domingo, 30 de setembro de 2007

Um sonho

Os sinos da catedrais tocavam incessantemente

A loira da minha vida

Numa das tiras do gatão de meia idade do Miguel Paiva, o personagem observava as moças passando e comentava : existem mulheres morenas, loiras, ruivas...mas homem é tudo daltônico.

Não sei até que ponto isso é verdade. Uma comédia da Marilyn Monroe dizia que os homens preferem as loiras e acredito que isso seja uma verdade, caso contrário por quê tantas mulheres, de todas as idades, tingem seus cabelos nas mais variadas tonalidades de amarelo, senão para atrair esses seres estranhos que se fixam na cor dos cabelos.

Por outro lado, eu nunca me interessei por loiras. Só tive duas namoradas que não eram morenas e, mesmo assim, uma delas era ruiva (ruiva mesmo, cabelo naturalmente vermelho e um monte de sardas). Até cheguei a sondar uma ou outra de um castanho mais claro, mas minha fixação sempre foi por mulheres morenas.

O que não significa que eu não tenha até hoje uma loira na minha vida. Eu a conheci em meados da década de 70 e nunca mais me separei dela. Na época era uma moça bem bonita, mas fazia um gênero menina-mulher que não me dizia nada. Ela foi envelhecendo e isso lhe fez muito bem.
Com um pouco mais de trinta anos tinha deixado a versão menina para trás e assumiu seu lado selvagem. Perto dos quarenta pegou seu ultimo metrô e com um apetite voraz pela vida, exatamente aos 40 anos, parecia estar mais bonita do que nunca.

Mas ainda não estava. Praticamente aos 50 atingiu o seu auge (a foto abaixo é dessa época).Mas não pense que depois disso ela foi ladeira abaixo. mesmo quando estava perto dos sessenta e trabalhando como uma operária ela continuava linda e eu dançaria com ela no escuro.



Aos 64 (when I´m sixty four ?) ela é um mulherão, bonita, sexy, classuda. Mesmo ao lado de outras 7 mulheres ainda é a mais bonita de todas.

Eu vou continuar preferindo as morenas. A mulher que eu amo é uma morenaça. Mas nunca vou perder de vista essa loira.

Aqui seguem alguns comentários sobre os que eu vi (a data é do lançamento do filme, não de quando vi, mesmo porque eu era meio jovem para ver Repulsa ao Sexo em 1965)

1964 - Os Guarda Chuvas do Amor (Les Parapluies de Cherbourg) - tirando a ótima música de Michel Legrand, é um filme bem chatinho

1965 - Repulsa ao Sexo (Repulsion) - suspense, suspense, um dos melhores de Polanski

1967 - Duas Garotas Românticas (Les demoiselles de Rochefort) - filme bem bobinho e pseudo psicodélico

1967 - A Bela da Tarde (Belle de jour) - dizem que é um clássico, eu acho um dos filmes mais caretas e moralistas da história

1970 - Tristana (Tristana) - mais moralismo travestido de sensualidade de Buñuel

1970 - Pele de Asno (Peau d'âne) - conto de fadas com insinuação de incesto...um horror.

1972 - Expresso para Bordeaux (Un Flic) - tirando o final (que eu não conto nem sob tortura) é só mais um filme policial

1975 - O Selvagem (Le sauvage) - comédia romântica, predecessora dos filmes de Norah Ephron/Meg Ryan.

1980 - O Último Metrô (Le dernier métro) - um grande filme, ótima trama, bons atores e, além de Deneuve, o ótimo Depardieu

1983 - Fome de Viver (The Hunger) - assustador, sanguinolento, fabulosa trilha sonora ao som de Schubert e, para completar David Bowie, já vi uma dezena de vezes

1985 - Tomara que seja Mulher (Speriamo che sia femmina) - Deneuve é coadjuvante, mas o filme é de primeira, bastante denso

1992 - Indochina (Indochine) - mãe e filha adotiva apaixonadas pelo mesmo homem, fotografia linda, história bem contada e Deneuve no auge da beleza

1998 - Place Vendôme (Place Vendome) - drama da viúva e seus diamantes, o mais belo é ela mesmo

2000 - Dançando no Escuro (Dancer in the dark) - muito, muito triste e muito, muito bom. Bjork surpreendente como atriz

2002 - 8 Mulheres (8 femmes) - whodunnit clássico, quem matou Odette Roitmann ?? Mas com Deneuve e Fanny Ardant na tela, quem liga ?

sábado, 29 de setembro de 2007

De volta ao deserto


Borges é, sem dúvida nenhuma, o meu autor favorito. Os contos são fenomenais (ou será que por serem fantásticos, são extra-fenomenais ?). Os ensaios e críticas são complexos e precisam de constantes releituras, nem por isso deixam de ser maravilhosos. As palestras publicadas em 7 noches são aulas maravilhosas sobre a vida, a arte, a poética. Poucos, no entanto, conhecem o Borges poeta. Ele não tem o lirismo de Neruda, nem a fluidez de Benedetti, seus vizinhos e contemporâneos. Algumas vezes é profundamente hermético, cheio de referências e símbolos.

Lembro de uma vez, acho que no final dos anos 70 ou começo dos anos 80, a Folha de São Paulo publicou um poema inédito dele. Eu me apaixonei de tal forma pelo texto que recortei a página do jornal que tenho guardada até hoje dentro de um dos seus livros. Está bem amarelado, me trás boas e más recordações e continua atualíssimo, mesmo depois da décima milésima leitura.

Admito que poucas vezes na vida eu tive a coragem de ser como Hierócles ou como o homem abandonado. Não poucas vezes eu olhei para a rosa. Olhei para trás como a mulher de Lot. Me dissolvi como uma estátua de sal.

Apesar de muito poucas, algumas vezes consegui. E aprendi que a coragem daquele homem o salvou, assim como o livrou de tormentos (e me livrou de tormentos).

Essa é a parábola que aprendi.

O deserto

Jorge Luís Borges

Antes de entrar no deserto
os soldados beberam longamente a água
da cisterna.

Hiérocles derramou na terra
a água de seu cântaro e disse :
Se temos que entrar no deserto,
já estou no deserto.
Se a sede vai me abrasar,
que me abrase já.
Esta é uma parábola.

Antes de afundar-me no inferno
os lictores do deus permitiram que eu
olhasse uma rosa.
Esta rosa agora é o meu tormento
no reino obscuro.

Um homem foi abandonado por uma mulher.
Resolveram fingir um último encontro.
O homem disse :
Se devo entrar na solidão,
já estou só.
Se a sede vai me abrasar,
que me abrase já.
Esta é outra parábola.

Ninguém na terra
tem a coragem de ser aquele homem.

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

Para bom entendedor


E que escr al defin qu fos, a mes tem, simp e absu. Fiq preoc qu mui pode nã ente, o pi, qu e acab sen ape ma u suje incompr. Diva pel bec d min intransig semân, perc a aveni d etimo. Aca m depar co mur ortográ, qua nã mui sintá.

