de novo...faltam só 489 dias, isso se nenhum infeliz deixar cair uma lata no pé de novo".

Desde então tenho pensado em outras situações que poderiam adotar a placa (aceito sugestões adicionais) :

Na minha casa poderia ser : estamos há XX horas sem derrubar nada na toalha da mesa...nosso recorde...ops...

Casais em conflito : estamos há XX dias sem discussão...ou será que ela foi embora e eu não percebi ?

Jogadores de bingos fechados : estamos há XX dias sem jogar...como é bom ter Internet e um cartão de crédito internacional

Alcóolatras : estou há XX dias sem beber, se bater o recorde eu vou parar de novo no pronto socorro com crise abstinência ou me candidato a presidente dos AA

Adolescentes : estamos há XX horas sem mandar torpedos....nosso recorde, sei lá, quando é que eu vou receber minha mesada para recarregar o celular ?

Distraídos e governantes diriam : estamos há XX dias sem cometer gafes, ou serão XY ??

Ronaldinho, o fenômeno : estou há XX meses sem casar com uma top model, meu recorde é de 120 Kg

Workaholics em férias : estamos há XX dias sem trabalhar, nosso recorde está contra a Sarbane Oxley

Priápicos e ninfomaníacas : estamos há XX dias sem sexo, nosso recorde é de ....humm aquela almofada piscou para mim....

Corinthianos : estamos há XX dias sem ganhar, nosso recorde é de 23 anos...

Blogueiros insanos : estamos há XX dias sem postar....então hoje vai uma bobagem qualquer só para não começar a contar recorde !

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Insanidade tem limite

Free Burma!

Hoje um post sério, porque nem todas as insanidades são toleráveis.

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

O amor é velho ?

O amor é velho, velho, velho
e menina.
O amor é trilha
de lençóis e culpa
medo e maravilha.

O tempo a vida lida
andam pelo chão,
o amor aeroplanos
O amor zomba dos anos,
o amor anda nos tangos,
no rastro dos ciganos,
no vão dos oceanos.

O amor é poço
onde se despejam
lixo e brilhantes:
orações, sacrifícios, traições.

Por uma cozinha romântica


Nas casas dos descendentes de portugueses e italianos é o local onde se reúne a família para conversar e tomar decisões (portanto o local mais importante da casa). Como sou descendente tanto de uns quanto de outros (além de outras misturas como francês, índio e sabe-se lá mais o que), sempre prezei muito esse espaço.

Além desses motivos hereditários, eu também gosto de cozinhar (modéstia às favas, até que bem). Enfrentar pia, fogão e outros equipamentos sempre me é fonte de prazer e a cozinha um espaço muito romântico - eu acredito que cozinhar sempre foi um ato e demonstração de amor - não existe nada mais sem graça do que cozinhar só para você mesmo (tudo bem, se você for um ególatra faz sentido).

Mas nada disso quer dizer muito. As cozinhas nunca foram exatamente as queridinhas da literatura, nem da cinematografia. Apesar de alguns poucos filmes onde o fogão era importante (Chocolate, Festa de Babette), os pratos eram as estrelas e não a cozinha em si. Ninguém nunca escreveu a ode à cozinha, nem um pífio soneto de pé quebrado. De novo, a culinária tem até poemas, mas não o espaço onde a praticamos.

Além disso, ela é considerada um espaço frio. Sempre em cores claras, branca muitas vezes. Chão de piso frio, sujeito a ataques de todos os tipos de molhos, óleos, café, só para mencionar os mais comuns. Só esquenta quando o forno está ligado, mas não deixa de ter a contraposição da geladeira e do freezer. Chega a ser impensável aquecê-la com um carpete (e depois quem é que vai limpar ?)

Fico pensando, se é um espaço da prática amorosa da culinária, porque nunca é retratada em outras possíveis cenas de amor ? Por que nunca é objeto de metáforas ? Já li sobre os quartos interiores, sobre as salas interiores, sobre as bibliotecas (quem tem biblioteca ?) interiores. Mas ninguém fala da cozinha interior que tem dentro de si mesmo.

Que fique registrado aqui o meu manifesto a favor da cozinha, minha expectativa que seus usuários possam usufruí-las com outros tipos de frituras e de refogados. Que os poetas possam exaltar suas propriedades sensuais. Que a música cante seus encantos. Que a arte, em geral, mostre mais azulejos, cerâmicas e pias de granito.

Que a paixão não seja colocada num tupperware no freezer. E que o fogão do amor nunca se apague.

segunda-feira, 1 de outubro de 2007

Antologia de Setembro


Escrever é uma coisa que me dá muito prazer. Escrever sem compromissos de seriedade, consistência ou precisão, mais ainda. Mas o que tem me divertido mais no blog são os comentários. Adoro gente inteligente, perspicaz, bem humorada.


Aí vai a minha seleção dos comentários dos posts de setembro. Mesmo fora do contexto eles são ótimos (se quiser achá-los ainda melhores, depois leia em cada um dos posts) :

Estou com vontade de entrar numa loja de lingeries....

Não entendi as palavras, mas, pude ouvir os gemidos......

por favor me diga onde retiro minha carteirinha de Insana...

Ou melhor: seria trágico se não fosse engraçado....

mas justamente hoje meu calcanhar está doendo......

cadê o sexo masculino, será que foram todos para o Planalto e é por isso que lá está essa bandalheira?

Ou então vai ver que esses seus amigos são mais toscos do que os outros. Heheheh...

Não se conquista Ursos mostrando os ferrões das abelhas, e sim oferecendo mel.

Enquanto isso...Nero, observa Roma em chamas... e se diverte...huahahua

Eu desisto.

Sua fidelidade não deixa sua traição passar despercebida.Acho que você foi muito mais fiel quando traiu....

se não for para aperfeiçoar o silêncio, melhor não falar nada...

Comentários mais dúbios e desconexos ainda....

eu avanço sobre elas como que sobre um abismo da liberdade sobre mim mesma...

Apagando fogo com gasolina?

Sou macho pra caramba, pelo menos minha mãe, minha fã, sempre disse isso!

Temo que ela ainda esteja em mim....

esta pérola da insanidade , te traduz....

Talvez não tenha sido uma idéia original, mas salvou meu casamento.

Ai, o amor!!

Insanidade.. insensatez faz isso com a gente, expõe sem pedir licença....

minha massa encefálica virou gelatina de morango, com direito a Barbies e pôneis azuis...

Tudo o que é falado em francês faz bem pra pele; carinho de um homem francês faz bem pra pele; comida francesa faz bem pra pele; perfume francês faz bem pra pele; música francesa faz bem pra pele; a França faz bem pra pele

Hoje tô quase uma madre Tereza... ahuahuahau

Atrasada..atrasada..com o relógio na mão..rs ,

Do I contradict myself?Very well then I contradict myself

(Perco amigos mas não perco a oportunidade).

Vi a coruja bebendo água no Tietê e babando em cima do tôco... tá aqui o pano!

Se Sig Fre j desi, qm so e pa expli e ente... manic j!

Bebemos da mesma água para enfrentar desertos diferentes...

A solidão me espreitava e eu nem sabia.