A fin reso qu ser u tex pe met, pa is ter d esco preferenc pala co u núm pa d letr, mes recorr a artif d us plur pa conve impa e par. Ne sem is fo poss, ent sem privil arredond qu foss favor ao leito. Mel sess a quar porc. Acon qu a pala tam nã pode se demasia lon, ca contr is facili a leit do neóf e nefeli, o qu contrar me dese.

Tem est dispon ao mon, aque qu m sã car, ass co o bara. Pen e reto ques líri, român. Fic se sent. On esta o hum dis ? Pode reve misté, co nom d min ama, ain qu es se sobeja conh, at popu.

Verd, di-s d pass, evi a crôn exte, aborr o tedi. Ol pe jan o cum nim qu cob o lu, se lu che ? Have estre brilh a lon ? Nã se previ meteoro. se qu es fr, Eó es ati, a umid cres. Mel pa tod nó.

Acred qu o ma engraç replic min impec técn d mei pala no se coment. Algu pergun s escr direta d manic. Usuár d mensag instant sen-s-ã e ca.

Dei pa voc es maluq qu perman indel e su men. Talv Oliv Sac expli, Fre j desi d expli h mui tem.

Il nous faut de l'amour, n'en fût-il plus au monde !

Amours divins ! ardentes flammes !
Vénus ! Adonis ! gloire à vous !
Le feu brûlant vos folles âmes,
Hélas ! ce feu n'est plus en nous !
Ecoute-nous, Vénus la blonde,
Il nous faut de l'amour, n'en fût-il plus au monde !


Les temps présents sont plats et fades ;
Plus d'amour ! plus de passion !
Et nos pauvres âmes malades
Se meurent de consomption...
Ecoute-nous, Vénus la blonde,
Il nous faut de l'amour, n'en fut-il plus au monde !

O mais cruel dos meses


Eliot escrevia no seu Terra Desolada (Waste Land) que Abril, início da primavera, é o mais cruel dos meses. Tensão entre o renascer da vida e o desejos que hibernaram durante o inverno.
A tradução de Ivan Junqueira para o poema é brilhante, mas peca por uma falta de adaptação de hemisfério, deveria trazer o texto "Setembro é o mais cruel dos meses...", e colocar uma nota de rodapé explicando a tradução de April por Setembro. Aliás, nem precisaria de nota de rodapé nenhuma, qualquer leitor entenderia. Os que não entendessem é porque não têm a menor noção do que estão lendo.

Nosso inverno definitivamente não é o inverno de Eliot, não ficamos debaixo de neve, não temos animais que hibernam (os sabiás, meus vizinhos, cantaram durante todo os meses de junho a agosto, e continuam a cantar loucamente), nem flores como as tulipas que brotam no meio do gelo. Nossa primavera provavelmente não deveria ser, como no poema, uma estação cruel, exceto pelo fato de que, no primeiro dia da estação a temperatura não tivesse baixado 14 graus num único dia aqui em São Paulo.

Então, o que exatamente seria uma crueldade amorosa ? Crueldade é ir além da maldade, é executar o que se pensou, e não sentir nada com isso.

Gabriel Celaya, um poeta espanhol, no seu "La poesia es una arma cargada de futuro" , diz que quando nos defrontamos com os olhos claros da morte dizemos as verdades; as bárbaras, terríveis, amorosas crueldades. Dizemos poemas.

Como todos os dias estamos a um dia a menos da morte, olhamos os seus olhos cotidianamente. E cruelmente poetamos. Nem tão maldosamente (algumas vezes sim) e certamente nunca sem algum sentimento. Permitam-me essa crueldade primaveril :

Cigana


Cigana
descansa em meus braços
Como música suave
Como ave
Planando rumo ao infinito

Tirana
destrói meu peito
Tatuagem queimando
A carne
Invadindo o coração

Me ama
sem dar explicações
Do brilho da flor
Dos teus olhos
Que nunca chegam

Me ama
Tirana
Cigana

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

Um dia inesquecível


Muitos não devem ter percebido e a data passou em branco. Afinal, não é todo dia que se comemora um dia desses. Ah...você não faz a menor idéia ? Pois é, dia 22 de setembro foi o dia do amante. Claro, claro, eu entendo perfeitamente, você não tem um(a) amante e não poderia lembrar disso mesmo.

Por outro lado se você deixar de lado a malícia e pensar que amante é todo aquele que ama. Logo, todos nós somos ou já fomos amantes. Portanto não deixa de ser uma data absolutamente universal, independe de sexo, idade, raça, cor e estado civil. Ops ! Pode ser que dependa de estado civil.

No nosso folclore piadístico a figura do(a) amante é uma cena recorrente. Eu fico, aqui como marqueteiro que sou imaginando a possíveis situações. Como marqueteiro direto ainda mais. Onde será que se poderia conseguir um bom mailing de amantes ? Será que os motéis tem banco de dados ? Ou a joalherias ? Talvez o Flores Online. Preciso pesquisar.

Qual será a melhor mídia para atingir esse público ? Mídia de massa não faria sentido, por mais que as novelas estejam cheias de cenas do tipo nenhuma assumiria publicamente a responsabilidade de veicular esse tipo de anúncio. Mala direta não convém - nunca se sabe quem vai chegar antes em casa e pegar a correspondência. Telemarketing então, nem pensar ! Já imaginou ?

- Boa tarde, gostaria de falar com o Sr Fulano
- Ele não está, quem gostaria ?
- Aqui é da floricultura Rosa Viva, temos uma entrega de um pedido dele, mas ele esqueceu de deixar o número da casa...
- Ah....que lindo... o número é 325
- Rua Diderot 325 ?
- Diderot ?? Que Diderot ?? Aqui é Avenida da Saudade...
- Desculpe, acho que foi engano.

Claro que também penso em outras situações. O marido executivo liga para a mulher executiva

- Querida, esqueci de te avisar, mas hoje eu tenho aquele jantar com o diretor internacional da empresa que está aqui no Brasil...
- Acho que você não tinha falado, mas tudo bem, mesmo porque eu também tenho o encontro da minha turma de colégio de freiras. Fazemos 20 anos de formados.
- Que bom...aproveite, mas não exagere no vinho viu meu doce....
- Claro que não, e você não coma a sobremesa, lembre que sua glicose está alta.
- Eu me cuido, beijos, até mais tarde.
- Beijo, até.

Ele desliga o telefone todo pimpão, já pensando na festinha noturna. Ela desliga o telefone e pisca para o colega que senta na sua diagonal.

No meio da festinha dele, na hora H ele dá um grito : Colégio de freiras ???? Mas a família dela é protestante !!

No meio da festinha dela, ao mesmo tempo, ela começa a chorar : Diretor Internacional ? Ele trabalha numa empresa familiar nacional !!

quarta-feira, 19 de setembro de 2007

Desencaixotando insanidades


Caixas servem para guardar tudo, algumas para sempre como os caixões, outras para serem rapidamente abertas, como as caixas de presentes.

Caixas de mudança servem para surpreender. Para o bem e para o mal. Caixas que surgem no meio da sala com objetos que nem lembrava mais que existiam. Alguns, gostaria que não existissem mais e nem sei bem o porque de tê-los guardado (esperança ? masoquismo ?). Pior, alguns destes insisto em continuar guardando e passo a tarde procurando qual é o melhor lugar para tanto. Vou deixá-lo mais aparente ? Vou achar um buraco onde não o veja, apesar de sabê-lo presente ?

Encontrei de tudo nas caixas. Por outro lado, algumas coisas que procuro, ainda não localizei. Minha casa parece a chácara do Chico Bolacha, onde o que se procura, nunca se acha.

Achei fotos, agendas, cartas. Achei receitas, cadernos de poemas e até uma história em quadrinhos que fazia no ginásio junto com um amigo que desenhava meus roteiros. Achei programas de teatro e de concertos. Discos de vinil e livros de capa dura.

Achei sonhos esquecidos, promessas não cumpridas, beijos que não dei e até beijos que dei e foram desprezados. Achei guias de viagem de países para onde não fui, alguns de países que não existem mais.

Amanhã vou continuar abrindo caixas, ainda são muitas. Não sei o que me espera, não vou me preparar para elas : que continuem me surpreendendo.

Em noites como esta

Em noites como esta havia o silencio
E o silêncio comia as palavras
As palavras absorviam pensamentos
Lentamente morrendo.

Em noites como esta havia a nudez
emudecendo e oprimindo
luzes outrora acesas
vozes então ruidosas.

Em noites como esta
Nem sei quantas foram
Mal dormidas em chãos duros
de celas interiores
A porta que ameaçava se abrir
Alguém que segurava a maçaneta
mantendo a chave na mão.

Em noites como esta.

13.02.80 (encontrado em uma das caixas)

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Mudanças

Changes are taking the pace I'm going through

domingo, 16 de setembro de 2007

Eu bebi a água do Tietê



Sábadão de manhã, as crianças ficam por minha conta. Cada sábado invento uma aventura diferente. As lições de casa sempre são uma fonte de inspiração, nesse caso havia um cartaz a ser feito a respeito do Rio Tietê (também conhecido em São Paulo como esgoto a céu aberto). Claro que eu poderia ter feito uma caminhada até a ponte da Casa Verde que fica aqui perto, ter tirado umas fotos e resolvido a questão. Mas quem disse que eu gosto de coisas simples e sãs ? Vamos para Salesópolis.

Se você não sabe, Salesópolis é uma metrópole (tem só 2% da sua área total como área urbana) com um pouco mais de 15 mil habitantes e que fica a cerca de 100km de São Paulo. A cidade é internacionalmente famosa na região do Alto Tietê como sendo o local onde está a nascente do Rio Tietê, além disso, também é onde nasce o Rio Tietê e complementarmente tem como ponto turístico o parque da nascente do Rio Tietê.

A saída de casa é tranquila, boné, garrafa de água, dinheiro para o pedágio e outras besteiras. São 9 da manhã. A estrada é longa, mas o caminho não é deserto, opto pela rota que passa por Santa Branca (13 mil habitantes) e vai pela montanha. Chegamos em Salesópolis. No primeiro posto de gasolina (não, não vi o segundo) pergunto o caminho para a nascente. Segue em frente, 12 km, depois tem uma estradinha de terra, mais 5 km.

Lá chegamos depois de quase duas horas de viagem. Achei que o parque estava fechado, no estacionamento só tinha o meu carro. A funcionária da bilheteria tem a coragem de me cobrar R$2 pelo ingresso, criança não paga (custo total per capita R$0,67), a mesma funcionária sai da bilheteria e nos acompanha até a nascente, faz o seu discurso sobre a pureza da água e os 1.136km do rio, depois nos mostra as torneiras para beber água. Vejo que existe uma loja de artesanato fechada, a funcionária (a mesma) prontamente vai buscar a chave, me atende, compro um livro e uma garrafinha de água que as crianças vão mostrar aos colegas. Pergunto sobre algum lugar para almoçar...e ela (sim...ela...a mesma) se oferece para fazer um almoço (isso é que é one-woman-show), mas aí já achei que era demais.

Estrada de terra de volta...começo ouvir o barulho de pedras batendo no fundo do carro - estranho, na vinda não estavam batendo. Vou ver se não tem nada solto. Não tem. Mas tem um pneu furado. Se você já trocou um pneu em uma estrada de terra sabe o que isso significa. Pneu trocado. Já no asfalto, almoço caseiro no restaurante da Nhá Luz. Nova parada em Salesópolis, dessa vez no borracheiro. A volta por outro caminho,o de Mogi das Cruzes que, segundo a minha filha de 6 anos deveria se chamar Mogi das Hortas, pois ela não viu nenhuma cruz, mas horta tem uma atrás da outra.

Chegamos em casa depois das 4 da tarde. Ufa. Missão cumprida, apesar dos pesares foi divertido. Aí vira o meu filho (que está fazendo o trabalho sobre o rio) e me sugere :

- Que tal sábado que vem a gente ir até a foz ??

Pano rápido.

sábado, 15 de setembro de 2007

Litíases amorosas


Existem nomes bonitos por aí. Nefrolitíase e colelitíase são dois. São termos médicos para os chamados cálculos , nefro os renais e cole os da vesícula biliar. Litíase, como o próprio termo indica (litos = pedra) indica a forma popular desses termos : pedra nos rins ou pedra na vesícula.

Nunca sofri de nenhum deles. As pedras dos rins, dizem, são mais doloridas que dores de parto (especialmente nos homens que nunca puderam comparar uma dor com a outra). As pedras da vesícula, geralmente, demandam cirurgia para a retirada e, pior, não é a retirada da pedra, mas da vesícula toda (se pode ser tirada toda, para o que é que ela serve ? Me lembra o tal do apêndice....mas essa é outra história).

O que poucos sabem e nem tem sido objeto das pesquisas médicas é a influência das litíase nos relacionamentos amorosos. No entanto, tanto uma forma como a outra podem afetar bastante as paixões e os amores. Pense nas seguintes situações.

O cara, depois de muito cortejar a moça, resolve se declarar. Convida para um programinha básico (cinema, jantar e complementos). Na hora do complemento olha fundo nos olhos da moça e com aquele olhar lânguido de atum congelado do mercado de Pinheiros diz :

- Querida, eu preciso dizer que eu te AAAAAAAAAAAAAAIIIIIIIIIIIIIIIII !!!!!!!!!!!!!

Ela, que já estava próxima dos seus lábios dá um pulo para trás no banco do carro, pálida como um defunto fresco e pergunta :

- O que foi ? o que foi ??

- Minha nefrolitíase, acho que começou minha litotripsia extracorpórea...

- Nefro o que ? Extracorpórea ?? Você está pensando que eu sou o que ?? Que eu sou dessas tipinhas que fazem qualquer coisa ??

E sai rapidamente batendo a porta do carro, enquanto ele se contorce de dor. Ela numa última olhada para trás acha que o cara está gemendo por outros motivos dentro do carro.

Mesmo quando a situação não chega a ser tão dramática, os mal entendidos podem acontecer. Imagine exatamente a mesma cena depois de um jantar francês cheio daqueles molhos bem gordos, o diálogo tem algumas mudanças, ele diz :

- Querida, eu preciso dizer que eu te amo !

- Humm...hammm....ahaha...ele tenta responder contorcendo o rosto numa careta.

- Você não acha isso bom ? Tudo bem, mas não precisa fazer essa cara de asco...

- Humm...hammm....ahaha...não...não...acho que é o chateaubriand....

- Chateaubriand ? Quem é esse cara ? Alguém da faculdade ??

- Nãããããããããoooo......ah.....ai.....

- Tudo bem, tudo bem, já entendi....não te vou te procurar mais.....adeus.

Ela sai do carro e ele sai cantando os pneus.

Por isso, se você enquadra em qualquer uma das situações, eu recomendo que, por menos romântico que isso pareça, que você avise previamente o seu parceiro sobre sua situação de saúde. A menos, é claro, que você goste de viver perigosamente.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Paideuma


Segundo Ezra Pound, Paideuma é "a ordenação do conhecimento de modo que o próximo homem (ou geração) possa achar, o mais rapidamente possível, a parte viva dele e gastar um mínimo de tempo com itens obsoletos"

Eu estou de mudança. De casa. Na verdade nem é uma grande uma mudança pois vou me deslocar somente dois quarteirões de onde moro. Por outro lado, não deixa de ser uma grande mudança pelo tanto que tenho de carregar. Não muito dado a esse tipo de exercício, mudança de fato eu só fiz uma anteriormente pois nas que os meus pais fizeram eu ainda era muito pequeno e durante a bagunça as crianças iam parar na casa da avó e, quando casei, não foi mudança, mas montagem de casa.

Claro que estou carregando meus quase 3 mil CDs e os meus mais de mil livros mas, lembrando Pound, eu pensei : e se eu pudesse escolher só 10 livros e discos para levar, o que eu carregaria ? Se eu tivesse de entregar para os meus filhos o meu paideuma pessoal, o que eu deixaria para eles ? A lista é absolutamente pessoal e, tenho certeza, vai ser objeto de diversas contestações. Nem sempre optei pelos clássicos da literatura universal, exceto por um ou dois títulos. Os discos seguem a mesma lógica.

Aí vão as listas, sem ordem de preferência, apenas organizadas alfabeticamente.

Livros

De todos os fogos o fogo - Júlio Cortázar
Don Quixote de la Mancha - Cervantes
Elegias amorosas - John Donne
Ficciones - Jorge Luis Borges
Heart of darkness - Joseph Conrad
O diário da corte - Paulo Francis
Os versos do capitão - Pablo Neruda
Poems - T.S.Elliot
Sagarana - Guimarães Rosa
The Complete Sherlock Holmes - Arthur Conan Doyle

Discos

5th & 7th symphonies (Beethoven) - Carlos Kleiber
Cello Suites (Bach) - Mstilav Rostropovitch
Coltrane & Hartman - John Coltrane & Johnny Hartman
Conversin' with the elders - James Carter
Do world war 2 - Mel Torme & George Shearing
For the stars - Elvis Costello & Anne Sofie von Otter
Libertango - Astor Piazzolla
Saudades do Brasil - Elis Regina
Sgt Pepper´s Lonely Hearts Club Band - Beatles
Terra brasilis - Tom Jobim

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

47


Conforme a gente vai avançando na idade é cada vez mais raro que ela seja um número primo, que é o meu caso nesse ano. O último foi há 4 anos e o próximo só daqui a 7.... e, claro, os números primos tem características muito especiais (e não estou falando de numerologia que, pessoalmente, acho uma besteira - já vou arranjar mais desafetos...). A mais importante é o fato de serem indivisíveis. Mesmo porque dividir por um não chega a ser divisão, e ser divisível por sí próprio muito menos.

Não deixa de ser uma analogia interessante com a indivisibilidade do ser, exceto nos casos de esquartejamento, é claro. Por mais que pessoas se apresentem de formas diferentes, elas continuam sendo únicas. No meu caso pessoal, muitos estranham a mistura do meu lado sério com o meu lado humorado (ou mal humorado). Meu lado racional com o lírico. O religioso com o científico. Como se qualquer uma dessas facetas fosse incompatível com as demais.

Não vou nem falar nas possíveis percepções de esquizofrenia, senão daqui a pouco minha psicóloga de plantão me manda um e-mail corrigindo a minha terminologia e os meus conceitos. Mas que eu já ouvi isso a meu respeito...isso já ouvi (e não foi uma vez só). Também não creio que as diferentes facetas sejam meras manifestações circunstanciais do mesmo ser, como se fosse possível desligar uma num interruptor, enquanto a outra funciona. Estão todas lá ao mesmo tempo e isso é que realmente "expressionante" (brigadim pelo termo Marta Gil).

Na maioria das vezes esse fato tem me gerado alguns elogios e boas amizades, mas tenho me divertido muito mais com as referências jocosas e pseudo-ofensivas (pseudo porque eu acho graça delas). Eles tem razão, conforme fico mais velho estou ficando mais intolerante. Especialmente intolerante à má ou à falsa informação e muito mais intolerante à irresponsabilidade de quem as distribui massivamente. Muitos me chamam de xiita. Não poucos de Ogro. Incoerente, grosso e arrogante são as mais leves que ouvi recentemente, as de baixo calão eu poupo os meus leitores. Enfim, como eu acho que pessoas que não tem ambiguidades nem paradoxos são muito chatas, eu sigo em frente insanamente desse jeito mesmo.

Aqui, eu queria deixar meu agradecimento aqueles que, apesar disso, ainda gostam de mim e que dedicaram parte do seu tempo a me mandar mensagens de feliz aniversário. Aos que não gostam, deixo que reflitam sobre o fato de que, mesmo que não estejam num número primo, eles também são indivisíveis, complexos e únicos e se, como disse sabiamente diria Nelson Rodrigues, toda a unanimidade é burra, eu não quero ser uma burrice.

Mais do que isso , como reconheceria Moisés no seu Salmo, tudo depende da vontade daquele que nos criou a quem pedimos que "Seja sobre nós a graça do Senhor, nosso Deus; e confirma sobre nós a obra das nossas mãos; sim, confirma a obra das nossas mãos."(Salmo 90:17)

O dia dos meus anos


(apud Álvaro de Campos)


No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu era feliz entre os vivos de então.
Na casa paterna, meu fazer anos era uma tradição , assim como os da minha irmã
E a alegria de todos, e a minha, estava certa como a minha convicção.

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos,
Eu tinha a felicidade de não perceber coisa nenhuma,
De ser o primogênito da família,
E de não ter as desilusões que os outros tinham por mim.
Quando vim a ter desilusões, já sabia ter esperanças.
Quando vim a olhar para a vida, já era uma nova vida.

Sim, o que sou de suposto a mim-mesmo,
O que fui de coração e parentesco.
O que fui de histórias na cadeira do pai,
O que fui de amarem-me e eu ser menino,
O que fui — vão-se os anos, o que só hoje sei que fui...
Há quanto tempo....
(Nem o acho...)
O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!

O que eu sou hoje é como a claridade no corredor do fim da casa,
Pondo calor nas paredes...
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amam treme através das minhas
risadas),
O que eu sou hoje é terem mantido a casa,
É terem morrido alguns,
É estar eu contente como um fósforo recém aceso...

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo!
Desejo de me lembrar ali outra vez,
Por uma viagem metafísica e carnal,
Com uma dualidade de eu para mim...
Comer o passado como cachorro quente, sem tempo de brigadeiro nos dentes!
Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me guia para o que há aqui...
Sem mesa posta só cadeiras, e os meninos jogando futebol no quintal
O aparador com muitas coisas — bolo, coca-cola e o resto totalmente dispensável,
As tias , os primos, os colegas de escola, e tudo era por minha causa,
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos...

Para, meu coração!
Não penses! Deixa o pensar na cabeça!
Graças a Deus
Hoje já faço de novo anos.
Maduro.
Somam-se-me dias.
Serei velho quando o for.
Mais nada.
Certo de não ter trazido o passado guardado na carteira
O tempo em que festejavam de novo o dia dos meus anos.

segunda-feira, 10 de setembro de 2007

Crise de ciúmes


Fazia muito tempo que eu não enfrentava uma crise de ciúmes. Acho que desde os tempos que eu era solteiro, e olha que esse tempo vai longe. E, desde aquele tempo, eu nunca soube lidar muito bem com esse sentimento, admito que seja uma falha grave na minha formação amorosa. Acredito que, pelo fato de eu nunca ter sido um cara ciumento, eu nunca consegui entender muito bem a que se referia esse tipo de reação. Para mim, se a pessoa confia em você ela não precisa ter ciúmes. Se não confia, não adianta mais nada ter ciúmes.

Uma vez, pesquisando sobre outro assunto, descobri que o ciúme é classificado como paranóia, uma entidade clínica caracterizada, essencialmente, pelo desenvolvimento de um sistema delirante duradouro e inabalável onde, apesar desses delírios, há uma curiosa manutenção da clareza e da ordem do pensamento, da vontade e da ação, ou seja, ao contrário do que se pode imaginar é um delírio bem organizado, ainda que apoiado numa idéia falsa não sujeita a discussão racional.

O mais conhecido dos delírios persistentes é tipo persecutório, o que, inclusive, transformou popularmente a palavra paranóia em sinônimo de mania de perseguição. O delírio persecutório costuma envolver a crença de estar sendo vítima de conspiração, traição, espionagem, perseguição, envenenamento ou intoxicação com drogas ou estar sendo alvo de comentários maliciosos, o ciúme faz parte desse grupo de delírio persecutórios, assim como a megalomania.

Felizmente não existe nenhum Iago por perto para instigar ainda mais essa questão. Senão eu correria riscos sérios. Até porque não pretendo me auto censurar nas insanidades que cometo, o blog perderia o seu sentido. Mas deixo uma explícita declaração de amor para aplacar os ânimos (ufa !!)


Monotonia Quebrada

Os amores são os mesmos
Os sentimentos os mesmos
As vontades são as mesmas
Tudo é igual

Porque as pessoas são as mesmas
As idéias são as mesmas
Os preconceitos os mesmos
Porque todos são iguais.

Mas, de repente,
Quebrou-se a monotonia
Cansativa e aborrecida.
Porque te descobri
e você é diferente
e porque te amo

Diferentemente
Verdadeiramente.

Alicidades


Alice é uma amiga mais do que especial, isso vocês já sabem desde que escrevi "O sorriso do gato de Alice" (e se não leram, leiam antes de chegar a conclusões moralistas). Foi nesse texto também que mencionei o fato de que ela escreve muito bem, mesmo quando alega que perdeu a mão...(Alice - vai perder a mão bem assim no Recreio dos Bandeirantes !!).

Um dia, totalmente à sua revelia, comecei a colecionar preciosidades dentros dos textos que ela publicava que eu denominei "Alicidades" e deles compus um jogral poético. Como vocês já demonstraram que para bom entendedor um décimo de palavra basta, não vou dar o roteiro de quais são as frases dela e as minhas no poema. Divirtam-se na procura.

A noiva lua sobre a pele mesmo que coberta por um belo véu,
Destelhando sonhos , sonhando temas no papel,
Procura nos teus olhos cristais de areia e mar
Que lágrimas não vão ocultar
Porque não cabe ao meio pousar no caminho querendo tomar o lugar do ponto final
Não existe estação terminal, só caminhos e paradas
Passageiros , comutando em linhas sentimentais
Sem destino, sem gestalt, só desatinados
No dia em que transpirei você , gotas e rios
Em direção ao mar
Havia um tempero de pimenta e açafrão,
De carinho e de emoção
E eu brilhei porque transpirei você
Mas seu riso roubado veste o luto da dor do passado
Deformando os cristais, defenestrando os passageiros, ressecando o suor.
Opacos, opacos, opacos todos caminhos.
Se perdeu por algum momento eterno ou não a sua razão
Que fazer ? Mais me importa o coração.
Não me incomoda , não há nada que eu mais cobice
Que o sorriso do gato de Alice.

Sem arrependimentos

Avec mes souvenirs je allume le feu
Mes chagrins, mes plaisirs, je n’ai plus besoin d’eux

domingo, 9 de setembro de 2007

Ad abúlica caterva


Ad abulica caterva
Quando a barafunda se locupletou de solecismos infames, o seródio citadino começou a vociferar de forma abúlica. Nada seria mais deletério que tal acrisolamento mendaz. O arlequíneo pulveráceo tão pouco exerceu seu antagonismo nem suas práticas orizófagas. Em meio ao ribombar dos vulcões ariscos o prostídeo nefário perpetrava sua parenética de sulfúreos ódios.

Ad caterva, ad caterva campeavam sofismas e solilóquios salazes.

Por quê ? Por quê ? clamava o estíolo, clangorejando o opíparo. Serão lúbricos ? Serão píreos ? Porque será que avocam açodados os méleos onustos da minha estroinice. Mesmo que eu ababelhe os silogismos, nada será achaparrado por heliófagos seródios. Nunca meu epicínio campeará sofismas, nem a vil coorte egazeará onustos mordazes.

Terei eu de acepilhar délios insidiosos ? Serei capaz de avocar um beligerante episódio ? Me deblaterarei entre anacrônicos férulas. Avocarei os álacres estíolos açodados por suas palúrdias coortes. E quando a mão do fado antagonizar minha pávida parenética. hei de pacorejar estultamente os prostídeos xetas. Depois, nada restará ao óbice délio senão abrolhar as faces compungidas e mendazes de um chavascar arbitrário.

Que o muxoxar melífluo que me aproeja demore a esgazear entre pávidas e márcidas insanidades.

sábado, 8 de setembro de 2007

Outra traição


Alemão, como diria uma velha piada, para mim é grego. Não me mande originais de Goethe e Schiller por que eu não vou ler. Sou totalmente dependente das traduções ou pelo menos de uma áudio descrição (está vendo como não é só para as pessoas cegas MAQ ?).

No entanto, a minha mais velha amiga (no tempo de amizade, não da idade dela), estudou, morou, casou e descasou na Alemanha e, com ela, eu acabei aprendendo algumas palavras. A minha preferida sempre foi Fernweh, uma palavra intraduzível que significa algo como a saudade do desconhecido, ou saudade daquilo que não aconteceu. E não é expectativa frustrada. É um estado de alma, de certa forma melancólico, mas não triste, diferente de outra palavra Schwermut que signifca estar com a alma pesada.

Uma vez ela me apresentou um poemeto medieval chamado Dû bist mîn :

Dû bist mîn, ich bin dîn:
des solt dû gewis sîn.
dû bist beslozzen
in mînem herzen:
verlorn ist das slüzzelîn:
dû muost immer drinne sîn.

(Existem versões em alemão contemporâneo, se algum dos meu leitores tiver intimidade com a língua é só me avisar que eu mando. Não vou colocar aqui pois seria excesso de pedantismo.)

Claro que, junto ela me mandou uma tradução literal do texto para que eu não ficasse nem slüzzelîn nem beslozzen, seja isso lá o que for.

Tu és minha, eu sou teu :
Disso deves estar certa.
Tu estás trancada em meu coração :
Perdida está a pequena chave :
tu deves para sempre aqui ficar.


Como bom traidor que sou ( vide "Confesso que traí") e metido a besta no trato com as palavras perpetrei duas brincadeiras, uma mais comportada, outra um pouco menos. Não sei se consegui captar, ao mesmo tempo, a singeleza e a complexidade do poema.


1
És minha sou teu
Certa esteja disso
Trancada num coração
Cuja chave se perdeu
Não sairás jamais.


2
Minha teu sou sua
Certeza continua
Sem chave cadeado
Sem porta coração
Amor doce prisão

sexta-feira, 7 de setembro de 2007

200 km de paixão


Deu hoje nos jornais : ontem, véspera de feriado, por volta das 18h , 200 quilômetros de congestionamento em São Paulo. Isso mesmo, 200 mil metros de carros perfilados, isso porque a CET só faz a conta em relação às principais vias da cidade. Se pensarmos que cada carro tem cerca de 3 metros, são quase 70 mil veículos. Duas pessoas em média por carro (devia ser mais, o pessoal saindo para o feriadão), 140 mil seres humanos presos no trânsito. Eu fiquei imaginado quantos coisas seriam possíveis se fazer numa situação dessas.

O menino solitário deve ter ligado o rádio tentando encontrar caminhos alternativos. A menina solitária deve ter ligado o rádio, que alternativa ? Casais separados pelo trânsito ficaram na expectativa que o outro não chegasse antes ao encontro marcado. Pais e mães solitários devem ter passado o tempo pensando nos filhos de malas prontas. Amigos juntos papearam sobre o dia e a vida, mas o trânsito estava tão ruim que, em algum momento deve ter acabado o assunto.

Por outro lado, o trânsito não é ruim para todos por igual, para alguns pode ser muito bom. Como eu sou um otimista, sempre penso que alguém deve ter se dado bem na história. Imagino namorados de mãos dadas. A cada semáforo um beijo (ou muitos beijos, nesse caso), a cada cruzamento fechado, carinhos mil. Silêncios que dizem ah...isso não vai prestar.

Os próximos feriados também serão de 6a feira. Por isso, se você não for viajar, convide sua namorada (ou namorado) para um romântico passeio na hora do rush. O barulho das buzinas passará desapercebido. A cheiro da fumaça será coberto pelo seu perfume. O farol alto no retrovisor servirá de holofote para os seus olhos. Aproveite.

Como diria o Fernando Mendes Vianna : "o vento varre a fúria vã das ruas, eu desenfurno tudo quanto fui e me corôo com meus sóis e luas."

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

Paulistíadas


Todo mundo já passou algum momento pelos Lusíadas, por curiosidade, deleite ou obrigação. Eu passei por obrigação no meu primeiro ano colegial. E digo obrigação não porque não goste de poesia, ou porque tenha algo contra Camões, mas porque meu professor de português (Jorge Miguel) era tarado pelo livro a ponto de sabê-lo de cór (10 cantos, 1102 estrofes de decassílabos em oitava rima), e passou o ano inteiro falando disso como se todo resto da literatura da língua portuguesa não existisse. Quando lembro dessas coisas acho que minha insanidade é ultra light - como tem gente esdrúxula no mundo...

Desde a armas e os barões assinalados que passaram ainda além da Tapobrana, a história do gigante Adamastor, a Ilha dos amores e a profecia da Sirena, os episódios se seguem no seu estilo pesado e repetitivo. No canto III aparece o desafortunado romance de Afonso e Inês de Castro, cuja estrofe mais conhecida é :

Estavas, linda Inês, posta em sossego,
De teus anos colhendo doce fruto,
Naquele engano da alma, ledo e cego,
Que a fortuna não deixa durar muito,
Nos saudosos campos do Mondego,
De teus fermosos olhos nunca enxuto,
Aos montes ensinando e às ervinhas
O nome que no peito escrito tinhas.

Meu pai, exímio gozador, sempre recitava esses versos com uma pequena alteração nos versos finais que diziam

Dos montes cai rolando entre as ervinhas
O derradeiro dente que ainda tinhas

Como eu sou filho do pai, arrisco também a minha brincadeira, não tão escatológica como a dele, é claro :

Estavas, com sua tez em desapego,
De preto café bebendo doce fruto,
Naquele engano calmo, ledo e cego,
Que o rodízio não deixa durar muito,
Nos quintais verdes de limão-galego,
Aos teus formosos olhos eu escuto,
Aos livros ensinando e às vizinhas
O beijo que no dedo escrito tinhas.

quarta-feira, 5 de setembro de 2007

Outro aforismos inconsequentes


Era uma pessoa sem ambiguidades nem paradoxos, ou seja, uma chata.

Se o espermatozóide e o óvulo são células vivas, a vida não começa, apenas continua.

Em qualquer situação da vida as semelhanças são mais relevantes que as diferenças.

Reconhecer a ignorância é um esporte radical que exige muita coragem.

Ela passou por mim como um furacão. Rápida, violenta e causando estragos.

O nosso mal-de-siécle atende pelo nome de paranóia.

Não há nada mais exagerado que o excesso.

Barato é uma palavra barata.

And you said "So long"

Passado e presente. Uma mistura quase inevitável

Confesso que traí


Não conheço nenhum crime que não seja passível de perdão ou justificativa. Ladrões podem alegar que passavam necessidade. Assassinos, legítima defesa. Mentirosos, constrangimento ilegal. De todos os crimes, no entanto, ninguém perdoa a traição - de qualquer espécie. Ainda que alegue que perdoou, nunca esquece, e o fato sempre é lembrado quando necessário.

Trair é algo considerado tão sério que a traição contra a pátria é chamada, no código penal militar de alta traição (não, não existem nem a baixa, nem a média traição). A religião, seja ela qual for, sempre tem um caminho de perdão ou reparação de faltas e pecados, mas trair a fé é indesculpável, tem até termo específico : apostasia. Já houve um tempo que maridos traídos matavam as mulheres infiéis em nome da honra - o crime do assassinato era considerado menor que o crime da traição (só para um lado é claro...se a mulher matasse, iria para a cadeia). Aliás, esse é o cerne da questão. Outros crimes podem atingir bens materiais, ou o corpo de alguém, mas a traição atinge o orgulho, a honra, a auto-estima. As pessoas que traem seus próprios ideais costumam viver em eterno arrependimento.

E eu aqui tenho de admitir, cometi uma traição. Com todas as letras (ou quase todas). E traí ao melhor estilo italiano, cujo tão conhecido brocardo* "traduttori traditori" me relembra disso e me persegue. Pior, não foi a primeira vez, já tinha feito outras tentativas antes.

É verdade que, para me previnir, optei por trair alguém que já estivesse morto, até porque eu não acredito em almas penadas que venham me puxar as pernas no meio da noite.

Tradução é traição. segue abaixo minha confissão.


Rondels II
Stéphanne Mallarmé

Si tu veux nous nous aimerons
Avec tes lèvres sans le dire
Cette rose ne l’interrompe
Qu’à verser un silence pire

Jamais de chants ne lancent prompts
Le scintillement du sourire
Si tu veux nous nous aimerons
Avec tes lèvres sans le dire

Muet muet entre les ronds
Sylphe dans la pourpre d’empire
Un baiser flambant se déchire
Jusqu’aux pointes des ailerons
Si tu veux nous nous aimerons.


Redondilha II

Primeira versão

Se tua vontade for nos amaremos
Mesmo se teu lábio não falar
Estas rosas não impediremos
De um pior silêncio derramar

Nem se um canto sibilante se lançar
Sobre teu sorriso cintilante iremos
Se tua vontade for nos amaremos
Mesmo se teu lábio não falar

Mudos, mudos, entre ébrios caminhemos
Qual Silfo purpúreo e ancestral nos vemos
Entre beijos que se rompem flamejantes
Entre os cumes alados e distantes
Se tua vontade for nos amaremos.

Segunda versão

Se for tua vontade nos amemos
Até quando teus lábios não disserem
Se muitas rosas não nos impedirem
Que um pior silêncio derramemos

Nem cantos se lançando sibilantes
Sobre estes teus sorrisos cintilantes
Se for tua vontade nos amemos
Até quando teus lábios não disserem

Entre bêbados, mudos caminhemos
Como rubro Silfo em reinos bacantes
Entre beijos rompendo flamejantes
Aos cumes escarpados nos lancemos
Se for tua vontade nos amemos

Mallarmé , Stéphane . Poésies. Anecdotes ou Poémes . Pages diverses. Le livre de poche . Paris . 1984

*do Lat. med. Brocarda, sentenças de Brocardus, nome alatinado de Burckard, bispo de Worms, compilador de máximas, etc. s. m., sentença, axioma, princípio; máxima jurídica; aforismo, especialmente quando picante

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Macho macho man


Fazendo o exercício de compilar a primeira antologia de comentários do blog eu já tinha notado isso. Hoje uma amiga me chamou de novo a atenção : tirando o Lou Mello, todos os comentários são de mulheres. Onde diabos se enfiaram os homens ? Comecei a cogitar hipóteses, algumas referendadas pela minha psicóloga de plantão. Outras ainda estão sub judice. Você teria a sua hipótese?

A primeira dela é que efetivamente existem mais mulheres que homens no mundo. E, pelo menos em uma das atividades que eu transito, a educação, elas são presença maciça. Ok, tudo bem, você venceu, batatas fritas...mas nem tanto. Eu não participo só de grupos de educação. Em marketing ainda existem muitos homens (a caminho da extinção, mas ainda muitos). As minhas listas de amigos virtuais (Multiply, Orkut) têm vários homens. A minha lista particular de amigos se distribui quase equitativamente entre os sexos.

Por que só as mulheres falam ? E esse fato não se limita aos comentários postados, mas também aos e-mails que recebi.

Será que o espírito dos machos não admite que se possa ler um blog onde existam poemas, músicas e crônicas românticas? Se eu escrevesse sobre mulheres, cerveja e futebol será que eles apareceriam? Talvez seja necessário eu começar a contar piadas sujas.

A minha perscrutadora de Id, Egos e Superegos coloca de uma forma mais bonita : " acredito que você acerta em cheio; poucos têm a segurança necessária em sua "macheza" para comentar poesias e nem tão pouco a sensibilidade para tal. Homens em geral são inseguros (palavra de psicóloga...). Some-se a isso a já tradicional inveja, que impede que se dê "ibope" a um outro macho da espécie...Em suma, questões culturais, antropológicas e ontogenéticas."

Não disse que ela falava bonito? Tive de ir buscar a explicação para Ontogenética na Wikipedia...minha ignorância foi salva pela Internet mais uma vez.

Isso tudo me lembrou de uma crônica muito antiga do Luis Fernando Veríssimo sobre o HQEH, ou seja, o "Homem que é Homem" , depois leiam com calma, é divertida.

A minha atualização do texto do Veríssimo seria : Homem que é homem não escreve, nem comenta em blogs insanos.

Ou talvez exatamente o contrário : para postar um comentário nesse negócio, só sendo muito macho.

domingo, 2 de setembro de 2007

Me enforcando com Lady in satin


Billie Holiday não teve vida fácil. Desde uma infância complicada a uma vida adulta que foi um coquetel de bebida, drogas e homens oportunistas ela sempre caminhou no fio da navalha da tragédia, até a sua morte de cirrose aos 44 anos. Mas era uma cantora excepcional. Seja em músicas de caráter anti-racista, como Strange Fruit (onde a fruta estranha se refere aos negros enforcados em árvores no sul dos EUA), seja para cantar amores mal resolvidos. Definitivamente não é uma cantora para se ouvir quando se está na fossa. O buraco só vai afundar e o risco de enforcamento por depressão amorosa é inevitável.

Lady in Satin é provavelmente o mais bonito dos seus discos sobre amor não correspondido. Do começo ao fim é impossível conter as lágrimas.

Ela começa dizendo que é uma tola por querê-lo já que seus beijos não seriam só dela e , em seguida pede pelo amor dos céus que ele a ame. Mas ele não vai saber o que é o amor se não souber o significado do blues... Pelo jeito ele não sabe. Então, na música seguinte ela declara que consegue viver muito bem sem ele (o típico me engana que eu gosto, pois ela menciona um monte de exceções onde isso é impossível).

Como qualquer sentimental besta, tenho de admitir que tenho de segurar as lágrimas quando, na sequência, ela canta que por tudo que sabemos, podemos não nos ver nunca mais, então faça dessa noite algo especial. A música que foi muito bem utilizada na versão com Johnny Hartmann no filme as Pontes do Madison derruba qualquer coração empedernido. Mas essa é só a quinta música. A essa altura eu já fui buscar a corda.

Violetas enfeitando seu casaco de pele ressucita o disco. Quem vai resisitir às flores (ainda que eu prefira as rosas vermelhas) ? Mas mesmo com flores ela afirma que ele mudou, e mudou muito, ele não tem mais o brilho no olhar, nem o sorriso nos lábios. Não liga mais para as estrelas. Definitivamente ele deve estar entediado, então, tudo acabou.

Acabou ?? Acabou nada, logo em seguida começa outra que diz que é fácil lembrar e tão difícil de esquecer quando ele dizia que a amaria para sempre. E o amor pode ser engraçado ou triste. Sensato ou louco. Bom ou ruim. Mas sempre é bonito.

Justamente porque sempre é bonito que ela fica alegre de estar infeliz (a essa altura a corda já está pendurada no lustre e o chão molhado), o amor não correspondido é um tédio e o meu caso é feio, mas por alguém que você adora é um prazer entristecer. De qualquer forma, ela lembra na sequência que ela sempre vai estar por perto independentemente da forma que ele a trate....só subindo na cadeira.

O disco vai acabar, talvez essa seja a única salvação possível. Começa a última música : você diz que eu ando rápido demais, que eu falo demais, que eu bebo demais, mas o que eu posso fazer se o nosso romance acabou ?

Nada mais a fazer. Eu chuto a cadeira.

sábado, 1 de setembro de 2007

Mephisto


Felina. Seus olhos brilhavam alegres ao ver as fotos de que ouvira falar tanto. Sequer percebia o que se passava ao redor. O cachorro olhando pela janela. O disco que tocava um antigo musical. Ele a admirando em silêncio. Era uma criança que acabara de ganhar um brinquedo novo e se deliciava à exaustão na pesquisa de todos os seus recursos.

No fundo do quarto dois olhos caminhavam silenciosamente. Escorregavam entre os móveis, paravam embaixo da cama. Calmos, não imaginavam o que se passava na sala. Adormeciam.

Acabavam de chegar de uma frustrada ida ao cinema. Resolveram voltar para casa. Rever fotos. Para ele, uma forma de lembrar tempos mais felizes. Para ela, um jeito sutil de conhecê-lo melhor. Ela virava as páginas do álbum compassadamente. Às vezes parava e conversava um pouco. Não queria dar a impressão de estar interessada demais.

O volume da música acordou Mephisto, fazendo-o sair de debaixo da cama e caminhar em direção à escada. Desceu sonolentamente. Olhos embaçados de quem despertou no meio de um sonho.

A conversa tomou rumos insensatos. Não importava o assunto. Conversar não era importante. Contemplação. Ele resistia em não parar tudo e , simplesmente, admirar o seu olhar. Esquecia a música . Voltava às fotos. Preferia que a relação fosse menos formal. Se diziam a mesma árvore, mas seus galhos nunca tinham se tocado.

Mephisto olhou pela fresta da porta. Viu os dois parados. Não entendeu nada. Ou, talvez, tenha entendido tudo. Não entrou. Arrepiou-se ao ver o brilho felino dos olhos dela. Sentiu-se preso àquele olhar. Menina, ainda um pouco mais que isso.

A sombra do gato passou pela sala. Ela perguntou o que era. Ele explicou. Pensou em ir buscá-lo. Desistiu. Não era o momento de dividí-la com ninguém. Os olhos dela brilharam mais forte. Sensação. Sem palavras a conversa era melhor.

Antologia de Agosto


Hoje não vou ser nada original...(nem sempre isso é imprescindível), apenas publicar a minha antologia pessoal dos comentários de Agosto. A seleção é, obviamente, discriminatória, gente estranha costuma ser assim mesmo :


  • não porque mutações não sejam bacanas , apenas porque mudar lhes tira o conforto da mesmice.

  • Que se cruzem e se descruzem muitos genuflexos..

  • hoje são patelas...estranho, lembram pata com sei lá o quê...

  • hahahha, tb passei da idade...

  • espinhas são combinações para uma roupa amarela ou são vulcões prontos a eclodir??? depende do tamanho dos meus dez minutos...

  • Pofff!... Sabe que som é este? Eu caindo para trás e batendo estatelada no chão...rs

  • Corre Alice, corre..., os ponteiros do relógio não tem descanso, se quer descobrir muito mais, corre pela vida...

  • Mas agora você precisa colocar os poemetos com o A,I,O e U.

  • "E" de endoidou???hahahahaha

  • ah .. eu me atrevo a dizer que só se passaram 20 minutos dos 30 anos.

  • meu pc não abre video...rsrsrs...vou tentar telepatia...

  • meus olhos ardem...

  • Agora, se o sombrio der lugar à noite...só um bom vinho pra compartilhar

  • A morte é sempre uma saída, poética talvez , mas, não deixa de ser morte... e, depois dela, não dá pra ver a rosa...

  • Mistérios abrem portas à existência...

  • A mulher não quer alugar o apartamento, por motivos exclusivamente dela. É só isso.

  • Vai ver ela não quis emprestar nem vender porque sabia que você já estava morando em outro imóvel.

  • Talvez você devesse tomar o chá de alho, cebola e limão da minha mãe

  • Sempre achei o tal amor platônico horrível. Mas fui vítima dessa praga, de forma compulsória....

  • ...amores platônicos é o que não faltaram! E um platônico se tornou realidade...perdeu a graça.

  • ah bendito Benedito...rsrsrsr, que Deus o tenha se for o caso ( afinal 30 anos não são 30 dias)

  • É um aroma pra quem mora com amor e tem ramo de amora.

  • Que bom que as lembranças ainda estão vivas... quanto aos pés de amora, bem, aí já é outra história...

Sensualidade, erotismo e pornografia


Não imagine que num blog insano você vá encontrar a semântica ou a etimologia desses termos. Não sou linguísta e, mesmo que fosse, isso seria muito chato. Nesse espaço eu quero que você se divirta. Mas gostaria deixar exemplos da mais pura sensualidade e daquilo que eu entendo por erotismo (pornografia, se for do seu interesse, é fácil de achar pela Internet ou na banca de jornais da esquina).


Uma, ou melhor duas, são cinematográficas : de um lado o strip tease mais sensual do cinema, Gilda (Rita Hayworth) cantando "Put the blame on mame" e tirando toda a... luva (ah...só uma luva), de outro Cyd Charisse, a circunspecta inspetora Ninotchka Yoschenko, dançando com uma par de meias de seda, em Silk Stockings.


Outra pérola do erotismo é um poema de Drummond (que também escreveu um livro de poemas eróticos que, na minha opinião, salvo dois ou três poemas, é muito chato e vulgar), num texto que diz tudo sem dizer absolutamente nada, aliás recomendo que você não procure o significado das palavras, entendê-las, nesse caso, desfaz todo o encanto que é imaginar-se entrelaçando iambos ou rompendo a porta pentâmetra. O poema, chamado "A paixão medida" é, na verdade, uma declaração de paixão desmedida.

A paixão medida

Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.

Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.

Gemido trilongo entre breves murmúrios.
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?